quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Contos Semi-Breves - IV


UM POVO CRISTALINO

     Os vidros da janela estavam absolutamente limpos, impossivelmente limpos. Sempre gostara de vidro, todos os tipos de vidro, diáfano, cinzelado, colorido, transparente como água pura. O vidro lembrava-lhe protecção e liberdade. Uma janela separa-o do desconhecido, mas pode olhar através dela. Os vitrais das janelas ogivais das velhas catedrais são telas que pode atravessar e ouvir. Em silêncio, lá longe, muito para além do que a vista pode alcançar, os vitrais talvez ainda cantem. Ao lembrá-los, soam como harpas e flautas que entram pela janela.

     Enquanto olhava pela janela a rua completamente vazia, fazia tilintar um copo de cristal com um leve toque. Uma breve música que logo se desvanecia. Olhava esta e aquela esquina e tentava adivinhar se apareceria alguém. Raramente aparecia alguém. Quando aparecia era quase sempre um ser exactamente igual ao da hora anterior, do dia anterior, do mês anterior. Um vulto vestido de preto e branco da cabeça aos pés, uma campânula amarela na cabeça, um cinto vermelho, ou verde ou roxo. As cores eram o sinal de uma função. Este, com um cinto verde, trazia um carrinho com rodas de onde ia tirando pequenas embalagens que colocava nas caixas do correio. Aquele, com um cinto roxo, trazia apenas o olhar de raio X que vasculhava todas as paredes e janelas dos edifícios. Aquele outro, com um cinto vermelho, trazia um ponteiro que apontava às janelas com um fino raio de fogo violeta. Logo em seguida ouvia-se um gemido, um grito, um silêncio ainda maior. As janelas não serviam para olhar de dentro para fora. Talvez nem fossem janelas. Talvez fossem ecrãs e ele estava atrás do ecrã ou dentro dele.

     Por enquanto estava a salvo. O raio nunca lhe atravessara a janela. Ele continuava a olhar o vidro, a amá-lo e a tudo o que estava para lá dele. Pelo menos o que lá estava há uns meses atrás. Talvez as suas janelas fossem diferentes. Talvez nenhum raio pudesse atravessá-las. Mas era pelas janelas que o raio entrava. Por precaução, adoptava sempre um ponto de vista oblíquo, nunca se colocava em frente à janela. Muitas vezes assaltava-o a dúvida: será que fora do seu ângulo de visão havia gente, será que havia outra vida nessa nesga que se mantinha invisível ao seu olhar?

     Há meses que todo aquele quarteirão estava em teletrabalho e as ruas continuavam vazias ou eram esporadicamente atravessadas por esquilos, texugos, galinhas, gansos, coelhos e até flamingos, veados ou ursos. O silêncio da rua era compensado pelo canto dos pássaros que enchiam as árvores e os telhados. A liberdade era um privilégio animal, um direito esquecido, como se os humanos tivessem deixado de ser naturais. 

Catching Clouds, photography by São Ludovino. 

     A memória também era uma coisa estranha. Não lembrava, selecionava, inventava ou brotava de um cérebro que não parecia ser o seu. Mas era a sua mente que via e experimentava, friamente, sem emoção como se nada lhe pertencesse completamente, nem o que vivera e sentira deveras. Quando estas memórias entrecortadas lhe atravessavam a mente, sentia-se uma mistura de si mesmo com algo completamente alheio, sentia sede, muita sede, uma sede insaciável. Bebia copos de água sucessivos na esperança de que a capacidade de se sentir apenas a si mesmo voltasse. Às vezes voltava, por breves instantes, um laivo de consciência que ficava a pairar fora de si. Tentava agarrá-lo e devolvê-lo à origem, algures nas profundezas da alma. Às vezes, parecia que tentar lembrar ou simplesmente sentir era uma armadilha. De cada vez que conseguia fazê-lo, o que encontrara em si saía e tornava-se alheio ou pelo menos era assim que tudo o que lembrava e sentia lhe parecia logo que lembrava e sentia. Talvez se não pensasse, não lembrasse, não sentisse, talvez assim nada pudesse escapar de si ou voltasse tudo ao seu lugar.

     Mais uma vez os olhos raios X varreram a sua janela. Tentou não pensar nem sentir, não ceder mais um único átomo de si. O raio voltou a atravessar a janela. Passou-lhe a escassos cinco centímetros da cabeça. Susteve a respiração e ficou completamente imóvel durante um minuto. Então o raio retirou-se e prosseguiu para outra janela.

     Sentiu uma dor aguda na nuca. Já sentira aquela dor muitas vezes, mas desta vez era mais aguda. Seria uma advertência ou uma punição? Quanto sabia de si aquele chip incrustado na nuca e aquele raio inquisidor? Quanto seria possível esconder, salvar, preservar? Se ainda se interrogava era porque resistia, se resistia era porque uma parte de si ainda lhe pertencia, a si e só a si.

     O silêncio da rua foi subitamente cortado por uma voz num altifalante. Eram as notícias e as novas ordens que chegavam. Sempre através daquele canal, um só canal, uma só voz. O Supremo Conselho de Líderes decretara novas leis, leis intermináveis que avançavam como lâminas em todas direcções. Cada um no seu casulo ouvia a voz e assimilava instantaneamente a nova directiva. Nem era preciso repetição ou inspecção extraordinária.

     E a voz soava… «A suprema vontade e sapiência dos líderes decretou que todos os muros serão derrubados…” Por momentos, estremeceu e um sorriso assomou-lhe nos olhos. “Muros derrubados”, será finalmente a liberdade? E a voz prosseguiu… «Após o derrube dos muros, todos os edifícios serão dotados de novos alarmes accionados automaticamente pelo vosso próprio pensamento. Pensar de modo autónomo, fora dos ditames da suprema vontade e sapiência dos líderes é absolutamente proibido. Onde antes havia muros, passará a haver apenas paredes de vidro, tudo será claro e transparente. Deste modo se abolirá a solidão e todos se poderão ver uns aos outros durante todas as horas do dia. Exceptuam-se os períodos de higiene, duas vezes por dias, entre as seis e as sete da manhã e da tarde; e o período de sono, que nunca poderá ultrapassar as seis horas, sempre entre a meia-noite e as seis da manhã. Qualquer comunicação verbal ou não verbal entre os moradores é absolutamente proibida. Aos eventuais infractores serão aplicadas as penas já previstas na lei.»

     A voz partiu e os agentes vigilantes e fiscalizadores também. Voltaram não se sabe muito bem para onde. Também ninguém sabe ao certo de onde vieram ou como tudo aquilo começou. A voz falava constantemente de uma ameaça, de um perigo invisível, da necessidade de ordem e vigilância extremas, da necessidade de isolar o conhecimento e de reservar o conhecimento aos especialistas e aos líderes para defesa e bem de todos. Algures no tempo, muitos devem ter acreditado, concordado, aceitado e cumprido. Alguns devem ter carregado aos ombros um dos líderes mais persuasivos e muitos os seguiram ou se calaram. Outros líderes, invejando a mesma idolatria e obediência, seguiram os mesmos passos, concebendo cada um a sua ideologia. Deve ter havido guerras e confrontos sanguinários, milhões devem ter perecido até que, por fim, um tratado de paz foi assinado e todos os líderes e os seus seguidores se uniram num conselho universal, fundiram todas as ideologias numa única e instalaram a nova ordem mundial.

     Talvez sejam apenas conjecturas fruto da solidão absoluta, pensava, enquanto descia para recolher da caixa do correio a entrega do dia. Quatro refeições em esferas coloridas de diversos tamanhos e os discursos do dia assinados pelos líderes, que deviam ser lidos e arquivados meticulosamente respeitando sempre a cronologia. Era proibido voltar atrás, reler os discursos anteriores. O discurso do dia, mesmo que contradissesse completamente o do dia anterior, prevalecia e ditava a verdade e a razão. Cada leitor devia assinar cada discurso manifestando a sua total concordância por escrito. No final de cada mês o dossier era recolhido para ser examinado química e grafologicamente ― que hormonas segreguei e ficaram impregnadas no papel enquanto li e escrevi, o que pensei e senti enquanto grafei as letras do meu nome ― e ser arquivado algures. Como se não bastasse o chip, a base de dados digitais e todos os métodos de vigilância, continuavam a usar velhos métodos.

     Tinha saudade dos livros, livros autênticos, com o mundo diverso e autêntico lá dentro, com uma imaginação alada, mundos inteiros com corpo e alma, livros feitos de papel, com peso, textura, cheiro, realidade. Os livros também estavam proibidos, a memória estava proibida, lembrar era o caminho para a rebelião que, de individual se poderia tornar colectiva, se em vez de um leitor houvesse mil, cem mil, milhões. Se, em vez de ler, os leitores atravessassem as portas e voltassem a caminhar pelo mundo.

     Apesar de a memória ter sido abolida e a ordem fosse para esquecer todo o conhecimento, toda a realidade, toda a experiência pessoal e todos os discursos anteriores, com o decorrer do tempo tinha conseguido desenvolver certos métodos para lembrar. De vez em quando recebia um choque na nuca, no peito, no cérebro, uma séria advertência de que estava a chegar ao limite permitido. Mas se ainda estava ali, o método não era completamente ineficaz e só uma pequena parcela da memória estava a ser detectada. Tinha memórias dispersas que ia tentado ordenar de modo a fazerem sentido. Às vezes lembrava-se do seu próprio rosto; agora não havia espelhos, fotografias, filmes. Às vezes lembrava o rosto, a voz, o caminhar dos seres amados; agora não sabia onde estavam. Às vezes lembrava-se de sons que lhe traziam calor à alma, telas de cor, formas transcendentes, prismas de imagens infinitas; agora a arte hibernava algures, as paredes estavam nuas, o silêncio era surdo, os ecrãs apenas mostravam números, gráficos, frases curtas que se repetiam indefinidamente. Lembrava-se de muitas outras árvores para além das poucas que avistava da janela, outras nuvens, outros pássaros, outros arcos de céu, o pulsar da vida suspensa. Lembrava-se de muitos discursos que era suposto ter esquecido, muitas proclamações da voz que, de forma inesperada mas cíclica, vinha arrepiar ainda mais as fibras da alma.

     Lembrava-se do discurso em que os líderes tinham declarado o seu contentamento por terem conseguido, finalmente, eliminar cerca de 90% das florestas e toda a fauna que nelas habitava. Agora abriam-se aí crateras gigantescas e túneis labirínticos em busca de ouro, diamantes, urânio, plutónio, platina e outros minerais e minérios; alargavam-se em milhões de hectares as pastagens controladas e intensificava-se o cultivo transgénico. Festejaram a nova pós-modernidade com novas capturas do que restava do mundo antigo. Maior contentamento ainda, manifestaram por estarem agora as paredes dos palácios do governo e dos seus colaboradores revestidos de lâminas de ouro encastradas com diamantes e os soalhos cobertos por vistosas peles de animais que já não existiam.

     Enquanto retirava a embalagem da caixa do correio olhou pela porta envidraçada e viu nas torres do outro lado da rua vultos que realizavam a mesma operação e olhavam também pela porta. Sempre sós; um de cada vez descia para recolher a embalagem e regressar de imediato ao seu casulo. Havia um horário rígido para este procedimento e ninguém se atrevia a infringi-lo. Ninguém se atrevia sequer a fazer um leve aceno. Eram apenas vultos de homens e mulheres, velhos e jovens, parados por segundos em frente da porta envidraçada. Abrir a porta era absolutamente proibido e impossível; só abria com um código que só os vigilantes conheciam. Talvez os conhecesse do quiosque de jornais, do café da esquina, da padaria ou da mercearia, mas agora eram todos desconhecidos. Talvez cada um deles visse em cada vulto que avistava um inimigo, um delator, um vigilante, um carrasco.

     Enquanto subia de novo para o casulo, outra memória esparsa cruzou o seu espírito. Parecia mais fácil lembrar quando estava fora do casulo, mas só podia descer por cinco minutos. Esse tempo era precioso. Era nesses cinco minutos que tentava salvar o que restava da sua identidade, lembrando e tentando pensar livremente. Nesse instante, uma imagem de si enquanto criança aflorou ao seu espírito, depois tornou-se uma espécie de holograma que seguia à sua frente. Era um Verão belo e pacífico como tantos outros que vivera. A miudagem tinha-se juntado sob uma árvore para fazer algo realmente difícil e inesquecível. Iam esculpir sonhos em madeira, barro ou qualquer outro material. Não era bem sonhos o que iam esculpir, mas animais que vinham dos sonhos e da imaginação. Cada um tinha de descobrir num sonho ou na imaginação um animal. Acreditavam que uma vez esculpidos, esses animais ganhariam vida e teriam poderes mágicos. De certo modo cada animal reflectia o modo como cada um se via. A maior parte desses animais eram híbridos, uma fusão de um animal real ou imaginário com algo inteiramente novo. No final, cada um tinha de dar um nome ao animal, diferente do seu próprio nome; esse seria o nome de código de cada um doravante. As crianças também tinham segredos e mistérios, códigos e regras precisas, mas não oprimiam nem roubavam a alma, eram libertadores.

     Restava-lhe a pequena liberdade de subir pelas escadas em vez de tomar o elevador. Isso obrigava-o a caminhar mais depressa, mas compensava sempre. À sua frente seguia já não o miúdo que fora, mas Velocino, o animal que esculpira, o animal que era, um misto de ave e equídeo. Já no corredor, perto da porta, Velocino levantou voo e desapareceu através da grossa parede. “As crianças?” Perguntava-se. “Onde estão as crianças? Não as ouço nem as vejo há tanto tempo?”

     Entrou e voltou à secretária. Mais quadrículas para preencher com números e letras. Não sabia o que significavam nem se seriam importantes, era um trabalho mecânico e repetitivo que qualquer computador ou robot poderia fazer melhor e mais depressa. Talvez fizesse parte do método de controlo. Roubar todo o tempo livre, toda a autonomia e impedir qualquer tarefa criativa. Se o processo continuasse por muito mais tempo, é provável que muitos enlouquecessem ou pensassem ser apenas máquinas telecomandadas. Se era possível fazer nascer animais fabulosos de um sonho ou da imaginação, então talvez também fosse possível extrair algo de bom daquelas sequências de caracteres.

    Um O rodeado de Ms é um Sol brilhante. Um O com dois Os minúsculos e um C deitado é uma cara sorridente. Duas filas de Ts são uma alameda de plátanos. Uma fila de Xs com Os são bailarinas rodopiando, felizes por entre uma alameda de plátanos… Ouvem-se palmas e risos. São crianças, correm e saltam por entre Ys que são gatos e Ls que são girafas… As quadrículas são pradarias, os Us dunas, os Ds meias luas crescendo sobre um mar de Ms… Enquanto caminham pela areia húmida, os 8s cantam a plenos pulmões a canção do infinito, os 2s são cisnes num lago azul, os 3s esvoaçam sobre as montanhas… O zero multiplica-se e derrama-se sobre a Terra numa chuva suave e auspiciosa… 

     Não estava propriamente a pensar, a ordenar ideias com raciocínios lógicos e ideias geometricamente claras. Estava a olhar de modo diferente e isso o chip não registava porque era algo desconhecido pela sua natureza e mecanismos. Era possível pensar sem pensar, olhando apenas, sentir com os olhos interiores. Mais um ponto de fuga num horizonte impreciso. Levantou por instantes os olhos e viu os raios de Sol atravessarem o vidro da janela. Eram milhões, mas se continuasse a olhar talvez conseguisse vê-los a todos distintamente, um por um. Ali só entrava aquele feixe de luz. Algures, em campo aberto, a luz do Sol ainda preservava a vida, a água brotava em nascentes indescobertas, as plantas brotavam do solo, os animais que escaparam à grande caçada reuniam-se, aguardavam cada gota, bebiam-na e persistiam. E as crianças? Onde estariam?  

São Ludovino, 22/4/2020  


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