FIM DO DIA
Operários febris
Vêm sentar-se ao sol
Em cadeiras de penumbra
Esfarrapada, calada.
Uma pausa no ruído
No ouvido moído
Pela truculência da máquina.
Um assobio lança a melodia
Que perpassa os músculos
E acorda o olhar.
Um cigarro partilhado
Esgota-se ao som da sineta
Estridente, pavloviana, interiorizada.
De relance vêem passar
Os que vivem só de pausas
Tédio e insaciabilidade.
Trazem estolas de pele
Luvas irrepreensivelmente brancas
Partem em limusines brilhantes
Atrás deixam o fumo carbónico
E o eco de risos abafados.
São construtores sem suor
Proprietários do reino das sombras.
A sirene finda o dia
Como o começou
Gritando ululante.
Febris, os operários escapam
Pelos longos corredores
Como se fosse a última fuga
Todos os dias.
Os filhos trazem-lhes os livros da escola
Embrulhados no idiolecto do bairro
Pronunciam esdrúxulas novas
Com que chutam a bola
Rolam o arco, o berlinde
A fúria de chegar primeiro
A qualquer lugar.
Procuram nos bolsos
A última dentada do lanche
As pevides da abóbora da Cinderela.
Correm esbaforidos rumo a casa
Corre vento, corre teimoso!
Pela calçada ficam espalhadas
As palavras da lição do dia.
Regressam dos lavadouros
Trouxa sobre as cabeças
Erguidas acima do cansaço.
A roupa corada ao sol
Cheira a vida
Devolve a cor
Ao lençol rasgado
À esperança manchada
À vontade alquebrada.
Pela viela vão bebendo sem querer
As cores dos espectros da noite
Que mastigam continuamente
Os frutos de todos os tempos.
Ide-vos, ide-vos por outras ruas
Criaturas da noite!
Aqui ainda há sonhos
Aqui ainda há-de nascer um novo dia…!
Suy / São Ludovino, 10/6/1992

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