AQUELE QUE AMA DEVERAS
Sentava-se em
frente de uma flor e ali ficava a olhar com toda a atenção como se não houvesse
mais nada no mundo para olhar. Olhava tão profundamente e demoradamente que
acabava por desaparecer dentro da flor. Primeiro tornava-se quase transparente,
depois, gradualmente, dissolvia-se na flor. Durante algum tempo, ainda era
possível ver dois braços entre as pétalas, dois olhos a cintilar no centro da
corola, até que mais nada restava senão a flor.
Os mais próximos
comunicavam o seu desaparecimento e faziam buscas por todo o lado, sempre sem
sucesso. Às vezes encontravam um botão de camisa ou um cabelo que lhes parecia
familiar. A análise ao ADN confirmava
que o cabelo era de facto dele, mas os botões continuavam anónimos e iam-se
acumulando em frascos de vidro de perdidos e achados.
Hoje, de novo, o
fenómeno repetiu-se. Não era a primeira vez que isto acontecia e muito
provavelmente não seria a última. Tinha uma tendência inata para desaparecer,
isso era certo, portanto não adiantava muito contrariar a natureza do ser. Além
disso, algum tempo depois, ele voltava sempre a aparecer. Era tudo muito
natural.
Lá está ele de
novo, imerso num profundo amor. Agora parece estar prestes a mergulhar numa
minúscula pedra de quartzo semi-transparente. Toma-a nas mãos com extrema
delicadeza. A pedra vai mudando de cor e luminosidade. Parece emanar uma luz
suave como se lá dentro houvesse uma extraordinária partícula de estrela. A
pedra flutua até ao chão e lá fica a tremeluzir como se o céu tivesse trocado
de lugar com a terra.
Ao amanhecer, ao
entardecer ou a altas horas da noite ele regressa sorrateiro sem acordar
ninguém e dorme serenamente. Discretamente, alguém entreabre a porta e vê que
ele está de novo de regresso a casa com a forma habitual. Telefonam às
autoridades, comunicam o seu reaparecimento e o seu nome volta a sair da lista
inquietante de desaparecidos. Mas não por muito tempo. O tempo não para, a
terra não para de girar e todas as coisas insignificantes aguardam ser descobertas.
É quando chove que
todos ficam mais apreensivos. E se ele se lembra de olhar todas as gotas de
chuva ao mesmo tempo e desaparece dentro delas? Será que se vai transformar em
milhões e regressará intacto no mesmo número? Em que casa caberia?
Os dias de sol
brilhante não são menos preocupantes. Cada raio de sol tem milhões de átomos de
luz. E se ele regressa tão incandescente como o próprio sol. Até agora, tal
fenómeno ainda não aconteceu. Mas, quem sabe o que pode ainda acontecer.
Quando os media
descobriram a existência de tal ser e tais fenómenos, todos correram a
questioná-lo.
― Mas porque passa o tempo a desaparecer?
― Porque amo deveras… tanto que tenho de ser as coisas que
amo. Eu amo todas as coisas belas, todas as que vejo como belas e amáveis. E há
tantas coisas belas e o tempo é tão pouco para ser com elas…
Como acontece
sempre, os media não compreenderam tal explicação, torceram-na e
formataram-na até encaixar nas parangonas habituais: «Criatura insignificante
simula desaparecimentos para chamar a atenção dos media».
São Ludovino, 25/3/2018
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