NARCISO AUTOCRATA
Confesso, mas não ao mundo
Que não pode nem deve conhecer quem sou
Confesso apenas a mim mesmo: Sou efémero.
Nasci num esgoto da cidade
Cresci entre espelhos de água imunda
Aprendi a ser apenas a imagem.
Sobre a cidade estendi primeiro o olhar
E depois um rio de sangue
Que me alimenta a vaidade.
Não tenho culpas nem deveres
Sorvo o néctar das flores
Que sobreviveram à lava.
As almas dos meus lacaios não me comovem
Nem de nada me servem as suas cintilações
Inúteis suspiros de um universo que não posso governar.
Importam-me os seus músculos obedientes
Que alargam o esgoto e o recobrem
Com os diamantes do seu suor.
Confesso: piso as formigas que me alimentam
Fazem-me lembrar a inutilidade do meu ceptro
Esmago-as com a minha vontade de não perecer.
São Ludovino, 18/3/2025
Autocrat, drawing & painting by São Ludovino.

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