CASA HABITÁVEL
Ao longo das ruas
moram estátuas. Umas altas, outras baixas, revestidas de vestes diversas,
erectas, curvadas, esbeltas, retorcidas, carcomidas, cintilantes. Permanecem na
sua imobilidade repetindo eternamente a mesma expressão, o mesmo acto inacabado.
Pelas ruas
caminham casas andantes. Quando chegam junto desta ou daquela estátua, batem à
porta do olhar e entram. A estátua agiganta-se e nasce-lhe uma porta no peito e
janelas no rosto. Dilui-se a fronteira entre a casa e a estátua, entre dentro e
fora, entre o que passa e o que fica. Algumas estátuas sentem-se casas, novas
ou renovadas, irreais ou tangíveis. Outras permanecem imutáveis, sós e
impenetráveis.
De vez em quando,
a casa acabada de nascer vem à janela, assoma deste ou daquele olho, olha o céu
e ali fica, pensativa, de cotovelos apoiados no peitoril rodeado de pestanas
floridas. Há casas que apenas fazem isso. Ficam à janela. Outras estendem a mão
para tudo o que podem alcançar e recolhem um pedaço de cada coisa. Um punhado
de raios de sol e de luar, uma mão cheia de nuvens e de vento, uma suave
torrente de chuva, uma paleta de cores naturais, o aroma da terra e do céu,
árvores, flores, florestas, montanhas, vales, o horizonte… é difícil perceber
como pode tudo caber lá dentro. Mas cabe e lá vive. E o processo repete-se
muitas vezes, dia após dia, estação após estação. E a casa parece nunca estar
cheia.
Às vezes, uma
dessas casas sai à rua, vai dar um passeio pelas ruas das outras casas que
vivem em estátuas. Cumprimenta as estátuas mais tristes com um sorriso doce e
planta a seu lado uma árvore e algumas flores. Regressa à sua estátua feliz por
ver que aquela ficou menos triste e mais parecida com uma casa.
Passado algum tempo, vai visitar a árvore,
as flores, a estátua menos triste. Mas só a estátua permanece lá e está triste
como antes. Pergunta-lhe pela árvore, pelas flores coloridas. A estátua move a
custo os braços e aponta para o peito onde há agora uma porta fechada. Uma porta
que não é da estátua, é da casa que habita nela mas ela não conhece.
Com todas as suas forças, a casa andante
tenta abrir a porta até que acaba por arrancá-la. Lá dentro não há nada, apenas
umas tábuas e umas pedras que não podem formar uma casa. Sopra com toda a força
lá para dentro e limpa a poeira e os destroços. Abraça a estátua e a porta
fechada desaparece ao mesmo tempo que a sua própria porta se abre na estátua e
já não se sabe onde acaba o imutável e começa a transmutação, onde acaba a
pedra e começa a alma. A estátua triste entra em si mesma pela nova porta e segue
o novo caminho aberto como uma ponte entre mil oceanos que banham um único
continente no centro do universo. Vai acompanhada pela árvore interior
reencontrada e pelas flores multiplicadas que chovem em harmonia de novo floridas.
Ao longo das ruas antigas, as estátuas
enchem-se de casas e existem por dentro.
São
Ludovino, 27/3/2018
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