quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Antigas - XXIX


ESCALADA
(Empirismo e metafísica)

Como é longa

Como é íngreme
A escadaria do mundo!
Estas são as pedras invisíveis do castelo da Fortuna.
A escadaria não existe na totalidade num só tempo.
Estas pedras são lendas e leis
São angústias e memórias
Milenarmente preservadas
Em livros, hábitos, instintos
Éditos, genealogias, hierarquias, intenções
Nuances do antiquíssimo costume de sobreviver
Em busca do topo do mundo…
Nuvens, nuvens, camadas de nuvens
Escondem o rumo dos degraus…
 
O que os olhos pensam ver
É apenas o corrimão
O cicerone dos degraus.
Talvez tenha nascido antes
Talvez tenha nascido depois
Do primeiro degrau
Do primeiro sonho
Da primeira morte.
O que a mente vê
É a mão perdida na imensidade do corrimão.
O que a mão pinta é o que a mente adivinha
O que a mão escreve é um alfabeto infindável.
 
Entre as nuvens, o riso, um riso constante.
Agora estás em cima, agora estás em baixo
Agora ris e ouves o meu riso
Agora choras e ouves o meu riso
Segues o meu riso
Pelas areias do deserto
Pelos caminhos dourados.
Tens alucinações auditivas
Acreditas e segues o chamariz.
Segura a mão, mantém-te firme
O meu corpo polido, escorregadio
Alonga-se sempre
Mantém-te preso
A esta envernizada ilusão.
Olha como brilha
Nenhum ouro me pode comprar!

©Maurits Cornelis Escher (Dutch, 1898 - 1972) - Relativity, 1953.

Lá vai a escadaria atrás do corrimão!
Serpenteia pelos telhados dos arranha-céus
Pelos compartimentos secretos das caixas registadoras
Pelos recantos das salas escuras das reuniões internacionais
Pelas folhas dos livros, dos discursos, das velhas árvores
Pela casa das máquinas biónicas
Pelos lares das famílias pacatas
Pela fome e pela sede
Pelas veias, pelas vielas
Humildade e ambição
Veneno e antídoto
Vírus e panaceia
Lá vai ela, lá vai ela
Ruma ainda ao alto!
Tu tropeças e cais…
Abençoada seja a tua teimosia!
 
Suy / São Ludovino, 10/6/1992

     Samuel Jessurun de Mesquita (1868-1944), um Judeu sefardita oriundo de Portugal, foi mentor de Maurits Cornelis Escher. Samuel e a sua família foram mortos no campo de extermínio de Auschwitz em 1944. O filho, Jaap de Mesquita, foi morto no campo de concentração de Theresienstadt poucos dias depois da execução dos pais. Logo após a deportação de Samuel, Escher tentou recuperar parte do trabalho do seu mentor, preservou-o e divulgou-o. 





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