TOILETE ÁUREA
A minha avó materna nunca usou toileteNão tinha tempo para pensar
Como os outros a viam
Teve catorze filhos, todos desejados
Sete morreram na primeira infância
Foi a pneumónica, o tifo e sabe-se lá mais o quê
Que os levou sem aviso nem desculpa
Como levou tantos outros.
Sete sobreviveram e partiram para longe
Onde a vida chamava como sereia ou serpente
Muito para lá do mar que ela nunca viu
Lá onde nem sequer se consegue adivinhar
Que forma ou cor terá o horizonte.
Duas filhas ficaram, por destino ou dever
Que uma mãe não pode ficar só:
Aurora, a minha mãe, e a tia Raquel.
Depois de tanta perda e tanta labuta
O meu avô morreu de tétano
Antes de haver vacinas
Antes de ver os filhos crescer
Tinha a minha mãe 8 ou 9 anos.
Nunca o vi vivo, mas conheci-o.
Também se conhece através do sangue
E das memórias dos outros.
A minha avó lembrava-se e falava dos reis idos
Ou assassinados: D. Luís I, D. Carlos, D. Manuel II
E até do que lhe contaram sobre os reis
Que herdou dos seus pais e avós
E eu, a filha mais nova da filha mais nova,
Ainda estou aqui para lembrar
A minha avó que nunca usou toilete
Nem sequer ambicionou tê-la…
São Ludovino, 25/4/2025
Family - From the left to the right: cousin Kelita, grandmother Áurea, cousin Fátima, Aurora, my mother, aunt Raquel and uncle Luís, 50s.
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