domingo, 31 de dezembro de 2023

Palavras Antigas - IV

 Gravidade criativa

I – Etiologia angelical
II – Espécies aladas
III – Quedas fortuitas

***************

I – Etiologia angelical

Cai um anjo

Ninguém vê donde cai
Ninguém está à espera de um anjo
Ninguém gosta de anjos caídos
Ninguém sabe que é um anjo
O vulto basáltico que rasga o céu inaudível
Imaterial, fugidio, contrariado
Contrário à natureza das coisas.
É mais crível que seja um meteorito
Um néon na noite, uma ave rara.
 
As catedrais estão cheias de anjos e demónios de pedra
De medo, mitos, dogmas, vitrais iluminados e imagens sombrias
As ruas estão cheias de anjos e demónios
Invulgares ou banais, que caem, que se levantam
Que lá ficam, que lá vão, indo e vindo
Que não sabem como ir para onde vão
Multicolores, doridos, daltónicos, utópicos distópicos
Escorregam, caem, dão saltos mortais
Somem-se por entre as ondas de gente
Vão e vêm, aparecem e desaparecem
Sem que jamais alguém dê por eles
Naturais ou transcendentes.
Uma ou outra vez, todos se consideram anjos
Todos são anjos ou demónios para alguém.
 
No Natal, as crianças desenham anjos
Quase sempre alvos como a neve
Incolores, translúcidos ou ligeiramente
Rosados, dourados, travessos
Amistosos como velhos gatos
Alados subitamente fugazes
Imóveis em folhas de papel.
Quando as crianças se cansam de desenhar anjos sem cor
Sem dor, sem sobressaltos, sem voos falhados
Desatam a pintá-los de todas as cores
Vestem-nos, despem-nos
Fazem-nos parecidos a si mesmas
Aos heróis e vilões das histórias
Às pessoas que atravessam os seus dias
Aproximam-se assim do céu libertado
Ganham dons novos e naturais
Olhar, compreender, interpretar, poetizar
Fazer nascer histórias no céu de papel…
Depois vêm filósofos, teólogos e místicos
Com as suas naturezas particulares
Lutam entre si para se apoderarem
Daquele céu de papel, daquelas criaturas aladas
Agarram as folhas de papel
Como quem se agarra a uma tábua de salvação
Miram-nas com grande curiosidade
Mergulham nos rabiscos
Corrigem-lhes a cor
Abraçam-lhes as asas
Arrancam-lhes as penas, os mistérios
A imperfeita imponderabilidade
E o que fica então?
Apenas filósofos, teólogos e místicos…
 

II – Espécies aladas

Vai-se pela rua distraidamente

E eles lá estão, descarados, disfarçados
Desarrumados entre a multidão
Basta prestar atenção
Mesmo que não se vejam as asas
Vê-se a sombra, a aura, a luz, a máscara
Uma reminiscência transcendente…
 

«Ó meu senhor, ó meu rico senhor

Dê uma moedinha ao pobrezinho
Que é cego e aleijadinho
Uma moeda, uma moedinha pequenina
P’ró caminho, pr’a mim e p’ró menino
Não volte a cara, meu senhor, que é pecado
Olhe-me só este órfãozinho
Não lhe dói a alma, meu senhor?
O menino é d’oiro, o menino é um anjinho
Tenha dó meu senhor
Abra lá o seu bolsinho!»
E o menino trepa então até aos ombros do cego
Aponta para lá do fim da rua e repete:
«Mais longe, Cristóvão, mais longe!»
A moeda cai na lata e eles partem
Para mais longe, sempre mais longe…
 
«Olh’ó anjinho de cristal
Tão brilhante como o sol nascente
Traz auréola a condizer com a roupinha
E asinhas suplentes iluminadas
Quando acendem, ele fala, canta
E até dança nos biquinhos dos pés.
Não é mimoso, o anjinho?
Veio directamente do Japão
No Japão não há anjos
É tudo para exportação
Não quebra, não perde o brilho
É comprar freguês, é comprar
Melhor não arranja em lado nenhum
Nem no chinês, que lá é tudo falsificado
Dura menos que um ai.
Ai, ai, não caia nessa!
Olh’ó anjinho samurai!
Dá força de super-herói
E até faz hara-kiri se for preciso
Assim não dói nada
Lava a honra e fica vivo.
Olh’ó anjinho gueixa!
Doce, sempre jovem e bonitinha
Tem asas duplas, de anjo e borboleta
Canta ópera e baladas orientais.
Olh’ó anjinho monge Xinto!
Medita e ora em 9 línguas
Voa com e sem asas
Fica bem no jardim, no quintal
No escritório e na mala de viagem
Olh’ó anjinho lindo!
É pró menino e prá menina
É pró povo e pró chefe
Não há ministro que não tenha um anjinho
Bem-falante e milagreiro
Até o doutor tem um no consultório
Cura maleitas, azias, mau-olhado e estrabismo
Febres, azares e frialdades
O reumático e a pneumonia
Poupe na farmácia, freguês
Compre antes um anjinho… !»
 
E o pintor de rua que não pinta a rua
Arruma na banca as telas
Prende-as às tábuas com cordéis
Com medo que venha o vento
Que venha um saltimbanco
Que venha um aviador
E as telas voem pelos ares
Só pinta anjos o pintor
Diz que não tem outra inspiração
Vendem bem os anjos
Compram-nos para os pregarem nas paredes
Pobres anjos aprisionados!
Quando se cansam de os ver ali parados
Sem graça nem divindade
Mudam-nos de parede… voltam a pregá-los
Ora com pregos de ferro ora com pregos dourados.
Pobres anjos pintados!
Crucificados, vez após vez, sem dó nem piedade!
O pintor diz-lhes que os ponham antes na varanda ou à janela
Os seus anjos não são caseiros, são claustrofóbicos
Precisam de apanhar ar
De ver as vistas
Um quadro não pode ser uma gaiola
Muito menos de anjos…
Ele lá sabe do que fala…
Bem se lembra de uma tela de onde fugiu um anjo
Estava ele sossegado na parede da sala de estar
Parecia feliz ou conformado
Sem aviso nem rasto, em menos d’um ai
Foi-se, sabe-se lá para onde.
Quem não se conformou com a perda de tal obra-prima
Foi o pintor, esse teimoso criador de anjos.
Teve uma ideia, um pressentimento, uma dor no peito
Procurou por toda a parte o caminho da salvação
Na tela, nas tintas, no escuro da alma
Nos vultos que se dissolvem no nevoeiro das vielas. 
À noite deixou a tela recostada no peitoril da janela
A ver a lua, as estrelas e os parentes aventureiros.
De manhã, o anjo tinha voltado à tela
Arejado, renovado, sorridente
Cheio de planos e livre arbítrio.
Assim, o artista aprendeu a pintar apenas anjos livres
O que às veze significava apenas uma tela vazia…
 
Mais abaixo ou mais acima
Mas muito antes do fim da rua
O alfarrabista arruma em caixas livros e postais
Cada caixa tem uma etiqueta
Mesmo que não corresponda ao que contém:
Vintage, futurista, surrealista
Realismo puro, impuro e mágico…
Não apregoa muito o alfarrabista
Fica à espera como um caçador de borboletas
Se alguma se aproxima e pousa levemente no escaparate
Começa então a digressão:
«Esse aí tem soluços, as páginas, as linhas, as palavras
Tendem a saltar às dez e mais de cada vez
Gosta de peripécias e finais inesperados
Mas pode levá-lo à vontade
Às vezes sossega e o hábito não é contagioso…»
 
«Ah, esse é um interlocutor nato
Às vezes é um bocado respondão
Se achar que a intriga devia seguir este rumo
É muito provável que ele siga em sentido contrário
Se achar que a narrativa devia ser aberta
Ele fecha-a porque sim ou porque não
É difícil de convencer e não consegue ficar calado
Rege-se unicamente pelo espírito de contradição…»
 
«Essa é uma velha senhora
Matreira, perspicaz, incisiva
Não há mistério que lhe escape
Da intriga internacional ao drama familiar
Da luta de classes à disputa política
Da plebe à aristocracia
Do rapto ao homicídio
Das liaisons dangereuses às liaisons convenables
Ninguém está imune
Ninguém sai incólume
Não, não é démodé
Não há página que não tenha sido lida
Mil vezes sem fastio
Mesmo que cada um se engane outras tantas
Na tentativa de deslindar o enredo…
O único senão é a tinta invisível
Cada leitor terá de descobrir por si
Como torná-la legível…
Eu nem diria que é um senão
É apenas mais um desafio
 Não paga mais por isso
É uma provocação completamente gratuita…»
 
«Nunca durma com esse na mesa-de-cabeceira
Gosta de cérebros adormecidos.
Mal sente o torpor de Morfeu
Invadir-lhes os neurónios
Mergulha a fundo e despeja tudo o que contém
Como se as mentes fossem lixeiras
Ou a fossa abissal das Marianas…
Tem uma bela encadernação, não é?
É o chamariz perfeito
Quem não gosta de uma bonita capa?
É o contraponto do interior
Negro como breu
É o produto de um mundo aprisionado em si mesmo
Para fugir de si, devora tudo em redor
Dostoievski é só o porta-voz
Perseguido por fantasmagorias, pobre coitado
Só viu demónios, nunca anjos…
Tirando isso, pode ser um bom mestre
Desde que o leitor se mantenha distante
E bem acordado…»
 
«Este é uma preciosidade, exemplar único
Primeira edição esgotadíssima
Depois desta já houve mais umas cem
Todas igualmente esgotadas
Isso dá-lhe uns certos tiques de superioridade
Mas não leve a mal
Tenha paciência, ature-lhe as manias
Mais dia, menos dia há-de descobrir por que é uma preciosidade
Mas também não acredite em tudo o que lhe diz
Bazófias não lhe faltam
Aperalta-se, puxa do parlapié a torto e a direito
Veste peles, despe peles
Abrilhanta os olhos com colírio
Anedia o seu próprio pêlo com brilhantina e auto-elogios
Eu sou, eu fui, eu serei
Só eu, ninguém mais do que eu
Apenas eu, eu ao cubo, eu enésimo
Eu sei, eu fiz, eu descobri, eu inventei
Mas tudo com grande honestidade
As notas de rodapé explicam tudo…
Em suma, é um livro para apanhar mentirosos
Já viu coisa mais preciosa?»
 
«Mas não tem livros sobre anjos?»
Pergunta uma borboleta.
«Claro que tenho, são todos sobre anjos
Só precisa de os encontrar… aos anjos…
Os livros estão todos aqui…»
 
Sem se atrever a fazer tal busca
A borboleta voa para outras paragens
Mais previsíveis, mais amenas
Com menos mistérios e idiossincrasias…
 

III – Quedas fortuitas

No entanto eles caem

Não importa se são vistos ou não
Se querem ou não cair
Se tropeçam, se calculam o salto
Se voam nas asas do acaso
Se obedecem a algum desígnio
Se são meros experimentalistas
Se seguem uma vocação
O certo é que eles caem
Às vezes de pé, às vezes de cabeça
Às vezes de paraquedas
E até com rede de protecção
Há muitos modos de cair
Os anjos têm mais modos de cair do que qualquer outra espécie
O que poucos sabem é d’onde eles caem e onde caem
O problema está, é claro, nos olhos de quem olha.
 
Por muito fugidio, transparente ou negro que seja
Um anjo é sempre um anjo
Puro, alvíssimo multicolor
É inconfundível e confunde-se com tudo
É conveniente para a espécie dos anjos
Para todos os anjos
Os que existem e os que hão-de existir
Brancos, amarelos, azuis, verdes
Roxos, laranja, negros, rosa, dourados…
 
Aí vem um raio, uma flecha, um tridente
Aonde irá cair?
Algo me diz
Que, desta vez, só eu vi este anjo
Sem aviso, cai de uma montanha ou de uma nuvem
De uma página ricamente ilustrada
Por outro anjo qualquer
Cai de uma história escrita nas constelações.
 
Entre os milhões de páginas
Havia uma que dizia que um anjo havia de cair
Este anjo, precisamente este
Neste dia, a esta hora, neste ponto do espaço infinito
Coincidiram os meus passos com o passar das páginas
A página voltou-se
O anjo caiu…
 

Suy / São Ludovino, 5/10/1987 (2h 30m manhã)

Midsummer Night's Dream, photography by São Ludovino, 2015.

Midsummer Night's Dream, photography by São Ludovino, 2015.

Midsummer Night's Dream, photography by São Ludovino, 2015.

Valley Song, photography by São Ludovino, 2015.

Six Characters in Search of an Author, photography by São Ludovino, 2015.



Contos Semi-Breves - I

 

DESPUBLICAR
 

     Contrarius Pertinax não era ninguém nem queria vir a ser alguém jamais. Pretensão difícil de realizar já que em todos os mundos por onde passara sempre fora alguém, se bem que nunca exactamente quem era. Faltava-lhe aquele quinhão de liberdade que parece estar sempre além de todos os cabos Finisterra.

    Por mero acaso, um dia, enquanto palmilhava a calçada escorregadia dos seus desencantos, viu colado na montra de uma agência de viagens um cartaz deveras tentador. «Entre num mundo onde tudo é possível», dizia o slogan sob a fotografia de uma cidade pacata de que ele nunca ouvira falar. Aproximou-se e começou a ler as letras miudinhas. 

     «Deixe-se surpreender pelos desconcertantes encantos de uma liberdade absoluta! Aqui tudo lhe é permitido! Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje! Entre no Reino do Desconcerto!...»

     Nem acabou de ler o resto. Entrou na agência e pediu uma reserva para o mais breve possível. Espantosamente, havia vagas, havia muitas… podia viajar já no dia seguinte.

     Tamanha excitação nem o deixou dormir. Passou a noite a fumar a neblina, na esperança de poder vislumbrar o seu destino algures para lá dos telhados escuros.

    Partiu cedo, de comboio, em segunda classe. Era preciso poupar para fruir os inesperados prazeres do desconcerto. Quanto custaria desconcertar a paciência (estava farto de ser paciente!) … ou simplesmente dormir num quarto com vista para o jardim?

     A viagem foi mais rápida do que pensara. Afinal o Reino do Desconcerto não ficava do outro lado do mundo. Chegou antes da hora de almoço. Na estação central, a multidão cruzava-se em todas as direcções embora só houvesse um cais e uma linha. Tanta liberdade reduzida a um só caminho!

     Durante toda a viagem não largou a maleta de mão. Colocou-a sobre os joelhos e pelo menos uma das mãos nunca deixou de lhe tocar. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se transita de um mundo para outro. Quando olhava a paisagem pela janela, encostava a maleta ao vidro, como se quisesse partilhar com ela o que via. Alguns companheiros de viagem sorriram perante tal apego. Um até segredou ao parceiro: “Podia ser uma criança ou um animal de estimação!”

     Em menos de meia hora já tinha chegado. Uma estranha meia hora que parecia ter a duração de pelo menos doze horas. Pelo caminho vislumbrou centenas de cidades, vilas e aldeias, montanhas, rios, lagos e planícies, como se tivesse de facto dado a volta ao mundo. Quando desceu para o cais notou que o sol declinava sobre os telhados e as nuvens começavam a tornar-se rosadas. Seria o entardecer precoce das regiões do Norte, um Norte qualquer com o seu próprio ritmo temporal? 

     Na rua, relativamente calma, apanhou um táxi para o hotel Best Seller. Em menos de cinco minutos já estava à porta. Tratou das formalidades na recepção e subiu ao quarto. O bagageiro carregou a mala de viagem e ele subiu com a sua inseparável maleta.

     Abriu a janela, olhou a cidade em redor, pequena, aconchegante e pacata. Pensou para consigo mesmo “Este é mesmo o local ideal! Se tudo é permitido aqui, hei-de conseguir!”

     Sentou-se na cama fofa e contemplou carinhosamente o conteúdo da maleta. Foi retirando pequenas porções e colocou-as em pequenos montes.

     Durante anos a fio escrevera milhares de páginas sem nenhum propósito especial, excepto o prazer de pensar e criar escrevendo. Não sabia ao certo o que fazer com tudo aquilo. Sabia apenas que a ideia de que alguém pudesse ler as suas criações lhe desagradava profundamente, como se ler-lhe os pensamentos escritos fosse uma violenta devassa da alma.

     Desde que vira o cartaz anunciando um lugar de total liberdade onde tudo era possível, cresceu em si o desejo de preservar a sua obra, sem correr o risco de se vender a si mesmo nem permitir que alguma subjectividade alheia se infiltrasse nas suas idiossincrasias. Despublicar, sim despublicar era a solução para o seu problema. Num lugar onde tudo era possível haveria certamente alguma editora que em vez de publicar, despublicasse a sua obra.

     Na manhã seguinte, depois de um almoço frugal, saiu para a rua em busca da editora certa. Havia cerca de uma centena naquela pequena cidade. Até à hora de almoço não teve sorte. Uns diziam-lhe que tal procedimento não era exequível, outros que não era lucrativo e houve até um editor que o aconselhou a consultar algum cientista que aplicasse à sua obra o método de Schrödinger. Almoçou pensativo numa esplanada da Baixa, sempre acompanhado pela sua maleta, que sentou delicadamente numa cadeira a seu lado.

     A tarde passou a correr, as editoras fecharam, e nenhum resultado. Não ia desistir. Afinal o que significava a liberdade? Se tudo era possível e permitido naquele lugar, também seria possível despublicar a sua obra.

     No dia seguinte, continuou a demanda. Incansavelmente bateu a muitas portas, tocou muitas campainhas, tropeçou em muitas escadas e limpou muitas gotas de suor. Nenhum “não” o demoveu do seu propósito. A busca foi de novo infrutífera.

     À noite, já deitado e com a luz apagada, acariciou a maleta e fez-lhe uma promessa: “Amanhã conseguiremos! Amanhã seremos ambos livres!”

     No terceiro dia, levantou-se ainda mais cedo e partiu sem sequer tomar o pequeno almoço. Faltavam só cinco editoras. Na primeira, um cão de guarda arreganhou-lhe os dentes e ele quase desistiu de entrar. O segurança chegou a tempo de impedir consequências mais graves. O cão só lhe rasgou a bainha das calças e em seguida ignorou-o completamente como se nem estivesse ali. O risco não valeu a pena. O editor disse-lhe que só publicava obras sobre canídeos e perguntou-lhe se tinha alguma obra sobre o assunto. Exclusivamente sobre o assunto não, mas havia vários tipos de canídeos na sua obra.

     Mostrou-lhe um conto sobre um cão que fora criado por lobos na floresta. Ao contrário de outras histórias, nesta o cão não se transformava em lobo; eram os lobos que se transformavam em cães. Estes novos cães encontraram um dia perdida na floresta uma criança humana. A criança não se transformou em lobo; foram os novos cães-lobos que se transformaram em crianças. Certo dia, as novas crianças-lobo encontraram a aldeia de onde viera o primeiro cão. Os cães não os receberam bem, mas os habitantes humanos receberam-nos muito pior. Pegaram em pedras e varapaus e expulsaram-nos da aldeia. De volta à floresta, as crianças-lobos fundaram a sua própria aldeia, recebiam os forasteiros de braços abertos, desde que viessem em paz e se adaptassem, mas nunca mais se transformaram neles.

     O editor gostou deveras da história e queria publicá-la, mas Contrarius Pertinax recusou. O que ele queria era despublicá-la, conjuntamente com todos os outros escritos. O editor abanou a cabeça, voltou-lhe as costas e desejou-lhe boa sorte.

     Na segunda editora, teve de esperar duas horas na fila. Como não tinha tomado o pequeno almoço nem tinha almoçado, estava a morrer de fome. Tirou do bolso uma magra sanduíche e devorou-a. Um rapaz simpático que estava na fila ofereceu-lhe uma laranja, que comeu prazenteiramente, e uma velha senhora, que podia muito bem ser Agatha Christie sob anonimato, ofereceu-lhe dois biscoitos caseiros feitos por ela própria. Agradeceu e guardou-os no bolso. Algo lhe fez lembrar uma história em que havia biscoitos envenenados. E como nunca se sabe onde termina a ficção e começa a realidade, mais valia prevenir do que remediar.

     Esta sensação incomodou-o e fez decrescer a sua fé na possibilidade de alcançar o seu fim, tão distinto do de todos os outros candidatos a autores. Ele só queria ser um não-autor na sua plenitude, capaz de escrever tudo e não publicar nada. No entanto, uma pequena chama de esperança bruxuleava ainda no seu espírito. Se, até agora, nenhum editor o tinha escorraçado ou chamado louco, isso significava que era possível, mesmo que faltassem apenas quatro editoras…

      As duas horas foram passando penosa e surpreendentemente. Viu sair do gabinete do editor o rapaz da laranja, ainda mais sorridente do que antes. Viu uns gémeos saírem acabrunhados e góticos com umas olheiras que não lhes vira antes. Uma senhora com um maço de receitas culinárias amarrotadas debaixo do braço, exalando um acentuado odor a alho frito; um filósofo que levava pela coleira 20 quilos de papel amarelado do novo Leviatã; um miúdo, que não teria mais de oito anos, carregando um planeta de cartão; um visionário bastante míope pintalgado de tinta colorida carregando uma moldura agora vazia; um limpa-chaminés muito limpinho esvoaçando sobre as cabeças agarrado a um guarda-chuva; rostos déjà vu muito satisfeitos consigo mesmos; um cientista com um cérebro dentro de uma campânula de vidro; um tubo de ensaio alto que expelia um fumo esverdeado, encoberto por uma capa de fórmulas químicas; e até a face escura da Lua estava suspensa num recanto junto ao tecto… seres que não se lembrava de ter visto na fila de espera. Mas se uma galeria tão inusitada tinha o seu lugar ali, isso devia augurar algo de bom…

     Chegada a sua vez, entrou determinado e confiante, sentimentos que se desvaneceram bastante quando viu sentado atrás da secretária um indivíduo com cabeça de livro. Apresentou-se como Obnoxius Rebelus, o editor-chefe, e saudou Contrarius com um virar de páginas suave. Apresentado o caso e a obra, Obnoxius gargalhou com um saltar de páginas e, por fim, sorriu mostrando uma capa branca de rosto humano que mudava de expressão a cada cinco segundos. E a boca da capa ia dizendo: “É com grande pesar que sorrio perante a desgraça alheia. É com imenso prazer que lhe comunico que o seu projecto não pode ser aprovado nem desaprovado. Deste momento guardarei a excelente ideia de despublicar, que tentarei implementar gradualmente num futuro próximo. No presente, a despublicação total não é possível.” “Só faltava esta”, pensou Contrarius, “um editor plagiário!”

     Saiu irritado batendo a porta com toda a força, fúria que não produziu qualquer ruído. Voltou-se e pontapeou a porta, mas também não ouviu qualquer ruído. O corredor de espera estava agora vazio. No ar esvoaçavam traças fluorescentes que soltavam uns risinhos agudos.

     De volta à rua, reconfortou-se com uns raios de sol amigáveis e prosseguiu em direcção à antepenúltima editora. Ficava nos subúrbios junto a um velho parque. A ramagem das árvores cobria por completo a tabuleta que encimava a porta: Última Oportunidade Editores, SA. Contrarius não viu a tabuleta quando entrou, apenas quando saiu. 

     Em menos de cinco minutos estava a ser atendido. Do porteiro ao editor, passando pela recepcionista, a primeira frase que ouviu, mesmo antes de pronunciar qualquer palavra, foi “Com certeza, com certeza, totalmente ao seu dispor!”  

      O editor reparou de imediato na maleta e pediu a Contrarius que a abrisse para examinar o conteúdo. Percorreu as folhas com os dedos e os olhos, cheirou o papel, leu algumas palavras em voz alta, arrumou as folhas em pequenos maços sobre a secretária construindo um pirâmide e, finalmente, perguntou:

     ― O que pretende fazer com tudo isto?

     ― Eu quero apenas despublicar a minha obra.

     ― Ah, só isso! Então, o trabalho é simples! Amanhã à tarde a despublicação estará pronta.

     Quando saiu, a recepcionista e o porteiro despediram-se dizendo: “Com certeza! Tem a certeza?” Não percebeu nem quis reflectir sobre o assunto. A boa disposição não deixava espaço para preocupações. Tinha conseguido, finalmente tinha conseguido. A estadia terminava no dia seguinte ao fim do dia. Ainda tinha tempo de ir à editora buscar a sua despublicação antes de apanhar o comboio de volta a casa.

     Nessa noite, quando se deitou sentiu um sobressalto. Onde estava a maleta? Acendeu a luz. Ah, estava ali, no lugar do costume, a seu lado, serenamente adormecida. Apagou a luz. Na penumbra do quarto viu esvoaçar folhas semi-iluminadas, que iam aparecendo e desaparecendo, até ficar apenas a escuridão rasgada por um fio de luz que vinha dos candeeiros de rua no exterior.

     Uma pergunta que nunca fizera antes assaltou-lhe a mente: que forma tem uma obra despublicada, que tamanho, que peso e cores? Será que ainda cabia na maleta? Não conseguiu responder. Devia ter perguntado ao editor: como se faz, qual é o método, qual é o resultado final? A euforia estava contaminada pela dúvida. Ainda assim, o cansaço e a sua racionalidade idiossincrática deixaram-no adormecer.

     Durante a manhã andou pela Baixa a ver as livrarias e os alfarrabistas. Nas montras havia uma imensa variedade de livros e caixinhas de madeira que tinham inscritos os nomes de autores e títulos de livros. Depois do almoço, dirigiu-se para o parque junto à editora. Vagueou pelas alamedas desenhadas por árvores frondosas e admirou a geometria original dos canteiros. Entre as flores havia caixinhas de madeira semelhantes às que vira nas montras das livrarias e alfarrabistas. Seria uma tradição daquele lugar! Folhas entre folhas, obras humanas entre as obras da Natureza? Parecia uma bela ideia.

     Por volta das cinco da tarde dirigiu-se à editora. O porteiro e a recepcionista saudaram-no com ecos das palavras iniciais: “Tem a certeza? Com certeza!” A recepcionista disse-lhe que o editor-chefe não estava presente, mas a sua despublicação estava ali, prontíssima! Retirou de uma prateleira atrás do balcão uma bela caixinha de madeira. Na tampa tinha inscrito o nome Contrarius Pertinax e por baixo “Obra Completa, edição única, despublicada no presente ano e para todo o sempre”. Sentiu um calafrio. Parecia um epitáfio. Posso abrir, claro que pode e pode levar consigo para onde quiser, ah, sim, e não tem de pagar mais nada, consideramos que aquela bela pirâmide de folhas que aqui deixou saldou completamente a conta! Tenha uma óptima tarde e seja muito feliz com a sua despublicação! Até sempre! 

     Abriu a caixinha de madeira que tinha um cheiro parecido ao da lareira. Lá dentro jaziam duas pazadas de cinza. Não eram as cinzas de uma árvore outrora viva e frondosa, eram as cinzas de uma obra anónima, finalmente despublicada, de forma absolutamente bibliocida!

     Deve ter perdido a consciência durante uns segundos em que gritou e chorou copiosamente nalgum recanto da mente. Apeteceu-lhe esmurrar a recepcionista e fazer o editor em pedaços, mas recuperou os sentidos e conteve-se. Percebeu finalmente o sentido da frase malévola que ouvira repetida. Olhou a recepcionista nos olhos e disse-lhe com um sorriso doridamente frio: “Com certeza, não tenho certeza alguma… por isso mesmo é que é preferível despublicar em vez de publicar… tenho, no entanto, a certeza de que a dívida ainda não foi totalmente saldada…”

     Saiu, dirigiu-se a uma estação de serviço e comprou 3 litros de gasolina. Voltou à editora, regou a entrada com o combustível e pegou-lhe fogo. Pouco depois, todos os funcionários saíam a correr pela saída de emergência. O editor esbracejava no telhado. Contrarius Pertinax ainda viu os bombeiros chegarem, erguerem a escada e salvarem o editor. Depois regressou ao hotel, pegou na mala e na maleta, apanhou o comboio e regressou a casa. Por razões desconhecidas, não recebeu nenhuma notificação da polícia  nem nenhum pedido de indemnização do editor.

     Enquanto rodava a chave na fechadura, interrogou-se sobre o que teriam feito as duas editoras onde nunca chegou a entrar. Talvez alguma se dedicasse verdadeiramente a despublicar, sem destruir a obra original. No dia seguinte despediu-se do seu trabalho de tantas décadas e abriu a sua própria editora, destinada exclusivamente a despublicar todo o tipo de obras. Nas pausas continuava a escrever a sua própria obra, que ia despublicando gradualmente dos mais diversos modos. A arte da despublicação implica toda uma filosofia e múltiplas metodologias.

     Por cima da porta mandou colocar uma tabuleta: CONTRARIUS EDITOR.

Não se espantou quando viu entrar no seu gabinete muitos daqueles com quem se tinha cruzado nos corredores das editoras do Reino do Desconcerto. Para cada um arranjou uma solução, uma forma personalizada de despublicar. Quando um certo dia a velha senhora que parecia a Agatha Christie lhe entrou pela porta, colocou-lhe à frente um pires com dois biscoitos. Ela comeu-os. Nada aconteceu. A prova de carácter foi vencida. A infindável tarefa de despublicar prossegue.

 
São Ludovino, 3/10/2013
(Tive a ideia original para este conto pelo menos 10 anos antes da data em que foi escrito. Era apenas uma das muitas ideias que ficam adormecidas em folhas soltas e blocos de notas… até que haja ou não tempo e disponibilidade para transformar a ideia numa narrativa ou num poema.)

Carta – Teatro da Matraca, photography by São Ludovino, 2018.

Stage - Blackbird by David Harrower, photography by São Ludovino, 2016.

Stage - Blackbird by David Harrower, photography by São Ludovino, 2016.


Contos Breves - V

III

O GATO QUE NÃO ERA… AINDA
 

     Lineu amava todos os seres vivos e não vivos. De um modo ou outro, todos estavam vivos, tinham estado ou haveriam de estar um dia. Amava sobretudo as plantas. Acreditava que se conseguisse conhecer todas as plantas, conheceria o Mundo inteiro e a longa história de um universo onde não se vislumbram plantas. Mas isso era apenas um obstáculo humano que se prendia com o enorme abismo entre a dimensão do universo e a simples visão sensorial. Por isso ele teimava em ver sempre mais além.

     Um dia olhou tão longe que, sem querer, deu um salto de um século e deu por si frente a frente com Darwin sob uma daquelas figueiras esplendorosas que gostam de ir vendo os milénios passar sem envelhecer. Limitam-se a estender e a engrossar mais as raízes e o tronco até parecerem casas ancestrais onde a totalidade da Humanidade poderia morar, se conseguisse morar na mesma casa.

     Darwin reconheceu de imediato Lineu. Mas Lineu ficou a pensar quem seria aquele sujeito que viria um século depois dele. Lineu lembrou-se de Newton, seu contemporâneo, que provavelmente também andaria por ali. Como por telepatia, Darwin também se lembrou de Newton. Darwin lembrou-se dos gigantes, mas também de anões. Lineu lembrou-se das maçãs e do acaso.

     Rapidamente, entabularam conversa e discutiam o melhor modo de fundir gigantes, acaso e maçãs. Segundo Lineu, dessa mistura extraordinária resultaria a matriz da própria vida, uma espécie de paradigma perdido reencontrado. Segundo Darwin, dessa fusão sobreviveria o mais forte, o mais apto, uma espécie de gigante que devoraria a História e acabaria por ser, um dia, o único a rodopiar à volta do sol, quando todos os planetas fossem já apenas poeira e o sol um ancião cansado de ser o centro da vida. E viria até o dia em que o gigante partiria por aí, caminhando por entre as galáxias com os seus passos incomensuráveis.

     Lineu achava que Darwin era um exagerado. Preferia caminhar rente ao chão ou voar com as aves que se contentam com tocar as nuvens de vez em quando. Procurava afinidades em vez de procurar diferenças, qualidades em vez de fraquezas, o elo da vida que tudo une em vez do sinal da morte inscrito em toda a matéria viva.

     Por um caminho que atravessava o campo junto à figueira iam passando caminhantes, provavelmente um século mais velhos do que Darwin e dois séculos mais velhos do que Lineu, pelo menos a avaliar pela indumentária e pelos relógios que traziam no pulso ou no bolso. Olhavam e comentavam com estranheza: “O que fazem aqueles felinos deitados sobre os ramos daquela figueira? Serão os animais de estimação daqueles estranhos interlocutores? Ambos parecem perfeitamente pacíficos. Falo dos felinos, evidentemente…”

     Lineu e Darwin estavam demasiado embrenhados na conversa para darem pela presença dos transeuntes ou dos felinos sobre as suas cabeças. Mas, entretanto, com uma espantosa sincronia, caíram dois figos da figueira; um sobre a cabeça de Lineu e outro sobre a cabeça de Darwin. Caíram é uma forma de dizer, porque na verdade foram lançados pelos felinos de modo a atingirem as cabeças dos dois sábios.

     Ambos olharam repentinamente para cima. Darwin deu um pequeno salto, Lineu abriu a boca de espanto para exclamar logo em seguida: “Ora, cá está, o mais fraco e o mais forte coexistindo em perfeita harmonia!”

     Darwin contestou de imediato, falou de domesticação, de viciação dos dados, do factor humano que distorce o sábio curso da Natureza, uma fraude contra a selecção das espécies. Lineu observou o sorriso no rosto de ambos os felinos e sugeriu que provavelmente a natureza era mais sábia do que todos os sábios. E qual era afinal o mais forte e o mais fraco de entre aqueles dois?! Pareciam igualmente confiantes e até sábios. Se sabiam colher figos de uma figueira e atirá-los às suas cabeças, provavelmente sabiam muito mais. Eles, Lineu e Darwin, é que estavam em nítida desvantagem, não por serem mais fracos ou mais fortes, mas por presumirem que sabem mais do que a mais ínfima ervinha ou o mais colossal carnívoro. O que descobriram sobre a mais pequena erva ou o maior carnívoro já a ervinha e o carnívoro o sabiam desde sempre, eles é que não.

     Darwin sentiu um enorme desalento. Sugeriu que era tudo uma ilusão e que mais tarde ou mais cedo o grande felino devoraria o pequeno felino ou qualquer outro animal de outra espécie. Era assim, tinha de ser assim, era a sua natureza e ninguém podia mudar a natureza.

     Lineu admitiu que a Natureza era a coisa mais difícil de modificar e que modificá-la nunca traria nada de bom. Disse que até compreendia toda a argumentação de Darwin, mas que, mesmo assim, as plantas lhe tinham ensinado muito sobre todos os seres e sobre a Natureza. Ensinaram-lhe que a Natureza muda de facto e vence sempre, mas não é necessariamente o mais apto e forte que vence, é o mais determinado e o que ama mais a vida, sem dar nas vistas, mesmo que tenha o tamanho colossal daquela figueira.

     O gato e o tigre, que estavam confortavelmente instalados sobre os ramos, lado a lado, como dois bons companheiros, anuíram com acenos de cabeça. Por alguma razão que não era completamente clara, simpatizavam mais com os pontos de vista de Lineu.

     Como Darwin e Lineu nunca mais chegavam a um consenso, o gato decidiu intervir: “Meus caros, há milhares de anos eu não era muito diferente do meu companheiro nos meus hábitos. Era mais pequeno em tamanho, mas tinha os mesmos instintos e hábitos. Hoje sou bem diferente e não posso dizer que tenha sido um sacrifício mudar. Não sei se evoluí, mas sou, de facto, diferente dos meus ancestrais. Aquilo que vedes sobre estes ramos são dois pontos no tempo que confluíram aqui mesmo sobre as vossas cabeças. O meu companheiro é também um gato igual a mim, vós é que ainda não conseguis vê-lo por entre a neblina dos tempos…”

     E o tigre, que também estava desejoso de se manifestar, acrescentou: “Nem mais! O vosso encontro aqui sob esta figueira é como o nosso encontro sobre esta figueira… só que vós ainda estais um pouco abaixo na linha da evolução. Vedes menos porque não acompanhais a Natureza. ‘Tu não és um gato’ direis de mim. Pois vós ainda não sois sábios. Eu estou muito mais próximo de ser um gato do que vós estais de conhecer a Natureza.”

     Lineu não se sentiu ofendido. Sabia bem demais que as ervinhas que agora pisava ainda guardavam milhões de segredos que ele só podia imaginar, mas não discernir com toda a clareza. Talvez nem fosse necessário discernir tudo com toda a clareza. Talvez houvesse um ponto onde o homo sapiens devesse parar e limitar-se a acompanhar os mistérios da Natureza.

     Estendeu a mão a Darwin e propôs-lhe um pacto: “De ora em diante seremos como eles… mesmo que ainda sejamos tigres e mesmo que nunca deixemos de ser tigres, deixemos que a Natureza, e não os homens e a ciência, nos transformem em gatos.”

     E saudaram-se com um rugido e uma arranhadela simbólica, antes de treparem pela figueira e se instalarem junto dos felinos.

    
São Ludovino, 7/12/2018 (Este conto faz parte da série “Lendas, Mitos & Fábulas…”) 

Pausing the paws I, photography by São Ludovino.

Strolling with a friend I, photography by São Ludovino.

Free and Fragile by Suyarts aka Suy/São Ludovino, 2012.

Living in the garden I, photography by São Ludovino.

Cat in the nest III, photography by São Ludovino, 2023

Growing up I, photography by São Ludovino.

Growing up II, photography by São Ludovino.

At the centre of Earth VIII, photography by São Ludovino.


Contos Breves - IV

 II

ONDE COMEÇA O OLHAR

(lenda dos olhos que são flores)
 

     Muitos olhos habituaram-se a reconhecer as coisas pela forma que vêem e deram-lhes nomes coincidentes nos quatro cantos do Mundo.

     “Mas se a noite cair repentinamente antes de eu ter tempo para ver o que está à minha frente ou em meu redor, como posso encontrar-lhes o nome? O que vejo já não é a forma. É aquilo que pressinto.” ─ Inquiriu a pequena flor.

     “Mas mesmo quando a noite cai repentinamente, tu ainda podes ver-te, não podes? Ou pelo menos continuas a saber quem és e não perdes o teu nome…! ─ Comentou a flor mais antiga.

     A pequena flor ficou meditativa por alguns instantes e tentou nomear todas as coisas que via. Rapidamente se deteve. Percebeu que havia muitas coisas que não conseguia nomear, muitas mais do que aquelas a que conseguia dar um nome. E, no entanto, elas estavam lá. Estavam vivas, eram reais e eram belas, tão belas como as que conseguia nomear.

     A noite caiu, não repentinamente, mas com uma extraordinária suavidade, como se quisesse mostrar todos os seus recantos e todos os passos da sua quotidiana viagem.

     A pequena flor olhou em volta, mas não conseguia ver com nitidez as coisas que sabia que estavam lá. Nem mesmo as estrelas, nem mesmo a lua conseguiam iluminar todas as coisas. Era como se não as quisessem iluminar completamente, como se iluminá-las fosse uma enorme traição à noite que as abrigava e tornava mais brilhantes e visíveis. Imbuídas por um imenso respeito, permaneciam no céu a uma enorme distância das coisas que rodeavam a pequena flor.

     Voltou para junto da flor antiga e perguntou-lhe se as coisas que via durante o dia ainda estavam lá. A flor antiga sorriu docemente e perguntou: “Tu ainda estás aí, não estás? Então, todos os seres que agora não vês continuam também aqui. Fecha os olhos até que te possas ver como se fosse o dia mais claro da criação. Depois volta a abri-los e diz-me o que vês.”

     A pequena flor fechou os olhos como fazia todas as noites. Mas agora não adormeceu. Acordou para o centro de si e para as coisas que não via. Viu-se imensamente pequena flutuando na luz do luar. Sentiu a erva fofa acariciar-lhe o tenro caule e a brisa afagar-lhe as pétalas. E nunca pensou, nem por um segundo, que tinha deixado de ser ela. Não via a sua forma, parecia ter muitas formas, mas continuava a ser a mesma pequena flor. Sentia-se capaz de ver cada recanto da alma e do universo mesmo sem conseguir ver um único contorno definido. Só uma espécie de luz persistente continuava bem definida e brilhava intensamente no centro da corola.

     Tomada por um imenso entusiasmo não conseguiu manter os olhos fechados por mais tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. A noite continuava lá, acompanhada pela lua e pelas estrelas. O Mundo continuava mergulhado na penumbra, mas nada havia que não conseguisse ver. Sem saber como, o nome das coisas que não via, mesmo das que nunca vira, começaram a brotar-lhe das pétalas.

     A flor antiga sentiu-se feliz e recompensada, acompanhada por todas as coisas visíveis e invisíveis, pelas que tinham forma e pelas que não tinham matéria, pelas que tinham nomes, antigos ou novos, e pelas que ainda não tinham nome. O nome viria num dia ou noite qualquer pois ninguém sabe ao certo onde começa o olhar e sobretudo onde acaba. Intimamente estava convencida de que só existe o princípio, mas não o fim.

 

São Ludovino, 6/12/2018 (Este conto faz parte da série “Lendas, Mitos & Fábulas…”)

Young disciples II, photography by São Ludovino.


A link in the chain of life II, photography by São Ludovino.


Lucky for being here I, photography by São Ludovino.

Creating Happiness I, photography by São Ludovino.

Natural Splendor II, photography by São Ludovino.


Contos Breves - III

I

 O HOMEM NA LUA

     Havia há muito, muito tempo, um homem quase transparente, quase invisível, quase vulgar. Andava há muito tempo a construir a sua casa infinita em todos os lugares. Não usava tijolos nem cimento, martelos ou pregos, gruas ou retroescavadoras, pedras, madeira ou tintas. A sua única matéria-prima e ferramenta era uma porta desdobrável que ia colocando aqui e ali. Trazia-a sempre debaixo do braço, como outros trazem um livro, um jornal ou uma pasta leve. Às vezes, parecia um quadro, às vezes, semi-aberta, servia de banco repousante nas longas caminhadas, às vezes era janela andante nas noites de luar. E era mala de viagem donde saía o alimento e o cobertor quente nos dias de Inverno.

     Era uma velha porta, construída em criança num daqueles dias infindáveis em que os pássaros não querem dormir enquanto a dança colorida do poente não terminar. Desde esse dia, aquela porta foi a sua fiel companheira em todos os lugares. Chegava a um lugar, pousava a porta, abria-a, entrava e aí era a sua casa. Quando escrevia alguma carta, apenas escrevia no remetente “Da minha casa”. Nunca recebeu cartas. Provavelmente foram todas parar à morada errada, um lugar onde já não estava ou onde ainda não estivera.

     Quando a vida o obrigava a permanecer durante muito tempo em lugares fechados, abria a porta-quadro e deliciava-se com as paisagens viajantes que desfilavam perante os seus olhos. Se estava frio de mais, abria a porta para uma lareira acolhedora e ali ficava a conversar com as chamas dançantes. Ou então, passava a soleira e sentava-se sob um sol radioso, mesmo que à volta o vento gélido tolhesse os transeuntes e a chuva lhes encharcasse os pesados sobretudos. Se os músculos pediam movimento, abria a porta para uma praia tranquila, uma floresta ou um jardim. Se lhe apetecia conversar, abria a porta em qualquer aldeia, vila, cidade ou estrada deserta e logo uns olhos amigáveis se aproximavam dos seus e dispensavam-no até de proferir qualquer palavra. Mas em todo o lado há vida e histórias e, sem dar por isso, o tempo enchia-se com rios e cascatas de palavras, uma espécie de música espontânea, com correntes e cadências próprias. Foi assim que começou a amar o mundo como um todo… e a detestá-lo também, quando o rio secava ou a cascata se tornava uma enxurrada de ruídos indecifráveis. Nesses momentos, fechava a porta àquele lugar e regressava à praia tranquila, logo ali ao lado. As gaivotas lá estavam, glissando sem pressa sobre as ondas. E a mulher luminosa, feita de céu, água e luz, cuidava dedicadamente do jardim. Tudo estava do outro lado da porta, bastava abri-la.

       Chegava a uma planície verdejante, pousava a porta no chão, abria-a de par em par e dizia “Aqui é a minha casa!” E a planície ficava ainda mais bela e viçosa, só por sentir que alguém a amava e queria ficar ali.

     Olhava para uma montanha, perscrutava-lhe as encostas, o cume, os vales e dizia “Quando chegar ao topo, ali será a minha casa!” E para que a escalada fosse menos dura, o vale dava-lhe alimentos frescos e água pura; e as encostas, comovidas com a determinação do caminhante, desenhavam socalcos suaves numa imensa escadaria do sopé ao topo. E lá do alto, o homem, feliz, sentado no seu alpendre de madeira, pensava para consigo “Do alpendre da minha casa posso ver todo o horizonte, e todos os lugares que vejo ou adivinho, aquém e além do horizonte, são a minha casa!”

     Morou em muitas planícies, vales e montanhas, em muitas aldeias, vilas, cidades, caminhos e estradas e continuava a caminhar, sempre com a sua fiel companheira debaixo do braço.

     Um dia, quando morava junto ao mar, foi passear pela praia, respirar com a alma os últimos raios de sol de um dia tranquilo. Por ali ficou até o luar iluminar a superfície das águas e beijar a areia húmida e macia. Pegou na porta e colocou-a sobre uma mancha luminosa de luar, um lago de luz onde lhe apeteceu mergulhar. Abriu a porta e caminhou lentamente, primeiro sentindo a textura da areia, depois o veludo da noite, a brisa das estrelas, o éter da distância, a respiração serena do tempo, algures muito para além do horizonte.

Ia já muito longe, mas parecia possível tocar-lhe esticando apenas o braço através da porta; e os passos continuavam a soar ali mesmo ao lado, desenhando pegadas luminosas na areia húmida.

     A mulher luminosa aproximou-se da porta aberta. Nunca a tinha visto ali antes. Espreitou para o outro lado, ouviu os passos sobre a areia e viu uma Lua enorme sorrir sobre o zénite. Sobre a Lua caminhava um homem com uma porta debaixo do braço. Parecia exactamente a mesma que via à sua frente. Viu-o pousar a porta e logo uma floresta cresceu em redor. A maior das árvores floriu quase de imediato. Logo outras se seguiram, cobrindo-se de flores e frutos. Pensou para consigo “Agora, também há um jardim na Lua! A Lua deve estar muito feliz!” Sentiu o aroma dos frutos lunares e reconheceu-o. Era o mesmo aroma que emanava do seu jardim à beira-mar. Esticou o braço através da porta e colheu um fruto lunar. Também os frutos tinham o mesmo sabor que os frutos das suas árvores.

      Tocou na porta. Era tão leve como o ar e agora quase completamente transparente. Pô-la debaixo do braço e caminhou pela estrada de luar até deixar de se avistar. A luz dissolveu-se na luz.

     Na Lua, o homem sorri, banhado pela luz e cores do seu pomar que cresce, cresce sem parar. Em silêncio, de olhos cerrados, beija a rosa lunar que lhe floresce nas mãos abertas. A flor cresce mais e mais e esvoaça suavemente pelo ar até ir pousar sobre as águas calmas de um mar azul e cristalino. Sereno, o homem abre os olhos muito devagar. Lentamente a mulher luminosa emerge das águas e caminha na sua direcção. Em silêncio, traz de volta a rosa lunar, deposita-a nas mãos do homem, senta-se a seu lado e adormece, ouvindo-o cantar.  

São Ludovino, 17/7/2016 (este é o primeiro conto da série “Coisas Que Funcionam”)

Moving reflection II, photography by São Ludovino.

Under many moons II, photography by São Ludovino.

Untitled Song II, photography by São Ludovino.