ÓCIO E REVOLUÇÃO
A minha avó materna nunca teve tempo
Para descansar de cada dia de trabalho.
O cansaço acumula-se e não se limpa como o pó
Mas tinha tempo para o essencial
Para amar a vida e os seus, presentes e passados.
Sabia ler e escrever com perfeição
Coisa rara entre as mulheres
De finais do século XIX e início do século XX
E colocava ao serviço dos outros
Os seus dotes e benevolência.
A minha avó não falava do futuro
Só do que era preciso fazer.
Os planos são para quem pode e determina
E as revoluções eram ecos distantes
E o céu que se tingia de vermelho
E que, segundo ela, era um sinal
Da Grande Guerra, da Grande Fome
Das outras guerras e do Holocausto.
Na sua modesta casa tratou do mesmo modo
As feridas e a fome do nacionalista castelhano
E do bolchevique, como o seu irmão,
Que passava a fronteira para se juntar
Aos seus camaradas, que eram de facto só dele.
A minha avó não dividia o mundo em facções.
Também passaram por ali, junto à fronteira,
Os Judeus que tentavam sobreviver
Ao maior crime do século XX.
Nunca lhe passou pela mente pensar ou dizer:
“Foram eles que mataram Cristo!”
Sabia que pertenciam todos à família dos justos
E que Cristo era Judeu como eles.
Monarquia ou república, rei ou presidente
Pouca diferença faziam na vida dos que labutam.
As leis naturais da vida e da morte
Permaneciam idênticas e herméticas.
Mais fiável era o direito consuetudinário
Que o meu avô – o “juiz da terra” – aplicava
Com o rigor e a sapiência acumulada
Por outros avós passados.
No fim de cada dia
A felicidade resumia-se a ter vivido mais um dia
Com a esperança de viver muitos mais.
Ela viveu muitos
Ele partiu antes que a esperança se despedisse
Dos que ficaram para o lembrar…
São Ludovino, 25/4/2025
Along the centuries I, photography by São Ludovino.
Along the centuries II, photography by São Ludovino.
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