quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Antigas - XXVII

 

FIM DO DIA

Operários febris

Vêm sentar-se ao sol
Em cadeiras de penumbra
Esfarrapada, calada.
Uma pausa no ruído
No ouvido moído
Pela truculência da máquina.
Um assobio lança a melodia
Que perpassa os músculos
E acorda o olhar.
Um cigarro partilhado
Esgota-se ao som da sineta
Estridente, pavloviana, interiorizada.

De relance vêem passar

Os que vivem só de pausas
Tédio e insaciabilidade.
Trazem estolas de pele
Luvas irrepreensivelmente brancas
Partem em limusines brilhantes
Atrás deixam o fumo carbónico
E o eco de risos abafados.
São construtores sem suor
Proprietários do reino das sombras.

A sirene finda o dia

Como o começou
Gritando ululante.
Febris, os operários escapam
Pelos longos corredores
Como se fosse a última fuga
Todos os dias.

Os filhos trazem-lhes os livros da escola

Embrulhados no idiolecto do bairro
Pronunciam esdrúxulas novas
Com que chutam a bola
Rolam o arco, o berlinde
A fúria de chegar primeiro
A qualquer lugar.
Procuram nos bolsos
A última dentada do lanche
As pevides da abóbora da Cinderela.
Correm esbaforidos rumo a casa
Corre vento, corre teimoso!
Pela calçada ficam espalhadas
As palavras da lição do dia.

Long Journey by ©Jiri Borsky, 2006.

As mães, de mãos gretadas
Regressam dos lavadouros
Trouxa sobre as cabeças
Erguidas acima do cansaço.
A roupa corada ao sol
Cheira a vida
Devolve a cor
Ao lençol rasgado
À esperança manchada
À vontade alquebrada.
Pela viela vão bebendo sem querer
As cores dos espectros da noite
Que mastigam continuamente
Os frutos de todos os tempos.
Ide-vos, ide-vos por outras ruas
Criaturas da noite!
Aqui ainda há sonhos
Aqui ainda há-de nascer um novo dia…!

Suy / São Ludovino, 10/6/1992




Sem comentários:

Enviar um comentário