quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Novas - XLVIII

A Colaboracionista


Cercaram-na de betão e alcatrão
Reduziram-lhe a área fértil
A vinte palmos junto à soleira
Cortaram-lhe a água pela metade

Pensou que seria o fim
O fim da sua parcela das estações
O fim do seu jardim resiliente
O fim da essência da Humanidade

Ignorou o rijo vozeirão do betão e do alcatrão
Mas não lhes voltou as costas nem baixou os braços
Decidiu fazer-lhes frente com as armas mais naturais
Deu as mãos à natureza e deixou a poeira
Entranhar-se sorrateiramente nas fissuras

As gotas de água juntaram-se à poeira
E ambas abraçaram as sementes
E a vida voltou a brotar onde tinha sido aniquilada

Pela calada da noite saiu afoita e destemida
Enviada pelo reino das plantas
A cumprir a missão de devolver a vida
Às ruas e paredes mortas

Semeou sementes minúsculas
Plantou árvores e arbustos
Em pouco tempo, cada passeio
Rebordo, nicho ou beiral
Ficou recoberto de cor e verdura

A cidade possante não ousou vingar-se
De tantos benefícios – Seria descarada ingratidão!
Agora respirava melhor
E a chuva das enxurradas era meia bebida
Antes de derrubar as casas e engolir as ruas

A alameda de árvores centenárias
Vetustas, frondosas e impávidas
Que resistia ainda aos mercenários dos catrapilos
Das betoneiras e das gruas gigantes
Condecorou-a com a medalha da Ordem da Clorofila
E a comenda da Terra Viva Parcialmente Redimida
E as árvores de fruto passaram a dar fruta fresca todas as semanas
Mas só as que plantou junto à soleira da porta…

Logo vieram geneticistas, botânicos e agrónomos
Examinar o inusitado fenómeno armados de hipóteses e teorias
Uma multitude de instrumentos e planos bem calculados
Para tentar replicar a Multiplicação Semanal dos Frutos
Sem resultado, pobres coitados… Ainda bem!

São Ludovino, 19/10/2024

Growing on the rocks III, photography by São Ludovino.

Growing on the rocks I, photography by São Ludovino.



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