quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Contos Breves - VII

 

CASA HABITÁVEL

     Ao longo das ruas moram estátuas. Umas altas, outras baixas, revestidas de vestes diversas, erectas, curvadas, esbeltas, retorcidas, carcomidas, cintilantes. Permanecem na sua imobilidade repetindo eternamente a mesma expressão, o mesmo acto inacabado.

     Pelas ruas caminham casas andantes. Quando chegam junto desta ou daquela estátua, batem à porta do olhar e entram. A estátua agiganta-se e nasce-lhe uma porta no peito e janelas no rosto. Dilui-se a fronteira entre a casa e a estátua, entre dentro e fora, entre o que passa e o que fica. Algumas estátuas sentem-se casas, novas ou renovadas, irreais ou tangíveis. Outras permanecem imutáveis, sós e impenetráveis.

     De vez em quando, a casa acabada de nascer vem à janela, assoma deste ou daquele olho, olha o céu e ali fica, pensativa, de cotovelos apoiados no peitoril rodeado de pestanas floridas. Há casas que apenas fazem isso. Ficam à janela. Outras estendem a mão para tudo o que podem alcançar e recolhem um pedaço de cada coisa. Um punhado de raios de sol e de luar, uma mão cheia de nuvens e de vento, uma suave torrente de chuva, uma paleta de cores naturais, o aroma da terra e do céu, árvores, flores, florestas, montanhas, vales, o horizonte… é difícil perceber como pode tudo caber lá dentro. Mas cabe e lá vive. E o processo repete-se muitas vezes, dia após dia, estação após estação. E a casa parece nunca estar cheia.

     Às vezes, uma dessas casas sai à rua, vai dar um passeio pelas ruas das outras casas que vivem em estátuas. Cumprimenta as estátuas mais tristes com um sorriso doce e planta a seu lado uma árvore e algumas flores. Regressa à sua estátua feliz por ver que aquela ficou menos triste e mais parecida com uma casa.

     Passado algum tempo, vai visitar a árvore, as flores, a estátua menos triste. Mas só a estátua permanece lá e está triste como antes. Pergunta-lhe pela árvore, pelas flores coloridas. A estátua move a custo os braços e aponta para o peito onde há agora uma porta fechada. Uma porta que não é da estátua, é da casa que habita nela mas ela não conhece.

     Com todas as suas forças, a casa andante tenta abrir a porta até que acaba por arrancá-la. Lá dentro não há nada, apenas umas tábuas e umas pedras que não podem formar uma casa. Sopra com toda a força lá para dentro e limpa a poeira e os destroços. Abraça a estátua e a porta fechada desaparece ao mesmo tempo que a sua própria porta se abre na estátua e já não se sabe onde acaba o imutável e começa a transmutação, onde acaba a pedra e começa a alma. A estátua triste entra em si mesma pela nova porta e segue o novo caminho aberto como uma ponte entre mil oceanos que banham um único continente no centro do universo. Vai acompanhada pela árvore interior reencontrada e pelas flores multiplicadas que chovem  em harmonia de novo floridas.

     Ao longo das ruas antigas, as estátuas enchem-se de casas e existem por dentro.

São Ludovino, 27/3/2018

Night falls in beauty I, photography by São Ludovino.



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