quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Antigas - XVII

 

Sonolência ao meio-dia em Klovistátia

O fundador de Klovistátia não sabe o que fundou

Vivia num lugar comum num país comum entre gente comum
Nunca planeou a fundação de absolutamente nada
Nunca desejou que fosse sempre meio-dia em nenhum lugar
Mas aconteceu, aconteceu deveras, precisamente ao meio-dia.

O fundador de Klovistátia também nunca teve ambições públicas ou políticas

Nunca ansiou pelo título de presidente nem retratos em cartazes
Nunca lhe ocorreu ter mais poder do que o relativo nem decretar leis
Ou simplesmente ter um mercedes e segurança pessoal
Nem sequer tinha fantasias secretas sobre fama e glória.

O fundador de Klovistátia tinha simplesmente uma caneta inesgotável

Que gastava displicentemente a encher folhas de papel inofensivas
Mantendo-as bem guardadas de olhares alheios de académicos e iletrados
Que não soubessem como é diversa a identidade da narrativa e da realidade
E, por isso mesmo, quisessem que o papel se tornasse gente
Tempo, espaço, objectos, categorias e hierarquias.

O involuntário fundador de Klovistátia até amava e criava fantásticas utopias

A caneta conhecia-as melhor do que ninguém e o papel
Dava-lhes um corpo quase material, quase palpável e convincente.

Veio o dia em que o papel foi roubado na quase totalidade

Klóvis não fez queixa para não chamar a atenção nem levantar suspeitas
Mesmo assim, o ladrão foi preso e o escrito confiscado.
Embora estivesse assinado, nunca lhe foi devolvido
Nem foi interrogado sobre os meandros do conteúdo.
Klóvis temeu o pior e o pior veio:
A ficção estava prestes a tornar-se realidade
Por decisão unilateralmente unânime e irrevogável.

Era precisamente meio-dia e a hora da sonolência aproximava-se

Os representantes dos académicos e dos iletrados estavam reunidos
― Para ler e analisar o secreto manuscrito de Klóvis, o homem comum
Nem académico, nem letrado, apenas teimoso e desconfiado ―
Quando as pálpebras começaram a pesar e, para abreviar os trabalhos
Tomaram a decisão final com uma determinação inabalável:
Era preciso renovar a nação de alto a baixo, dos alicerces à cúpula.

Os académicos votaram unanimemente a favor da (re)construção

Os iletrados anuíram como era costume e logo lhes foram atribuídas as tarefas
Que decorreriam sem pausas entre o meio-dia de cada dia
E o meio-dia do dia seguinte.
Estava criada Klovistátia, a nação que existe sempre e só ao meio dia
E o sono nunca acaba nem começa
Porque todos os dias começam e acabam ao meio-dia…

O papel não roubado desvendava o mistério

Mas ninguém quis saber nem preencher as lacunas:
A nação chamava-se Ficção e o meio-dia de um dia preciso
Era o momento em que os cidadãos despertavam finalmente
De uma longa letargia em que nada acontecia nem era feito
Porque todos viviam num eterno meio-dia…
Contra a sua vontade, Klóvis tornou-se famoso
Mas apenas porque lhe roubaram o nome
E lhe desconcertaram o sossego e a fantasia…

Drawing shades, photography by São Ludovino.

Klóvis partiu com a sua caneta para outro lugar
Algures onde pudesse viver acordado ou dormir quando lhe apetecesse
Algures onde o papel fosse invisível e as leis revogáveis
Tanto como a realidade e a ficção…

Suy / São Ludovino, s.d. (1980s) 




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