O PRÉMIO IGNOBEL
O Comité Central da Academia Global do
Prémio Ignobel está reunido há horas pela terceira vez para atribuir o Prémio
Ignobel da Paz Perpétua. Nas duas sessões anteriores tomou decisões sobre a
atribuição dos restantes prémios ― o Prémio Ignobel da Propaganda Mediática e Telepática, o
Prémio Ignobel da Subsidiação Indiscriminada de Alienígenas Agressivos e
Reivindicativos, o Prémio Ignobel dos Libelos de Sangue Seco e Fresco, o Prémio
Ignobel da Negação da Existência de Armas Químicas e Biológicas Que Matam De
Modo Mais Eficaz, o Prémio Ignobel da Cura Aparente, o Prémio Ignobel do
Activismo Ululante e Ultrajante, o Prémio Ignobel da Flotilha Mais Bem
Travestida e Mais Vazia de Boas Intenções e de Ajuda Humanitária, o Prémio
Ignobel dos Apoiantes Indefectíveis do Grande Irmão, do Grande Pai, do Grande
Decisor e do Grande Executor e o Prémio Ignobel do Melhor Júri Vitalício do
Prémio Ignobel ― mas o
Prémio Ignobel da Paz Perpétua é sempre um caso delicado e bicudo.
Os eminentes membros do júri conhecem bem
as regras que eles próprios redigiram e tentam aplicá-las com o máximo rigor.
Os critérios gerais são muito claros:
1 - A
lista de candidatos é elaborada apenas pelos membros do júri, que acumulam
também as funções de assessores do Grande Irmão, do
Grande Pai, do Grande Decisor e do Grande Executor, também auto-cognominado
“O Grande Democrata”.
2 - O
melhor em cada categoria é, sem margem para dúvidas, aquele que recebe o
prémio.
3 – Todos
os indivíduos que não façam parte deste júri, não sejam os próprios premiados e
os seus apoiantes e não partilhem o mesmo leque de ideias, slogans e acções
estão expressamente proibidos de opinarem ou questionarem este júri.
Sobre a mesa havia nomes proeminentes das
Nações Desunidas e dos seus órgãos purificadores e prestidigitadores, todos
igualmente exemplares. Estavam excluídos cerca de cinquenta membros que se
rotulavam abusivamente como “democratas”. Como todos sabem, os únicos
democratas neste admirável novo mundo são o Grande Irmão, o Grande Pai, o
Grande Decisor e o Grande Executor, os seus apoiantes indefectíveis e proxies
perfeitamente legítimos.
Havia ainda uma vintena de nomes de
respeitáveis defuntos que mereciam juntar-se à galeria dos maiores inspiradores
e executores da Paz Eterna – o Homem Que Cheira a Vara, o Empalador D’Alá, o
Estala Fino-Lino-Lago, o Mau-Mau-Meca, o Humus Jiji Hadehade, o Iz Vai à Bola,
o Al Cai Pedra, o Her Til, o Lino Encarniçado, o Palhaço Tunim, o Ai a Tola Que
Dói, o Gugu Cão, o Mau Tutu, o Salada Mini, o Atu Traste, o Assado Ararat, o
Mamão Abado (quase defunto), o Osana Pin Lado (completamente defunto), mais uns
quantos cujo nome tende a ser esquecido. Mas eram os herdeiros actuais desses
antigos potencialmente premiados postumamente que recolhiam a preferência do
júri.
Depois de muitas horas de reflexão, o júri
chegou a uma conclusão. O premiado seria um colectivo, representado pelo
próprio Grande Pai, já premiado infinitas vezes com o Prémio Ignobel da Paz
Perpétua. Ele que quer e sempre quis unir todas as nações sob o mesmo estado de
coisas, um estado nivelado, regular e sólido, sem saliências nem dissidências.
Apenas paz, uma paz unânime e perpétua.
O Grande Pai concordou e aceitou
humildemente o prémio que lhe cabia por direito. Afinal quem era o maior
“democrata” de todo o planeta que representaria todos os outros. No discurso de
aceitação sublinhou: «este é um passo decisivo para aniquilarmos essa minoria
que quer apenas a paz, mas não a paz perpétua. Essa só nós podemos alcançar e
preservar para todo o sempre.» Os aplausos fizeram-se ouvir na sala da
assembleia e nas ruas pejadas de cartazes e bandeiras ominosas ensanguentadas.
E o Grande Pai clamava: «Unido sob o meu poder universal e absoluto, o povo
jamais será vencido! Alá é grande, Alá sou eu, o Ayatollah sou eu, Estaline sou
eu, Hitler sou eu, o Grande Pai da paz perpétua de todos os povos!»
A engrenagem era perfeita. Só restavam
duas nações recalcitrantes que se recusavam a anuir. Queriam a paz vencendo os
inimigos em vez da paz perpétua que só é alcançada com a rendição incondicional
ao Grande Pai e a aceitação pacífica do próprio extermínio. As Nações Desunidas
não permitiriam tal coisa. O Mestre de Cerimónias garantia-o do alto da sua
tribuna.
A engrenagem ainda é quase perfeita, mas
tem arestas que o Grande Pai ainda não conseguiu limar. As duas nações rebeldes
ainda se lembram do valor da vida, da liberdade e das palavras puras. E essa
memória não pode ser vencida…
São
Ludovino, 5/10/2025
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