quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Contos Breves - VIII


DESALINHADO

     Para quem trabalha no sector das linhas, perder uma linha é sempre um acontecimento grave. Perder duas pode ser uma tragédia de proporções cósmicas. Desalinhado trabalhava em vários departamentos em simultâneo: o das linhas retas, o das linhas curvas, o das linhas circulares, o das linhas intermitentes e, o mais delicado de todos, o departamento das linhas da vida e do coração.

     Desalinhado não era nem o mais rigoroso nem o mais honesto dos homens, mas no que tocava às linhas alheias mantinha tudo no seu lugar. Raramente recebia reclamações e nunca tinha perdido uma linha. Já no que tocava às suas próprias linhas era mais descuidado e até temerário. Era capaz de caminhar em sentido proibido numa linha reta e unir os segmentos de uma linha intermitente como se fosse uma linha contínua. Quando estes desvarios se limitavam ao domínio privado, não havia grandes consequências. Havia quem ficasse ferido, e até com extrema gravidade, mas isso pouco lhe importava, desde que o incidente não se tornasse público nem lhe manchasse a reputação imaculada. Por isso mesmo, sempre que decidia desatinar e sair da linha, ia devidamente camuflado.

     Embora não fosse o seu departamento, de vez em quando gostava de se intrometer nas linhas telefónicas, sobretudo as de fibra óptica, e nas linhas aéreas, sobretudo as transnacionais. Nunca chegou a desviar nenhum avião com carga valiosa, apenas alguns aviões comerciais que, em vez de irem aterrar na Sibéria, foram aterrar nas Caraíbas, sobretudo durante as férias, fins-de-semana e feriados.

     As linhas telefónicas eram-lhe extremamente familiares. Adorava cruzar linhas e fazer role play ao telefone. Nos contactos estavam praticamente todas as Páginas Amarelas completas e quase todas as Páginas Brancas. “Alô, está lá»! Sei que precisa de companhia. Está a falar com a pessoa certa!” Se desligavam de imediato, voltava a telefonar: “Alô. Está lá?! Sei que sofre de assédio por telefone e online. Não hesite em solicitar os meus serviços. Possa protegê-la de todas as intimidações e avanços indesejáveis…” E se voltavam a desligar, voltava a telefonar: “Alô, está lá»! Sei que procura consultas ao domicílio. Desloco-me a qualquer hora a qualquer lugar sem custos adicionais… excepto entre a uma e as quatro, quando estou a despachar o expediente…” Às vezes, as hotline causavam-lhe assaduras, mas aplicava Betadine e quase não se notava. As chamadas internacionais eram as mais cuidadas e arriscadas. Usava o WhatsApp para não deixar rasto; nunca se sabe quem pode estar a escutar quem gosta de escutar  os outros. Poucas vezes era atendido. Ainda assim, conseguiu ouvir a voz de meia dúzia de pessoas influentes, de uma ou duas estrelas cadentes e de mais de mil viciados nas redes. Ouviu monossílabos, dissílabos, trissílabos e várias interjeições pouco amistosas. Chegou mesmo a vislumbrar o semblante ameaçador de alguns líderes da linha dura e de alguns títeres muito bem mandados. Desses dois ou três segundos de contacto nasceram várias teorias da conspiração e a convicção de que conhecia as entrelinhas da ordem íntima de alguns e até da ordem mundial.

     Tinha uma alergia parcial às linhas de sutura, sobretudo desde que tentou escrever torto por linhas direitas(1) e acabou por se despistar e capotar. Fez uma pausa para se recompor, mas não para andar na linha, coisa enfadonha que lhe causava enxaquecas e urticária. Nessas alturas, para espairecer ia pescar à linha junto ao areal.

In line, photography by São Ludovino.

     Das linhas de costura, bordado e crochet nem queria ouvir falar. Lembravam-lhe trabalhos forçados ou meninas demasiado prendadas e nunca a colcha da avó.

     No meio da azáfama, entre o expediente rotineiro e os muitos partimes e hobbies das linhas extra, esquecia-se que também nele existiam linhas, mais importantes e decisivas do que todas as outras linhas juntas. Tanto as descurou e esqueceu que algumas delas decidiram pregar-lhe uma partida. A bonita linha da vida, longa e direita, decidiu ondular-se em curvas inesperadas que desembocavam repentinamente noutras curvas. A nítida linha do coração, cansada de ser contrafeita, decidiu esbater-se e juntar-se às nuvens que iam passando.

    Tal sucessão de acontecimentos privados teve repercussões nos vários departamentos do sector das linhas públicas em que trabalhava. Um erro conduzia a outro numa cadeia imparável. As pessoas vinham queixar-se de tudo: do círculo que agora era quadrado ou um buraco negro; da reta que se alongou de tal modo que se tornou impossível encontrar um ponto de chegada; das linhas intermitentes em que se tinham convertido quase todas as pontes; e, sobretudo, do caos generalizado nas linhas da vida e do coração. O bairro, a cidade, o país inteiro estavam à beira de uma guerra civil. Amavam-se os inimigos e espancavam-se os amigos, dividiam-se as famílias e agregavam-se no mesmo espaço os seres mais incompatíveis, partiam os que deviam ficar e ficavam os que deviam partir, as estradas chocaram colectivamente levando consigo todos os que as percorriam.

     Muitos especularam sobre as causas remotas e recentes deste caos. Nunca jamais alguém apontou o dedo ao Desalinhado, mas ele sabia. Tarde de mais.

     Desde esse dia, a maravilhosa estrutura do seu jogo de linhas tornou-se caótica e completamente imprevisível. A memória começou a falhar cada vez mais. Incapaz de se concentrar no emaranhado de linhas e de as colocar no seu lugar, perdeu definitivamente o fio à meada. Consta que hoje é espião por conta própria. Espia-se a si mesmo, mas em vão. As linhas da vida e do coração continuam desaparecidas e independentes da sua vontade.

(1) – A expressão idiomática original é, naturalmente, “escrever direito por linhas tortas”.

São Ludovino, 21/12/2025




Sem comentários:

Enviar um comentário