quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Novas - XXIX

Anagnórise

Na beira da estrada, imerso na suave verdura primaveril
Encontrei prostrado e raquítico um mito
Pequeno, lívido, envolto em andrajos de era incerta.
De olhos semi-cerrados respirava imperceptivelmente.

Dei-lhe cinco gotas de chuva e um sopro nos olhos
Abriu-os, olhou em redor e voltou a fechá-los
Talvez sentindo que aquele não era o seu mundo
Que sonhava ou alucinava com a fome.
Mas o que come um mito?
Talvez ideias frescas ou ambrósia acabada de fazer
Talvez o humor de Aristófanes ou as tragédias de Eurípedes
Talvez a bazófia de Ulisses ou os fios da manta de Penélope
Talvez os ares de outras terras, outros mundos infinitos…
Não sei onde encontrar tais iguarias, assim, de repente.

Visitor I, photography by São Ludovino. 

Delicadamente levanto-o com ambas as mãos
E deposito-o no fundo do bolso
Onde se foi encontrar com outras estranhas descobertas:
Farrapos de nuvens, conchas cantantes, flores imperecíveis
Mapas do labirinto de Creta, o primeiro símbolo ideográfico
Selos de cartas perdidas e cartas de marear, velas de barcos
Navios de loucos, naves de catedral, gárgulas e esfinges
Portos da Cólquida, areias da Galileia, colunas do templo primeiro
Ciclopes e Circes, Minotauros e Centauros, carlingas e gladiadores
O Carro do Sol levando Medeia de volta a casa
Leões, profetas, pescadores, redes de pesca e fios de seda
Discos de Newton, maçãs caídas, espaço-tempo codificado
E a única habitante inalterável deste imenso pequeno bolso:
um fragmento de turquesa azul caído de uma estrela qualquer…
Talvez alguns fossem seus velhos conhecidos
E outros novidades nunca vistas por nenhum mito
Talvez todos juntos lhe pudessem devolver a vitalidade
E fazer-lhe lembrar quem era afinal
Mesmo que não fosse mais do que “o nada que é tudo”.

Durante longo tempo não o incomodei
Deixei-o a saborear as iguarias do meu bolso
Não sei de quais gostou mais ou menos
Ou se alguma lhe causou uma indigestão.
Passada a experiência e a turbulência
Inerente a qualquer transformação
Ou inédito processo de regeneração
O pequeno mito assomou do meu bolso
Luzidio e airoso, olhos bem abertos
E os músculos desejosos de movimento.
Sem mais, deu um salto para o chão
Esticou os braços e olhou em redor
À procura da direcção incerta do Olimpo
Lá no alto algures para lá das nuvens.

De súbito surpreendido com a minha presença
Naquele campo de dúvidas, flautas e flores
Perguntou-me se também ia para o Olimpo
Para a viçosa Arcádia ou a nascente de Hipocrene.
Disse-lhe que não, que o Olimpo era demasiado distante
Demasiado etéreo e imprevisível
Que lá começaram muitas guerras
Que desceram à Terra para a devorar
Que ali perto ficava a Nova e a Novíssima Arcádia
Num prado adormecido entre duas colinas
E que a nascente de Hipocrene, muito provavelmente,
Se tinha deslocado para o peito de algum pastor de nuvens…

Pois bem, como me aprouvesse então
Ele seguiria o caminho de volta ao Olimpo.
Vi-o afastar-se pela mesma estrada
Em que viajara no meu bolso.
Vi-o ser engolido por uma lomba, reaparecer
E desaparecer em seguida numa curva apertada.

Não me movi um milímetro
Fiquei a olhar a estrada vazia.
Pouco depois, a curva devolveu-o à estrada
E de minúsculo se foi tornando em gigante
Caminhando na minha direcção.
E agora era de facto um gigante
E muito mais triste do que antes.

“Já foste ao Olimpo e voltaste?”, perguntei
“Nem Hermes seria mais veloz do que tu”
“Não”, disse ele um tanto envergonhado,
“Esqueci-me do caminho para o Olimpo
E receio ir parar ao Hades… uhm… uhm…
Na verdade, recusaram-me a entrada
Disseram-me que eu não era um puro sangue
Que era um híbrido, um hiper-híbrido
Que não tinham registo da minha existência
Nem nos arquivos nem nos censos do Olimpo…”

“Talvez agora possas ser finalmente o nada que é tudo” animei-o.
“E o que é isso, “o nada que é tudo”?” perguntou.
“É a força motriz do futuro de todos os tempos
É a harmonia dos opostos de todas as gentes
É a perenidade da luz dos seres deveras bons
É, enfim, o que se busca incessantemente
O inacabado em contínua construção e reconstrução…”

Olhou-me indeciso e pensativo.
Acrescentei, então:
“Algo me diz que aquilo que anseias
É bem mais complexo e difícil do que voltar ao Olimpo:
Deixar de ser um mito e alcançar tudo aquilo
Que um mito pode alcançar ou fazer alcançar…”

“E já alguém conseguiu fazê-lo?” perguntou.
“Suspeito que sim
Ou o mundo seria apenas um caos de ideias
Na mente de homens loucos que se julgaram
Deuses sábios e omnipotentes…”

São Ludovino, 6/10/2023


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