quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Antigas - XIX


COLECÇÕES

 
Conheço crianças
que não têm cão.
E também conheço cães
que não têm criança
para purificar ou levar a vadiar,
para lembrar ao entardecer,
para reencontrar ao amanhecer.
Não têm uns olhos contentes e frescos
para mergulhar e saberem todos os dias que estão vivos
— a suprema bênção —.
Passam os dias olhando as nuvens
e vêem a criança que não têm
nem desce nunca à sua rua.
Nada cai daquelas nuvens,
nenhuma criança espreita do  horizonte,
nem sete nem uma,
nenhuma,
apenas poeira e gotículas de miragens antiquíssimas.

Andam sempre por aí
de olhos grandes
sozinhos e cheios de lonjura
como desejos insaciáveis
ou lembranças de um dia plenamente feliz.

Uncollectable I, photography by São Ludovino.
E há falsas crianças
vestidas de cetim ofuscantemente brilhante
percorrendo ruas e escadarias amplas onde os cães não passam.
Vendem calendários com ídolos bem coloridos
— quem quiser pode fazer a colecção completa —
estão mais na moda do que as caricas ou os pisa-papéis.
Vistas de perto bem se vê que não são crianças,
nunca se sentaram a contemplar as nuvens
nem conhecem o cheiro da terra acabada de cavar
ou a cor da madressilva que pende sobre as janelas das casas
onde os cães sem criança imaginam morar.

 Há colecções que não se mostram a ninguém.

Toda a gente as faz,
duma forma ou doutra.
Lá bem no fundo ninguém recusa a memória;
seria como deter o próprio rio em que se navega.
Todas as colecções relembram o passado e o futuro
e outros tempos que a cronologia não contém.
Quem poderia deitar fora um riso cristalino,
uma lágrima entre mil derramadas,
a folha seca sem par no livro interrompido,
o raio de sol único que entrou pela fresta da janela,
a brisa do poente, que gravou no peito, lado a lado,
a certeza tranquila de voltar sempre
e o êxtase de saber que nada se repete,
excepto talvez nestas humanas e infindáveis colecções
onde tudo se repete de forma exemplar e única,
inconfundível e inesquecível.
Em algumas colecções os cães servem de pisa-papéis
e as crianças são nuvens soltando as caricas da inesgotável garrafa do tempo…
Acabei neste instante de iniciar uma nova colecção:
a dos poemas que nunca escrevi…
que velhos e novíssimos são,
são a casa e a madressilva
onde habita um cão que encontrou a criança que procurava o seu cão…

Suy / São Ludovino, 28/3/1985



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