DESALINHADO
Para quem trabalha
no sector das linhas, perder uma linha é sempre um acontecimento grave. Perder
duas pode ser uma tragédia de proporções cósmicas. Desalinhado trabalhava em
vários departamentos em simultâneo: o das linhas retas, o das linhas curvas, o
das linhas circulares, o das linhas intermitentes e, o mais delicado de todos,
o departamento das linhas da vida e do coração.
Desalinhado não
era nem o mais rigoroso nem o mais honesto dos homens, mas no que tocava às
linhas alheias mantinha tudo no seu lugar. Raramente recebia reclamações e
nunca tinha perdido uma linha. Já no que tocava às suas próprias linhas era
mais descuidado e até temerário. Era capaz de caminhar em sentido proibido numa
linha reta e unir os segmentos de uma linha intermitente como se fosse uma
linha contínua. Quando estes desvarios se limitavam ao domínio privado, não
havia grandes consequências. Havia quem ficasse ferido, e até com extrema
gravidade, mas isso pouco lhe importava, desde que o incidente não se tornasse
público nem lhe manchasse a reputação imaculada. Por isso mesmo, sempre que
decidia desatinar e sair da linha, ia devidamente camuflado.
Embora não fosse o
seu departamento, de vez em quando gostava de se intrometer nas linhas
telefónicas, sobretudo as de fibra óptica, e nas linhas aéreas, sobretudo as
transnacionais. Nunca chegou a desviar nenhum avião com carga valiosa, apenas
alguns aviões comerciais que, em vez de irem aterrar na Sibéria, foram aterrar
nas Caraíbas, sobretudo durante as férias, fins-de-semana e feriados.
As linhas
telefónicas eram-lhe extremamente familiares. Adorava cruzar linhas e fazer
role play ao telefone. Nos contactos estavam praticamente todas as Páginas
Amarelas completas e quase todas as Páginas Brancas. “Alô, está lá»! Sei que
precisa de companhia. Está a falar com a pessoa certa!” Se desligavam de
imediato, voltava a telefonar: “Alô. Está lá?! Sei que sofre de assédio por
telefone e online. Não hesite em solicitar os meus serviços. Possa protegê-la
de todas as intimidações e avanços indesejáveis…” E se voltavam a desligar,
voltava a telefonar: “Alô, está lá»! Sei que procura consultas ao domicílio.
Desloco-me a qualquer hora a qualquer lugar sem custos adicionais… excepto
entre a uma e as quatro, quando estou a despachar o expediente…” Às vezes, as
hotline causavam-lhe assaduras, mas aplicava Betadine e quase não se notava. As
chamadas internacionais eram as mais cuidadas e arriscadas. Usava o WhatsApp
para não deixar rasto; nunca se sabe quem pode estar a escutar quem gosta de
escutar os outros. Poucas vezes era
atendido. Ainda assim, conseguiu ouvir a voz de meia dúzia de pessoas
influentes, de uma ou duas estrelas cadentes e de mais de mil viciados nas
redes. Ouviu monossílabos, dissílabos, trissílabos e várias interjeições pouco
amistosas. Chegou mesmo a vislumbrar o semblante ameaçador de alguns líderes da
linha dura e de alguns títeres muito bem mandados. Desses dois ou três segundos
de contacto nasceram várias teorias da conspiração e a convicção de que
conhecia as entrelinhas da ordem íntima de alguns e até da ordem mundial.
Tinha uma alergia
parcial às linhas de sutura, sobretudo desde que tentou escrever torto por
linhas direitas(1) e acabou por se despistar e capotar. Fez uma
pausa para se recompor, mas não para andar na linha, coisa enfadonha que lhe
causava enxaquecas e urticária. Nessas alturas, para espairecer ia pescar à
linha junto ao areal.
Das linhas de costura, bordado e crochet nem queria ouvir falar. Lembravam-lhe trabalhos forçados ou meninas demasiado prendadas e nunca a colcha da avó.
No meio da
azáfama, entre o expediente rotineiro e os muitos partimes e hobbies das linhas
extra, esquecia-se que também nele existiam linhas, mais importantes e
decisivas do que todas as outras linhas juntas. Tanto as descurou e esqueceu
que algumas delas decidiram pregar-lhe uma partida. A bonita linha da vida,
longa e direita, decidiu ondular-se em curvas inesperadas que desembocavam
repentinamente noutras curvas. A nítida linha do coração, cansada de ser
contrafeita, decidiu esbater-se e juntar-se às nuvens que iam passando.
Tal sucessão de
acontecimentos privados teve repercussões nos vários departamentos do sector
das linhas públicas em que trabalhava. Um erro conduzia a outro numa cadeia
imparável. As pessoas vinham queixar-se de tudo: do círculo que agora era
quadrado ou um buraco negro; da reta que se alongou de tal modo que se tornou
impossível encontrar um ponto de chegada; das linhas intermitentes em que se
tinham convertido quase todas as pontes; e, sobretudo, do caos generalizado nas
linhas da vida e do coração. O bairro, a cidade, o país inteiro estavam à beira
de uma guerra civil. Amavam-se os inimigos e espancavam-se os amigos,
dividiam-se as famílias e agregavam-se no mesmo espaço os seres mais
incompatíveis, partiam os que deviam ficar e ficavam os que deviam partir, as
estradas chocaram colectivamente levando consigo todos os que as percorriam.
Muitos especularam
sobre as causas remotas e recentes deste caos. Nunca jamais alguém apontou o
dedo ao Desalinhado, mas ele sabia. Tarde de mais.
Desde esse dia, a
maravilhosa estrutura do seu jogo de linhas tornou-se caótica e completamente
imprevisível. A memória começou a falhar cada vez mais. Incapaz de se
concentrar no emaranhado de linhas e de as colocar no seu lugar, perdeu
definitivamente o fio à meada. Consta que hoje é espião por conta própria.
Espia-se a si mesmo, mas em vão. As linhas da vida e do coração continuam
desaparecidas e independentes da sua vontade.
(1) – A expressão
idiomática original é, naturalmente, “escrever direito por linhas tortas”.
São Ludovino, 21/12/2025
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