UM POVO CRISTALINO
Os vidros da janela estavam absolutamente
limpos, impossivelmente limpos. Sempre gostara de vidro, todos os tipos de
vidro, diáfano, cinzelado, colorido, transparente como água pura. O vidro
lembrava-lhe protecção e liberdade. Uma janela separa-o do desconhecido, mas
pode olhar através dela. Os vitrais das janelas ogivais das velhas catedrais
são telas que pode atravessar e ouvir. Em silêncio, lá longe, muito para além
do que a vista pode alcançar, os vitrais talvez ainda cantem. Ao lembrá-los,
soam como harpas e flautas que entram pela janela.
Enquanto olhava pela janela a rua
completamente vazia, fazia tilintar um copo de cristal com um leve toque. Uma
breve música que logo se desvanecia. Olhava esta e aquela esquina e tentava
adivinhar se apareceria alguém. Raramente aparecia alguém. Quando aparecia era
quase sempre um ser exactamente igual ao da hora anterior, do dia anterior, do
mês anterior. Um vulto vestido de preto e branco da cabeça aos pés, uma
campânula amarela na cabeça, um cinto vermelho, ou verde ou roxo. As cores eram
o sinal de uma função. Este, com um cinto verde, trazia um carrinho com rodas
de onde ia tirando pequenas embalagens que colocava nas caixas do correio.
Aquele, com um cinto roxo, trazia apenas o olhar de raio X que vasculhava todas
as paredes e janelas dos edifícios. Aquele outro, com um cinto vermelho, trazia
um ponteiro que apontava às janelas com um fino raio de fogo violeta. Logo em
seguida ouvia-se um gemido, um grito, um silêncio ainda maior. As janelas não
serviam para olhar de dentro para fora. Talvez nem fossem janelas. Talvez
fossem ecrãs e ele estava atrás do ecrã ou dentro dele.
Por enquanto estava a salvo. O raio nunca
lhe atravessara a janela. Ele continuava a olhar o vidro, a amá-lo e a tudo o
que estava para lá dele. Pelo menos o que lá estava há uns meses atrás. Talvez
as suas janelas fossem diferentes. Talvez nenhum raio pudesse atravessá-las.
Mas era pelas janelas que o raio entrava. Por precaução, adoptava sempre um
ponto de vista oblíquo, nunca se colocava em frente à janela. Muitas vezes
assaltava-o a dúvida: será que fora do seu ângulo de visão havia gente, será
que havia outra vida nessa nesga que se mantinha invisível ao seu olhar?
Há meses que todo aquele quarteirão estava
em teletrabalho e as ruas continuavam vazias ou eram esporadicamente
atravessadas por esquilos, texugos, galinhas, gansos, coelhos e até flamingos,
veados ou ursos. O silêncio da rua era compensado pelo canto dos pássaros que
enchiam as árvores e os telhados. A liberdade era um privilégio animal, um
direito esquecido, como se os humanos tivessem deixado de ser naturais.
A memória também era uma coisa estranha.
Não lembrava, selecionava, inventava ou brotava de um cérebro que não parecia
ser o seu. Mas era a sua mente que via e experimentava, friamente, sem emoção
como se nada lhe pertencesse completamente, nem o que vivera e sentira deveras.
Quando estas memórias entrecortadas lhe atravessavam a mente, sentia-se uma
mistura de si mesmo com algo completamente alheio, sentia sede, muita sede, uma
sede insaciável. Bebia copos de água sucessivos na esperança de que a capacidade
de se sentir apenas a si mesmo voltasse. Às vezes voltava, por breves
instantes, um laivo de consciência que ficava a pairar fora de si. Tentava
agarrá-lo e devolvê-lo à origem, algures nas profundezas da alma. Às vezes,
parecia que tentar lembrar ou simplesmente sentir era uma armadilha. De cada
vez que conseguia fazê-lo, o que encontrara em si saía e tornava-se alheio ou
pelo menos era assim que tudo o que lembrava e sentia lhe parecia logo que
lembrava e sentia. Talvez se não pensasse, não lembrasse, não sentisse, talvez
assim nada pudesse escapar de si ou voltasse tudo ao seu lugar.
Mais uma vez os olhos raios X varreram a
sua janela. Tentou não pensar nem sentir, não ceder mais um único átomo de si.
O raio voltou a atravessar a janela. Passou-lhe a escassos cinco centímetros da
cabeça. Susteve a respiração e ficou completamente imóvel durante um minuto.
Então o raio retirou-se e prosseguiu para outra janela.
Sentiu uma dor aguda na nuca. Já sentira
aquela dor muitas vezes, mas desta vez era mais aguda. Seria uma advertência ou
uma punição? Quanto sabia de si aquele chip incrustado na nuca e aquele raio
inquisidor? Quanto seria possível esconder, salvar, preservar? Se ainda se
interrogava era porque resistia, se resistia era porque uma parte de si ainda
lhe pertencia, a si e só a si.
O silêncio da rua foi subitamente cortado
por uma voz num altifalante. Eram as notícias e as novas ordens que chegavam.
Sempre através daquele canal, um só canal, uma só voz. O Supremo Conselho de
Líderes decretara novas leis, leis intermináveis que avançavam como lâminas em
todas direcções. Cada um no seu casulo ouvia a voz e assimilava
instantaneamente a nova directiva. Nem era preciso repetição ou inspecção
extraordinária.
E a voz soava… «A suprema vontade e
sapiência dos líderes decretou que todos os muros serão derrubados…” Por
momentos, estremeceu e um sorriso assomou-lhe nos olhos. “Muros derrubados”,
será finalmente a liberdade? E a voz prosseguiu… «Após o derrube dos muros,
todos os edifícios serão dotados de novos alarmes accionados automaticamente
pelo vosso próprio pensamento. Pensar de modo autónomo, fora dos ditames da
suprema vontade e sapiência dos líderes é absolutamente proibido. Onde antes
havia muros, passará a haver apenas paredes de vidro, tudo será claro e
transparente. Deste modo se abolirá a solidão e todos se poderão ver uns aos
outros durante todas as horas do dia. Exceptuam-se os períodos de higiene, duas
vezes por dias, entre as seis e as sete da manhã e da tarde; e o período de
sono, que nunca poderá ultrapassar as seis horas, sempre entre a meia-noite e
as seis da manhã. Qualquer comunicação verbal ou não verbal entre os moradores
é absolutamente proibida. Aos eventuais infractores serão aplicadas as penas já
previstas na lei.»
A voz partiu e os agentes vigilantes e
fiscalizadores também. Voltaram não se sabe muito bem para onde. Também ninguém
sabe ao certo de onde vieram ou como tudo aquilo começou. A voz falava
constantemente de uma ameaça, de um perigo invisível, da necessidade de ordem e
vigilância extremas, da necessidade de isolar o conhecimento e de reservar o
conhecimento aos especialistas e aos líderes para defesa e bem de todos.
Algures no tempo, muitos devem ter acreditado, concordado, aceitado e cumprido.
Alguns devem ter carregado aos ombros um dos líderes mais persuasivos e muitos
os seguiram ou se calaram. Outros líderes, invejando a mesma idolatria e
obediência, seguiram os mesmos passos, concebendo cada um a sua ideologia. Deve
ter havido guerras e confrontos sanguinários, milhões devem ter perecido até
que, por fim, um tratado de paz foi assinado e todos os líderes e os seus
seguidores se uniram num conselho universal, fundiram todas as ideologias numa
única e instalaram a nova ordem mundial.
Talvez sejam apenas conjecturas fruto da
solidão absoluta, pensava, enquanto descia para recolher da caixa do correio a
entrega do dia. Quatro refeições em esferas coloridas de diversos tamanhos e os
discursos do dia assinados pelos líderes, que deviam ser lidos e arquivados
meticulosamente respeitando sempre a cronologia. Era proibido voltar atrás,
reler os discursos anteriores. O discurso do dia, mesmo que contradissesse
completamente o do dia anterior, prevalecia e ditava a verdade e a razão. Cada
leitor devia assinar cada discurso manifestando a sua total concordância por
escrito. No final de cada mês o dossier era recolhido para ser examinado
química e grafologicamente ― que hormonas segreguei e ficaram impregnadas no
papel enquanto li e escrevi, o que pensei e senti enquanto grafei as letras do
meu nome ― e ser arquivado algures. Como se não bastasse o chip, a base de
dados digitais e todos os métodos de vigilância, continuavam a usar velhos
métodos.
Tinha saudade dos livros, livros
autênticos, com o mundo diverso e autêntico lá dentro, com uma imaginação
alada, mundos inteiros com corpo e alma, livros feitos de papel, com peso,
textura, cheiro, realidade. Os livros também estavam proibidos, a memória
estava proibida, lembrar era o caminho para a rebelião que, de individual se
poderia tornar colectiva, se em vez de um leitor houvesse mil, cem mil,
milhões. Se, em vez de ler, os leitores atravessassem as portas e voltassem a
caminhar pelo mundo.
Apesar de a memória ter sido abolida e a
ordem fosse para esquecer todo o conhecimento, toda a realidade, toda a
experiência pessoal e todos os discursos anteriores, com o decorrer do tempo
tinha conseguido desenvolver certos métodos para lembrar. De vez em quando
recebia um choque na nuca, no peito, no cérebro, uma séria advertência de que
estava a chegar ao limite permitido. Mas se ainda estava ali, o método não era
completamente ineficaz e só uma pequena parcela da memória estava a ser
detectada. Tinha memórias dispersas que ia tentado ordenar de modo a fazerem
sentido. Às vezes lembrava-se do seu próprio rosto; agora não havia espelhos,
fotografias, filmes. Às vezes lembrava o rosto, a voz, o caminhar dos seres
amados; agora não sabia onde estavam. Às vezes lembrava-se de sons que lhe
traziam calor à alma, telas de cor, formas transcendentes, prismas de imagens
infinitas; agora a arte hibernava algures, as paredes estavam nuas, o silêncio
era surdo, os ecrãs apenas mostravam números, gráficos, frases curtas que se
repetiam indefinidamente. Lembrava-se de muitas outras árvores para além das
poucas que avistava da janela, outras nuvens, outros pássaros, outros arcos de
céu, o pulsar da vida suspensa. Lembrava-se de muitos discursos que era suposto
ter esquecido, muitas proclamações da voz que, de forma inesperada mas cíclica,
vinha arrepiar ainda mais as fibras da alma.
Lembrava-se do discurso em que os líderes
tinham declarado o seu contentamento por terem conseguido, finalmente, eliminar
cerca de 90% das florestas e toda a fauna que nelas habitava. Agora abriam-se
aí crateras gigantescas e túneis labirínticos em busca de ouro, diamantes,
urânio, plutónio, platina e outros minerais e minérios; alargavam-se em milhões
de hectares as pastagens controladas e intensificava-se o cultivo transgénico.
Festejaram a nova pós-modernidade com novas capturas do que restava do mundo
antigo. Maior contentamento ainda, manifestaram por estarem agora as paredes
dos palácios do governo e dos seus colaboradores revestidos de lâminas de ouro
encastradas com diamantes e os soalhos cobertos por vistosas peles de animais
que já não existiam.
Enquanto retirava a embalagem da caixa do
correio olhou pela porta envidraçada e viu nas torres do outro lado da rua
vultos que realizavam a mesma operação e olhavam também pela porta. Sempre sós;
um de cada vez descia para recolher a embalagem e regressar de imediato ao seu
casulo. Havia um horário rígido para este procedimento e ninguém se atrevia a
infringi-lo. Ninguém se atrevia sequer a fazer um leve aceno. Eram apenas
vultos de homens e mulheres, velhos e jovens, parados por segundos em frente da
porta envidraçada. Abrir a porta era absolutamente proibido e impossível; só
abria com um código que só os vigilantes conheciam. Talvez os conhecesse do
quiosque de jornais, do café da esquina, da padaria ou da mercearia, mas agora
eram todos desconhecidos. Talvez cada um deles visse em cada vulto que avistava
um inimigo, um delator, um vigilante, um carrasco.
Enquanto subia de novo para o casulo,
outra memória esparsa cruzou o seu espírito. Parecia mais fácil lembrar quando
estava fora do casulo, mas só podia descer por cinco minutos. Esse tempo era
precioso. Era nesses cinco minutos que tentava salvar o que restava da sua
identidade, lembrando e tentando pensar livremente. Nesse instante, uma imagem
de si enquanto criança aflorou ao seu espírito, depois tornou-se uma espécie de
holograma que seguia à sua frente. Era um Verão belo e pacífico como tantos outros
que vivera. A miudagem tinha-se juntado sob uma árvore para fazer algo
realmente difícil e inesquecível. Iam esculpir sonhos em madeira, barro ou
qualquer outro material. Não era bem sonhos o que iam esculpir, mas animais que
vinham dos sonhos e da imaginação. Cada um tinha de descobrir num sonho ou na
imaginação um animal. Acreditavam que uma vez esculpidos, esses animais
ganhariam vida e teriam poderes mágicos. De certo modo cada animal reflectia o
modo como cada um se via. A maior parte desses animais eram híbridos, uma fusão
de um animal real ou imaginário com algo inteiramente novo. No final, cada um
tinha de dar um nome ao animal, diferente do seu próprio nome; esse seria o
nome de código de cada um doravante. As crianças também tinham segredos e
mistérios, códigos e regras precisas, mas não oprimiam nem roubavam a alma,
eram libertadores.
Restava-lhe a pequena liberdade de subir
pelas escadas em vez de tomar o elevador. Isso obrigava-o a caminhar mais depressa,
mas compensava sempre. À sua frente seguia já não o miúdo que fora, mas
Velocino, o animal que esculpira, o animal que era, um misto de ave e equídeo.
Já no corredor, perto da porta, Velocino levantou voo e desapareceu através da
grossa parede. “As crianças?” Perguntava-se. “Onde estão as crianças? Não as
ouço nem as vejo há tanto tempo?”
Entrou e voltou à secretária. Mais
quadrículas para preencher com números e letras. Não sabia o que significavam
nem se seriam importantes, era um trabalho mecânico e repetitivo que qualquer
computador ou robot poderia fazer melhor e mais depressa. Talvez fizesse parte
do método de controlo. Roubar todo o tempo livre, toda a autonomia e impedir
qualquer tarefa criativa. Se o processo continuasse por muito mais tempo, é
provável que muitos enlouquecessem ou pensassem ser apenas máquinas
telecomandadas. Se era possível fazer nascer animais fabulosos de um sonho ou
da imaginação, então talvez também fosse possível extrair algo de bom daquelas
sequências de caracteres.
Um O rodeado de Ms é um Sol brilhante. Um O
com dois Os minúsculos e um C deitado é uma cara sorridente. Duas filas de Ts
são uma alameda de plátanos. Uma fila de Xs com Os são bailarinas rodopiando,
felizes por entre uma alameda de plátanos… Ouvem-se palmas e risos. São
crianças, correm e saltam por entre Ys que são gatos e Ls que são girafas… As
quadrículas são pradarias, os Us dunas, os Ds meias luas crescendo sobre um mar
de Ms… Enquanto caminham pela areia húmida, os 8s cantam a plenos pulmões a canção
do infinito, os 2s são cisnes num lago azul, os 3s esvoaçam sobre as montanhas…
O zero multiplica-se e derrama-se sobre a Terra numa chuva suave e
auspiciosa…
Não estava propriamente a pensar, a
ordenar ideias com raciocínios lógicos e ideias geometricamente claras. Estava
a olhar de modo diferente e isso o chip não registava porque era algo
desconhecido pela sua natureza e mecanismos. Era possível pensar sem pensar,
olhando apenas, sentir com os olhos interiores. Mais um ponto de fuga num
horizonte impreciso. Levantou por instantes os olhos e viu os raios de Sol
atravessarem o vidro da janela. Eram milhões, mas se continuasse a olhar talvez
conseguisse vê-los a todos distintamente, um por um. Ali só entrava aquele
feixe de luz. Algures, em campo aberto, a luz do Sol ainda preservava a vida, a
água brotava em nascentes indescobertas, as plantas brotavam do solo, os
animais que escaparam à grande caçada reuniam-se, aguardavam cada gota,
bebiam-na e persistiam. E as crianças? Onde estariam?
São Ludovino, 22/4/2020
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