O FUNDO DA CHÁVENA CHINESA
PÓRTICO
Mesmo as que já não existem ou permanecem adormecidas algures.
A mesma palavra foi palavras diferentes em mentes diferentes
Soou ou gravou-se em múltiplas formas em múltiplos lugares e tempos.
A realidade gera palavras ou elimina-as pragmaticamente
O pensamento e o espírito conservam-nas a todas
Mesmo que o pensador tenha desaparecido há milhares de anos
Ou aguarde regressar vivo ao mundo através das palavras
Num tempo qualquer em que o espírito da existência do todo
Se reencontra com o fluir natural do pensamento de cada ser.
Se todos sentem, todos pensam
Se todos pensam, todos existem através das palavras
E pensar as palavras é provavelmente o primeiro e o último acto de união
Entre todos os seres pensantes e todos os seres pensados.
Se as línguas dividem e separam, também unem
Suscitam a busca, a curiosidade, o desejo de descobrir a alma
Ou outra face da alma num corpo desconhecido.
Como seres incompletos, as palavras de cada língua redescobrem-se
Na língua dos outros, mesmo que não haja similitude na identidade.
Em contacto com o estranho, renova-se o sentido, revê-se
Funde-se de modo indistinto ou regressa ao sentido original.
Mas qual é o sentido original?
O que foi acrescentado ou amputado?
O que é semelhante e díspar, se as mentes são díspares?
Às vezes, de um pensamento decomposto
Nem sequer restam palavras ou vozes reconhecíveis.
Às vezes, as partes não formam um todo coerente e contínuo
Formam um caminho entrecortado entre cada interrogação
E cada possibilidade de resposta…
E o tempo e o espaço, todos os tempos e todos os espaços
Abarcam todas as possibilidades…
A mais pequena história, a mais ínfima memória
O mais impenetrável relato, a mais clara confissão
Todos os retalhos de realidade ou ficção
Contribuem para compreender e construir o mundo
Todos os mundos que o universo pode conter…
Mas quem poderia abarcar tudo isso
Se nem a Humanidade pode compreender-se a si mesma?
Cada um permanece só na sua compreensão relativa
Ou dilui-se na corrente de um rio que não sabe onde nasceu
Por que corre, para onde corre, mas corre, corre como vê correr
Neste ou naquele sentido sem nunca encontrar a razão ou o sentido
Que conduz os passos e o pensamento
Que abre ou fecha o caminho...
Ocean of stars, photography by São Ludovino.
I – PRELÚDIO
A palavra exacta existe, assusta, interpela
Distingue a verdade da mentira
Carrega a responsabilidade de ser fiel
Mostra o verso e o reverso de uma só vez.
Para aliviar o espírito do peso da verdade
Ou proteger a penumbra da luz que revela
Procura-se antes a palavra incerta ou figurada
Que deixa o campo aberto ao poder de imaginar
Que cria a ilusão de que a realidade pode ser refeita ou apagada
Ou revela simplesmente a impotência ou a recusa em compreender
Em dizer aquilo que se pensa deveras…
Ainda assim, não há palavra incerta que não transporte em si uma partícula
Da palavra exacta, calada, oculta, só, perdida, esquecida…
Por isso, eu escuto e tento compreender os lamentos e as celebrações
Dos que falam e dos que se calam com a mesma dor
A mesma veemência, a mesma certeza ou a mesma suspeita
De que não é possível traduzir o mundo em palavras…
…
Um pássaro negro na
noite
Às vezes não é possível
Dizer a palavra incerta
Que traduz com plena sinceridade e limpidez
As arestas do mundo
A humana sensação de duvidar e acreditar
No vislumbre poliédrico da vida.
O olhar dilui-se na realidade
Como um pássaro negro na noite
E as coisas banais a todos os olhos deixam de o ser…
Enquanto Godot espreita
das estrelas
A incongruência dos aglomerados de vozes
Nas filas de ruídos e letras redundantes
Os montes desertos do alheamento cosmopolita
O metropolitano que atravessa com anestesia as veias
Das areias em queda livre
No cerne da ampulheta impossivelmente humana
Ao redor de copos antigos, vazios
Nos largos cinzentos repletos de bancos de espera
E Godot, que não vem, espreita das estrelas…
O insondável peito do
mundo
Mas quem poderá desnudar a semântica civilizacional
Esta existência sempre fictícia?
É sempre inefável a escrita
Que coroa a nossa convivência com o absurdo
Um imenso colar de pérolas diáfanas e deslumbrantes
Pendendo sobre o insondável peito do mundo
Uma paleta de cores indesmentíveis
Um trapézio de perigo irrecusável
E ainda assim, assistir ao rolar dos dados
Como se fossem esferas de cristal
Vogando num doce acaso
Pelo tranquilo labirinto do cosmos da grande alma…
Às vezes a imaginação
vale mais que mil palavras
Às vezes, não há metáforas
Não há nada por trás dos panos
Dos polípticos, dos biombos
Percorrem-se os bastidores
E o silêncio atordoado
De infinitas deixas e ecos.
Às vezes, a afasia é total
Não há símbolo novo e original
Que a cure e lhe dê voz
Às vezes, é preciso esquecer que tudo já foi dito
E reiniciar o solilóquio e a caminhada pelo deserto…
Às vezes, só as palavras importam
Pouco importa o que se diz ou o que se procura
Por entre os véus de plumas, a mascarilha do herói
A rosa vermelha de Dulcineia
O cutelo, a ceia, sempre a última
A janela, sempre semi-aberta
O jarro das flores, a madrugada, as musas
O cálice, o corpo, o sangue, a fragilidade
Os dados, a febre, a brancura, a sabedoria
O horizonte, a morte, a paixão
A Metáfora Absoluta
A ponte lúcida para a outra miragem.
Pouco importa que jamais se desfaça e nunca se traduza
Porque este é o reino de todas as ilusões…
II – PERSISTÊNCIA
Cada ecoar de passos assemelha-se a uma fé perdida
Cada vulto pintado no tecto altíssimo, a sombra
Agora apenas caricatura descolorida
De um deus deixado perdido na infância
Cada fragmento, um quebra-cabeças de contradições
Um elo relembrado sempre de maneira diferente
Uma centelha fugidia nos confins da alma.
Às vezes é preciso morrer em cada instante
Para encontrar o rubi perfeito
Para percorrer os labirintos da humana dimensão
E carregar para o limiar da luz apenas os tesouros puros
Os únicos e inimitáveis
Os prisioneiros anónimos da sombra.
Às vezes não há palavras que bastem
Para tornar real e eterna tanta irrealidade.
Lá no fundo somos insubmissos crentes
Mas nos altares do saber
A tranquilidade arde interminavelmente
E os tronos do poder enviam os seus agentes camaleões
Aos lugares mais inesperados.
Somos prisioneiros da nossa sociabilidade
Humildes servidores e cruéis carrascos
Da sobrevivência comum.
Às vezes nada é possível
Excepto ser in-diferente
Secretamente
Seguir os solitários átomos da verdade
Serenamente
Ser uma ovelha negra ou um lobo branco
Em perpétua transumância
Pelas margens da vulgaridade.
Às vezes tudo o que crio ou invento
São apenas nenúfares vogando sobre o lago dos flamingos
Um diadema de obsessões irrepetíveis
Colinas peregrinas
Que dão um leve relevo
À imperturbável lisura do mundo.
Pelas encostas as palavras escorregam como lava
Vão formando ilhas indescobertas
Erguendo os pilares de novas invenções.
Às vezes o mundo fica tão pequeno e geométrico
Tão resignado e previsível
E eu sei, de novo, que estou realmente do outro lado
Deambulando sem espera pelo cerne de cada aqui
Estou realmente sozinha
Como as palavras adormecidas
Num pergaminho antiquíssimo
Como as palavras de um poeta
Que a humanidade nunca leu.
Mas tenho a certeza de que o ermita nunca está só:
Não há unidade sem dualidade.
A mão vazia toca o silêncio
E transborda de plenitude.
O coração eleva-se até ao infinito
Nas asas das aves e encontra o divino.
A memória compõe sinfonias de retalhos
E redescobre a voz perdida.
O amor sopra por entre as ervas
E o diálogo interminável é retomado.
Tudo compreendo com minúcia
Tranquilamente descontente.
Caem as cortinas e as fronteiras
E as peregrinações intermináveis da vida adormecida
Não cessam de entrecortar o meu sossego.
Reconheço os rostos de todos os transeuntes
Já nos encontrámos em muitas histórias
Dessas que o mundo tece e entrelaça
Para desenfado dos longos anos de demanda
Inconsequente sem laço nem desenlace.
Colecciono as pétalas caídas do céu
Estendo o meu tapete de veludo pelas ruas
As mesmas ruas de sempre
Em busca de detalhes e preciosidades
Tão banais como inesquecíveis.
Sem esforço, o olhar descobre a singularidade
E as veredas dos dias parecem realmente outras.
Daqui destas alamedas intermináveis
Destes miradouros ubíquos
Quase tudo faz sentido
Quase tudo é dizível.
Há dias em que apenas apetece escrever
Poemas herméticos
Fugazes e imperfeitos
Repetir palavras espontâneas
Associações inesperadas
Dar voz às teimosas revelações do nonsense:
“Sempre o Grande Tentador
Caminhando na berma do negrume;
Ser quase a lança
Quase a coragem
Quase contorno da nova forma.
E a centelha acende-se nos confins da viagem
Apaga o medo, apaga o vulto, apaga a escuridão.
Transfiguram-se as sombras em rosas brancas
E a lucidez perde os espinhos.
Porém as feras permanecem nas suas tocas
Calçando luvas de veludo
Polindo as armaduras
Congeminando planos
Escrevendo manifestos
Justificando os meios.
Estamos frente a frente
Aparentemente sós
Com propósitos aparentemente iguais
Contudo as nossas crenças têm fundamentos
Que em nada se parecem.
A batalha recomeça num ponto qualquer da página
Pergunta após pergunta
Palavra após palavra
Lança após lança
A fera cai, eu caio
Levanto-me
Chego à outra página
Sobrevivo
Ganhei a palavra
A palavra levou-me
Para outra página
Para um novo princípio
Ou um apeadeiro onde não param palavras…
Mais uma vez é tudo uma questão de tudo ou nada.
Como sempre as aparências iludem;
As verdadeiras vinganças são íntimas e secretas
Não derramam sangue
Não apelam à justiça dos homens
― Essa é sempre relativa e incompleta ―
A justiça começa antes das palavras
Só é consumada quando elas já não são necessárias.
As mãos arrancam lentamente as máscaras
À procura do monstro
A face negra da verdade
E depois coloca-se o monstro frente ao espelho
A sós com a sua cobardia
A sós com a sua mentira
O seu nada
A sua inexistência.
Contudo, nunca se confunda esta verdade
Que se descobre num recanto do covil
Com aquela que desnuda a fera
E ilumina a caverna.
Esta mora na nascente de Nair e nas montanhas de Éolo
Na persistência das estações e no amor a tudo o que é puro.
Nunca se confunda a fraqueza com a fragilidade
A altivez com a determinação
A purificação com a pureza.
O que é puro não é imitável
Mas é atingível se a matriz já contém a semente.
Antes de tudo e depois de tudo
É sempre a pureza que conta
Sempre, sempre, sempre.
Por muitos que caiam
Por muitos que se percam
São sempre os puros os cavaleiros da luz
Os apaziguadores deste absurdo universal:
O Bem vence sempre o Mal
Mas nunca para sempre.
Talvez o Salvador nem sequer tenha abandonado nunca o Mundo
Talvez ande por aí
Repartido por esses corações transparentes
Esses seres anónimos e persistentes…”
Às vezes as palavras definitivas
Como “tudo” e “nada”, “sempre” e “nunca”
Dizem só por si todo o sentido
Ou ausência de sentido
Do diálogo de surdos
Dos éditos mudos
Da própria respiração da vida.
O sentido não existe inteiro em nada
O sentido da vida não pode ser inteiramente abarcado
Não é suportável, não é condensável, não é transmissível.
Se o compreendemos agora
Preferimos esquecê-lo no segundo seguinte
Para prosseguirmos em sossego os amados devaneios
Ou retocar o semblante altivo da esfinge
Que enterramos compassivamente na areia escaldante.
Às vezes, abrimos os braços de par em par
Como amplas janelas
E deixamos entrar todos os enigmas.
Abraçamos cada palavra
Como membros insubstituíveis da família
Como se as palavras fossem a única salvação possível
Que nos resta na bagagem da alma.
E é assim que somos felizes
Dissolvidos no mais íntimo dos nossos léxicos.
E clamamos e repetimos:
Felizes somos nós
Que existimos mais por dentro do que por fora!
Felizes somos nós que acreditamos mais nos poemas
Nas histórias e na anima das palavras
Do que nos catecismos da civilização
Sempre impotente, inacabada!
Felizes somos nós que podemos conversar
Sobre tudo e sobre nada
Sem nos sentirmos ridículos intrusos!
Felizes somos nós que descobrimos enigmas
E os resolvemos a nosso contento
Sem fórmulas nem truques nem falsidades!
Felizes somos nós que conservamos no coração
O alento do amor e da imaginação!
Às vezes, “sempre” é uma tempestade tropical
Revolve por dentro as folhas secas de todas as eras
Agita a infinita espiral que tudo une
Amaina e adormece com os passos lentos do crepúsculo
Para que amanhã o céu seja ainda mais luminoso
E azul, profundamente azul…
Definitivamente
A única coisa que possuímos com legítima propriedade
São as palavras e os pensamentos que as antecedem
E acompanham fielmente.
Só elas persistem
Mesmo que jamais as pronunciemos.
A estrutura semântica da vida e do Universo
Ainda não foi descoberta
Aguarda ainda ser cantada
Com limpidez e perplexidade
Por algum desses vates imaculados
Que o anonimato e o tempo encerram
Na sua concha fechada…
E as vozes do presente.
Alguns param, olham e escutam
A brisa que fala e canta através dos tempos.
O templo pode ter ruído ou ter sido devorado
Pelas hordas bárbaras que perecem sempre
Porque nunca deixam de ser bárbaras
Mas os códigos continuam intactos
E a exegese prossegue através das eras
E das vidas que atravessam o tempo.
Às vezes uma bailarina rodopia nas mãos de um gigante
Tropeça na linha da vida e cai a pique sem deixar rasto.
Nesse mesmo instante, o gigante desaparece.
No chão fica um minúsculo miúdo
Que olha sempre para cima sem saber porquê…
Ontem e hoje não são partículas mesuráveis
Do tempo ou da vida.
Ontem estive aqui, hoje estou aqui, amanhã estarei aqui
Mesmo que já não esteja aqui
Mesmo que nunca tenha estado aqui.
Se me senti aqui estive aqui.
Estar aqui é estar vivo por dentro.
É aqui que ontem e hoje se confundem
Com partículas preciosas do acaso
Passado e presente
Habitam na memória e nos desejos
Indistintamente, reciprocamente.
Deixam hieróglifos gravados nos corpos e nas almas
E estão sempre muito felizes
Num recanto da nossa casa
Sentados no nosso sofá favorito
Bebendo o néctar da vida.
Libertada do mito, a ninfa busca um bosque secreto e inumano
Onde tece as palavras viscerais com que coroa o belo e o absurdo
Até os tornar no mais belo dos pastores.
Depois olham-se
E ele sabe e ela sabe
Que ele não deixou de ser quem era
Neblina, mito, possibilidade
Mas ela pode ser quem ele é também
Ser imaginado e materializado.
Por instantes o pensamento toca o eterno
Pensa o novo num velho corpo
Pensa o eterno num corpo finito
Pensa a finitude num corpo eterno e incorruptível
Sentir a eternidade num espírito em construção.
Foi entre as colunas de Delfos que descobri o erro de Sísifo:
Tentou levar a pedra até ao cume da montanha
Quando devia transformar-se em íbex
E viver no cimo da montanha
Entre as pedras, as ervas e as estações.
As pedras rolam naturalmente do alto das montanhas
Vão-se repartindo e polindo lentamente
Tornam-se poeira leve a caminho de outro estado
Inscrito no estado inicial.
Esta é a chave: fidelidade e transformação
É a vida e é a morte.
E cada vida terá de conter muitas mortes
Para que a vida seja vida e a morte visão.
Porém, às vezes, a vida é só uma:
Demasiado finita, demasiado eterna
O rio que passa e o oceano que permanece
A união e a distância de ter e não ter, ser e não ser.
E Eros e Tanathos deixam de se distinguir
Eros veste-se de azul
E Tanathos de anil
Caminham inseparáveis pelas deslumbrantes ilhas
Da finitude e da consciência
Abismo e paixão acordam e adormecem
Ao redor da mesma fogueira
Na mesma Finisterra antiga.
Sobre a areia deixam os estigmas da sua passagem
Das suas dores e do seu êxtase
Ideogramas, poemas e castelos de cristal
Mitos que antecedem a vida e perduram
Para lá do caminho e da viagem…
Eros e Tanathos abraçam a pitonisa e segredam-lhe:
“A noite cai com a madrugada na alma.
A madrugada cresce com a noite no peito.
A cada um o seu reino.
A cada vontade os seus caminhos.
Cumpra-o quem o puder cumprir.
Mostrai-me um reino sem vontade
E eu dir-vos-ei que não passa de um rio que perdeu a foz
Um minúsculo traço num mapa sem Norte.
Mostrai-me um reino sem caminhos
E eu dir-vos-ei que esse reino ainda não nasceu.
Mostrai-me uma vontade sem reino nem caminhos
E eu mostrar-vos-ei uma galáxia imóvel.
Contudo, nada posso ensinar-vos
Que não queirais aprender
Ou não exista já em vós.
Tudo o que sei são aforismos e analectos
Que nunca deveis generalizar:
Como o sábio não liga com o riso daninho
O rio gelado não liga com a ilha luminosa;
Não há dor que não seja eterna
Nem sonho que não seja antigo;
Ter fé é ter o poder da re-invenção
E perdê-la é ficar cego e só;
Com o frio, o olhar perde o rumo e o horizonte
Perde a rosa abandonada aos ventos;
Quando subires o penhasco olha de frente o precipício
E algures lá no fundo encontrarás a Fénix
A união perfeita da memória com o esquecimento;
A angústia nunca rondou os caminhos de Aspásia
Era livre sem saber nem querer
Contudo a vida foi-lhe traiçoeira
E fora do seu reino nem sequer existiu;
Guarda a sede
Lá onde ela nasce
Cada sede contém em si
A sua própria saciedade
E amanhã, quiçá, da tua nascente
Nascerá a saciedade antes da sede;
Não te iludas porém:
Sem sede a alma morre imóvel e estéril…”
A pitonisa deixa-se abraçar pela voz
E ouve com todos os sentidos
E a memória de sucessivas eras:
“Quantas vezes Eolo te chamou
E te levou pela mão até ao Templo Cintilante?
Não sabes, mas sabes que ele sabe
Porque ele sabe sempre de ti
E dos destinos que vives e revives
Fazes e desfazes em fios de seda
E ele ilude e recomeça.
O que te impele vai à frente
Mesmo que penses que vai atrás.
Fica e parte, cumpre e desafia
Repousa e prossegue
Rodopia e eleva-te acima da tua finitude.
Adormece na neblina e acorda na claridade.
Descobre os mundos
Que dou ao mundo que a vida me dá
Em órbita à volta do Insondável
À volta de tudo em mim.”
E a pitonisa lembra e conta
Desfia o novelo e tece o texto interminável:
“Pairo e regresso ao Planalto de Krimson
E de vez em quando os pássaros voltam e vão
E a água que bebo espelha a lua de cristal
Onde se senta Gilaia baloiçando as pernas
Como nos retratos antigos.
Nascia lentamente do mistral e da neblina
Com um ramo de jasmim nas mãos
Incomparável de símbolos e profecias.
O que vem à frente teve início lá atrás.
Sem saber, as histórias imitam a ordem oculta do mundo.
Sem saber, tudo o que vive repete o que foi vivido
Recompõe, reinventa e acrescenta vida à vida.
Personagem recorrente, reflecte a aspiração comum
Coexiste risonha com cada página seguinte
Com todos os mundos que o mundo contém
Vagueando de história em história
Como quem é intocável e pura e perene.
Experimentando todos os mistérios
Vai conhecendo todos os seres imagináveis
Permite-me que seja eu também,
Imaginável e real.
Nesta roda cabe tudo
Cabem todos os que vêm por bem
Todos os que vivem honrando a vida.
Aqui, nunca desperdiçamos o tempo
Usufruímos dos segundos e dos milénios
Com a mesma intensidade.
Sabemos o valor dessa dedicação
Nela reside a dimensão alquímica da consciência
Fielmente desperta
Para o fluir e o voltear do tempo.
Não recebo ordens nem de deuses nem de humanos
Recebo revelações de tudo o que existe.
Desenho minuciosamente o mapa do mundo finito
Sabendo que não passa de um esboço dos outros mundos
Em que vivo no cerne da verdade
Mundos que a imprescindível loucura concede à lucidez.
Sonho para não enlouquecer deveras
Vivo para sonhar e persistir.
Às vezes o desconhecido descobre o seu rosto
E olha-nos de frente
Com olhos repletos de enigmas e fadiga
Aperta com suavidade a mão aos transeuntes das estrelas
E entrega um pedaço de si às mãos vazias.
Que prece é aquela que se lhe adivinha
No rosto fugidio
No oráculo de silêncio que nos atravessa o peito?
Quem espera por quem afinal?
Que anseios seus não sabemos adivinhar?
Que solidão a dos mistérios
Com que não soubemos ainda encontrar-nos!
O negro cosmos estende a sua longa capa
E olha com olhos eternos as idades do mundo
Segue com o olhar os nossos passos circulares
Que lhe contornam os recantos
Para sempre secretos.
Mas às vezes o negro volta a capa ao contrário
E um outro enigma
Uma luz ou ilusão de luz
Ilumina as portas que se abrem
À sede incerta e insaciável da Humanidade
À demanda de cada olhar ímpar
De cada mão estendida para dentro da alma.
Sê como o cosmos
Reconhece-te no desconhecido
Afaga o manto negro e luminoso que cobre cada cérebro
A pérola aprisionada nas entranhas do ciclope.
Às vezes avista-se um archote aceso
Ao longe
Na estrada
E é já noite
O horizonte apaga-se
E a única companhia é a voz
Profunda
Do tempo
Dos instantes escoando-se
Os ecos das canções de Nair e Éolo
O sussurro do mar adormecendo os lobos mansos.
Às vezes todo o rasto de memória se dilui
A obra concluída extingue-se
Todas as provas de que estamos vivos se tornam (in)suficientes
É preciso recomeçar tudo de novo
Dizer e fazer tudo de modo inesquecível
É preciso que nos tornemos oráculos
E os deuses não esqueçam as nossas vozes.
Talvez nos escutem numa dessas noites estreladas
Em que nós nos sentimos mais eternos do que humanos
E eles mais abandonados do que sós / nós.
Talvez a consciência do que somos
Não passe de uma estrela cadente
E a memória do que fomos
Se encontre com o que seremos
Num qualquer elo da espiral.
Às vezes releio “Sonolência ao Meio-Dia em Klovistátia”
E pergunto-me se aquele lugar, aquela gente, aquele meio-dia
Teriam tido alguma vez algum significado preciso.
Klóvis fundou Klovistátia involuntariamente, escrevendo.
Os académicos, os iletrados e os burocratas
Roubaram-lhe a metáfora de si mesmos
E refundaram a sua falsa utopia porque não eram capazes
De conceber nenhuma verdadeira.
Decretam o trabalho ininterrupto como forma de manter
A ordem estática e irrevogável em constante execução…
Quanto mais adormecidos mais trabalham e obedecem…
Os servidores participam na decisão que os tornará escravos…
Klóvis é o único que se salva
Nunca se transformou em metáfora nem dogma
Abandonou Klovistátia antes de ser criada…
Klóvis não se chamava Klóvis
Nem contou a sua história
Contou apenas a história de um lugar imóvel
Onde tudo se repete ininterruptamente…
Assim, as ideias e as ficções transformam-se em realidades
À revelia de quem as pensou…
Pergunto-me por que insisto nesta mancha gráfica sinuosa
Por que tem tudo o que escrevo esta forma de poema interminável
Mesmo os escritos mais minúsculos…
Por isso canto e conto histórias
Sei que tudo são histórias
Contá-las-ei até ao fim dos tempos…
Mesmo que nunca houvesse nada de novo sob o Sol
Mesmo assim valeria a pena desafiar essa lisura
Pois que tudo é o que os olhos virem
E os corações sentirem.
Mesmo aqueles que nunca buscaram o divino
O vislumbram e escutam de vez em quando.
Os oráculos estão em todo o lado
E em todas as mentes
Aguardam ser compreendidos ou reinventados
À medida de cada alma e cada demanda.
Desta vez o Messias era Ela
E Ele o Impuro.
E ela disse-lhe:
“Sou constante e insatisfeita:
Eis a minha perdição…
Sou pura e incorruptível:
Essa é a minha maldição…
Tenho uma fé imensa na minha fragilidade
Por isso estou só no Universo.
Passo os dias a iluminar os caminhos dos dias comuns
Comuns como eu, como tudo o que se reconhece.
Em mim, em ti, em todos, nada acontece em vão
Tudo tem um propósito.
Contudo, não tenho nada de sobre-humano ou irreal
Ninguém me toca, ninguém me apanha
Só isso.
Sou veloz nos meus sonhos
Desvaneço-me por entre as gotas da chuva
Como se nunca tivesse estado aqui.
Às vezes deito-me sob uma árvore
E penso em pessoas como tu.
Vejo-vos confusos e assustados
Em busca de um salvador tangível e intangível
Sem saber para onde ir ou o que fazer…”
Ele interrompeu-a e perguntou-lhe:
“Mas o que fazer, então…?”
“O importante é saber ver
E saber escolher…
Olha bem para dentro dos meus olhos
Eu já escolhi:
O Bem e o Mal hibernam tranquilamente
Na mesma gruta…
Olha-os apenas
Mas não lhes toques.
Eu posso olhá-los de frente
Porque em mim o Bem acorda sempre antes do Mal.
Tu ainda não os podes distinguir
Por isso não lhes toques
Deixa-os dormir
Adormece-os também dentro de ti…
O salvador vive repartido por todos os seres bons
São eles que o mantêm vivo e presente.
O amor verdadeiro é o sinal desta verdade.
Do amor provém sempre o Bem
Do Mal provém tudo o que mata o amor e a luz.
Que o amor te guie dentro de ti!”
E Ele disse: “Agora percebo
Por que não vivi um só dia
Até hoje…”
E separaram-se ficando juntos para sempre.
A partilha de existir abre as portas a todas as maravilhas
Todos os medos e todas as interrogações.
O que tem medo sabe-se perseguido
Reconhece o mal oculto
Olha-o de frente e não desiste.
O que interroga está sempre só
No momento em que interroga
Dissolvido no mundo e no todo
E espanta-se como eterna criança.
Entre o medo e a interrogação
A luz permanece e renasce.
O espanto é um sinal da persistência da luz
E da inocência primordial.
Às vezes o espanto parece apenas a flor
Prestes a nascer
A folha prestes a cair
O olhar sereno sobre o mar
O poema inconcebido
O acaso mais insignificante que nunca é por acaso.
E eu sento-me num dos braços de Jessé
E fico a contemplar a vida
Que deixa o mundo andar-lhe afadigado pelas ruas
Deambular pelas florestas desconhecidas
Entreter-se com os seus jogos de espelhos
Mirar de relance a pedraria dos seus olhos preciosos
Perder-se nos mapas antiquíssimos
E adormecer, sem dar por isso, no seu regaço.
Olha, lá vai mais um corpo celeste!
Às vezes não sei quem é o cometa:
A vida, o mundo ou eu…
Nem sei que palavras podem traduzir o espanto
E mantê-lo vivo, inteiro e intocado…
Com aquela que desnuda a fera
E ilumina a caverna.
Esta mora na nascente de Nair e nas montanhas de Éolo
Na persistência das estações e no amor a tudo o que é puro.
Nunca se confunda a fraqueza com a fragilidade
A altivez com a determinação
A purificação com a pureza.
O que é puro não é imitável
Mas é atingível se a matriz já contém a semente.
Antes de tudo e depois de tudo
É sempre a pureza que conta
Sempre, sempre, sempre.
Por muitos que caiam
Por muitos que se percam
São sempre os puros os cavaleiros da luz
Os apaziguadores deste absurdo universal:
O Bem vence sempre o Mal
Mas nunca para sempre.
Talvez o Salvador nem sequer tenha abandonado nunca o Mundo
Talvez ande por aí
Repartido por esses corações transparentes
Esses seres anónimos e persistentes…”
Às vezes as palavras definitivas
Como “tudo” e “nada”, “sempre” e “nunca”
Dizem só por si todo o sentido
Ou ausência de sentido
Do diálogo de surdos
Dos éditos mudos
Da própria respiração da vida.
O sentido não existe inteiro em nada
O sentido da vida não pode ser inteiramente abarcado
Não é suportável, não é condensável, não é transmissível.
Se o compreendemos agora
Preferimos esquecê-lo no segundo seguinte
Para prosseguirmos em sossego os amados devaneios
Ou retocar o semblante altivo da esfinge
Que enterramos compassivamente na areia escaldante.
Às vezes, abrimos os braços de par em par
Como amplas janelas
E deixamos entrar todos os enigmas.
Abraçamos cada palavra
Como membros insubstituíveis da família
Como se as palavras fossem a única salvação possível
Que nos resta na bagagem da alma.
E é assim que somos felizes
Dissolvidos no mais íntimo dos nossos léxicos.
E clamamos e repetimos:
Felizes somos nós
Que existimos mais por dentro do que por fora!
Felizes somos nós que acreditamos mais nos poemas
Nas histórias e na anima das palavras
Do que nos catecismos da civilização
Sempre impotente, inacabada!
Felizes somos nós que podemos conversar
Sobre tudo e sobre nada
Sem nos sentirmos ridículos intrusos!
Felizes somos nós que descobrimos enigmas
E os resolvemos a nosso contento
Sem fórmulas nem truques nem falsidades!
Felizes somos nós que conservamos no coração
O alento do amor e da imaginação!
Às vezes, “sempre” é uma tempestade tropical
Revolve por dentro as folhas secas de todas as eras
Agita a infinita espiral que tudo une
Amaina e adormece com os passos lentos do crepúsculo
Para que amanhã o céu seja ainda mais luminoso
E azul, profundamente azul…
Definitivamente
A única coisa que possuímos com legítima propriedade
São as palavras e os pensamentos que as antecedem
E acompanham fielmente.
Só elas persistem
Mesmo que jamais as pronunciemos.
A estrutura semântica da vida e do Universo
Ainda não foi descoberta
Aguarda ainda ser cantada
Com limpidez e perplexidade
Por algum desses vates imaculados
Que o anonimato e o tempo encerram
Na sua concha fechada…
Suy / São Ludovino, 3/2/1990
III – DELFOS
Existe uma fresta no tempo
Entre as colunatas antigasE as vozes do presente.
Alguns param, olham e escutam
A brisa que fala e canta através dos tempos.
O templo pode ter ruído ou ter sido devorado
Pelas hordas bárbaras que perecem sempre
Porque nunca deixam de ser bárbaras
Mas os códigos continuam intactos
E a exegese prossegue através das eras
E das vidas que atravessam o tempo.
Às vezes uma bailarina rodopia nas mãos de um gigante
Tropeça na linha da vida e cai a pique sem deixar rasto.
Nesse mesmo instante, o gigante desaparece.
No chão fica um minúsculo miúdo
Que olha sempre para cima sem saber porquê…
Ontem e hoje não são partículas mesuráveis
Do tempo ou da vida.
Ontem estive aqui, hoje estou aqui, amanhã estarei aqui
Mesmo que já não esteja aqui
Mesmo que nunca tenha estado aqui.
Se me senti aqui estive aqui.
Estar aqui é estar vivo por dentro.
É aqui que ontem e hoje se confundem
Com partículas preciosas do acaso
Passado e presente
Habitam na memória e nos desejos
Indistintamente, reciprocamente.
Deixam hieróglifos gravados nos corpos e nas almas
E estão sempre muito felizes
Num recanto da nossa casa
Sentados no nosso sofá favorito
Bebendo o néctar da vida.
Libertada do mito, a ninfa busca um bosque secreto e inumano
Onde tece as palavras viscerais com que coroa o belo e o absurdo
Até os tornar no mais belo dos pastores.
Depois olham-se
E ele sabe e ela sabe
Que ele não deixou de ser quem era
Neblina, mito, possibilidade
Mas ela pode ser quem ele é também
Ser imaginado e materializado.
Por instantes o pensamento toca o eterno
Pensa o novo num velho corpo
Pensa o eterno num corpo finito
Pensa a finitude num corpo eterno e incorruptível
Sentir a eternidade num espírito em construção.
Foi entre as colunas de Delfos que descobri o erro de Sísifo:
Tentou levar a pedra até ao cume da montanha
Quando devia transformar-se em íbex
E viver no cimo da montanha
Entre as pedras, as ervas e as estações.
As pedras rolam naturalmente do alto das montanhas
Vão-se repartindo e polindo lentamente
Tornam-se poeira leve a caminho de outro estado
Inscrito no estado inicial.
Esta é a chave: fidelidade e transformação
É a vida e é a morte.
E cada vida terá de conter muitas mortes
Para que a vida seja vida e a morte visão.
Porém, às vezes, a vida é só uma:
Demasiado finita, demasiado eterna
O rio que passa e o oceano que permanece
A união e a distância de ter e não ter, ser e não ser.
E Eros e Tanathos deixam de se distinguir
Eros veste-se de azul
E Tanathos de anil
Caminham inseparáveis pelas deslumbrantes ilhas
Da finitude e da consciência
Abismo e paixão acordam e adormecem
Ao redor da mesma fogueira
Na mesma Finisterra antiga.
Sobre a areia deixam os estigmas da sua passagem
Das suas dores e do seu êxtase
Ideogramas, poemas e castelos de cristal
Mitos que antecedem a vida e perduram
Para lá do caminho e da viagem…
Eros e Tanathos abraçam a pitonisa e segredam-lhe:
“A noite cai com a madrugada na alma.
A madrugada cresce com a noite no peito.
A cada um o seu reino.
A cada vontade os seus caminhos.
Cumpra-o quem o puder cumprir.
Mostrai-me um reino sem vontade
E eu dir-vos-ei que não passa de um rio que perdeu a foz
Um minúsculo traço num mapa sem Norte.
Mostrai-me um reino sem caminhos
E eu dir-vos-ei que esse reino ainda não nasceu.
Mostrai-me uma vontade sem reino nem caminhos
E eu mostrar-vos-ei uma galáxia imóvel.
Contudo, nada posso ensinar-vos
Que não queirais aprender
Ou não exista já em vós.
Tudo o que sei são aforismos e analectos
Que nunca deveis generalizar:
Como o sábio não liga com o riso daninho
O rio gelado não liga com a ilha luminosa;
Não há dor que não seja eterna
Nem sonho que não seja antigo;
Ter fé é ter o poder da re-invenção
E perdê-la é ficar cego e só;
Com o frio, o olhar perde o rumo e o horizonte
Perde a rosa abandonada aos ventos;
Quando subires o penhasco olha de frente o precipício
E algures lá no fundo encontrarás a Fénix
A união perfeita da memória com o esquecimento;
A angústia nunca rondou os caminhos de Aspásia
Era livre sem saber nem querer
Contudo a vida foi-lhe traiçoeira
E fora do seu reino nem sequer existiu;
Guarda a sede
Lá onde ela nasce
Cada sede contém em si
A sua própria saciedade
E amanhã, quiçá, da tua nascente
Nascerá a saciedade antes da sede;
Não te iludas porém:
Sem sede a alma morre imóvel e estéril…”
A pitonisa deixa-se abraçar pela voz
E ouve com todos os sentidos
E a memória de sucessivas eras:
“Quantas vezes Eolo te chamou
E te levou pela mão até ao Templo Cintilante?
Não sabes, mas sabes que ele sabe
Porque ele sabe sempre de ti
E dos destinos que vives e revives
Fazes e desfazes em fios de seda
E ele ilude e recomeça.
O que te impele vai à frente
Mesmo que penses que vai atrás.
Fica e parte, cumpre e desafia
Repousa e prossegue
Rodopia e eleva-te acima da tua finitude.
Adormece na neblina e acorda na claridade.
Descobre os mundos
Que dou ao mundo que a vida me dá
Em órbita à volta do Insondável
À volta de tudo em mim.”
E a pitonisa lembra e conta
Desfia o novelo e tece o texto interminável:
“Pairo e regresso ao Planalto de Krimson
E de vez em quando os pássaros voltam e vão
E a água que bebo espelha a lua de cristal
Onde se senta Gilaia baloiçando as pernas
Como nos retratos antigos.
Nascia lentamente do mistral e da neblina
Com um ramo de jasmim nas mãos
Incomparável de símbolos e profecias.
O que vem à frente teve início lá atrás.
Sem saber, as histórias imitam a ordem oculta do mundo.
Sem saber, tudo o que vive repete o que foi vivido
Recompõe, reinventa e acrescenta vida à vida.
Personagem recorrente, reflecte a aspiração comum
Coexiste risonha com cada página seguinte
Com todos os mundos que o mundo contém
Vagueando de história em história
Como quem é intocável e pura e perene.
Experimentando todos os mistérios
Vai conhecendo todos os seres imagináveis
Permite-me que seja eu também,
Imaginável e real.
Nesta roda cabe tudo
Cabem todos os que vêm por bem
Todos os que vivem honrando a vida.
Aqui, nunca desperdiçamos o tempo
Usufruímos dos segundos e dos milénios
Com a mesma intensidade.
Sabemos o valor dessa dedicação
Nela reside a dimensão alquímica da consciência
Fielmente desperta
Para o fluir e o voltear do tempo.
Não recebo ordens nem de deuses nem de humanos
Recebo revelações de tudo o que existe.
Desenho minuciosamente o mapa do mundo finito
Sabendo que não passa de um esboço dos outros mundos
Em que vivo no cerne da verdade
Mundos que a imprescindível loucura concede à lucidez.
Sonho para não enlouquecer deveras
Vivo para sonhar e persistir.
Às vezes o desconhecido descobre o seu rosto
E olha-nos de frente
Com olhos repletos de enigmas e fadiga
Aperta com suavidade a mão aos transeuntes das estrelas
E entrega um pedaço de si às mãos vazias.
Que prece é aquela que se lhe adivinha
No rosto fugidio
No oráculo de silêncio que nos atravessa o peito?
Quem espera por quem afinal?
Que anseios seus não sabemos adivinhar?
Que solidão a dos mistérios
Com que não soubemos ainda encontrar-nos!
O negro cosmos estende a sua longa capa
E olha com olhos eternos as idades do mundo
Segue com o olhar os nossos passos circulares
Que lhe contornam os recantos
Para sempre secretos.
Mas às vezes o negro volta a capa ao contrário
E um outro enigma
Uma luz ou ilusão de luz
Ilumina as portas que se abrem
À sede incerta e insaciável da Humanidade
À demanda de cada olhar ímpar
De cada mão estendida para dentro da alma.
Sê como o cosmos
Reconhece-te no desconhecido
Afaga o manto negro e luminoso que cobre cada cérebro
A pérola aprisionada nas entranhas do ciclope.
Às vezes avista-se um archote aceso
Ao longe
Na estrada
E é já noite
O horizonte apaga-se
E a única companhia é a voz
Profunda
Do tempo
Dos instantes escoando-se
Os ecos das canções de Nair e Éolo
O sussurro do mar adormecendo os lobos mansos.
Às vezes todo o rasto de memória se dilui
A obra concluída extingue-se
Todas as provas de que estamos vivos se tornam (in)suficientes
É preciso recomeçar tudo de novo
Dizer e fazer tudo de modo inesquecível
É preciso que nos tornemos oráculos
E os deuses não esqueçam as nossas vozes.
Talvez nos escutem numa dessas noites estreladas
Em que nós nos sentimos mais eternos do que humanos
E eles mais abandonados do que sós / nós.
Talvez a consciência do que somos
Não passe de uma estrela cadente
E a memória do que fomos
Se encontre com o que seremos
Num qualquer elo da espiral.
Às vezes releio “Sonolência ao Meio-Dia em Klovistátia”
E pergunto-me se aquele lugar, aquela gente, aquele meio-dia
Teriam tido alguma vez algum significado preciso.
Klóvis fundou Klovistátia involuntariamente, escrevendo.
Os académicos, os iletrados e os burocratas
Roubaram-lhe a metáfora de si mesmos
E refundaram a sua falsa utopia porque não eram capazes
De conceber nenhuma verdadeira.
Decretam o trabalho ininterrupto como forma de manter
A ordem estática e irrevogável em constante execução…
Quanto mais adormecidos mais trabalham e obedecem…
Os servidores participam na decisão que os tornará escravos…
Klóvis é o único que se salva
Nunca se transformou em metáfora nem dogma
Abandonou Klovistátia antes de ser criada…
Klóvis não se chamava Klóvis
Nem contou a sua história
Contou apenas a história de um lugar imóvel
Onde tudo se repete ininterruptamente…
Assim, as ideias e as ficções transformam-se em realidades
À revelia de quem as pensou…
Pergunto-me por que insisto nesta mancha gráfica sinuosa
Por que tem tudo o que escrevo esta forma de poema interminável
Mesmo os escritos mais minúsculos…
Por isso canto e conto histórias
Sei que tudo são histórias
Contá-las-ei até ao fim dos tempos…
IV – NOLI ME TANGERE
Mesmo assim valeria a pena desafiar essa lisura
Pois que tudo é o que os olhos virem
E os corações sentirem.
Mesmo aqueles que nunca buscaram o divino
O vislumbram e escutam de vez em quando.
Os oráculos estão em todo o lado
E em todas as mentes
Aguardam ser compreendidos ou reinventados
À medida de cada alma e cada demanda.
Desta vez o Messias era Ela
E Ele o Impuro.
E ela disse-lhe:
“Sou constante e insatisfeita:
Eis a minha perdição…
Sou pura e incorruptível:
Essa é a minha maldição…
Tenho uma fé imensa na minha fragilidade
Por isso estou só no Universo.
Passo os dias a iluminar os caminhos dos dias comuns
Comuns como eu, como tudo o que se reconhece.
Em mim, em ti, em todos, nada acontece em vão
Tudo tem um propósito.
Contudo, não tenho nada de sobre-humano ou irreal
Ninguém me toca, ninguém me apanha
Só isso.
Sou veloz nos meus sonhos
Desvaneço-me por entre as gotas da chuva
Como se nunca tivesse estado aqui.
Às vezes deito-me sob uma árvore
E penso em pessoas como tu.
Vejo-vos confusos e assustados
Em busca de um salvador tangível e intangível
Sem saber para onde ir ou o que fazer…”
Ele interrompeu-a e perguntou-lhe:
“Mas o que fazer, então…?”
“O importante é saber ver
E saber escolher…
Olha bem para dentro dos meus olhos
Eu já escolhi:
O Bem e o Mal hibernam tranquilamente
Na mesma gruta…
Olha-os apenas
Mas não lhes toques.
Eu posso olhá-los de frente
Porque em mim o Bem acorda sempre antes do Mal.
Tu ainda não os podes distinguir
Por isso não lhes toques
Deixa-os dormir
Adormece-os também dentro de ti…
O salvador vive repartido por todos os seres bons
São eles que o mantêm vivo e presente.
O amor verdadeiro é o sinal desta verdade.
Do amor provém sempre o Bem
Do Mal provém tudo o que mata o amor e a luz.
Que o amor te guie dentro de ti!”
E Ele disse: “Agora percebo
Por que não vivi um só dia
Até hoje…”
E separaram-se ficando juntos para sempre.
EPÍLOGO
A partilha de existir abre as portas a todas as maravilhas
Todos os medos e todas as interrogações.
O que tem medo sabe-se perseguido
Reconhece o mal oculto
Olha-o de frente e não desiste.
O que interroga está sempre só
No momento em que interroga
Dissolvido no mundo e no todo
E espanta-se como eterna criança.
Entre o medo e a interrogação
A luz permanece e renasce.
O espanto é um sinal da persistência da luz
E da inocência primordial.
Às vezes o espanto parece apenas a flor
Prestes a nascer
A folha prestes a cair
O olhar sereno sobre o mar
O poema inconcebido
O acaso mais insignificante que nunca é por acaso.
E eu sento-me num dos braços de Jessé
E fico a contemplar a vida
Que deixa o mundo andar-lhe afadigado pelas ruas
Deambular pelas florestas desconhecidas
Entreter-se com os seus jogos de espelhos
Mirar de relance a pedraria dos seus olhos preciosos
Perder-se nos mapas antiquíssimos
E adormecer, sem dar por isso, no seu regaço.
Olha, lá vai mais um corpo celeste!
Às vezes não sei quem é o cometa:
A vida, o mundo ou eu…
Nem sei que palavras podem traduzir o espanto
E mantê-lo vivo, inteiro e intocado…
Suy / São Ludovino, 3/2/1990 – 11h noite
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