quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Contos Breves - VI

 

AQUELE QUE AMA DEVERAS

     Sentava-se em frente de uma flor e ali ficava a olhar com toda a atenção como se não houvesse mais nada no mundo para olhar. Olhava tão profundamente e demoradamente que acabava por desaparecer dentro da flor. Primeiro tornava-se quase transparente, depois, gradualmente, dissolvia-se na flor. Durante algum tempo, ainda era possível ver dois braços entre as pétalas, dois olhos a cintilar no centro da corola, até que mais nada restava senão a flor.

     Os mais próximos comunicavam o seu desaparecimento e faziam buscas por todo o lado, sempre sem sucesso. Às vezes encontravam um botão de camisa ou um cabelo que lhes parecia familiar.  A análise ao ADN confirmava que o cabelo era de facto dele, mas os botões continuavam anónimos e iam-se acumulando em frascos de vidro de perdidos e achados.

     Hoje, de novo, o fenómeno repetiu-se. Não era a primeira vez que isto acontecia e muito provavelmente não seria a última. Tinha uma tendência inata para desaparecer, isso era certo, portanto não adiantava muito contrariar a natureza do ser. Além disso, algum tempo depois, ele voltava sempre a aparecer. Era tudo muito natural.

     Lá está ele de novo, imerso num profundo amor. Agora parece estar prestes a mergulhar numa minúscula pedra de quartzo semi-transparente. Toma-a nas mãos com extrema delicadeza. A pedra vai mudando de cor e luminosidade. Parece emanar uma luz suave como se lá dentro houvesse uma extraordinária partícula de estrela. A pedra flutua até ao chão e lá fica a tremeluzir como se o céu tivesse trocado de lugar com a terra.

     Ao amanhecer, ao entardecer ou a altas horas da noite ele regressa sorrateiro sem acordar ninguém e dorme serenamente. Discretamente, alguém entreabre a porta e vê que ele está de novo de regresso a casa com a forma habitual. Telefonam às autoridades, comunicam o seu reaparecimento e o seu nome volta a sair da lista inquietante de desaparecidos. Mas não por muito tempo. O tempo não para, a terra não para de girar e todas as coisas insignificantes aguardam ser descobertas.

     É quando chove que todos ficam mais apreensivos. E se ele se lembra de olhar todas as gotas de chuva ao mesmo tempo e desaparece dentro delas? Será que se vai transformar em milhões e regressará intacto no mesmo número? Em que casa caberia?

     Os dias de sol brilhante não são menos preocupantes. Cada raio de sol tem milhões de átomos de luz. E se ele regressa tão incandescente como o próprio sol. Até agora, tal fenómeno ainda não aconteceu. Mas, quem sabe o que pode ainda acontecer.

     Quando os media descobriram a existência de tal ser e tais fenómenos, todos correram a questioná-lo.

     Mas porque passa o tempo a desaparecer?

     Porque amo deveras… tanto que tenho de ser as coisas que amo. Eu amo todas as coisas belas, todas as que vejo como belas e amáveis. E há tantas coisas belas e o tempo é tão pouco para ser com elas…

     Como acontece sempre, os media não compreenderam tal explicação, torceram-na e formataram-na até encaixar nas parangonas habituais: «Criatura insignificante simula desaparecimentos para chamar a atenção dos media».

São Ludovino, 25/3/2018

Red Forest, photography by São Ludovino.



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