quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sátiras - I

 

O PRÉMIO IGNOBEL

     O Comité Central da Academia Global do Prémio Ignobel está reunido há horas pela terceira vez para atribuir o Prémio Ignobel da Paz Perpétua. Nas duas sessões anteriores tomou decisões sobre a atribuição dos restantes prémios o Prémio Ignobel da Propaganda Mediática e Telepática, o Prémio Ignobel da Subsidiação Indiscriminada de Alienígenas Agressivos e Reivindicativos, o Prémio Ignobel dos Libelos de Sangue Seco e Fresco, o Prémio Ignobel da Negação da Existência de Armas Químicas e Biológicas Que Matam De Modo Mais Eficaz, o Prémio Ignobel da Cura Aparente, o Prémio Ignobel do Activismo Ululante e Ultrajante, o Prémio Ignobel da Flotilha Mais Bem Travestida e Mais Vazia de Boas Intenções e de Ajuda Humanitária, o Prémio Ignobel dos Apoiantes Indefectíveis do Grande Irmão, do Grande Pai, do Grande Decisor e do Grande Executor e o Prémio Ignobel do Melhor Júri Vitalício do Prémio Ignobel mas o Prémio Ignobel da Paz Perpétua é sempre um caso delicado e bicudo.

     Os eminentes membros do júri conhecem bem as regras que eles próprios redigiram e tentam aplicá-las com o máximo rigor. Os critérios gerais são muito claros:

1 - A lista de candidatos é elaborada apenas pelos membros do júri, que acumulam também as funções de assessores do Grande Irmão, do Grande Pai, do Grande Decisor e do Grande Executor, também auto-cognominado “O Grande Democrata”.

2 - O melhor em cada categoria é, sem margem para dúvidas, aquele que recebe o prémio.

3 – Todos os indivíduos que não façam parte deste júri, não sejam os próprios premiados e os seus apoiantes e não partilhem o mesmo leque de ideias, slogans e acções estão expressamente proibidos de opinarem ou questionarem este júri.

     Sobre a mesa havia nomes proeminentes das Nações Desunidas e dos seus órgãos purificadores e prestidigitadores, todos igualmente exemplares. Estavam excluídos cerca de cinquenta membros que se rotulavam abusivamente como “democratas”. Como todos sabem, os únicos democratas neste admirável novo mundo são o Grande Irmão, o Grande Pai, o Grande Decisor e o Grande Executor, os seus apoiantes indefectíveis e proxies perfeitamente legítimos.

The 20th Century by Sándor Bortnyik (1893-1976), Hungarian painter, 1927.

     Havia ainda uma vintena de nomes de respeitáveis defuntos que mereciam juntar-se à galeria dos maiores inspiradores e executores da Paz Eterna – o Homem Que Cheira a Vara, o Empalador D’Alá, o Estala Fino-Lino-Lago, o Mau-Mau-Meca, o Humus Jiji Hadehade, o Iz Vai à Bola, o Al Cai Pedra, o Her Til, o Lino Encarniçado, o Palhaço Tunim, o Ai a Tola Que Dói, o Gugu Cão, o Mau Tutu, o Salada Mini, o Atu Traste, o Assado Ararat, o Mamão Abado (quase defunto), o Osana Pin Lado (completamente defunto), mais uns quantos cujo nome tende a ser esquecido. Mas eram os herdeiros actuais desses antigos potencialmente premiados postumamente que recolhiam a preferência do júri.

     Depois de muitas horas de reflexão, o júri chegou a uma conclusão. O premiado seria um colectivo, representado pelo próprio Grande Pai, já premiado infinitas vezes com o Prémio Ignobel da Paz Perpétua. Ele que quer e sempre quis unir todas as nações sob o mesmo estado de coisas, um estado nivelado, regular e sólido, sem saliências nem dissidências. Apenas paz, uma paz unânime e perpétua.

     O Grande Pai concordou e aceitou humildemente o prémio que lhe cabia por direito. Afinal quem era o maior “democrata” de todo o planeta que representaria todos os outros. No discurso de aceitação sublinhou: «este é um passo decisivo para aniquilarmos essa minoria que quer apenas a paz, mas não a paz perpétua. Essa só nós podemos alcançar e preservar para todo o sempre.» Os aplausos fizeram-se ouvir na sala da assembleia e nas ruas pejadas de cartazes e bandeiras ominosas ensanguentadas. E o Grande Pai clamava: «Unido sob o meu poder universal e absoluto, o povo jamais será vencido! Alá é grande, Alá sou eu, o Ayatollah sou eu, Estaline sou eu, Hitler sou eu, o Grande Pai da paz perpétua de todos os povos!»

     A engrenagem era perfeita. Só restavam duas nações recalcitrantes que se recusavam a anuir. Queriam a paz vencendo os inimigos em vez da paz perpétua que só é alcançada com a rendição incondicional ao Grande Pai e a aceitação pacífica do próprio extermínio. As Nações Desunidas não permitiriam tal coisa. O Mestre de Cerimónias garantia-o do alto da sua tribuna.

     A engrenagem ainda é quase perfeita, mas tem arestas que o Grande Pai ainda não conseguiu limar. As duas nações rebeldes ainda se lembram do valor da vida, da liberdade e das palavras puras. E essa memória não pode ser vencida…

São Ludovino, 5/10/2025

Sem comentários:

Enviar um comentário