Anagnórise
Encontrei prostrado e raquítico um mito
Pequeno, lívido, envolto em andrajos de era incerta.
De olhos semi-cerrados respirava imperceptivelmente.
Dei-lhe cinco gotas de chuva e um sopro nos olhos
Abriu-os, olhou em redor e voltou a fechá-los
Talvez sentindo que aquele não era o seu mundo
Que sonhava ou alucinava com a fome.
Mas o que come um mito?
Talvez ideias frescas ou ambrósia acabada de fazer
Talvez o humor de Aristófanes ou as tragédias de Eurípedes
Talvez a bazófia de Ulisses ou os fios da manta de Penélope
Talvez os ares de outras terras, outros mundos infinitos…
Não sei onde encontrar tais iguarias, assim, de repente.
Delicadamente levanto-o com ambas as mãos
E deposito-o no fundo do bolso
Onde se foi encontrar com outras estranhas descobertas:
Farrapos de nuvens, conchas cantantes, flores imperecíveis
Mapas do labirinto de Creta, o primeiro símbolo ideográfico
Selos de cartas perdidas e cartas de marear, velas de barcos
Navios de loucos, naves de catedral, gárgulas e esfinges
Portos da Cólquida, areias da Galileia, colunas do templo primeiro
Ciclopes e Circes, Minotauros e Centauros, carlingas e gladiadores
O Carro do Sol levando Medeia de volta a casa
Leões, profetas, pescadores, redes de pesca e fios de seda
Discos de Newton, maçãs caídas, espaço-tempo codificado
E a única habitante inalterável deste imenso pequeno bolso:
um fragmento de turquesa azul caído de uma estrela qualquer…
Talvez alguns fossem seus velhos conhecidos
E outros novidades nunca vistas por nenhum mito
Talvez todos juntos lhe pudessem devolver a vitalidade
E fazer-lhe lembrar quem era afinal
Mesmo que não fosse mais do que “o nada que é tudo”.
Durante longo tempo não o incomodei
Deixei-o a saborear as iguarias do meu bolso
Não sei de quais gostou mais ou menos
Ou se alguma lhe causou uma indigestão.
Passada a experiência e a turbulência
Inerente a qualquer transformação
Ou inédito processo de regeneração
O pequeno mito assomou do meu bolso
Luzidio e airoso, olhos bem abertos
E os músculos desejosos de movimento.
Sem mais, deu um salto para o chão
Esticou os braços e olhou em redor
À procura da direcção incerta do Olimpo
Lá no alto algures para lá das nuvens.
De súbito surpreendido com a minha presença
Naquele campo de dúvidas, flautas e flores
Perguntou-me se também ia para o Olimpo
Para a viçosa Arcádia ou a nascente de Hipocrene.
Disse-lhe que não, que o Olimpo era demasiado distante
Demasiado etéreo e imprevisível
Que lá começaram muitas guerras
Que desceram à Terra para a devorar
Que ali perto ficava a Nova e a Novíssima Arcádia
Num prado adormecido entre duas colinas
E que a nascente de Hipocrene, muito provavelmente,
Se tinha deslocado para o peito de algum pastor de nuvens…
Pois bem, como me aprouvesse então
Ele seguiria o caminho de volta ao Olimpo.
Vi-o afastar-se pela mesma estrada
Em que viajara no meu bolso.
Vi-o ser engolido por uma lomba, reaparecer
E desaparecer em seguida numa curva apertada.
Não me movi um milímetro
Fiquei a olhar a estrada vazia.
Pouco depois, a curva devolveu-o à estrada
E de minúsculo se foi tornando em gigante
Caminhando na minha direcção.
E agora era de facto um gigante
E muito mais triste do que antes.
“Já foste ao Olimpo e voltaste?”, perguntei
“Nem Hermes seria mais veloz do que tu”
“Não”, disse ele um tanto envergonhado,
“Esqueci-me do caminho para o Olimpo
E receio ir parar ao Hades… uhm… uhm…
Na verdade, recusaram-me a entrada
Disseram-me que eu não era um puro sangue
Que era um híbrido, um hiper-híbrido
Que não tinham registo da minha existência
Nem nos arquivos nem nos censos do Olimpo…”
“Talvez agora possas ser finalmente o nada que é tudo” animei-o.
“E o que é isso, “o nada que é tudo”?” perguntou.
“É a força motriz do futuro de todos os tempos
É a harmonia dos opostos de todas as gentes
É a perenidade da luz dos seres deveras bons
É, enfim, o que se busca incessantemente
O inacabado em contínua construção e reconstrução…”
Olhou-me indeciso e pensativo.
Acrescentei, então:
“Algo me diz que aquilo que anseias
É bem mais complexo e difícil do que voltar ao Olimpo:
Deixar de ser um mito e alcançar tudo aquilo
Que um mito pode alcançar ou fazer alcançar…”
“E já alguém conseguiu fazê-lo?” perguntou.
“Suspeito que sim
Ou o mundo seria apenas um caos de ideias
Na mente de homens loucos que se julgaram
Deuses sábios e omnipotentes…”
São Ludovino, 6/10/2023
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