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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Palavras Novas - LXV

O CAJADO

Enquanto és novo
Repousa
Pousa essas asas a teu lado
Deixa-as repousar
Deixa-as ganhar fôlego
Para outros dias.
Sê velho
Enquanto és novo
Para seres novo
Depois de velho.
Talvez assim entendas
Porque voam no céu velhas asas
Sem que se saiba a quem pertencem…
Eu sei, eu sei, dirás um dia
Quando te descobrires em pleno voo
Amparado por esse cajado
Sem idade…

 

São Ludovino, 28/11/2025


Study of Hand Clenched Around a Stick by ©Heinrich Dittmers (1625-1677), n.d.



Palavras Novas - LXIV

EUREKA!

Encontrei! É aqui, aqui, exactamente aqui!
O centro é aqui!
Dizia um, convicto de que era o único
Sem ouvir o outro e o outro e outro
Que dizia igualmente convicto
O fulcro é aqui, exactamente sob os meus pés
E em meu redor, aqui começa o horizonte
É sobre este ponto que rodopia a terra
As galáxias e os meus pensamentos.
Ou ainda aquele outro que desenhava já no chão um círculo
Que abrangia toda a sua sombra e uns quantos raios de sol.
Logo adiante, outro garantia que era ali o centro
Um pequeno centro onde cabia um desenho do coração
O próprio coração e tudo o que ele contém.

As árvores, cada uma no seu centro, sorriam
Ondulando os ramos e a folhagem em todas as direcções
Sabendo que o centro de cada uma é o centro de tudo
Sabendo que cada centro é único
E contém todos os outros.
Sabendo que o centro de cada uma
É um ponto no centro universal
Que está em toda a parte
E em todas as almas de boa vontade.
Sabendo que cada um faz o seu centro
Cria as suas raízes e os seus caminhos.
Sabendo que nem todos os centros são bons
Sabendo que alguns devoram os outros
E outros criam apenas visão e harmonia.
Sabendo que cada centro contém uma história
Em construção contínua e aquele que o pensa
E se pensa nele é o seu principal autor.

O primeiro move-se
Levando consigo o seu centro
E já noutro local, repete
É aqui, aqui, exactamente aqui!
O centro é aqui!
E descobre também o horizonte
O eixo da terra, a espiral das galáxias
E a nascente dos seus pensamentos.
E eu acredito
Porque também levo o meu centro viajante completo
Por aí, abarcando o que pode abarcar
Mas só levo nele o que vale a pena perdurar
Levo a luz, que é o centro do centro.
Tudo o resto se perde pelo caminho
Para que o caminho possa continuar…

São Ludovino, 21/12/2025

Us by ©Ismael Nery (1900-1934), 1926.



Palavras Novas - LXIII

FLORAÇÕES I

Deixa a cabeça florir
E as abelhas virão
Multiplicar o mel.
Deixa a cabeça florir
E as borboletas virão
Enfeitar a brevidade da vida.
Deixa a cabeça florir
E os peixes virão
Dançar com as aves.
Deixa a cabeça florir
E o tempo virá
Em que sejas a floração…

São Ludovino, 15/11/2025

Blooming minds, photography by São Ludovino.


FLORAÇÕES II

Cada um contém em si
Todas as gerações passadas
Sementes, raízes, flores e frutos
Folhas caídas e folhas renovadas.
Cada um floresce e fenece
Num presente qualquer
Como se toda a história
Fosse um momento.
Que triste esquecimento
Não lembrar que esse momento
É só mais um passo
Entre a semente primeira
E a floração futura…

São Ludovino, 15/11/2025

Blooming generations, photography by São Ludovino.

FLORAÇÕES III


Ao longe, és um sinal
Entre as searas.
A vida cresce entre a vida.
Um prenúncio de sol
Repartindo a luz.
Não nasceste para partir
Do teu lugar original.
Quando partes, deixas no chão
A marca do teu sangue
A promessa de que voltarás
Noutro tempo
A mesma cadência
A mesma luz
O mesmo sinal…

São Ludovino, 23/11/2025


Blooming blood III, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - LXII

ACORDE

 

Que bem soa o crescer da erva
Sob os pés caminhantes
Sob o rosto encostado
Ao coração das coisas!
Alguém escuta
Enlevado
Sem saber o que escuta
Mas acredita
Que é música viva…
A erva morre um dia
Para dar lugar a outra erva
O elo continua a soar…

 

São Ludovino, 28/11/2025

At least I can feel the grass I, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - LXI

O BOLSO

 

Se ergueres o braço
Com muito cuidado
Com toda a atenção
Tocas no céu e és o céu.
Podes guardá-lo no bolso
Já que não te podes guardar a ti
Inteiro, com tudo o que conténs
E tudo o que te rodeia.
Amanhã o céu continuará
Fiel no seu lugar
E o teu braço voltará a tocá-lo
E voltas a guardá-lo já outro
Como és outro tu mesmo.
Nunca te guardes sozinho
Nesse teu bolso onde cabe o céu
E até o rodopio do tempo.
Se não guardares o tempo
O céu desfaz-se
Some-se no fundo desse teu bolso…

 

São Ludovino, 28/11/2025

Doors to the Sky by ©Alexander Gassel.


Palavras Novas - LX

 

PUREZA

 

Prometo
Enquanto puder, prometo
E sou para sempre
O que prometo.
Prometo
Enquanto puder, existo
Em tudo o que prometo
E faço sem pensar
Fiel sem querer
Sem querer
Mais do que o que vive
E persiste em mim…

 

São Ludovino, 28/11/2025


Thought... the shortest distance between two points, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - LIX

RE-SOLUÇÃO

A fórmula não foi encontrada
Faltam os símbolos
Para lhe dar um corpo escrito.
Podem juntar-se os traços primitivos
O homem e o animal no interior da caverna
O coro da tragédia e a máscara do actor
O canto do aedo e o unguento do xamane
O Templo de Salomão, a longa espera
A inscrição na pedra, as colunas do Pártenon
A busca da cura, da Grande Obra, do homúnculo
A trepanação dos loucos, a sangria dos hidrópicos
A anatomia dos vivos e dos mortos
A anestesia de todas as dores
A máquina voraz, autónoma, selvagem, incógnita
A química oculta, o elo perdido
A velocidade das estrelas desenhando constelações
Conduzindo a espiral das galáxias
A viagem sideral, metafórica, alegórica
Em torno do cosmos imaginado…
Tentativa após tentativa
Péricles, Arquimedes, Pitágoras
Leonardo e Pascal
Shakespeare e Camões
Bach e Khachaturian
Feynman e Gould
Einstein e Kafka
A equação permanece incompleta
A solução é apenas mais um problema
O humano não consegue ser
Inteiramente humano.
A luz cintila distante
As mãos continuam vazias.
X e Y são degraus numa escadaria
Que sobe e desce em todas as direcções…
Todos os dias aprendemos a caminhar
Todos os dias o caminho se estende
Se quebra, se cruza, se desvanece
Regressa ao ponto inicial…


São Ludovino, 28/11/2025


Search By by ©George Underwood.




Palavras Novas - LVIII

RETRATO


Leonardo era escultor
Esculpia com o pensamento.
De lá tirava pedras e cinzéis
A força para abrir a terra
E talhar num pedregulho
A mais delicada imagem
Ou demónios incandescentes.
Lia seguia os pensamentos de Leonardo
E adivinhava o que sairia da pedra.
Maravilhava-se ou assustava-se
Ainda antes de Leonardo iniciar a obra.
Escondia-se à espreita entre as ervas altas
Ou por entre a folhagem das árvores
E aguardava que o pensamento tomasse forma.
Certo dia, a obra foi mais demorada
E Lia adormeceu na curva suave
Do tronco de uma árvore.
Talvez tivessem passado dias
Ou apenas umas horas…
Quando abriu os olhos não reconheceu
O que pensara ter adivinhado.
A obra era o espelho claro de um pensamento:
Alguém adormecido nos ramos de uma árvore
Despertava e arregalava os olhos com espanto.
O retrato em pedra fitava Lia
E Lia fitava Leonardo…

São Ludovino, 26/11/2025

Walk by ©Jiri Borsky, 2008.



Palavras Novas - LVII

ARQUIVO

É tão fácil colher
Colher a luz
Das estrelas
Das águas calmas
Do momento feliz
Da dança da alma
Nesse momento.
É menos fácil guardar.
O mais difícil é semear
E cuidar incessantemente
Para depois colher e guardar.
O ciclo sobrevive sempre
Mas nem sempre o acto
Que mantém o ciclo vivo.
Amanhã o sol repete-se
A si mesmo
A lição volta ao início
A colheita recomeça…

São Ludovino, 26/11/2025

Breathing the Light I, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - LVI

ESTÁTICAS E ENFÁTICAS

As máquinas quase nunca viajam
Nem sequer de casa para o trabalho
E vice versa, metálicas e pontuais.
Viajaram um dia anterior à existência
Por cérebros de espécies estranhas
Decompostas imaginadas surreais
Em ideias tentadas e vislumbres intemporais
Roldanas e rodas dentadas
Asas e braços, garras e hastes
Hiperagindo autónomas, biónicas, supersónicas
Tubulares, labirínticas, frenéticas, famintas
Estelares, amnésicas do Big Bang inicial…

Depois de nascidas
Andam quase sempre sozinhas
Como salteadores em bosques escuros.
Lembram vagamente as mãos que as criaram
Suspeitam da bastardia que lhes deu vida
E nunca escrevem memórias
Autobiográficas revelações.
Respiram na penumbra do tempo
E aguardam, algumas, ser a única mão
Que conduz a viagem
O único cérebro que consuma temerário
O simulacro da eternidade…

São Ludovino, 21/10/2025

Invention Office by ©Gergely Bacsa from Hungary, 2024.

Noah's Ark by ©Halit Kurtulmus Aytoslu from Turkey, 2024.

So cute by ©Wes Rowell from USA, 2023.

Cartoon in 5 ominously funny cartoons about AI by ©Steve Kelley. 
Copyright 2023 ©Creators Syndicate.

Cartoons about A. I. Use in Families and Schools - ©Larry Cuban on School Reform and Classroom.

The race for AI by ©Rodrigo de Matos from Portugal, 2023.

A. I. Use in Families and Schools.

A. I. Use in Families and Schools - ©Larry Cuban on School Reform and Classroom.

A. I. Use in Families and Schools - Larry Cuban on School Reform and Classroom.



Palavras Novas - LV

INVENÇÃO


Vais ao futuro e trazes de lá o assombro
Inédito, semelhante apenas às sombras
Com que te cruzaste num sonho
Ou nas miragens do teu cansaço.

Viste quase tudo o que imaginaste
Até Da Vinci no instante em que criava
A máquina fragilmente voadora.

Entre a tua ideia sublime e a invenção
Resta ainda o segredo da chuva
Que te acorda e te deixa a sós
Com o mesmo fulgor do nada
E de tudo ainda inexplicado…

São Ludovino, 21/10/2025

Jos de Mey, De Denker van Escher geobserveed door de therapeut van Magritte, 1997.



Palavras Novas - LIV

LEMBRETE


Nada há de inútil sob o sol
O que é inútil por ser excessivo
Ou inimigo de tudo o resto
É o acto que apaga o ser livre
É a mão que tira a vida pura
E faz esquecer que o bem
É sempre mais forte do que o mal.
E ainda assim
O mal também persiste
É útil por lembrar incessantemente
Que o combate é eterno…

São Ludovino, 26/9/2025

Procession by Samuel Bak, Jewish painter and writer born in 1933, n.d.



Palavras Novas - LIII

RENASCIMENTO

Ó céus dos meus avós
Em que vogava uma eterna Arca de Noé
Mesmo que não salvasse os animais
As plantas e as sementes
Que vos davam o sustento!
Fulgi de novo sobre os campos abandonados!

Ó terra arada e regada
Com o suor e a vontade
Do ventre úbere e perene
Que vos dava a esperança e o amanhã!
Revolve-te de novo sob a crosta árida e gretada!

Ó florestas devastadas pelo fogo
Pelo cérebro maléfico do mal
Pela bocarra ávida da cobiça
E pela vasta solidão das aldeias despovoadas!
Brotai de novo das cinzas magoadas ainda quentes!

Ó águas das nascentes rochosas
Dos ribeiros libertinos e dos rios abundantes
Adormecidas nas talhas de barro
Acariciadas nas bocas sedentas!
Renascei de novo, cristalinas e impetuosas
Como o claro fio da memória!

São Ludovino, 18/10/2025

Under the same sky, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - L

 TECEDEIRA

Tanto tempo passado na penumbra
Alvoradas cinzentas e tardes frias
Tantos raios de sol perdidos
Na labuta que não deixa ver
Respirar, absorver a gota mais vulgar
Da luz de cada dia
Que pródiga e constante
Passa sem passar

E o cansaço que tolhe os dedos
Enquanto acrescenta a manta
Pesa nas pálpebras e chama o sono

E o sono que que leva as mãos
Em inesperada direcção
Abre as cortinas cerzidas da velha janela
E o sol que nasce e se põe intromete-se
Na cadência dos movimentos do tear

Quebrado o automatismo do labor
Cada raio de luz se quebra e requebra
E entra nas malhas milenares do ofício
De entretecer o mundo com a luz de existir

São Ludovino, 18/10/2024

A Weaving House by © Harriet Backer.



Palavras Novas - XLIX

 FORÇA MOTRIZ
(Vontade - A calma e a força)

A mesma força que move os elementos
Habita o corpo e a alma dos que amam a vida
E a presença imaterial da totalidade em cada ser

Parece que seguem na mesma direcção
Em sintonia plena entre si, entre ser e devir
Mesmo quando vão em direcções contrárias

Vem de dentro o vento cósmico e telúrico
Que impele os passos além do momento
Além da percepção do olhar
E faz crescer as asas para lá chegar

Vem de dentro a tempestade transformadora
Que despedaça as estrelas mais luminosas
Para criar na noite única
Novas constelações irrepetíveis

E dentro fica em todo lado
Sobretudo nos lugares onde urge chegar

Mesmo que chegar seja apenas
Amar a vida na vida
Calmaria e tempestade
Força motriz da vontade…

São Ludovino, 18/10/2024

Sturm und Drang era o lema dos Românticos alemães de finais do século XVIII que sobrepunham as emoções à razão. Na verdade, a principal força motriz da razão são as emoções. Pensar é sempre sentir. As emoções são o guia e a luz. A razão é a forma límpida das emoções.

Flock of Terns in Flight, North America by ©Unknown.



Palavras Novas - XLVIII

A Colaboracionista


Cercaram-na de betão e alcatrão
Reduziram-lhe a área fértil
A vinte palmos junto à soleira
Cortaram-lhe a água pela metade

Pensou que seria o fim
O fim da sua parcela das estações
O fim do seu jardim resiliente
O fim da essência da Humanidade

Ignorou o rijo vozeirão do betão e do alcatrão
Mas não lhes voltou as costas nem baixou os braços
Decidiu fazer-lhes frente com as armas mais naturais
Deu as mãos à natureza e deixou a poeira
Entranhar-se sorrateiramente nas fissuras

As gotas de água juntaram-se à poeira
E ambas abraçaram as sementes
E a vida voltou a brotar onde tinha sido aniquilada

Pela calada da noite saiu afoita e destemida
Enviada pelo reino das plantas
A cumprir a missão de devolver a vida
Às ruas e paredes mortas

Semeou sementes minúsculas
Plantou árvores e arbustos
Em pouco tempo, cada passeio
Rebordo, nicho ou beiral
Ficou recoberto de cor e verdura

A cidade possante não ousou vingar-se
De tantos benefícios – Seria descarada ingratidão!
Agora respirava melhor
E a chuva das enxurradas era meia bebida
Antes de derrubar as casas e engolir as ruas

A alameda de árvores centenárias
Vetustas, frondosas e impávidas
Que resistia ainda aos mercenários dos catrapilos
Das betoneiras e das gruas gigantes
Condecorou-a com a medalha da Ordem da Clorofila
E a comenda da Terra Viva Parcialmente Redimida
E as árvores de fruto passaram a dar fruta fresca todas as semanas
Mas só as que plantou junto à soleira da porta…

Logo vieram geneticistas, botânicos e agrónomos
Examinar o inusitado fenómeno armados de hipóteses e teorias
Uma multitude de instrumentos e planos bem calculados
Para tentar replicar a Multiplicação Semanal dos Frutos
Sem resultado, pobres coitados… Ainda bem!

São Ludovino, 19/10/2024

Growing on the rocks III, photography by São Ludovino.

Growing on the rocks I, photography by São Ludovino.



Palavras Novas - XLVII

PALETA HUMANA


A cor humana não tem cor
Tem tonalidades humanas
Mesclas de vidas naturais, reais
Sonoridades de línguas e dialectos
Ecos de certezas, dúvidas e profecias
Laivos de sabedoria e ignorância
Matizes de crenças e descrenças
Pigmentos de ladainhas, unguentos e mezinhas
Camadas de tradição, superstição e ciência
Pinceladas de imaginação e memórias
Palimpsestos de História e invenção
Borrões de sangue, seiva, correntes e despojos
Gradações de servidão e liberdade
Aromas que nem todos os ventos conhecem
Sabores de muitas terras encontradas ou perdidas
Paladares só entendidos com sorrisos
Por quem cresceu onde foram inventados

Mudaram-se os tempos, as vontades
Os interesses e a verdadeira natureza das coisas
Proibiram que se chamasse raça
Às cores humanas do mundo
Como se fosse um insulto, como se o indistinto
Fosse mais verdadeiro do que o singular
Como se o mundo fosse todo preto e branco
(Enquanto inventam novos rótulos, seitas, quotas
Categorias, redutos, privilégios e discriminações
Géneros, subgéneros, micro-fantasmas e micro-fantasias…)
Em vez de verem como é natural
A paleta das cores humanas
E o orgulho que cada um tem na sua raça original
Raiz única de colectivos dispersos, entrecruzados
Na aguarela dos tempos…

Diz a ciência que encontrou o paradigma perdido…
Como se perdeu o elo com as origens
E a sabedoria da Natureza e dos animais
Unidos pela coexistência da diversidade
É ainda uma questão irresolúvel…

São Ludovino, 19/10/2024

Meaningful Dialogue by ©Jiri Borsky, 2004.



Palavras Novas - XLVI

5000 ANOS NAS VEIAS


Numa manhã, a mais clara de todas as manhãs
As mãos acordaram ao mesmo tempo
Que o olhar mais profundo e atento
E cada raio de luz
Mostrou a sua intimidade
De franja de fios pejada de estrelas

E as mãos teceram a colcha, a casa, a rua
Que traz o calor e leva os medos frios

A criança perdida encontra finalmente a rua
E a si na rua, na casa, no país inicial

Senta-se sobre a colcha
E nos símbolos dos fios bordados
Descobre o significado de sobreviver
A cinco mil anos de História…

São Ludovino, 18/10/2024

Ghetto Tales by ©Alexander Gassel.

Heritage by © Boris Shapiro, Israeli artist born in Ukraine.



Palavras Novas - XLIV

NARCISO AUTOCRATA


Confesso, mas não ao mundo
Que não pode nem deve conhecer quem sou
Confesso apenas a mim mesmo: Sou efémero.

Nasci num esgoto da cidade
Cresci entre espelhos de água imunda
Aprendi a ser apenas a imagem.

Sobre a cidade estendi primeiro o olhar
E depois um rio de sangue
Que me alimenta a vaidade.

Não tenho culpas nem deveres
Sorvo o néctar das flores
Que sobreviveram à lava.

As almas dos meus lacaios não me comovem
Nem de nada me servem as suas cintilações
Inúteis suspiros de um universo que não posso governar.

Importam-me os seus músculos obedientes
Que alargam o esgoto e o recobrem
Com os diamantes do seu suor.

Confesso: piso as formigas que me alimentam
Fazem-me lembrar a inutilidade do meu ceptro
Esmago-as com a minha vontade de não perecer.

São Ludovino, 18/3/2025

 

Autocrat, drawing & painting by São Ludovino.



Palavras Novas - XLIII

OS QUE ENGANAM

São tantos

Não se podem contar
Vê-se o golpe mas não o punhal
Confundem-se com a dignidade da tribuna
Escondem-se quando se mostram nalgum pedestal
Lançam cópias da utopia sobre as cabeças dos aflitos
E recolhem assinaturas anónimas
Pregam slogans sagrados
Aos descrentes esfarrapados
Erguem os muros cintilantes com miragens
Sorvem o suor como álcool redentor
E esquecem num ápice
A promessa de lealdade aos que, leais
Lhes sucumbiram exangues sob o punho de ferro.

São Ludovino, 19/3/2025


Self-defence I, photography by São Ludovino.