COMO SURGIU E FOI DESMASCARADO O PRIMEIRO INTRUJÃO
Para evitar juízos precipitados ou o uso de rótulos genéricos, devemos advertir que o Primeiro Intrujão, apesar de pertencer a uma longa linhagem de Intrujas, não é em bom rigor o primeiro da espécie; esse e a sua história perdeu-se na poeira do tempo. A este intrujão pertencem apenas os fedorentos pergaminhos de ser o Primeiro Intrujão em Ostra Púrpura, lugar desconhecido que, por isso mesmo, se manteve impoluto por longo tempo até ser mortalmente conspurcado e rapidamente redimido pela sapiência dos simples e dos cépticos. De qualquer modo, dizem por aí que todo o intrujão tem direito à presunção de inocência até prova em contrário. Dizem sim, convictos e ufanos, mas não nós que já conhecemos os intrujas de ginjeira e já conferimos as provas que confirmam a nossa convicção. Perdoe-se, pois, a nossa ousadia e a nossa certeza. E perdoe-se também o facto de a narrativa ser especialmente dirigida a um interlocutor irrequieto que tem uma incorrigível propensão para interromper e fazer perguntas pouco retóricas e muito indiscretas. Pois bem, comecemos…
No tempo em que o mundo era um Grande Desconhecido à procura de um só mapa para morar e os homens ainda sabiam conversar com os animais, existiu uma terra e um povo de que já ninguém fala, porque o tempo se encarregou de os guardar bem no fundo da sua arca. Essa terra jamais explorada ficava algures entre a Neblina e o Sol Nascente. Não me perguntes onde ficava ao certo, ó Aprendiz Curioso, nem gastes já os teus “comos” e “porquês”, que ainda agora estou a começar.
Pois
bem, nessa terra, que sei chamar-se Ostra Púrpura, vivia um clã de
curiosos seres, que não deviam ter mais do que seis palmos de altura. Não que a
altura seja o mais relevante neste caso, mas sempre convém não esquecê-lo para
compreender como já então as aparências iludiam…
Numa daquelas tardes cálidas
de Verão, quando os habitantes de Ostra Púrpura se sentiam mais
inclinados a contemplar e a fruir as coisas simples e pequenas da vida do que a
coscuvilhar sobre a vida alheia ou a prever o futuro, um facto aparentemente
irrelevante veio alterar definitivamente toda a filosofia de vida ou ausência
dela desta gente afável e pacata.
Não, Aprendiz Precipitado, não foi a queda de um
meteorito, nem a queda das cotações da Bolsa (que ainda não existia), nem um
tsunami, nem um novo modelo de iPod,
nem a construção de mais vinte rotundas no centro da povoação, nem sequer a
abolição do feriado municipal que, tanto quanto sei, era um dia variável. Não,
foi algo aparentemente mais insignificante, por ser tão trivial numa terra de
onde ninguém partia, mas onde todos eram bem-vindos.
Naquela tarde, sim,
precisamente naquela tarde cálida de Verão, chegou a Ostra Púrpura um
forasteiro, à primeira vista semelhante a todos os outros forasteiros, excepto
pelo facto de ter apenas cinco palmos de altura, ao contrário de todos os
outros forasteiros que tinham, regra geral, mais alguns palmos do que os
Ostranianos.
O forasteiro entrou no povoado
pela estrada do Norte e dirigiu-se logo à fonte da Praça Turquesa para
se refrescar e encher uma pequena garrafa que tirou de uma maleta. Deu dois
golos, suspirou profundamente com satisfação e dirigiu-se a um dos aglomerados
de gente que se encontravam dispersos pela praça em volta de grandes árvores,
pequenos canteiros e lagos com peixes coloridos; uns conversavam, outros
olhavam, outros ainda liam ou pintavam, alguns cantavam, outros dançavam, as
crianças corriam, saltavam à corda, procuravam tesouros, interpretavam trechos
de teatro que os mais velhos aplaudiam entusiasticamente, colhiam flores e
frutos e olhavam para tudo com olhos de ver. Aliás, ver com olhos de ver e
sentir com coração de sentir era o que melhor faziam todos os ostranianos. Tudo
os intrigava e pasmava mesmo que olhassem pela milésima vez, por isso, nunca
paravam de olhar e sentir.
Não, Aprendiz Impaciente, não perdi o fio à meada e
sei muito bem o que ia dizer… Não sei se já te tinha dito, mas na Ostra Púrpura não
havia governantes com esse título, muito embora houvesse uma Casa da
Governação, uma Casa da Presidência, um Parlamento e cerca de uma dezena de
Casas do Município, como em qualquer democracia “moderna”.
Ora, sabes tu, ó Perspicaz Aprendiz, por quem perguntou em
primeiro lugar o forasteiro de cinco palmos? Exacto, não perguntou pelo
Presidente, nem pelo Primeiro Ministro, nem pelos Presidentes do Parlamento ou
dos Municípios. Perguntou sim… pelo «homem das folhas volantes», que é como quem
diz, em linguagem dos nossos dias, “o homem dos jornais”! Surpreendente? Nem
por isso, porque já então a comunicação era uma arma subtil e poderosa… em
muitas terras deste mundo. Mas não
― Por que não existe hoje um
papel igual?! ― Perguntas bem, mas não te vou responder. Descobre tu pelos teus
próprios meios e pára de me interromper.
O forasteiro podia ter baixa
estatura, mas tinha altíssimos recursos na sua maleta e nos seus neurónios. ―
Não, um neurónio não é um cofre, nem um bolso, nem um tubo de ensaio, nem um
agente secreto, nem… um neurónio é um conjunto de células cerebrais que… enfim,
vai aprender e não me interrompas. O que eu queria dizer é que este forasteiro
era esperto como um alho, apesar de parecer inofensivo e insignificante. ―
Irra! Não, um neurónio também não é um alho e os alhos, os verdadeiros alhos,
não são perigosos. Agora fica calado e guarda as tuas dúvidas para ti mesmo.
Pensa e existe, mas não interrompas!
O nosso misterioso forasteiro
dava pelo nome de Filipinho Alvim Trujão, pelo menos foi assim que ele se apresentou na redacção do maior jornal
local. ― Não, Trujão não é um peixe. Não confundas Trujão com esturjão!
O redactor-chefe recebeu-o
amistosamente e perguntou-lhe em que lhe poderia ser útil. Filipinho abriu a
maleta e colocou sobre a secretária uma fila de frasquinhos com diversas
substâncias, quase todas líquidas, com diversas cores e explicou.
― Sou perfumista, boticário e
alquimista. De vez em quando, também sou colunista e cronista. Nestes pequenos
frascos tenho amostras das minhas maiores descobertas e invenções: perfumes
delicados e inebriantes, mezinhas infalíveis contra inúmeras maleitas e os
ingredientes secretos indispensáveis para produzir a Grande Obra que, como
sabe, é a Pedra Filosofal que pode transformar ferro em ouro e produzir outras
mutações extraordinárias nas substâncias mais banais e nos próprios seres
vivos.
O redactor-chefe ostraniano
não ficou muito impressionado e, à defesa, atirou:
― Estou muito agradecido pela
sua visita, mas não estou interessado em nenhum desses produtos e não há vagas
para novos jornalistas. Sabe, somos uma terra de gente simples. Não estamos
interessados em grandes aventuras ou experimentalismos.
― Ah, meu caro senhor, não
responda já. Isto são só amostras grátis, não tem de me pagar nada. Em troca,
peço-lhe apenas que publique o seguinte anúncio: “Feira de novidades, no
próximo domingo, na praça central, entre o meio-dia e as oito da noite.
Aguardamos a vossa presença. Não se vão arrepender.”
― Bom, se é só isso, estamos
entendidos. O anúncio será publicado na antepenúltima página, impressa em papel
alternativo … ― Rematou o redactor-chefe.
― Alternativo?! ― inquiriu
Filipinho.
― Nós também temos as nossas
descobertas e invenções. Este papel é uma das nossas invenções mais sábias e
preciosas. Tal como o senhor não me vai revelar o segredo dos seus
extraordinários produtos, eu também não posso revelar-lhe mais sobre este
papel.
O anúncio foi publicado e, no
dia e hora indicados, o povo acorreu à praça. Filipinho tinha a banca montada e
um púlpito instalado atrás dela. Os Ostranianos eram pacatos, mas curiosos. Em
vez de tentar iniciar de imediato a venda, Filipinho começou por fazer um
discurso. Falou dos seus respeitáveis antepassados, Leopoldo Lupim Trujice e
Angelina Severim Trujona, das suas descobertas e invenções e do modo como tinham governado o
reino mais próspero de todos os tempos. Para surpresa de Filipinho Alvim Trujão, os
Ostranianos não mostraram qualquer reverência; riam a bandeiras despregadas e
dançavam como se o seu discurso fosse uma música de baile. Alguns tinham
debaixo do braço ou no bolso a edição do jornal onde tinha sido publicado o
anúncio; outros usavam-no como uma espécie de pandeireta para acompanhar o
ritmo da música que só eles ouviam. Mesmo assim, Filipinho não se deixou
desmoralizar, pigarreou diversas vezes e prosseguiu o discurso:
“Era eu ainda um petiz e já passava os dias no laboratório do meu avó e no escritório do meu pai, aprendendo a fabricar toda a espécie de panaceias para o corpo e para o espírito. O pior doente é o que não reconhece a sua doença e não quer tomar o medicamento para se curar. Daqui desta tribuna, com os meus olhos treinados, posso ver como a maioria de vós está gravemente doente, dançais para tentar enganar a doença, mas nada vos poderá curar excepto uma das minhas mezinhas que não custam mais do que vinte e cinco vinténs e podem devolver-vos um perfeito estado de saúde.”
Os Ostranianos riam cada vez mais e continuavam a dançar. Alguns começaram a rasgar pedaços do jornal e atiraram-nos a Filipinho. Um pedaço aterrou-lhe na mão direita aberta para o céu.
― Não, Aprendiz Desatento! Os Ostranianos não estavam doentes nem eram loucos! Eram apenas
ostranianos e tinham lido o jornal atentamente, especialmente o anúncio de
Filipinho.
Filipinho reconheceu o seu
nome no pedaço de jornal, mas só o nome era o seu. O texto do anúncio que
pedira para ser publicado era algo diferente do texto que entregara. Sentiu-se
indisposto e a voz sumiu-se na garganta. Sem a voz de Filipinho como música de
fundo, os Ostranianos abrandaram a dança e observaram o misto de fúria e náusea
na expressão do orador emudecido.
Um Ostraniano mais afoito
avançou e perguntou:
― Já conhece o papel
alternativo do nosso jornal?
Filipinho olhou para o pedaço
de jornal e leu a versão alternativa e autêntica do seu anúncio: “Como o meu
próprio nome indica, Filipinho Alvim Trujão, sou um charlatão e estou aqui para vos enganar de todas as formas que
me for possível. Não faltem, se querem ser usados e ludibriados e pagar-me por
isso. Mesmo que se arrependam, será tarde de mais.”
Não há nada mais penoso para
um intrujão do que ver a sua máscara ser completamente arrancada em público e
colectivamente, ainda por cima sem antes ter conseguido enganar uma só alma.
― Sim, Sensível Aprendiz, compreendo a tua compaixão por este miserável burlão. Foi dessa forma
que reagiram algumas das crianças que julgaram ouvir na voz de Filipinho uma
nova melodia ou um conto de encantar. Mas não te apoquentes muito! Ninguém lhe
fez nenhum mal. Nem sequer foi preso e julgado. Foi apenas conduzido à saída da
cidade para prosseguir o seu caminho por outros bandas, com uma advertência
sábia.
― Não se esqueça do papel
alternativo, senhor Alvim Trujão! ― Disseram-lhe com bons modos.
São Ludovino, 23/1/2008
NOTA: A estrutura dialógica deste conto infanto-juvenil, que integra um receptor interno da enunciação, é inspirada na estrutura narrativa usada por Rudyard Kipling nas Just So Stories, que são dirigidas a um ouvinte / receptor a quem o narrador se dirige.
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