quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Novas - XXIII

ORAÇÃO AO DESERTO
(Prece do escravo judeu)

Dunas que escondeis e revelais horizontes
Areias filhas dos tempos, irmãs da espera
Extensa vastidão que nos separa de nós mesmos
Abri no vosso seio a vereda fresca
Que nos levará à terra amada.

Dunas escaldantes, conchas de sol errante
Sedentas como nós de frescor e orvalho
Aliviai o peso das pedras dos sarcófagos
Que erguemos à eterna esfinge do além
Morada dos senhores que nos desgovernam
Com o chicote terreno e o desdém dos desalmados.

Dunas adormecidas sob as estrelas que nunca dormem
Enquanto o nosso tempo não vem e não chega a hora
De construir a casa e abrir a porta ao futuro
Deixai-nos contemplar nas cintilações distantes
O reencontro vindouro dos irmãos dispersos pela Terra.

Dunas acordadas de olhos fitos no arco azul do céu
Não permitais que um só se perca na caminhada
Na sede, na ânsia de alcançar a centelha ancestral
Sempre viva e intacta no espírito das eras
Reencontrada renascida sob a síntese perfeita
De todos os sóis e todas as luas de 5000 anos de espera
Luz pátria, coração mátria, Jerusalém libertada.
 
São Ludovino, 6/2/2024

Red Canyon, Eilat, Negev Desert, Israel, photography by Tiia Monto.

Sem comentários:

Enviar um comentário