quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Textos intermináveis - VIII

O Estado das Coisas

Preâmbulo

Às vezes, o estado sente dores nas costas, na cabeça, nos músculos das coisas
Às vezes, o estado queixa-se de dores nas costas, cabeça, músculos e acusa as coisas
Às vezes, o estado toma medidas extremamente dolorosas para evitar dores de qualquer espécie
Às vezes, as coisas cedem e aceitam todas as dores e até chegam a pensar
Que são um dever, uma bênção, a ordem natural das coisas
Às vezes, as coisas cansam-se das dores e do estado
E buscam formas de se curar e curar o estado.

Group of Twelve with Interior by ©Oskar Schlemmer (1888-1943), 1930.
   

A Ordem Pouco Natural das Coisas


O estado das coisas depende do estado e das coisas
É volúvel, variável, viável, inviável, mutável, imputável
E, às vezes e inesperadamente, é completamente estável
Parece extremamente estável, mas parece mesmo.
Esse é o principal propósito do estado das coisas;
Alcançar a aparência, não a essência,
De uma estabilidade absoluta e perpétua
Sempre com uma aura benfazeja e megalítica
O conforto que nunca dói, não obriga a despertar, não sofre erosão
Adormecer, descansar, seguir a rota, perecer, petrificar-se
Ressuscitar das coisas idas
Outrora também eternamente estáveis
E abraçar o novo estado das coisas preconizado para ser estável.
Se não fizer ondas e mantiver o sigilo absoluto, este ou aquele
Poderá até acordar com uma fúria de injustiçado
De iconoclasta ecológico, de abelha obreira sacrificada
Poderá abalar fortemente o estado aparente das coisas
E recolher-se ao deserto onde poderá perecer no mais absoluto sossego.
Que ninguém diga que não tem escolha
Pode adormecer e perecer de tantas formas.

O estado impõe às coisas a sua vontade, o seu plano
Um design disciplinador que age de fora para dentro
Absorve, nivela, retoca a naturalidade das coisas.
Não se sabe ao certo quem comanda o estado
Quem é, o que é ou o que pretende ser
O estado mais vulgar é sempre um colectivo
Cristalizado temporariamente num indivíduo
Num organismo unicircular, unicerebral.
Será talvez o contexto, a estrutura global
As necessidades de alguma força oculta em si própria
Os caprichos de alguma vontade egotista
Os acasos que escapam a todas as vontades…
As probabilidades são muitas
O estado tende para a unicidade
Uma rigidez de máquina colossal.
Infinitos braços estendem-se em todas as direcções
Buscam as coisas, envolvem-nas com o abraço das serpentes
Digerem os entes, vomitam os indesejáveis excedentes
E as bocas continuam mais insaciáveis do que os estômagos.
O estado queixa-se permanentemente do excesso de trabalho
Sempre inacabado, sem pausas
Lamenta a ingratidão das coisas
Por isso, coroa-se a si mesmo com ofuscantes diamantes
E deixa os espinhos para os teimosos ingratos…
Por mais que os cilindros continuem a rolar
Não há meio de aplanar os obstáculos
E as singularidades da topografia.
O mundo ideal do estado é sempre plano.

Por entre tanta diversidade e tantas mudanças
Fica sempre a suspeita de que não há um estado
Mas uma infinidade de estados que agem de modo similar…
Sucedem-se uns aos outros regularmente
Como se nada mudasse afinal…

As variações são elementos decorativos, estímulos, contra-pesos
Amostras inofensivas de livre-arbítrio
Não atingem a pureza orgânica da estrutura.
As coisas já vêm pré-fabricadas, ordenadas, formatadas
Trazem redes de protecção, ofertas e bónus
Motores potentes, patas de centopeia, aceleradores de partículas
Dietas, gruas, garrafas de oxigénio, anestesias
Trazem pré-conceitos, tarefas e metas definidas
Não dão trabalho nenhum
Desde que se siga o manual de utilização.

Para quê fazer perguntas existenciais às coisas se elas
Ou ficam mudas e não respondem
Ou desatam a manifestar-se numa vozearia incompreensível?
Façamos apenas perguntas simples e sinceras
E observemos respeitosamente a existência das coisas.
Mais cedo ou mais tarde, as coisas
Acabam sempre por responder
Mesmo às perguntas que ninguém soube fazer.
Há coisas que adoecem subitamente
Há coisas que parecem mudar de natureza
Há coisas que se revelam excessivas
Há coisas que degeneram ou regeneram
E coisas que se tornam tão belas e transparentes
Que se recolhem na invisibilidade
E assim escapam aos ditames do estado geral das coisas.

Nas estruturas férreas do estado temporariamente vigente
As coisas são sempre potencialmente as mesmas
Qualquer que seja o cenário, o habitat, o role play
Qualquer que seja a língua em que se pronunciam…
Umas são esféricas e rolam pelas ruas
Outras são pontiagudas e espetam-se nos placards
Algumas estão quietas, outras correm e saltam
Gemem, cantam, gritam, chamam, dissolvem-se
Algumas são gente, outras são criaturas, objectos, ideias
As coisas-gente chamam simplesmente coisas às outras coisas
As outras coisas não dão importância às coisas-gente
Nem às palavras que usam para as designar e catalogar.
As coisas-gente querem possuir as outras coisas
Querem fazê-las à sua imagem, colecioná-las
Encaixá-las no estado, no seu estado
No estado de alguém, de alguma coisa…
As coisas, que não falam nem possuem nada,
Deixam-se apenas ser e fluir naturalmente.
Se falassem, seriam mestres e sábios
Talvez dissessem às coisas-gente:
«Não ensineis as coisas a ser como vós
A falar a vossa língua, a seguir os vossos passos
Não as obrigueis a sufocar nos vossos laboratórios
Mais vale fazer, desfazer, recriar as coisas constantemente
Sem lhes roubar um único átomo
Sem perguntar, sem pedir licença ao estado
Ou então, deixá-las ser, ir sendo de idade em idade
Deixá-las crescer ou minguar à medida das gentes, das almas, dos dias…»

Na verdade, as coisas pouco ou nada sabem sobre o seu estado
Mostram o que são, sendo o que são…
Uma flor não tem constituição nem código legal
Nem sequer sonha, reflecte ou exerce autocrítica
Cresce e murcha livremente
Com todas as suas virtudes e defeitos
Sem outro propósito senão o de ser o que é.
Pouco lhe importa se as suas pétalas ou aroma
Agradam ou não ao estado das coisas
Florir é muito mais importante do que agradar.
Mudar de cor, envelhecer, perfumar o ar
Não são uma obrigação
São uma forma de existir…

É um contra-senso falar do estado das coisas mutáveis
São todas mutáveis, as coisas-gente e todas as outras.
Se são mutáveis, não têm um estado
Vão passando por sucessivos estados
Estados temporais, existenciais, cognitivos, físicos, metafísicos…
O que lembram as coisas de si mesmas?
E das outras coisas?
Não importa, as coisas não perguntam tal coisa
As coisas não racionalizam, não metaforizam
Nem segmentam o tempo
As coisas são a resposta a todas as perguntas
Que poderiam fazer se fizessem perguntas.
Quem pergunta, sem saber o que pergunta, são as coisas-gente
“Essas massas anti-naturais, iletradas e arrogantes!”
Mas não perguntam para saber ou conhecer
Perguntam para invadir, para dominar ou catalogar…
Ainda bem que as outras coisas não lhes respondem
São apenas o que são
São livros abertos, basta ler
Está lá tudo.
Os fósseis contam a história de milhões de anos
As nuvens distribuem vida líquida
Os ventos vão apontando caminhos infindáveis e píncaros inalcançáveis
As palavras continuam a existir e a coexistir com todas as coisas
Mesmo que o ditador mande queimar todos os livros
Mesmo que apague dos dicionários todas as palavras livres
Mesmo quando ninguém as pronuncia, elas existem
Mesmo quando ninguém pergunta, as perguntas existem
As perguntas divertem-se a si mesmas, existindo
E as histórias recebem todas as coisas de braços abertos…

As coisas comuns são amigos universais
Não conhecem o conceito de inimigo
Até ao momento em que lhes rasga a pele
Até ao âmago da alma
Sem causa nem remorso.
O estado unicéfalo vê inimigos em toda a parte
Precisa de inimigos em toda a parte
Em todas as coisas-gente e até nas coisas comuns.
Se não existem inimigos, inventa-os
Se não parecem suficientemente perigosos
Cria métodos que os fazem parecer perigosos
A seu favor ou contra si mesmo.
Mais cedo ou mais tarde, as coisas-gente
Acabam por acreditar nas invenções
Ou por dar o corpo à fantasmagoria:
― Ergue-te! E eles erguem-se.
― Caminha! E eles caminham.
― Obedece! E eles obedecem.
― Devora! E eles devoram.
― Apaga-te! E eles apagam-se
Até que a invenção se torne inútil
E dê lugar a outra e outra e outra.

Na taxonomia mais elementar do fluir do mundo
Os opostos são plenos e absolutos:
O estado é o inimigo, as coisas são tudo o resto.
Esquece esta taxonomia uma evidência:
As coisas são seres recíprocos, intermutáveis
As coisas-gente e as comuns não podem viver isoladamente
Embora seja evidente que as coisas-gente precisam mais das coisas comuns
Do que as coisas comuns precisam das coisas-gente.
As coisas-gente fazem o estado e o estado faz as coisas.
Só que o estado e as coisas que cada um faz
Não são sempre os mesmos:
Novas gentes e novos estados fazem coisas diferentes.
Restam afinidades, genealogias, estruturas fundadoras
Que permanecem quase inalteráveis.
Em última análise, o estado é sempre menos poderoso e decisivo
Do que a natureza das coisas.
O estado precisa de se materializar
De existir dentro e fora de si
Estende apêndices e órgãos por toda a parte.
Sem as coisas, todas elas, o estado é pura ficção
Um altar vazio, uma auréola sem beatitude
Uma maquinaria inútil e inerte
Ordena mas não cria
Dirige mas não conhece
Decreta mas não cumpre
Disseca mas não fecunda
De vez em quando morre, mas renasce sempre
Duplo, múltiplo, falsificação ou metamorfose do que já foi.
Sem a vontade das coisas, o estado inexiste e definha
Mesmo quando mais nada parece existir.
Para o estado não há verdadeira distinção
Entre as coisas-gente e as outras coisas
Se houvesse, não seria estado
Seria existência pura…

A mutabilidade das coisas é o primeiro
E último problema das coisas em geral
É um sintoma agudo da sua falta de estado
A permanência necessária para que sejam
Se definam, se distingam das outras coisas.
Num ou outro ponto da sua história
Todas as coisas estão sujeitas ao imprevisto:
Um abençoado contraponto da monotonia e da ordem absoluta
Uma ostensiva declaração de eterna efemeridade
Uma revelação do que não vem a seguir
Não sucede, não precede, não permanece.

O estado irrita-se frequentemente
Olha à volta e percebe que as coisas mudaram de lugar
Insistem em ter uma autonomia que não era suposto terem.
Para obviar à subversão decorrente da mutabilidade
O estado decreta novas regras e medidas
Delimita campos de acção, territórios, enclaves e exclaves…
Assusta-o sobretudo a mutabilidade inesperada
Aquela que se despenha de algum recanto inexplorado
Do céu, da terra ou do inferno, todos igualmente terrenos
Como agulhas de granizo ou rajadas de fogo ululante.
Um dedo hirto aponta uma direcção
Imagina desenhar setas no espaço infinito que não pertence a ninguém
Decide possuir o tempo, as vidas, a totalidade das coisas…
E, contudo, nada acontece, nada expectável
O dedo cai no vazio
E o ar torna-se de novo respirável.

Mas é mesmo inesperada a eterna mutabilidade das coisas?
É inesperada para quem não a espera nem a busca
É inesperada para quem a teme e quer torná-la previsível.
É a ânsia de estabilidade que gera toda a mutabilidade
Toda a transformação das coisas e dos seres
Esperada ou inesperada, individual ou colectiva…
A mudança é uma necessidade e uma condição natural…
O plano oculto que parece existir quando se olha da frente para trás
Consiste simplesmente em permitir e receber a mudança
Ir livremente na maré, ancorar ou velejar
Até ser a onda, a maré e o leme.
Quando se olha de trás para a frente tudo é oculto
O plano desaparece e dá lugar ao medo, à imaginação e ao sonho
Aí principia novamente a evolução, vez após vez
Da vontade à obra
É natural olhar para a frente e para trás
É aí que se descobre a estabilidade na mudança
Mesmo que regrida, mesmo que tudo pareça inalterável
É inevitável esta viagem
A rota ideal consiste em evoluir sempre
Ou pelo menos descobrir o grão de evolução
No caos de infinitas mudanças e permanências.
Que fique o estado empedernido no seu covil
Melhor é sempre o horizonte que se abre e revela
Para que o ser das coisas se revele na sua plenitude.
É preciso mudar e permanecer para evoluir e renascer
Mesmo contra a vontade das coisas adversas.
Às vezes o plano falha, o latente e o manifesto
Esquiva-se, detém-se no limiar de qualquer coisa.
Na verdade, falha muitas vezes, falha sempre
Que um perde o ânimo, a dignidade, a claridade dos dias
Sem vislumbrar o reverso da pesada penumbra da imobilidade.
Aí não houve evolução nem redenção, houve perda, dor
Mesmo que o plano tenha sido cumprido integralmente…
Não há evolução sem equilíbrio, justiça e proporcionalidade
Entre o ser, o agir e o devir…

As coisas também são contexto
Estão à volta do funcionalismo das coisas.
A estrutura determina a função e a utilidade de cada coisa
Envolve os actores-executores-funcionários-subsidiários das coisas
Com braços, ventosas, roldanas, túneis e canais
Erguem o palco, desenham o cenário, alimentam os títeres
Os titereiros, os pontos e os contra-regra
Desinfectam o proscénio, alinham a plateia e o balcão
E, finalmente, aconchegam-se nos camarotes
Até que o pano desça e a comédia, a tragédia ou a tragicomédia
Seja engolida e esquecida por uma chuva
De aplausos catárticos ou cúmplices.
Ninguém sabe muito bem de onde vêm os aplausos
Mas também ninguém sabe o que aconteceu afinal aos títeres.
Os titereiros, esses foram cear e festejar.

As coisas são uma superestrutura que determina a função
Do todo e de cada parte, relevante ou irrelevante.
As coisas vêm sempre do passado, cobertas de novas vestes
E projectam-se adiante, bem para lá do alcance do relógio e do olhar.
Devoram antecipadamente o tempo futuro
Estipulam calendários, o ritmo da evolução
Da suspensão do tempo, da reescrita da história
Os momentos precisos em que a caminhada humana
É entrecortada pela comédia e pela tragédia.
Os titereiros morrem a rir, não sabem chorar
Odeiam a comédia comum, as sete idades da vida vulgar
Em cada instante encenam gargalhando interiormente
Os contornos da próxima grande tragédia.
No contexto amplo das coisas todo o acto é previsível
As tragédias fazem-se anunciar muito antes de se consumarem.

Regra geral, no estado geral das coisas
Não há distinção entre as coisas inanimadas
E as coisas dotadas de anima e vontade
Entre os mecanismos e os mecanizados
Entre a ideia alicerce e as colunas que a sustentam.
Mas desçamos aos interstícios das coisas
Onde a individualidade permanece diferenciada
Na torrente tempestuosa das vozes e das ideias divergentes…

As vozes por aí dizem que o estado das coisas é terrível
Que tudo se está a desmoronar
Que o velho mundo agoniza
E em seu lugar ninguém sabe o que virá…
 

As vozes do mundo e das coisas

Uma voz do mundo – um louco


Quem me dera estar deveras louco
Nada teria a temer
Tudo seria fruto da minha loucura.
 
Uma voz do mundo – um lúcido

Perdi uma faculdade qualquer
Não sei exactamente qual
Ver com clareza deixou de ter grande utilidade
Falta-me a neblina da esperança.
 
Uma voz do mundo – um embriagado

Queira ou não queira, tudo se move
Caminha coxo, torto, desamparado
Até o acaso vem chocar comigo
Eu só bebo água cristalina
É o álcool que me bebe a mim
E ao mundo em redor…
 
Uma voz do mundo – um conformado

Podia ser pior, podia ser sempre pior
Às vezes, o sol brilha, a água mata a sede
Às vezes, os morangos ainda sabem a morangos
Às vezes, o criminoso é condenado
Às vezes, a verdade vence a mentira.
“Às vezes” é a medida da nossa felicidade
Mais vale não mexer um dedo
Quem sabe quanto mal pode trazer um dedo que se move?

Uma voz do mundo – um fatalista

As probabilidades são sempre contrárias
Dez, mil, um milhão, cinco mil triliões
Existe uma única probabilidade favorável
Mas quem poderá achá-la, ir ao seu encontro?
 
Uma voz do mundo – um optimista

As probabilidades são como a sorte
Batem todas a todas as portas
Basta estar atento e escutar cada toque
Depois, basta abrir a porta no momento certo
E a oportunidade certa entra com toda a naturalidade.
Só os surdos podem queixar-se ligeiramente
Mas as probabilidades não se limitam a bater à porta
Também fazem gestos, dançam e enviam aviões de papel.
 
Uma voz do mundo – uma criança

O noticiário tem demasiadas personagens
Cada uma faz o que lhe apetece e nada lhes acontece.
Eu comi um chocolate inteiro
E fui proibido de brincar durante uma semana.
Não entendo este desconcerto
Que só para mim anda concertado.*
A história está a tornar-se muito confusa
Cheia de buracos, enigmas e muitas patranhas
Parece uma banda desenhada rasgada
Não sei onde está o princípio e o fim
Vou vestir a minha capa de super-herói
E pôr ordem na história…

Uma voz do mundo – um ditador


Quem manda aqui, ali e além sou eu
Somente eu e apenas eu, o mais magnânimo
O grande libertador das nações perdidas do império
Que já houve e haverá para todo o sempre.
Se para libertar os transviados tiver de matar
Cem mil, um milhão, cem milhões
Assim farei, com todo o rigor e devoção
A mim mesmo, somente a mim mesmo.

Uma voz do mundo – um mercenário


Tenho quem me pague, mas não tenho um chefe
Quem me dá ordens é o meu instinto de sobrevivência
A minha fome insaciável, a minha fome futura.
Pagam-me para sobreviver e matar
Sem hesitações, sem remorsos, sem moralismos.
Nenhuma nação é a minha, só os fins dos que pagam.
Contribuo para desenhar a ordem e a desordem do mundo
Sobretudo a nova velha ordem que me criou
Gosto de mudar de ares, mas não de ordem.

Uma voz do mundo – um criador


Por mais que pinte a tela o negrume persiste
As coisas gemem sufocadas sem cor
Dissolvem-se exangues na poeira.
O meu pincel planta árvores gigantes no fundo das crateras de cinza
Desenha sorrisos no rosto das coisas feridas, no espanto das coisas
Estilhaça a longa noite em retalhos, rasgões, pespontos e fagulhas
Para que a luz entre finalmente pelas brechas.
Neste duelo já perdi muitas batalhas
Mas não desisto nem baixo a guarda
Sei que a criação nasce da persistência.
Percorro a tela, cubro cada milímetro com a minha própria alma
Recolho com dorida reverência cada gota, cada mancha de sangue
Pulverizo cada partícula cortante, cada gume ácido traiçoeiro
Capturo cada intruso atómico, cada átomo envenenado
Saro as feridas dos puros, apago as rajadas de ódio e aço
Rasgo janelas ofuscantes nos círculos negros das hordas assassinas
Extingo toda a escuridão em que não cintilam estrelas
Abro novos céus de par em par e espero…
Respiro profundamente até que o novo dia se anuncie
Primeiro num recanto intocado da tela do mundo ferido
Depois, em todos os quadrantes do horizonte.
No final, não ficará uma única réstia do voraz assassino
Só a beleza novamente recriada com todas as suas imperfeições
E dúvidas e erros e ideais e pinceladas livres…
Sei que não estou só nesta batalha, nesta obra aberta
As mãos que de novo se tocam, os braços que se reenlaçam
São a maré alta que não deixará a maré negra vencer…

Uma voz do mundo – uma nuvem


Estou sempre de passagem
Do mundo para o mundo
Sendo sucessivamente tantas nuvens, naves, navegantes
Enquanto olho o meu rasto, o meu rasto desfaz-se, refaz-se
Vou sendo gato, tartaruga, cavalo, elefante
Voz inaudível de uma vasta orquestra que vai nascendo
Gesto vago de viandante, escultor peregrino
Que é matéria e parca alma da sua própria obra efémera
Um gigante que se espreguiça e toca nos confins de qualquer coisa
Uma casa que se ergue sobre uma árvore frondosa, pensante, escrevente
Uma árvore que carrega o mundo
O mundo que vai caindo líquido sobre as planícies.
O mundo cai sobre o mundo, não eu
O mundo muda o mundo, eu só mudo de forma
Como poderia eu mudar o mundo
Se só o meu suor lhe conhece as entranhas?

Uma voz do mundo – um fragmento de tempo


Nunca é tarde, nunca é cedo
Nunca é excessivo ou exíguo o meu fluir
É livre e dúctil na sua exactidão
Saio e entro de mim ao mesmo tempo.
Não há distinção entre uma partícula e a totalidade de mim
Do primeiro ao último segundo não há distância
Segmentos, fragmentos, noas, cronómetros, ampulhetas.
É o mundo que degenera, envelhece contra o tempo
Criou a medida da degenerescência e do fim.
Eu não tenho princípio nem fim
Em mim toda a ordem é dinâmica e regeneradora
Prossegue o caminho de Lavoisier, das sementes, dos ventos e dos vermes.
O caos são apenas os intervalos incandescentes
Que tentam em vão quebrar os elos da eterna corrente.
Eu não sou salvo-conduto nem cicerone, não curo nem faço adoecer
O mundo degenera porque não sabe crescer nem envelhecer
Aprisiona-me e, assim, torna-se prisioneiro de mim…

Uma voz do mundo – um fragmento de memória


Esqueceu-se do nascimento, esqueceu-se de nascer
Esqueceu-se de mim e do que é em mim
E assim nem sequer pode morrer
Descansar enfim.
Culpa-me por não ter estado lá
Embora eu tenha estado sempre lá
Não fui eu, não, não fui eu que decidi
Não fui eu que fugi
Não fui eu que apaguei as pégadas
Os dias, as noites, o cintilar das estrelas
Não fui eu que me esqueci de desfiar o novelo
Não fui eu que ordenei
Que fosses por aqui ou por ali
Seguiste o rebanho até ao precipício
Cairás sem saber porquê…

Uma voz do mundo – uma ave migratória


Era suposto ter partido hoje
Os ventos estavam favoráveis
As nuvens abriam-me o caminho
Por entre uma pausa de serenidade
Mas algo me fez ficar
Não, não foram as bombas que despedaçaram a árvore
Onde construí o meu ninho e alimentei os meus filhos
A árvore de onde eles se lançaram na primeira aventura
E descobriram o poder imenso de ter asas
Não, não foram as águas envenenadas, os frutos saqueados
Não foram as estradas apagadas, os bosques incinerados
Não foram os crepúsculos cinzentos sangrentos
Nem os guinchos ferozes e raivosos dos assassinos…
Tudo isso foi apenas o último clamor que rasgou a aurora
E não me deixou voltar a adormecer.
Fiquei, ficámos, em uníssono grito de revolta
Pelos que antes aqui ergueram as suas casas
Escolheram esta terra entre as mil deste planeta
Lavraram as terras, cobriram-na de searas
E promessas de pão vindouro.
Fiquei, ficámos, em uníssono acordados no auge da dor
Para vermos a serpente morder a própria cauda
Beber o próprio veneno, embriagar-se de ódio
E fenecer para sempre entre o restolhar da estepe…

Uma voz do mundo – um amoroso


Transporto em mim o impulso mais forte do universo
Uma força conciliadora que busca a união entre tudo e todos
Matéria e espírito, realidade e transcendência.
Não aprendi a amar, não se aprende a amar
Não cumpro o dever de amar, porque não é um dever
É uma natureza, uma inclinação, um sopro de vida.
Não pretendo amar tudo e todos
Não posso amar tudo e todos
O mundo é tão diverso, tão adverso a si mesmo
Tão cheio de desamor, tão desamável.
Não amo os que nada amam excepto a si mesmos e ao seu poder
Não amo os que usam e abusam dos pequenos e grandes poderes
Não amo os que fazem da mentira a primeira e última arma
Não amo o líder que vive para matar
Devorar tudo, sobretudo o amor
Semear o medo, sobretudo o medo da liberdade.
Não amo os escravos que não amam, temem apenas e servem.
Não posso amar tudo, não posso
Não porque me falte espaço na alma
Mas porque não é possível amar o mal e sobreviver…
Só amo os amáveis, os bons, os humanos
Os que nasceram e viveram amorosos
Desde o primeiro instante
Sem garras, sem grades, sem ódio
Em paz com a sua condição e preciosa finitude
Sem se renderem nunca à onda furtiva do desamor
Que vai devorando o mundo
Pedaço após pedaço…
Desejar que se extingam todos os que não amam
O que é por natureza amável e humano
Não é desumano
É, provavelmente, o único caminho para salvar o que resta
No peito dos amáveis e entre as linhas do horizonte…
Esta joaninha silenciosa alguma vez te apunhalou?
Este gafanhoto inquieto alguma vez te derrubou na caminhada?
Essa árvore frondosa que não se cansa de existir
Alguma vez te negou a sua sombra?
Aquela nuvem viajante alguma vez te mentiu?
O rio que corre do coração da montanha alguma vez te negou a sua água?
O oceano que te permite imaginar um novo mundo
Alguma vez se desvaneceu quando abres de novo os olhos?
O deserto que te poderia matar de sede
Alguma vez veio cercar a porta da tua casa?
Aquele peregrino que atravessa desertos e oceanos
Alguma vez te ensinou a descrer em ti?
Aquele que vive apenas dos frutos do seu suor
Alguma vez te negou a sua mão ou te veio roubar o teu pão?
São outros os desamáveis
São outros os inimigos do amor
São outros os que devoram o mundo e a vida.

Uma voz do mundo – um triste


Somos tristes, somos trastes, somos tontos
É assim, é natural, é a nossa natureza
Dizem-me amiúde e repetem e riem
E eu nunca os vejo tristes
Não, eu não sou “nós”
Cada um é cada um e só esse um
Estamos sempre sós, um a um
Eu não estou triste porque estou só
Porque sou um apenas
Só que ser um apenas não me faz rir
Nem chorar, nem querer ser outro ou muitos
Estar triste não é ser triste
Não sou triste, nem traste, nem tonto
Estou triste quase sempre apenas porque sei
Que ser um apenas é uma condição natural
Mas estar triste não.
Estou triste, quase sempre
Apenas porque quase ninguém sabe que é um apenas
Frágil e finito, insignificante e único
E que ser um apenas é um tesouro precioso
O único que possuímos, o único que nos une
A única coisa que podemos partilhar
Perder, descobrir, conhecer, expandir, interrogar…
Fico triste quando entre as lágrimas ou o riso
Não encontro sinais de partilha do único elo que nos une
A consciência de ser…

Uma voz do mundo – um impaciente


Quantos saltos em frente já dei
Que insistem em empurrar-me para trás?
Se eu quisesse saltar para trás
Provavelmente iria cair lá à frente a anos luz daqui.
Eu só quero chegar mais cedo
Saborear antes, respirar hoje o ar de amanhã
Escapar à bomba que planeiam lançar num dia qualquer
Que não consigo adivinhar
Não quero adivinhar, esperar
Repetir o pesadelo vezes sem conta
Quero escapar antes que me despedace
Antecipar o futuro próximo
Ter tempo para decidir.
O futuro distante assusta-me
É esse que me inquieta
Parece cada vez mais longínquo, mais ilegível
Sob os meus pés continua a existir o mesmo solo
Como se nunca tivesse dado um único passo
Sinto-me imóvel e tudo me escapa
Vivo à espera não sei de quê
Ninguém sabe!?

Uma voz do mundo – um pacifista


Nasci no dia em que pela primeira vez
Um homem matou outro homem
Nunca mais voltei a ser o mesmo
Nunca mais adormeci
Nunca mais parei de procurar a raiz do mal
Procurei-a no íntimo do assassino
Procurei-a nas circunstâncias fortuitas
Procurei-a nas causas imediatas e nas causas duradouras
Procurei-a no fio da história e nas entrelinhas dos mitos
Procurei-a no coração dos honrados e incorruptíveis
Procurei-a nos vastos territórios dos impérios
Procurei-a nos frios salões onde uns decidem a paz e a guerra dos outros
Pensei ter encontrado a raiz do mal em tantos lugares e seres
Mas estava enganado
Encontrei apenas a semente
Uma semente que germina de formas muito diversas
Ou nem chega a germinar, seca por falta de ódio e mentira…
Só aí aprendi e sofri aprendendo
Que é preciso matar a semente e a raiz do mal
Para que a guerra não vença definitivamente a paz…

Uma voz do mundo – um teimoso


Não sou determinado
Nada em mim consegue decidir com vigor e sensatez
Mas persisto, insisto, volto sempre à carga
Insensível à derrota ou fracasso
Renasço das cinzas e dirijo-me de novo
Para o covil da fera, a centelha de luz ou um destino inútil.
É a persistência que dá sentido ao absurdo
Forma à primeira linha do esboço
Voz ao bloco de pedra mudo
Alma à palavra semeada na terra gretada
Rumo ao labirinto dos sonhos multiplicados
Claridade ao engenhoso pensamento.
Tenho um irmão gémeo, igualmente teimoso
Mas mais atento, sensato e pragmático
Antes que o absurdo assome
Já ele lhe descobriu as manhas
E montou a infalível armadilha
A armadilha da inexistência…
Um filtro onde cai inevitavelmente tudo o que não faz sentido
Cai e auto-elimina-se como se nunca tivesse existido.
Faz parte da alquimia da teimosia
Da dele, não da minha.
A mim falta-me a lógica interna e concreta
A ele falta-lhe o sonho abstracto e esquivo.
Quando nos juntamos, então sim
A teimosia é verdadeiramente recompensada
E a Grande Obra nasce.

Uma voz do mundo – um teimoso adormecido


A cada minuto passa por aqui um bando de sonhos
Inteiramente despertos, viçosos, fecundos
Uns são meus, outros alheios, todos bem-vindos
Esvoaçam num turbilhão cadenciado
Asas bem abertas, planam melodiosos
Sobre a minha convicta preguiça.
Por que haveria eu de acordar e refazer o que está feito
Criar o que já foi ou será criado
Aprender o que já sei e o que nunca poderei saber
Se não preciso de mover um dedo
Para enlaçar o mundo e mergulhar ingenuamente
Nos mistérios impenetráveis do universo?
Por que haveria eu de correr ansioso ao encontro de aves tão colossais
Para lhes tocar e dissecar as penas, o corpo imaculado, os pensamentos?
Por que haveria eu de erguer uma altíssima torre de cristal
Se daqui avisto tudo o que poderia desejar avistar e sentir passar
E mais ainda, sempre mais do que consigo imaginar?
Por que haveria eu de reescrever a pauta de uma sinfonia perfeita
Se a música que recebo em mim me traz todo o ideal de perfeição?
Por que haveria eu de querer cartografar o tempo e o espaço
Se sei que só eu posso caber num mapa, mas não o tempo e o espaço
Em que tudo se cria, se transforma, fenece e recria?
Não, não quero mudar nada que não se mude a si mesmo
Em coexistência harmoniosa com tudo o resto.
Neste amor ocioso e contemplativo reside toda a minha teimosia.

Uma voz do mundo – um rebelde de facto / o bom rebelde


Tudo o que se passa neste mundo me diz respeito
Neste mundo, em cada palmo de terra, nesta galáxia e em redor
No sono e na vigília mantenho-me atento.
Mesmo quando olho para a lua
O mundo vem ter comigo, oculto ou iluminado.
Mesmo quando vejo as células num microscópio
O mundo vem ter comigo, inteiro ou em pedaços.
Mesmo quando me deito sob uma árvore que nunca viu a guerra
Todas as guerras vêm ter comigo e me dizem que podia ser eu
Que também sou eu que estou lá entre o cruzar das balas.
Não posso desalistar-me do mundo
Não posso desertar da humanidade
Não posso ser neutro e imparcial
Tal coisa não existe no mundo:
O que invade, destrói, mata
Não é igual ao que é invadido, destruído, morto
Estão nos antípodas de todos os mundos
Seres antitéticos e incompatíveis
Mesmo quando caem no mesmo campo.
Não é maniqueísmo cego, é a separação das águas.
Entre o agressor e o agredido não há espaço
Para o relativismo moral, para o assassínio subjectivo selectivo
Para a justificação através da farsa história, da mentira contínua
Daninha, perversa, vespa venenosa sequiosa de reinar.
Entre o agressor e o agredido só há espaço
Para a verdade e a justiça…
Tudo me rodeia, o que vejo e não vejo
Tudo me interpela e me chama
Não é uma voz solitária que chama
É o coro da tragédia que avisa e anuncia.
Tento chegar lá antes do quinto acto
Antes que me sinta e saiba inútil e impotente…
Dizem que sou um activista.
Estão enganados, não sou um activista!
Sou um agente do bem com auto-propulsão
Sou avesso a todos os activistas da moda
Idiotas inúteis que se servem a si e aos seus financiadores.
Sou um agente livre, não porque tenho causas maiores que o mundo
Mas porque ajo, visível ou invisível, faço da acção o meu elã.
Não porque grito ou pinto cartazes que se desfazem na água da chuva
Mas porque sou permanentemente compelido a agir
Em prol dos livres e dos oprimidos que querem ser livres…
Os oprimidos que me querem oprimir são meus inimigos
E inimigos de toda a Humanidade.
São muitos milhões e custam mais a vencer do que os autocratas
Que só existem porque são alimentados e preservados
Pelos oprimidos por vontade própria.
Pensar em agir já me motiva e satisfaz o ímpeto solidário
Agir de facto é o meu nirvana
Plenamente real e humano, aqui e agora
Aquém e além da utopia.
Não sou um anarquista
Não quero violentar todos os sistemas, todos os ideais
Destruir tudo e todos de todas as maneiras
Indiferenciadamente, amoralmente
Para começar tudo de novo
Como se aquele que destrói pudesse criar verdadeiramente…
Sou um arquivista de acções, de emoções, de amores eternos
Cada pequeno passo transporta-me para além da indiferença
Os indiferentes assustam-me por serem tão comuns
Tão dóceis, tão manipuláveis, tão dissimulados
Na sua suposta sapiência, na sua fingida e parcial benignidade.
Assusta-me o conformado conforto dos pacifistas que voltam as costas
Assusta-me ainda mais a concordância dos pacifistas do império
Os plutocratas belicistas de carreira…
São eles que justificam a barbárie do agressor
Enquanto defendem a rendição dos agredidos…
Oferecem a paz sangrenta em troca da liberdade escrava
Nada mais têm para dar…
O mundo dorido e exangue vem ter comigo
Como poderia eu voltar as costas ao mundo ferido
Ao que ele me traz de desumano e intolerável…?

Uma voz do mundo – um fanfarrão


“Faz apenas o que te for conveniente
Ou não faças nada!”
É o meu primeiro lema.
O segundo, o terceiro, o quarto e os demais
Vão variando consoante as circunstâncias.
Adapto-me facilmente ao estado das coisas
Faço de conta ainda mais facilmente
Sou superior às circunstâncias
Venço-as com as artimanhas do ludíbrio.
Mesmo que permaneçam as mesmas e adversas
Neste jogo de espelhos, eu estou sempre do outro lado
Puxo os cordelinhos e vou polindo a superfície das coisas.
Neste jogo não há quem me bata
Não há quem adivinhe em que consiste o bluff
O charme, a sedução de uma mentira tão descarada
Que se torna convincente e fértil.
Defeitos, guardo-os para mim e dou-lhes nova identidade.
As fraquezas de outros são o meu encanto.
Se sou viciado em quase tudo o que me dá prazer
É porque me dá prazer ser viciado.
Por que haveria de abandonar os meus vícios?
É com os meus vícios que venço os outros
E as circunstâncias mais inesperadas…

Uma voz do mundo – um voyeur


Prefiro o mundo animado ao mundo inanimado
Prefiro olhar a distância do que a biqueira dos meus sapatos
Mas não há satisfação maior do que a observação
De um ser vivo, sobretudo se for da espécie humana.
Não há criatura mais mutável, mais insatisfeita
E inconstante do que um ser humano.
Não sou um doente, maníaco, paranóide
Sou antes um estudioso, um observador atento.
Se passo o meu tempo neste contínuo exercício
De espionagem psicológica e dialógica
É porque estou ciente de que é na observação dos humanos
De qualquer humano, de qualquer latitude, estirpe ou ideologia
Que reside afinal a origem de todas as circunstâncias
E de todas as mutações que vão sofrendo.
Objectivamente, sou apenas um historiador amador.
Não escrevo a História, observo-a em sintonia.
Sou, em suma, mais fidedigno do que qualquer historiador
Que chega sempre atrasado a cada estado das coisas
E deixa sempre enormes fissuras no discurso e na história…

Uma voz do mundo – um guia


Chegam a confundir-me com um cão ou com uma bengala
Chegam a passar-me a mão pelo pêlo
E a abraçar-me como a um salvador de qualquer coisa.
É uma sensação intimidante, desconfortável
Como se alguém me viesse entregar um prémio
Por uma façanha que não cometi
Ou me viesse cobrar uma dívida que não contraí.
Eu limito-me a apontar o dedo
Mostro um caminho entre muitos
Repito o que dizem as tabuletas
Dou nomes aos lugares, às ruas
Às pessoas que existiram aqui ou ali.
Não me dou bem com nenhum estado de coisas
Porque estou sempre em movimento
Que é o contrário de qualquer estado.
As coisas não têm estado
O estado é que se apropria das coisas
E dá-lhes um estado, queiram ou não queiram.
Aparentemente, eu também sou uma coisa
Uma coisa demasiado móvel
E, por isso mesmo, perigosa.
Mesmo quando sou muito coerente
E aponto, vez após vez, o mesmo caminho
Exactamente na mesma direcção.
Alguém me bate à porta e diz:
“Tenha cuidado, não incorra em desvios de curso ou percurso
Não se esqueça de que lhe cabe apenas manter-se no caminho
Nada de digressões, não lhe cabe fazer descobertas ou reflexões
O estado das coisas assim o exige.”
Quando se vão, pergunto a mim mesmo
Qual é afinal o propósito da minha monótona missão…
Desconheço a resposta.
Continuo a apontar o caminho, qualquer caminho
Continuo a desconhecer aonde conduz
Mas conduz, lá isso conduz
Porque eles lá vão…
E, se voltam,
É para me puxar o lustro ao pêlo já gasto
Ou engessar as mãos para que não possa apontar
Em nenhuma direcção…
É este o meu incerto estado, mais coisa menos coisa…

Uma voz do mundo – um conselheiro


Em bom rigor, não dou conselhos, não dou nada
Confiro os prós e os contras de cada coisa
Faço a contabilidade das vantagens e desvantagens
E apresento a média mais vantajosa em cada estado
E em cada transição entre estados.
Não posso dar conselhos sobre o estado das coisas
Como um todo uniforme e previsível.
As coisas vivem num mundo de probabilidades
E incertezas sistémicas.
Se me pedem a minha opinião, eu dou-a
Sem grandes hesitações e sem cobrar nada.
Agora, se me pedem um conselho
O caso pia mais fino, mais fino do que o filamento
De uma perecível lâmpada incandescente.
Os conselhos são uma coisa muito delicada
Vivem num limbo entre o ser e o não ser.
Se os verbalizo, forço-os a viver
E exponho-os à possibilidade de perecerem
Antes que vejam a luz do dia e da vida.
A gestação de um conselho pode ser tão longa
Como uma era geológica
Ou tão breve como uma sinapse.
Não existem especialistas em conselhos
Não existem conselheiros.
Os conselheiros são figuras decorativas
Que dão credibilidade ao estados das coisas.
As figuras decorativas mudam-se facilmente
Difícil é mudar o estado das coisas…
Tive milhares de antecessores
E sei que a minha hora poderá chegar em breve…
Paz à minha alma, às minhas boas intenções
E aos meus efémeros conselhos!

Uma voz do mundo – um humanista


Não sei por que me perguntam constantemente a idade
Se me dizem constantemente que estou velho
Que sou velho por natureza.
Quem me pergunta sofre de graves lapsos de memória
E confunde todos os tempos e todos os lugares.
Nunca me chamam o mesmo nome
Nunca me atribuem as mesmas afirmações
Tantas vezes contraditórias e incompatíveis…
Ainda assim, consideram-me grande
Um grande “humanista”…
Eu, que sou sobejamente humano
E gosto de o ser
Interrogo-me: Quem julgam eles que eu sou?
Quem é o humanista que eles veneram?
Eu não sou certamente!
Dedico-me a coisas demasiado triviais
Tal como milhões de outros anónimos.
Amo o trabalho e o repouso
A dúvida e a certeza
A luz e a penumbra
As sementes, as plantas, os animais
As coisas simples, o inexplicável
O mistério de existir e interrogar…
Se alguma coisa me distingue
É saber que a minha existência é simultaneamente
Relevante e irrelevante em qualquer estado de coisas.
Tudo depende do ponto de vista
Do ponto de partida e do ponto de chegada.
Suspeito que deve haver múltiplos pontos de vista
Que partiram do mesmo ponto
E chegaram a pontos completamente diferentes.
Entre esses dois pontos
Existe a vida, o amor, a liberdade
A morte, o ódio, a submissão
A esperança de que o melhor vença sempre
E o humano seja verdadeiramente humano…

São Ludovino, 11, 13 e 18/3/2023

* - Paráfrase livre de um verso da esparsa ao desconcerto do mundo de Camões.
“Não entendo este desconcerto
Que só para mim anda concertado.”

The New-Born by Georges de La Tour (1593-1652), 1640.



Textos Intermináveis - VII

O FUNDO DA CHÁVENA CHINESA

PÓRTICO


Todas as palavras existiram pelo menos uma vez na mente de alguém
Mesmo as que já não existem ou permanecem adormecidas algures.
A mesma palavra foi palavras diferentes em mentes diferentes
Soou ou gravou-se em múltiplas formas em múltiplos lugares e tempos.
A realidade gera palavras ou elimina-as pragmaticamente
O pensamento e o espírito conservam-nas a todas
Mesmo que o pensador tenha desaparecido há milhares de anos
Ou aguarde regressar vivo ao mundo através das palavras
Num tempo qualquer em que o espírito da existência do todo
Se reencontra com o fluir natural do pensamento de cada ser.

Se todos sentem, todos pensam
Se todos pensam, todos existem através das palavras
E pensar as palavras é provavelmente o primeiro e o último acto de união
Entre todos os seres pensantes e todos os seres pensados.
Se as línguas dividem e separam, também unem
Suscitam a busca, a curiosidade, o desejo de descobrir a alma
Ou outra face da alma num corpo desconhecido.
Como seres incompletos, as palavras de cada língua redescobrem-se
Na língua dos outros, mesmo que não haja similitude na identidade.
Em contacto com o estranho, renova-se o sentido, revê-se
Funde-se de modo indistinto ou regressa ao sentido original.

Mas qual é o sentido original?
O que foi acrescentado ou amputado?
O que é semelhante e díspar, se as mentes são díspares?
Às vezes, de um pensamento decomposto
Nem sequer restam palavras ou vozes reconhecíveis.
Às vezes, as partes não formam um todo coerente e contínuo
Formam um caminho entrecortado entre cada interrogação
E cada possibilidade de resposta…
E o tempo e o espaço, todos os tempos e todos os espaços
Abarcam todas as possibilidades…
A mais pequena história, a mais ínfima memória
O mais impenetrável relato, a mais clara confissão
Todos os retalhos de realidade ou ficção
Contribuem para compreender e construir o mundo
Todos os mundos que o universo pode conter…

Mas quem poderia abarcar tudo isso
Se nem a Humanidade pode compreender-se a si mesma?
Cada um permanece só na sua compreensão relativa
Ou dilui-se na corrente de um rio que não sabe onde nasceu
Por que corre, para onde corre, mas corre, corre como vê correr
Neste ou naquele sentido sem nunca encontrar a razão ou o sentido
Que conduz os passos e o pensamento
Que abre ou fecha o caminho...

Ocean of stars, photography by São Ludovino.


I – PRELÚDIO

A palavra exacta existe, assusta, interpela
Distingue a verdade da mentira
Carrega a responsabilidade de ser fiel
Mostra o verso e o reverso de uma só vez.
Para aliviar o espírito do peso da verdade
Ou proteger a penumbra da luz que revela
Procura-se antes a palavra incerta ou figurada
Que deixa o campo aberto ao poder de imaginar
Que cria a ilusão de que a realidade pode ser refeita ou apagada
Ou revela simplesmente a impotência ou a recusa em compreender
Em dizer aquilo que se pensa deveras…
Ainda assim, não há palavra incerta que não transporte em si uma partícula
Da palavra exacta, calada, oculta, só, perdida, esquecida…

Por isso, eu escuto e tento compreender os lamentos e as celebrações
Dos que falam e dos que se calam com a mesma dor
A mesma veemência, a mesma certeza ou a mesma suspeita
De que não é possível traduzir o mundo em palavras…

Um pássaro negro na noite


Às vezes não é possível
Dizer a palavra incerta
Que traduz com plena sinceridade e limpidez
As arestas do mundo
A humana sensação de duvidar e acreditar
No vislumbre poliédrico da vida.
O olhar dilui-se na realidade
Como um pássaro negro na noite
E as coisas banais a todos os olhos deixam de o ser…

Enquanto Godot espreita das estrelas


A incongruência dos aglomerados de vozes
Nas filas de ruídos e letras redundantes
Os montes desertos do alheamento cosmopolita
O metropolitano que atravessa com anestesia as veias
Das areias em queda livre
No cerne da ampulheta impossivelmente humana
Ao redor de copos antigos, vazios
Nos largos cinzentos repletos de bancos de espera
E Godot, que não vem, espreita das estrelas…

O insondável peito do mundo


Mas quem poderá desnudar a semântica civilizacional
Esta existência sempre fictícia?
É sempre inefável a escrita
Que coroa a nossa convivência com o absurdo
Um imenso colar de pérolas diáfanas e deslumbrantes
Pendendo sobre o insondável peito do mundo
Uma paleta de cores indesmentíveis
Um trapézio de perigo irrecusável
E ainda assim, assistir ao rolar dos dados
Como se fossem esferas de cristal
Vogando num doce acaso
Pelo tranquilo labirinto do cosmos da grande alma…

Às vezes a imaginação vale mais que mil palavras


Às vezes, não há metáforas
Não há nada por trás dos panos
Dos polípticos, dos biombos
Percorrem-se os bastidores
E o silêncio atordoado
De infinitas deixas e ecos.
Às vezes, a afasia é total
Não há símbolo novo e original
Que a cure e lhe dê voz
Às vezes, é preciso esquecer que tudo já foi dito
E reiniciar o solilóquio e a caminhada pelo deserto…

Às vezes, só as palavras importam
Pouco importa o que se diz ou o que se procura
Por entre os véus de plumas, a mascarilha do herói
A rosa vermelha de Dulcineia
O cutelo, a ceia, sempre a última
A janela, sempre semi-aberta
O jarro das flores, a madrugada, as musas
O cálice, o corpo, o sangue, a fragilidade
Os dados, a febre, a brancura, a sabedoria
O horizonte, a morte, a paixão
A Metáfora Absoluta
A ponte lúcida para a outra miragem.
Pouco importa que jamais se desfaça e nunca se traduza
Porque este é o reino de todas as ilusões…

II – PERSISTÊNCIA


Cada ecoar de passos assemelha-se a uma fé perdida
Cada vulto pintado no tecto altíssimo, a sombra
Agora apenas caricatura descolorida
De um deus deixado perdido na infância
Cada fragmento, um quebra-cabeças de contradições
Um elo relembrado sempre de maneira diferente
Uma centelha fugidia nos confins da alma.

Às vezes é preciso morrer em cada instante
Para encontrar o rubi perfeito
Para percorrer os labirintos da humana dimensão
E carregar para o limiar da luz apenas os tesouros puros
Os únicos e inimitáveis
Os prisioneiros anónimos da sombra.

Às vezes não há palavras que bastem
Para tornar real e eterna tanta irrealidade.
Lá no fundo somos insubmissos crentes
Mas nos altares do saber
A tranquilidade arde interminavelmente
E os tronos do poder enviam os seus agentes camaleões
Aos lugares mais inesperados.
Somos prisioneiros da nossa sociabilidade
Humildes servidores e cruéis carrascos
Da sobrevivência comum.

Às vezes nada é possível
Excepto ser in-diferente
Secretamente
Seguir os solitários átomos da verdade
Serenamente
Ser uma ovelha negra ou um lobo branco
Em perpétua transumância
Pelas margens da vulgaridade.

Às vezes tudo o que crio ou invento
São apenas nenúfares vogando sobre o lago dos flamingos
Um diadema de obsessões irrepetíveis
Colinas peregrinas
Que dão um leve relevo
À imperturbável lisura do mundo.
Pelas encostas as palavras escorregam como lava
Vão formando ilhas indescobertas
Erguendo os pilares de novas invenções.

Às vezes o mundo fica tão pequeno e geométrico
Tão resignado e previsível
E eu sei, de novo, que estou realmente do outro lado
Deambulando sem espera pelo cerne de cada aqui
Estou realmente sozinha
Como as palavras adormecidas
Num pergaminho antiquíssimo
Como as palavras de um poeta
Que a humanidade nunca leu.

Mas tenho a certeza de que o ermita nunca está só:
Não há unidade sem dualidade.
A mão vazia toca o silêncio
E transborda de plenitude.
O coração eleva-se até ao infinito
Nas asas das aves e encontra o divino.
A memória compõe sinfonias de retalhos
E redescobre a voz perdida.
O amor sopra por entre as ervas
E o diálogo interminável é retomado.

Tudo compreendo com minúcia
Tranquilamente descontente.
Caem as cortinas e as fronteiras
E as peregrinações intermináveis da vida adormecida
Não cessam de entrecortar o meu sossego.
Reconheço os rostos de todos os transeuntes
Já nos encontrámos em muitas histórias
Dessas que o mundo tece e entrelaça
Para desenfado dos longos anos de demanda
Inconsequente sem laço nem desenlace.
Colecciono as pétalas caídas do céu
Estendo o meu tapete de veludo pelas ruas
As mesmas ruas de sempre
Em busca de detalhes e preciosidades
Tão banais como inesquecíveis.
Sem esforço, o olhar descobre a singularidade
E as veredas dos dias parecem realmente outras.
Daqui destas alamedas intermináveis
Destes miradouros ubíquos
Quase tudo faz sentido
Quase tudo é dizível.

Há dias em que apenas apetece escrever
Poemas herméticos
Fugazes e imperfeitos
Repetir palavras espontâneas
Associações inesperadas
Dar voz às teimosas revelações do nonsense:
“Sempre o Grande Tentador
Caminhando na berma do negrume;
Ser quase a lança
Quase a coragem
Quase contorno da nova forma.
E a centelha acende-se nos confins da viagem
Apaga o medo, apaga o vulto, apaga a escuridão.
Transfiguram-se as sombras em rosas brancas
E a lucidez perde os espinhos.
Porém as feras permanecem nas suas tocas
Calçando luvas de veludo
Polindo as armaduras
Congeminando planos
Escrevendo manifestos
Justificando os meios.
Estamos frente a frente
Aparentemente sós
Com propósitos aparentemente iguais
Contudo as nossas crenças têm fundamentos
Que em nada se parecem.
A batalha recomeça num ponto qualquer da página
Pergunta após pergunta
Palavra após palavra
Lança após lança
A fera cai, eu caio
Levanto-me
Chego à outra página
Sobrevivo
Ganhei a palavra
A palavra levou-me
Para outra página
Para um novo princípio
Ou um apeadeiro onde não param palavras…

Mais uma vez é tudo uma questão de tudo ou nada.
Como sempre as aparências iludem;
As verdadeiras vinganças são íntimas e secretas
Não derramam sangue
Não apelam à justiça dos homens
― Essa é sempre relativa e incompleta ―
A justiça começa antes das palavras
Só é consumada quando elas já não são necessárias.
As mãos arrancam lentamente as máscaras
À procura do monstro
A face negra da verdade
E depois coloca-se o monstro frente ao espelho
A sós com a sua cobardia
A sós com a sua mentira
O seu nada
A sua inexistência.
Contudo, nunca se confunda esta verdade
Que se descobre num recanto do covil
Com aquela que desnuda a fera
E ilumina a caverna.
Esta mora na nascente de Nair e nas montanhas de Éolo
Na persistência das estações e no amor a tudo o que é puro.
Nunca se confunda a fraqueza com a fragilidade
A altivez com a determinação
A purificação com a pureza.
O que é puro não é imitável
Mas é atingível se a matriz já contém a semente.
Antes de tudo e depois de tudo
É sempre a pureza que conta
Sempre, sempre, sempre.
Por muitos que caiam
Por muitos que se percam
São sempre os puros os cavaleiros da luz
Os apaziguadores deste absurdo universal:
O Bem vence sempre o Mal
Mas nunca para sempre.
Talvez o Salvador nem sequer tenha abandonado nunca o Mundo
Talvez ande por aí
Repartido por esses corações transparentes
Esses seres anónimos e persistentes…”

Às vezes as palavras definitivas
Como “tudo” e “nada”, “sempre” e “nunca”
Dizem só por si todo o sentido
Ou ausência de sentido
Do diálogo de surdos
Dos éditos mudos
Da própria respiração da vida.
O sentido não existe inteiro em nada
O sentido da vida não pode ser inteiramente abarcado
Não é suportável, não é condensável, não é transmissível.
Se o compreendemos agora
Preferimos esquecê-lo no segundo seguinte
Para prosseguirmos em sossego os amados devaneios
Ou retocar o semblante altivo da esfinge
Que enterramos compassivamente na areia escaldante.

Às vezes, abrimos os braços de par em par
Como amplas janelas
E deixamos entrar todos os enigmas.
Abraçamos cada palavra
Como membros insubstituíveis da família
Como se as palavras fossem a única salvação possível
Que nos resta na bagagem da alma.
E é assim que somos felizes
Dissolvidos no mais íntimo dos nossos léxicos.
E clamamos e repetimos:
Felizes somos nós
Que existimos mais por dentro do que por fora!
Felizes somos nós que acreditamos mais nos poemas
Nas histórias e na anima das palavras
Do que nos catecismos da civilização
Sempre impotente, inacabada!
Felizes somos nós que podemos conversar
Sobre tudo e sobre nada
Sem nos sentirmos ridículos intrusos!
Felizes somos nós que descobrimos enigmas
E os resolvemos a nosso contento
Sem fórmulas nem truques nem falsidades!
Felizes somos nós que conservamos no coração
O alento do amor e da imaginação!

Às vezes, “sempre” é uma tempestade tropical
Revolve por dentro as folhas secas de todas as eras
Agita a infinita espiral que tudo une
Amaina e adormece com os passos lentos do crepúsculo
Para que amanhã o céu seja ainda mais luminoso
E azul, profundamente azul…

Definitivamente
A única coisa que possuímos com legítima propriedade
São as palavras e os pensamentos que as antecedem
E acompanham fielmente.
Só elas persistem
Mesmo que jamais as pronunciemos.

A estrutura semântica da vida e do Universo
Ainda não foi descoberta
Aguarda ainda ser cantada
Com limpidez e perplexidade
Por algum desses vates imaculados
Que o anonimato e o tempo encerram
Na sua concha fechada…

Suy / São Ludovino, 3/2/1990

 

III – DELFOS

Existe uma fresta no tempo

Entre as colunatas antigas
E as vozes do presente.
Alguns param, olham e escutam
A brisa que fala e canta através dos tempos.
O templo pode ter ruído ou ter sido devorado
Pelas hordas bárbaras que perecem sempre
Porque nunca deixam de ser bárbaras
Mas os códigos continuam intactos
E a exegese prossegue através das eras
E das vidas que atravessam o tempo.

Às vezes uma bailarina rodopia nas mãos de um gigante
Tropeça na linha da vida e cai a pique sem deixar rasto.
Nesse mesmo instante, o gigante desaparece.
No chão fica um minúsculo miúdo
Que olha sempre para cima sem saber porquê…

Ontem e hoje não são partículas mesuráveis
Do tempo ou da vida.
Ontem estive aqui, hoje estou aqui, amanhã estarei aqui
Mesmo que já não esteja aqui
Mesmo que nunca tenha estado aqui.
Se me senti aqui estive aqui.
Estar aqui é estar vivo por dentro.
É aqui que ontem e hoje se confundem
Com partículas preciosas do acaso
Passado e presente
Habitam na memória e nos desejos
Indistintamente, reciprocamente.
Deixam hieróglifos gravados nos corpos e nas almas
E estão sempre muito felizes
Num recanto da nossa casa
Sentados no nosso sofá favorito
Bebendo o néctar da vida.

Libertada do mito, a ninfa busca um bosque secreto e inumano
Onde tece as palavras viscerais com que coroa o belo e o absurdo
Até os tornar no mais belo dos pastores.
Depois olham-se
E ele sabe e ela sabe
Que ele não deixou de ser quem era
Neblina, mito, possibilidade
Mas ela pode ser quem ele é também
Ser imaginado e materializado.

Por instantes o pensamento toca o eterno
Pensa o novo num velho corpo
Pensa o eterno num corpo finito
Pensa a finitude num corpo eterno e incorruptível
Sentir a eternidade num espírito em construção.

Foi entre as colunas de Delfos que descobri o erro de Sísifo:
Tentou levar a pedra até ao cume da montanha
Quando devia transformar-se em íbex
E viver no cimo da montanha
Entre as pedras, as ervas e as estações.
As pedras rolam naturalmente do alto das montanhas
Vão-se repartindo e polindo lentamente
Tornam-se poeira leve a caminho de outro estado
Inscrito no estado inicial.
Esta é a chave: fidelidade e transformação
É a vida e é a morte.
E cada vida terá de conter muitas mortes
Para que a vida seja vida e a morte visão.
Porém, às vezes, a vida é só uma:
Demasiado finita, demasiado eterna
O rio que passa e o oceano que permanece
A união e a distância de ter e não ter, ser e não ser.
E Eros e Tanathos deixam de se distinguir
Eros veste-se de azul
E Tanathos de anil
Caminham inseparáveis pelas deslumbrantes ilhas
Da finitude e da consciência
Abismo e paixão acordam e adormecem
Ao redor da mesma fogueira
Na mesma Finisterra antiga.
Sobre a areia deixam os estigmas da sua passagem
Das suas dores e do seu êxtase
Ideogramas, poemas e castelos de cristal
Mitos que antecedem a vida e perduram
Para lá do caminho e da viagem…

Eros e Tanathos abraçam a pitonisa e segredam-lhe:
“A noite cai com a madrugada na alma.
A madrugada cresce com a noite no peito.
A cada um o seu reino.
A cada vontade os seus caminhos.
Cumpra-o quem o puder cumprir.
Mostrai-me um reino sem vontade
E eu dir-vos-ei que não passa de um rio que perdeu a foz
Um minúsculo traço num mapa sem Norte.
Mostrai-me um reino sem caminhos
E eu dir-vos-ei que esse reino ainda não nasceu.
Mostrai-me uma vontade sem reino nem caminhos
E eu mostrar-vos-ei uma galáxia imóvel.
Contudo, nada posso ensinar-vos
Que não queirais aprender
Ou não exista já em vós.
Tudo o que sei são aforismos e analectos
Que nunca deveis generalizar:
Como o sábio não liga com o riso daninho
O rio gelado não liga com a ilha luminosa;
Não há dor que não seja eterna
Nem sonho que não seja antigo;
Ter fé é ter o poder da re-invenção
E perdê-la é ficar cego e só;
Com o frio, o olhar perde o rumo e o horizonte
Perde a rosa abandonada aos ventos;
Quando subires o penhasco olha de frente o precipício
E algures lá no fundo encontrarás a Fénix
A união perfeita da memória com o esquecimento;
A angústia nunca rondou os caminhos de Aspásia
Era livre sem saber nem querer
Contudo a vida foi-lhe traiçoeira
E fora do seu reino nem sequer existiu;
Guarda a sede
Lá onde ela nasce
Cada sede contém em si
A sua própria saciedade
E amanhã, quiçá, da tua nascente
Nascerá a saciedade antes da sede;
Não te iludas porém:
Sem sede a alma morre imóvel e estéril…”

A pitonisa deixa-se abraçar pela voz
E ouve com todos os sentidos
E a memória de sucessivas eras:
“Quantas vezes Eolo te chamou
E te levou pela mão até ao Templo Cintilante?
Não sabes, mas sabes que ele sabe
Porque ele sabe sempre de ti
E dos destinos que vives e revives
Fazes e desfazes em fios de seda
E ele ilude e recomeça.
O que te impele vai à frente
Mesmo que penses que vai atrás.
Fica e parte, cumpre e desafia
Repousa e prossegue
Rodopia e eleva-te acima da tua finitude.
Adormece na neblina e acorda na claridade.
Descobre os mundos
Que dou ao mundo que a vida me dá
Em órbita à volta do Insondável
À volta de tudo em mim.”

E a pitonisa lembra e conta
Desfia o novelo e tece o texto interminável:
“Pairo e regresso ao Planalto de Krimson
E de vez em quando os pássaros voltam e vão
E a água que bebo espelha a lua de cristal
Onde se senta Gilaia baloiçando as pernas
Como nos retratos antigos.
Nascia lentamente do mistral e da neblina
Com um ramo de jasmim nas mãos
Incomparável de símbolos e profecias.
O que vem à frente teve início lá atrás.
Sem saber, as histórias imitam a ordem oculta do mundo.
Sem saber, tudo o que vive repete o que foi vivido
Recompõe, reinventa e acrescenta vida à vida.
Personagem recorrente, reflecte a aspiração comum
Coexiste risonha com cada página seguinte
Com todos os mundos que o mundo contém
Vagueando de história em história
Como quem é intocável e pura e perene.
Experimentando todos os mistérios
Vai conhecendo todos os seres imagináveis
Permite-me que seja eu também,
Imaginável e real.
Nesta roda cabe tudo
Cabem todos os que vêm por bem
Todos os que vivem honrando a vida.
Aqui, nunca desperdiçamos o tempo
Usufruímos dos segundos e dos milénios
Com a mesma intensidade.
Sabemos o valor dessa dedicação
Nela reside a dimensão alquímica da consciência
Fielmente desperta
Para o fluir e o voltear do tempo.
Não recebo ordens nem de deuses nem de humanos
Recebo revelações de tudo o que existe.
Desenho minuciosamente o mapa do mundo finito
Sabendo que não passa de um esboço dos outros mundos
Em que vivo no cerne da verdade
Mundos que a imprescindível loucura concede à lucidez.
Sonho para não enlouquecer deveras
Vivo para sonhar e persistir.

Às vezes o desconhecido descobre o seu rosto
E olha-nos de frente
Com olhos repletos de enigmas e fadiga
Aperta com suavidade a mão aos transeuntes das estrelas
E entrega um pedaço de si às mãos vazias.

Que prece é aquela que se lhe adivinha
No rosto fugidio
No oráculo de silêncio que nos atravessa o peito?
Quem espera por quem afinal?
Que anseios seus não sabemos adivinhar?
Que solidão a dos mistérios
Com que não soubemos ainda encontrar-nos!

O negro cosmos estende a sua longa capa
E olha com olhos eternos as idades do mundo
Segue com o olhar os nossos passos circulares
Que lhe contornam os recantos
Para sempre secretos.
Mas às vezes o negro volta a capa ao contrário
E um outro enigma
Uma luz ou ilusão de luz
Ilumina as portas que se abrem
À sede incerta e insaciável da Humanidade
À demanda de cada olhar ímpar
De cada mão estendida para dentro da alma.
Sê como o cosmos
Reconhece-te no desconhecido
Afaga o manto negro e luminoso que cobre cada cérebro
A pérola aprisionada nas entranhas do ciclope.

Às vezes avista-se um archote aceso
Ao longe
Na estrada
E é já noite
O horizonte apaga-se
E a única companhia é a voz
Profunda
Do tempo
Dos instantes escoando-se
Os ecos das canções de Nair e Éolo
O sussurro do mar adormecendo os lobos mansos.

Às vezes todo o rasto de memória se dilui
A obra concluída extingue-se
Todas as provas de que estamos vivos se tornam (in)suficientes
É preciso recomeçar tudo de novo
Dizer e fazer tudo de modo inesquecível
É preciso que nos tornemos oráculos
E os deuses não esqueçam as nossas vozes.
Talvez nos escutem numa dessas noites estreladas
Em que nós nos sentimos mais eternos do que humanos
E eles mais abandonados do que sós / nós.
Talvez a consciência do que somos
Não passe de uma estrela cadente
E a memória do que fomos
Se encontre com o que seremos
Num qualquer elo da espiral.

Às vezes releio “Sonolência ao Meio-Dia em Klovistátia”
E pergunto-me se aquele lugar, aquela gente, aquele meio-dia
Teriam tido alguma vez algum significado preciso.
Klóvis fundou Klovistátia involuntariamente, escrevendo.
Os académicos, os iletrados e os burocratas
Roubaram-lhe a metáfora de si mesmos
E refundaram a sua falsa utopia porque não eram capazes
De conceber nenhuma verdadeira.
Decretam o trabalho ininterrupto como forma de manter
A ordem estática e irrevogável em constante execução…
Quanto mais adormecidos mais trabalham e obedecem…
Os servidores participam na decisão que os tornará escravos…
Klóvis é o único que se salva
Nunca se transformou em metáfora nem dogma
Abandonou Klovistátia antes de ser criada…
Klóvis não se chamava Klóvis
Nem contou a sua história
Contou apenas a história de um lugar imóvel
Onde tudo se repete ininterruptamente…
Assim, as ideias e as ficções transformam-se em realidades
À revelia de quem as pensou…

Pergunto-me por que insisto nesta mancha gráfica sinuosa
Por que tem tudo o que escrevo esta forma de poema interminável
Mesmo os escritos mais minúsculos…
Por isso canto e conto histórias
Sei que tudo são histórias
Contá-las-ei até ao fim dos tempos…

IV – NOLI ME TANGERE

 
Mesmo que nunca houvesse nada de novo sob o Sol
Mesmo assim valeria a pena desafiar essa lisura
Pois que tudo é o que os olhos virem
E os corações sentirem.
Mesmo aqueles que nunca buscaram o divino
O vislumbram e escutam de vez em quando.
Os oráculos estão em todo o lado
E em todas as mentes
Aguardam ser compreendidos ou reinventados
À medida de cada alma e cada demanda.

Desta vez o Messias era Ela
E Ele o Impuro.
E ela disse-lhe:
“Sou constante e insatisfeita:
Eis a minha perdição…
Sou pura e incorruptível:
Essa é a minha maldição…
Tenho uma fé imensa na minha fragilidade
Por isso estou só no Universo.
Passo os dias a iluminar os caminhos dos dias comuns
Comuns como eu, como tudo o que se reconhece.
Em mim, em ti, em todos, nada acontece em vão
Tudo tem um propósito.
Contudo, não tenho nada de sobre-humano ou irreal
Ninguém me toca, ninguém me apanha
Só isso.
Sou veloz nos meus sonhos
Desvaneço-me por entre as gotas da chuva
Como se nunca tivesse estado aqui.
Às vezes deito-me sob uma árvore
E penso em pessoas como tu.
Vejo-vos confusos e assustados
Em busca de um salvador tangível e intangível
Sem saber para onde ir ou o que fazer…”
Ele interrompeu-a e perguntou-lhe:
“Mas o que fazer, então…?”
“O importante é saber ver
E saber escolher…
Olha bem para dentro dos meus olhos
Eu já escolhi:
O Bem e o Mal hibernam tranquilamente
Na mesma gruta…
Olha-os apenas
Mas não lhes toques.
Eu posso olhá-los de frente
Porque em mim o Bem acorda sempre antes do Mal.
Tu ainda não os podes distinguir
Por isso não lhes toques
Deixa-os dormir
Adormece-os também dentro de ti…
O salvador vive repartido por todos os seres bons
São eles que o mantêm vivo e presente.
O amor verdadeiro é o sinal desta verdade.
Do amor provém sempre o Bem
Do Mal provém tudo o que mata o amor e a luz.
Que o amor te guie dentro de ti!”
E Ele disse: “Agora percebo
Por que não vivi um só dia
Até hoje…”
E separaram-se ficando juntos para sempre.

EPÍLOGO


A partilha de existir abre as portas a todas as maravilhas
Todos os medos e todas as interrogações.
O que tem medo sabe-se perseguido
Reconhece o mal oculto
Olha-o de frente e não desiste.
O que interroga está sempre só
No momento em que interroga
Dissolvido no mundo e no todo
E espanta-se como eterna criança.
Entre o medo e a interrogação
A luz permanece e renasce.
O espanto é um sinal da persistência da luz
E da inocência primordial.
Às vezes o espanto parece apenas a flor
Prestes a nascer
A folha prestes a cair
O olhar sereno sobre o mar
O poema inconcebido
O acaso mais insignificante que nunca é por acaso.

E eu sento-me num dos braços de Jessé
E fico a contemplar a vida
Que deixa o mundo andar-lhe afadigado pelas ruas
Deambular pelas florestas desconhecidas
Entreter-se com os seus jogos de espelhos
Mirar de relance a pedraria dos seus olhos preciosos
Perder-se nos mapas antiquíssimos
E adormecer, sem dar por isso, no seu regaço.
Olha, lá vai mais um corpo celeste!
Às vezes não sei quem é o cometa:
A vida, o mundo ou eu…
Nem sei que palavras podem traduzir o espanto
E mantê-lo vivo, inteiro e intocado…

Suy / São Ludovino, 3/2/1990 – 11h noite

Tree-flower, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - LXV

O CAJADO

Enquanto és novo
Repousa
Pousa essas asas a teu lado
Deixa-as repousar
Deixa-as ganhar fôlego
Para outros dias.
Sê velho
Enquanto és novo
Para seres novo
Depois de velho.
Talvez assim entendas
Porque voam no céu velhas asas
Sem que se saiba a quem pertencem…
Eu sei, eu sei, dirás um dia
Quando te descobrires em pleno voo
Amparado por esse cajado
Sem idade…

 

São Ludovino, 28/11/2025


Study of Hand Clenched Around a Stick by ©Heinrich Dittmers (1625-1677), n.d.



Palavras Novas - LXIV

EUREKA!

Encontrei! É aqui, aqui, exactamente aqui!
O centro é aqui!
Dizia um, convicto de que era o único
Sem ouvir o outro e o outro e outro
Que dizia igualmente convicto
O fulcro é aqui, exactamente sob os meus pés
E em meu redor, aqui começa o horizonte
É sobre este ponto que rodopia a terra
As galáxias e os meus pensamentos.
Ou ainda aquele outro que desenhava já no chão um círculo
Que abrangia toda a sua sombra e uns quantos raios de sol.
Logo adiante, outro garantia que era ali o centro
Um pequeno centro onde cabia um desenho do coração
O próprio coração e tudo o que ele contém.

As árvores, cada uma no seu centro, sorriam
Ondulando os ramos e a folhagem em todas as direcções
Sabendo que o centro de cada uma é o centro de tudo
Sabendo que cada centro é único
E contém todos os outros.
Sabendo que o centro de cada uma
É um ponto no centro universal
Que está em toda a parte
E em todas as almas de boa vontade.
Sabendo que cada um faz o seu centro
Cria as suas raízes e os seus caminhos.
Sabendo que nem todos os centros são bons
Sabendo que alguns devoram os outros
E outros criam apenas visão e harmonia.
Sabendo que cada centro contém uma história
Em construção contínua e aquele que o pensa
E se pensa nele é o seu principal autor.

O primeiro move-se
Levando consigo o seu centro
E já noutro local, repete
É aqui, aqui, exactamente aqui!
O centro é aqui!
E descobre também o horizonte
O eixo da terra, a espiral das galáxias
E a nascente dos seus pensamentos.
E eu acredito
Porque também levo o meu centro viajante completo
Por aí, abarcando o que pode abarcar
Mas só levo nele o que vale a pena perdurar
Levo a luz, que é o centro do centro.
Tudo o resto se perde pelo caminho
Para que o caminho possa continuar…

São Ludovino, 21/12/2025

Us by ©Ismael Nery (1900-1934), 1926.



Palavras Novas - LXIII

FLORAÇÕES I

Deixa a cabeça florir
E as abelhas virão
Multiplicar o mel.
Deixa a cabeça florir
E as borboletas virão
Enfeitar a brevidade da vida.
Deixa a cabeça florir
E os peixes virão
Dançar com as aves.
Deixa a cabeça florir
E o tempo virá
Em que sejas a floração…

São Ludovino, 15/11/2025

Blooming minds, photography by São Ludovino.


FLORAÇÕES II

Cada um contém em si
Todas as gerações passadas
Sementes, raízes, flores e frutos
Folhas caídas e folhas renovadas.
Cada um floresce e fenece
Num presente qualquer
Como se toda a história
Fosse um momento.
Que triste esquecimento
Não lembrar que esse momento
É só mais um passo
Entre a semente primeira
E a floração futura…

São Ludovino, 15/11/2025

Blooming generations, photography by São Ludovino.

FLORAÇÕES III


Ao longe, és um sinal
Entre as searas.
A vida cresce entre a vida.
Um prenúncio de sol
Repartindo a luz.
Não nasceste para partir
Do teu lugar original.
Quando partes, deixas no chão
A marca do teu sangue
A promessa de que voltarás
Noutro tempo
A mesma cadência
A mesma luz
O mesmo sinal…

São Ludovino, 23/11/2025


Blooming blood III, photography by São Ludovino.