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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Contos Breves - VIII


DESALINHADO

     Para quem trabalha no sector das linhas, perder uma linha é sempre um acontecimento grave. Perder duas pode ser uma tragédia de proporções cósmicas. Desalinhado trabalhava em vários departamentos em simultâneo: o das linhas retas, o das linhas curvas, o das linhas circulares, o das linhas intermitentes e, o mais delicado de todos, o departamento das linhas da vida e do coração.

     Desalinhado não era nem o mais rigoroso nem o mais honesto dos homens, mas no que tocava às linhas alheias mantinha tudo no seu lugar. Raramente recebia reclamações e nunca tinha perdido uma linha. Já no que tocava às suas próprias linhas era mais descuidado e até temerário. Era capaz de caminhar em sentido proibido numa linha reta e unir os segmentos de uma linha intermitente como se fosse uma linha contínua. Quando estes desvarios se limitavam ao domínio privado, não havia grandes consequências. Havia quem ficasse ferido, e até com extrema gravidade, mas isso pouco lhe importava, desde que o incidente não se tornasse público nem lhe manchasse a reputação imaculada. Por isso mesmo, sempre que decidia desatinar e sair da linha, ia devidamente camuflado.

     Embora não fosse o seu departamento, de vez em quando gostava de se intrometer nas linhas telefónicas, sobretudo as de fibra óptica, e nas linhas aéreas, sobretudo as transnacionais. Nunca chegou a desviar nenhum avião com carga valiosa, apenas alguns aviões comerciais que, em vez de irem aterrar na Sibéria, foram aterrar nas Caraíbas, sobretudo durante as férias, fins-de-semana e feriados.

     As linhas telefónicas eram-lhe extremamente familiares. Adorava cruzar linhas e fazer role play ao telefone. Nos contactos estavam praticamente todas as Páginas Amarelas completas e quase todas as Páginas Brancas. “Alô, está lá»! Sei que precisa de companhia. Está a falar com a pessoa certa!” Se desligavam de imediato, voltava a telefonar: “Alô. Está lá?! Sei que sofre de assédio por telefone e online. Não hesite em solicitar os meus serviços. Possa protegê-la de todas as intimidações e avanços indesejáveis…” E se voltavam a desligar, voltava a telefonar: “Alô, está lá»! Sei que procura consultas ao domicílio. Desloco-me a qualquer hora a qualquer lugar sem custos adicionais… excepto entre a uma e as quatro, quando estou a despachar o expediente…” Às vezes, as hotline causavam-lhe assaduras, mas aplicava Betadine e quase não se notava. As chamadas internacionais eram as mais cuidadas e arriscadas. Usava o WhatsApp para não deixar rasto; nunca se sabe quem pode estar a escutar quem gosta de escutar  os outros. Poucas vezes era atendido. Ainda assim, conseguiu ouvir a voz de meia dúzia de pessoas influentes, de uma ou duas estrelas cadentes e de mais de mil viciados nas redes. Ouviu monossílabos, dissílabos, trissílabos e várias interjeições pouco amistosas. Chegou mesmo a vislumbrar o semblante ameaçador de alguns líderes da linha dura e de alguns títeres muito bem mandados. Desses dois ou três segundos de contacto nasceram várias teorias da conspiração e a convicção de que conhecia as entrelinhas da ordem íntima de alguns e até da ordem mundial.

     Tinha uma alergia parcial às linhas de sutura, sobretudo desde que tentou escrever torto por linhas direitas(1) e acabou por se despistar e capotar. Fez uma pausa para se recompor, mas não para andar na linha, coisa enfadonha que lhe causava enxaquecas e urticária. Nessas alturas, para espairecer ia pescar à linha junto ao areal.

In line, photography by São Ludovino.

     Das linhas de costura, bordado e crochet nem queria ouvir falar. Lembravam-lhe trabalhos forçados ou meninas demasiado prendadas e nunca a colcha da avó.

     No meio da azáfama, entre o expediente rotineiro e os muitos partimes e hobbies das linhas extra, esquecia-se que também nele existiam linhas, mais importantes e decisivas do que todas as outras linhas juntas. Tanto as descurou e esqueceu que algumas delas decidiram pregar-lhe uma partida. A bonita linha da vida, longa e direita, decidiu ondular-se em curvas inesperadas que desembocavam repentinamente noutras curvas. A nítida linha do coração, cansada de ser contrafeita, decidiu esbater-se e juntar-se às nuvens que iam passando.

    Tal sucessão de acontecimentos privados teve repercussões nos vários departamentos do sector das linhas públicas em que trabalhava. Um erro conduzia a outro numa cadeia imparável. As pessoas vinham queixar-se de tudo: do círculo que agora era quadrado ou um buraco negro; da reta que se alongou de tal modo que se tornou impossível encontrar um ponto de chegada; das linhas intermitentes em que se tinham convertido quase todas as pontes; e, sobretudo, do caos generalizado nas linhas da vida e do coração. O bairro, a cidade, o país inteiro estavam à beira de uma guerra civil. Amavam-se os inimigos e espancavam-se os amigos, dividiam-se as famílias e agregavam-se no mesmo espaço os seres mais incompatíveis, partiam os que deviam ficar e ficavam os que deviam partir, as estradas chocaram colectivamente levando consigo todos os que as percorriam.

     Muitos especularam sobre as causas remotas e recentes deste caos. Nunca jamais alguém apontou o dedo ao Desalinhado, mas ele sabia. Tarde de mais.

     Desde esse dia, a maravilhosa estrutura do seu jogo de linhas tornou-se caótica e completamente imprevisível. A memória começou a falhar cada vez mais. Incapaz de se concentrar no emaranhado de linhas e de as colocar no seu lugar, perdeu definitivamente o fio à meada. Consta que hoje é espião por conta própria. Espia-se a si mesmo, mas em vão. As linhas da vida e do coração continuam desaparecidas e independentes da sua vontade.

(1) – A expressão idiomática original é, naturalmente, “escrever direito por linhas tortas”.

São Ludovino, 21/12/2025




Contos Breves - VII

 

CASA HABITÁVEL

     Ao longo das ruas moram estátuas. Umas altas, outras baixas, revestidas de vestes diversas, erectas, curvadas, esbeltas, retorcidas, carcomidas, cintilantes. Permanecem na sua imobilidade repetindo eternamente a mesma expressão, o mesmo acto inacabado.

     Pelas ruas caminham casas andantes. Quando chegam junto desta ou daquela estátua, batem à porta do olhar e entram. A estátua agiganta-se e nasce-lhe uma porta no peito e janelas no rosto. Dilui-se a fronteira entre a casa e a estátua, entre dentro e fora, entre o que passa e o que fica. Algumas estátuas sentem-se casas, novas ou renovadas, irreais ou tangíveis. Outras permanecem imutáveis, sós e impenetráveis.

     De vez em quando, a casa acabada de nascer vem à janela, assoma deste ou daquele olho, olha o céu e ali fica, pensativa, de cotovelos apoiados no peitoril rodeado de pestanas floridas. Há casas que apenas fazem isso. Ficam à janela. Outras estendem a mão para tudo o que podem alcançar e recolhem um pedaço de cada coisa. Um punhado de raios de sol e de luar, uma mão cheia de nuvens e de vento, uma suave torrente de chuva, uma paleta de cores naturais, o aroma da terra e do céu, árvores, flores, florestas, montanhas, vales, o horizonte… é difícil perceber como pode tudo caber lá dentro. Mas cabe e lá vive. E o processo repete-se muitas vezes, dia após dia, estação após estação. E a casa parece nunca estar cheia.

     Às vezes, uma dessas casas sai à rua, vai dar um passeio pelas ruas das outras casas que vivem em estátuas. Cumprimenta as estátuas mais tristes com um sorriso doce e planta a seu lado uma árvore e algumas flores. Regressa à sua estátua feliz por ver que aquela ficou menos triste e mais parecida com uma casa.

     Passado algum tempo, vai visitar a árvore, as flores, a estátua menos triste. Mas só a estátua permanece lá e está triste como antes. Pergunta-lhe pela árvore, pelas flores coloridas. A estátua move a custo os braços e aponta para o peito onde há agora uma porta fechada. Uma porta que não é da estátua, é da casa que habita nela mas ela não conhece.

     Com todas as suas forças, a casa andante tenta abrir a porta até que acaba por arrancá-la. Lá dentro não há nada, apenas umas tábuas e umas pedras que não podem formar uma casa. Sopra com toda a força lá para dentro e limpa a poeira e os destroços. Abraça a estátua e a porta fechada desaparece ao mesmo tempo que a sua própria porta se abre na estátua e já não se sabe onde acaba o imutável e começa a transmutação, onde acaba a pedra e começa a alma. A estátua triste entra em si mesma pela nova porta e segue o novo caminho aberto como uma ponte entre mil oceanos que banham um único continente no centro do universo. Vai acompanhada pela árvore interior reencontrada e pelas flores multiplicadas que chovem  em harmonia de novo floridas.

     Ao longo das ruas antigas, as estátuas enchem-se de casas e existem por dentro.

São Ludovino, 27/3/2018

Night falls in beauty I, photography by São Ludovino.



Contos Breves - VI

 

AQUELE QUE AMA DEVERAS

     Sentava-se em frente de uma flor e ali ficava a olhar com toda a atenção como se não houvesse mais nada no mundo para olhar. Olhava tão profundamente e demoradamente que acabava por desaparecer dentro da flor. Primeiro tornava-se quase transparente, depois, gradualmente, dissolvia-se na flor. Durante algum tempo, ainda era possível ver dois braços entre as pétalas, dois olhos a cintilar no centro da corola, até que mais nada restava senão a flor.

     Os mais próximos comunicavam o seu desaparecimento e faziam buscas por todo o lado, sempre sem sucesso. Às vezes encontravam um botão de camisa ou um cabelo que lhes parecia familiar.  A análise ao ADN confirmava que o cabelo era de facto dele, mas os botões continuavam anónimos e iam-se acumulando em frascos de vidro de perdidos e achados.

     Hoje, de novo, o fenómeno repetiu-se. Não era a primeira vez que isto acontecia e muito provavelmente não seria a última. Tinha uma tendência inata para desaparecer, isso era certo, portanto não adiantava muito contrariar a natureza do ser. Além disso, algum tempo depois, ele voltava sempre a aparecer. Era tudo muito natural.

     Lá está ele de novo, imerso num profundo amor. Agora parece estar prestes a mergulhar numa minúscula pedra de quartzo semi-transparente. Toma-a nas mãos com extrema delicadeza. A pedra vai mudando de cor e luminosidade. Parece emanar uma luz suave como se lá dentro houvesse uma extraordinária partícula de estrela. A pedra flutua até ao chão e lá fica a tremeluzir como se o céu tivesse trocado de lugar com a terra.

     Ao amanhecer, ao entardecer ou a altas horas da noite ele regressa sorrateiro sem acordar ninguém e dorme serenamente. Discretamente, alguém entreabre a porta e vê que ele está de novo de regresso a casa com a forma habitual. Telefonam às autoridades, comunicam o seu reaparecimento e o seu nome volta a sair da lista inquietante de desaparecidos. Mas não por muito tempo. O tempo não para, a terra não para de girar e todas as coisas insignificantes aguardam ser descobertas.

     É quando chove que todos ficam mais apreensivos. E se ele se lembra de olhar todas as gotas de chuva ao mesmo tempo e desaparece dentro delas? Será que se vai transformar em milhões e regressará intacto no mesmo número? Em que casa caberia?

     Os dias de sol brilhante não são menos preocupantes. Cada raio de sol tem milhões de átomos de luz. E se ele regressa tão incandescente como o próprio sol. Até agora, tal fenómeno ainda não aconteceu. Mas, quem sabe o que pode ainda acontecer.

     Quando os media descobriram a existência de tal ser e tais fenómenos, todos correram a questioná-lo.

     Mas porque passa o tempo a desaparecer?

     Porque amo deveras… tanto que tenho de ser as coisas que amo. Eu amo todas as coisas belas, todas as que vejo como belas e amáveis. E há tantas coisas belas e o tempo é tão pouco para ser com elas…

     Como acontece sempre, os media não compreenderam tal explicação, torceram-na e formataram-na até encaixar nas parangonas habituais: «Criatura insignificante simula desaparecimentos para chamar a atenção dos media».

São Ludovino, 25/3/2018

Red Forest, photography by São Ludovino.



domingo, 31 de dezembro de 2023

Contos Breves - V

III

O GATO QUE NÃO ERA… AINDA
 

     Lineu amava todos os seres vivos e não vivos. De um modo ou outro, todos estavam vivos, tinham estado ou haveriam de estar um dia. Amava sobretudo as plantas. Acreditava que se conseguisse conhecer todas as plantas, conheceria o Mundo inteiro e a longa história de um universo onde não se vislumbram plantas. Mas isso era apenas um obstáculo humano que se prendia com o enorme abismo entre a dimensão do universo e a simples visão sensorial. Por isso ele teimava em ver sempre mais além.

     Um dia olhou tão longe que, sem querer, deu um salto de um século e deu por si frente a frente com Darwin sob uma daquelas figueiras esplendorosas que gostam de ir vendo os milénios passar sem envelhecer. Limitam-se a estender e a engrossar mais as raízes e o tronco até parecerem casas ancestrais onde a totalidade da Humanidade poderia morar, se conseguisse morar na mesma casa.

     Darwin reconheceu de imediato Lineu. Mas Lineu ficou a pensar quem seria aquele sujeito que viria um século depois dele. Lineu lembrou-se de Newton, seu contemporâneo, que provavelmente também andaria por ali. Como por telepatia, Darwin também se lembrou de Newton. Darwin lembrou-se dos gigantes, mas também de anões. Lineu lembrou-se das maçãs e do acaso.

     Rapidamente, entabularam conversa e discutiam o melhor modo de fundir gigantes, acaso e maçãs. Segundo Lineu, dessa mistura extraordinária resultaria a matriz da própria vida, uma espécie de paradigma perdido reencontrado. Segundo Darwin, dessa fusão sobreviveria o mais forte, o mais apto, uma espécie de gigante que devoraria a História e acabaria por ser, um dia, o único a rodopiar à volta do sol, quando todos os planetas fossem já apenas poeira e o sol um ancião cansado de ser o centro da vida. E viria até o dia em que o gigante partiria por aí, caminhando por entre as galáxias com os seus passos incomensuráveis.

     Lineu achava que Darwin era um exagerado. Preferia caminhar rente ao chão ou voar com as aves que se contentam com tocar as nuvens de vez em quando. Procurava afinidades em vez de procurar diferenças, qualidades em vez de fraquezas, o elo da vida que tudo une em vez do sinal da morte inscrito em toda a matéria viva.

     Por um caminho que atravessava o campo junto à figueira iam passando caminhantes, provavelmente um século mais velhos do que Darwin e dois séculos mais velhos do que Lineu, pelo menos a avaliar pela indumentária e pelos relógios que traziam no pulso ou no bolso. Olhavam e comentavam com estranheza: “O que fazem aqueles felinos deitados sobre os ramos daquela figueira? Serão os animais de estimação daqueles estranhos interlocutores? Ambos parecem perfeitamente pacíficos. Falo dos felinos, evidentemente…”

     Lineu e Darwin estavam demasiado embrenhados na conversa para darem pela presença dos transeuntes ou dos felinos sobre as suas cabeças. Mas, entretanto, com uma espantosa sincronia, caíram dois figos da figueira; um sobre a cabeça de Lineu e outro sobre a cabeça de Darwin. Caíram é uma forma de dizer, porque na verdade foram lançados pelos felinos de modo a atingirem as cabeças dos dois sábios.

     Ambos olharam repentinamente para cima. Darwin deu um pequeno salto, Lineu abriu a boca de espanto para exclamar logo em seguida: “Ora, cá está, o mais fraco e o mais forte coexistindo em perfeita harmonia!”

     Darwin contestou de imediato, falou de domesticação, de viciação dos dados, do factor humano que distorce o sábio curso da Natureza, uma fraude contra a selecção das espécies. Lineu observou o sorriso no rosto de ambos os felinos e sugeriu que provavelmente a natureza era mais sábia do que todos os sábios. E qual era afinal o mais forte e o mais fraco de entre aqueles dois?! Pareciam igualmente confiantes e até sábios. Se sabiam colher figos de uma figueira e atirá-los às suas cabeças, provavelmente sabiam muito mais. Eles, Lineu e Darwin, é que estavam em nítida desvantagem, não por serem mais fracos ou mais fortes, mas por presumirem que sabem mais do que a mais ínfima ervinha ou o mais colossal carnívoro. O que descobriram sobre a mais pequena erva ou o maior carnívoro já a ervinha e o carnívoro o sabiam desde sempre, eles é que não.

     Darwin sentiu um enorme desalento. Sugeriu que era tudo uma ilusão e que mais tarde ou mais cedo o grande felino devoraria o pequeno felino ou qualquer outro animal de outra espécie. Era assim, tinha de ser assim, era a sua natureza e ninguém podia mudar a natureza.

     Lineu admitiu que a Natureza era a coisa mais difícil de modificar e que modificá-la nunca traria nada de bom. Disse que até compreendia toda a argumentação de Darwin, mas que, mesmo assim, as plantas lhe tinham ensinado muito sobre todos os seres e sobre a Natureza. Ensinaram-lhe que a Natureza muda de facto e vence sempre, mas não é necessariamente o mais apto e forte que vence, é o mais determinado e o que ama mais a vida, sem dar nas vistas, mesmo que tenha o tamanho colossal daquela figueira.

     O gato e o tigre, que estavam confortavelmente instalados sobre os ramos, lado a lado, como dois bons companheiros, anuíram com acenos de cabeça. Por alguma razão que não era completamente clara, simpatizavam mais com os pontos de vista de Lineu.

     Como Darwin e Lineu nunca mais chegavam a um consenso, o gato decidiu intervir: “Meus caros, há milhares de anos eu não era muito diferente do meu companheiro nos meus hábitos. Era mais pequeno em tamanho, mas tinha os mesmos instintos e hábitos. Hoje sou bem diferente e não posso dizer que tenha sido um sacrifício mudar. Não sei se evoluí, mas sou, de facto, diferente dos meus ancestrais. Aquilo que vedes sobre estes ramos são dois pontos no tempo que confluíram aqui mesmo sobre as vossas cabeças. O meu companheiro é também um gato igual a mim, vós é que ainda não conseguis vê-lo por entre a neblina dos tempos…”

     E o tigre, que também estava desejoso de se manifestar, acrescentou: “Nem mais! O vosso encontro aqui sob esta figueira é como o nosso encontro sobre esta figueira… só que vós ainda estais um pouco abaixo na linha da evolução. Vedes menos porque não acompanhais a Natureza. ‘Tu não és um gato’ direis de mim. Pois vós ainda não sois sábios. Eu estou muito mais próximo de ser um gato do que vós estais de conhecer a Natureza.”

     Lineu não se sentiu ofendido. Sabia bem demais que as ervinhas que agora pisava ainda guardavam milhões de segredos que ele só podia imaginar, mas não discernir com toda a clareza. Talvez nem fosse necessário discernir tudo com toda a clareza. Talvez houvesse um ponto onde o homo sapiens devesse parar e limitar-se a acompanhar os mistérios da Natureza.

     Estendeu a mão a Darwin e propôs-lhe um pacto: “De ora em diante seremos como eles… mesmo que ainda sejamos tigres e mesmo que nunca deixemos de ser tigres, deixemos que a Natureza, e não os homens e a ciência, nos transformem em gatos.”

     E saudaram-se com um rugido e uma arranhadela simbólica, antes de treparem pela figueira e se instalarem junto dos felinos.

    
São Ludovino, 7/12/2018 (Este conto faz parte da série “Lendas, Mitos & Fábulas…”) 

Pausing the paws I, photography by São Ludovino.

Strolling with a friend I, photography by São Ludovino.

Free and Fragile by Suyarts aka Suy/São Ludovino, 2012.

Living in the garden I, photography by São Ludovino.

Cat in the nest III, photography by São Ludovino, 2023

Growing up I, photography by São Ludovino.

Growing up II, photography by São Ludovino.

At the centre of Earth VIII, photography by São Ludovino.


Contos Breves - IV

 II

ONDE COMEÇA O OLHAR

(lenda dos olhos que são flores)
 

     Muitos olhos habituaram-se a reconhecer as coisas pela forma que vêem e deram-lhes nomes coincidentes nos quatro cantos do Mundo.

     “Mas se a noite cair repentinamente antes de eu ter tempo para ver o que está à minha frente ou em meu redor, como posso encontrar-lhes o nome? O que vejo já não é a forma. É aquilo que pressinto.” ─ Inquiriu a pequena flor.

     “Mas mesmo quando a noite cai repentinamente, tu ainda podes ver-te, não podes? Ou pelo menos continuas a saber quem és e não perdes o teu nome…! ─ Comentou a flor mais antiga.

     A pequena flor ficou meditativa por alguns instantes e tentou nomear todas as coisas que via. Rapidamente se deteve. Percebeu que havia muitas coisas que não conseguia nomear, muitas mais do que aquelas a que conseguia dar um nome. E, no entanto, elas estavam lá. Estavam vivas, eram reais e eram belas, tão belas como as que conseguia nomear.

     A noite caiu, não repentinamente, mas com uma extraordinária suavidade, como se quisesse mostrar todos os seus recantos e todos os passos da sua quotidiana viagem.

     A pequena flor olhou em volta, mas não conseguia ver com nitidez as coisas que sabia que estavam lá. Nem mesmo as estrelas, nem mesmo a lua conseguiam iluminar todas as coisas. Era como se não as quisessem iluminar completamente, como se iluminá-las fosse uma enorme traição à noite que as abrigava e tornava mais brilhantes e visíveis. Imbuídas por um imenso respeito, permaneciam no céu a uma enorme distância das coisas que rodeavam a pequena flor.

     Voltou para junto da flor antiga e perguntou-lhe se as coisas que via durante o dia ainda estavam lá. A flor antiga sorriu docemente e perguntou: “Tu ainda estás aí, não estás? Então, todos os seres que agora não vês continuam também aqui. Fecha os olhos até que te possas ver como se fosse o dia mais claro da criação. Depois volta a abri-los e diz-me o que vês.”

     A pequena flor fechou os olhos como fazia todas as noites. Mas agora não adormeceu. Acordou para o centro de si e para as coisas que não via. Viu-se imensamente pequena flutuando na luz do luar. Sentiu a erva fofa acariciar-lhe o tenro caule e a brisa afagar-lhe as pétalas. E nunca pensou, nem por um segundo, que tinha deixado de ser ela. Não via a sua forma, parecia ter muitas formas, mas continuava a ser a mesma pequena flor. Sentia-se capaz de ver cada recanto da alma e do universo mesmo sem conseguir ver um único contorno definido. Só uma espécie de luz persistente continuava bem definida e brilhava intensamente no centro da corola.

     Tomada por um imenso entusiasmo não conseguiu manter os olhos fechados por mais tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. A noite continuava lá, acompanhada pela lua e pelas estrelas. O Mundo continuava mergulhado na penumbra, mas nada havia que não conseguisse ver. Sem saber como, o nome das coisas que não via, mesmo das que nunca vira, começaram a brotar-lhe das pétalas.

     A flor antiga sentiu-se feliz e recompensada, acompanhada por todas as coisas visíveis e invisíveis, pelas que tinham forma e pelas que não tinham matéria, pelas que tinham nomes, antigos ou novos, e pelas que ainda não tinham nome. O nome viria num dia ou noite qualquer pois ninguém sabe ao certo onde começa o olhar e sobretudo onde acaba. Intimamente estava convencida de que só existe o princípio, mas não o fim.

 

São Ludovino, 6/12/2018 (Este conto faz parte da série “Lendas, Mitos & Fábulas…”)

Young disciples II, photography by São Ludovino.


A link in the chain of life II, photography by São Ludovino.


Lucky for being here I, photography by São Ludovino.

Creating Happiness I, photography by São Ludovino.

Natural Splendor II, photography by São Ludovino.


Contos Breves - III

I

 O HOMEM NA LUA

     Havia há muito, muito tempo, um homem quase transparente, quase invisível, quase vulgar. Andava há muito tempo a construir a sua casa infinita em todos os lugares. Não usava tijolos nem cimento, martelos ou pregos, gruas ou retroescavadoras, pedras, madeira ou tintas. A sua única matéria-prima e ferramenta era uma porta desdobrável que ia colocando aqui e ali. Trazia-a sempre debaixo do braço, como outros trazem um livro, um jornal ou uma pasta leve. Às vezes, parecia um quadro, às vezes, semi-aberta, servia de banco repousante nas longas caminhadas, às vezes era janela andante nas noites de luar. E era mala de viagem donde saía o alimento e o cobertor quente nos dias de Inverno.

     Era uma velha porta, construída em criança num daqueles dias infindáveis em que os pássaros não querem dormir enquanto a dança colorida do poente não terminar. Desde esse dia, aquela porta foi a sua fiel companheira em todos os lugares. Chegava a um lugar, pousava a porta, abria-a, entrava e aí era a sua casa. Quando escrevia alguma carta, apenas escrevia no remetente “Da minha casa”. Nunca recebeu cartas. Provavelmente foram todas parar à morada errada, um lugar onde já não estava ou onde ainda não estivera.

     Quando a vida o obrigava a permanecer durante muito tempo em lugares fechados, abria a porta-quadro e deliciava-se com as paisagens viajantes que desfilavam perante os seus olhos. Se estava frio de mais, abria a porta para uma lareira acolhedora e ali ficava a conversar com as chamas dançantes. Ou então, passava a soleira e sentava-se sob um sol radioso, mesmo que à volta o vento gélido tolhesse os transeuntes e a chuva lhes encharcasse os pesados sobretudos. Se os músculos pediam movimento, abria a porta para uma praia tranquila, uma floresta ou um jardim. Se lhe apetecia conversar, abria a porta em qualquer aldeia, vila, cidade ou estrada deserta e logo uns olhos amigáveis se aproximavam dos seus e dispensavam-no até de proferir qualquer palavra. Mas em todo o lado há vida e histórias e, sem dar por isso, o tempo enchia-se com rios e cascatas de palavras, uma espécie de música espontânea, com correntes e cadências próprias. Foi assim que começou a amar o mundo como um todo… e a detestá-lo também, quando o rio secava ou a cascata se tornava uma enxurrada de ruídos indecifráveis. Nesses momentos, fechava a porta àquele lugar e regressava à praia tranquila, logo ali ao lado. As gaivotas lá estavam, glissando sem pressa sobre as ondas. E a mulher luminosa, feita de céu, água e luz, cuidava dedicadamente do jardim. Tudo estava do outro lado da porta, bastava abri-la.

       Chegava a uma planície verdejante, pousava a porta no chão, abria-a de par em par e dizia “Aqui é a minha casa!” E a planície ficava ainda mais bela e viçosa, só por sentir que alguém a amava e queria ficar ali.

     Olhava para uma montanha, perscrutava-lhe as encostas, o cume, os vales e dizia “Quando chegar ao topo, ali será a minha casa!” E para que a escalada fosse menos dura, o vale dava-lhe alimentos frescos e água pura; e as encostas, comovidas com a determinação do caminhante, desenhavam socalcos suaves numa imensa escadaria do sopé ao topo. E lá do alto, o homem, feliz, sentado no seu alpendre de madeira, pensava para consigo “Do alpendre da minha casa posso ver todo o horizonte, e todos os lugares que vejo ou adivinho, aquém e além do horizonte, são a minha casa!”

     Morou em muitas planícies, vales e montanhas, em muitas aldeias, vilas, cidades, caminhos e estradas e continuava a caminhar, sempre com a sua fiel companheira debaixo do braço.

     Um dia, quando morava junto ao mar, foi passear pela praia, respirar com a alma os últimos raios de sol de um dia tranquilo. Por ali ficou até o luar iluminar a superfície das águas e beijar a areia húmida e macia. Pegou na porta e colocou-a sobre uma mancha luminosa de luar, um lago de luz onde lhe apeteceu mergulhar. Abriu a porta e caminhou lentamente, primeiro sentindo a textura da areia, depois o veludo da noite, a brisa das estrelas, o éter da distância, a respiração serena do tempo, algures muito para além do horizonte.

Ia já muito longe, mas parecia possível tocar-lhe esticando apenas o braço através da porta; e os passos continuavam a soar ali mesmo ao lado, desenhando pegadas luminosas na areia húmida.

     A mulher luminosa aproximou-se da porta aberta. Nunca a tinha visto ali antes. Espreitou para o outro lado, ouviu os passos sobre a areia e viu uma Lua enorme sorrir sobre o zénite. Sobre a Lua caminhava um homem com uma porta debaixo do braço. Parecia exactamente a mesma que via à sua frente. Viu-o pousar a porta e logo uma floresta cresceu em redor. A maior das árvores floriu quase de imediato. Logo outras se seguiram, cobrindo-se de flores e frutos. Pensou para consigo “Agora, também há um jardim na Lua! A Lua deve estar muito feliz!” Sentiu o aroma dos frutos lunares e reconheceu-o. Era o mesmo aroma que emanava do seu jardim à beira-mar. Esticou o braço através da porta e colheu um fruto lunar. Também os frutos tinham o mesmo sabor que os frutos das suas árvores.

      Tocou na porta. Era tão leve como o ar e agora quase completamente transparente. Pô-la debaixo do braço e caminhou pela estrada de luar até deixar de se avistar. A luz dissolveu-se na luz.

     Na Lua, o homem sorri, banhado pela luz e cores do seu pomar que cresce, cresce sem parar. Em silêncio, de olhos cerrados, beija a rosa lunar que lhe floresce nas mãos abertas. A flor cresce mais e mais e esvoaça suavemente pelo ar até ir pousar sobre as águas calmas de um mar azul e cristalino. Sereno, o homem abre os olhos muito devagar. Lentamente a mulher luminosa emerge das águas e caminha na sua direcção. Em silêncio, traz de volta a rosa lunar, deposita-a nas mãos do homem, senta-se a seu lado e adormece, ouvindo-o cantar.  

São Ludovino, 17/7/2016 (este é o primeiro conto da série “Coisas Que Funcionam”)

Moving reflection II, photography by São Ludovino.

Under many moons II, photography by São Ludovino.

Untitled Song II, photography by São Ludovino.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Contos Breves - I

 

A Constituição do Sol

   Como em todos os outros dias, o cinzento alagava o céu inteiro. Chovia torrencialmente, outra vez. Gotas de brilho metálico criavam uma cortina de miragens sobre os telhados e ao longo das ruas.

   Os guarda-chuvas rompem-se ou quebram-se. As gotas despenham-se sobre as pedras da calçada e rolam em todas as direcções como se quisessem escapar. Um ou outro verga-se, apanha algumas gotas e guarda-as no bolso esperando mais tarde encontrar uma laranja, pão, sal, o sol, a liberdade.

   Apesar da torrente, rios de manifestantes vindos de todos os lados caminham ruidosamente pelas ruas até desaguarem na grande Praça do Mundo. Levam muitos cartazes repletos de palavras pontiagudas e gritam, cada grupo, as suas palavras de ordem que raramente são coincidentes.

   Uma única palavra é coincidente em todos os cartazes, discursos e gritos: Sol. «Queremos Sol!», «O Sol é nosso!», «O Sol é de todos!», «Sem Sol, não há liberdade nem justiça!», «Sem Sol, não há paz nem saúde!», «O Sol é a nossa casa!», «Sem Sol, morreremos famintos!», «Sem Sol, não há amor nem imaginação!», «Sem Sol, não há vida!», «Sem Sol, somos apenas sombras sem luz!», «Não há futuro sem Sol!», «Libertem o Sol, já!», «Uma nova ordem, uma nova realidade, o mesmo Sol!»…

   Das janelas do palácio governamental os senhores do mundo espreitam, fumam charutos e sacodem as grossas gotas de chuva das lapelas. Voltam para dentro com a mesma indiferença e fecham as janelas.

   Alguém atira a primeira pedra. A primeira vidraça fica desfeita em mil pedaços. À torrente pluvial junta-se uma chuva de pedras. Uma a uma, portas e janelas ficam despedaçadas. O alvo seguinte são os telhados. Os mais audazes trepam pelas caleiras até aos beirais. Uma a uma vão arrancando as telhas dando entrada à torrente, agora mais intensa e poderosa. Os manifestantes abrigam-se em lugares mais altos e sólidos.

   Cada divisão do palácio se vai enchendo como um tanque de vasos comunicantes. Os mais audazes atam cordas à cintura e mergulham nas salas e corredores, abrem todas as portas e deixam que a torrente faça o resto. Em poucas horas, o palácio ficou vazio e inacreditavelmente limpo. Pelas ruas, a torrente segue o seu caminho, rumo ao rio e rumo ao mar levando consigo os despojos do poder.

   E quando a torrente cessou, o céu azul abriu-se sobre a Praça do Mundo. Primeiro uma grande janela circular vertendo um azul purificador, depois um imenso arco de luz, de horizonte a horizonte, revelou a todos o mesmo Sol de sempre.

   Deitaram fora os cartazes, as bandeiras, as braçadeiras e os crachats ─ já não importavam os partidos e as facções ─ e sentaram-se numa imensa roda. Os que pensavam do mesmo modo e os que pensavam de modo diferente perceberam que o essencial era o mesmo para todos. Com as mesmas palavras que tinham trazido a longa noite (porque as palavras dizem e fazem o que querem que digam e façam) redigiram a base da nova ordem, um número sucinto de princípios, aplicáveis a tudo e todos do mesmo modo. Assim nasceu a “Constituição do Sol”, uma declaração universal dos deveres e direitos da Humanidade.

Suy / São Ludovino, 15/3/2020

Untamable I, photography by São Ludovino. 

Coexistence of Seasons I, photography by São Ludovino. 

Coexistence of Seasons III, photography by São Ludovino.




Contos Breves - II

 O Equilíbrio das Constelações
ou
A Última Escolha

     Em plena selva, durante a estação da seca, um humano cruza-se com um animal esfomeado.

     Por que mataste esse homem tão igual a ti? Perguntou o leão.

O humano, nada surpreendido com a pergunta ou com o facto de vir de um animal, carnívoro e feroz, que lhe falava tão pacificamente, respondeu com naturalidade:

     Porque se não o matasse, ele poderia vir a matar-me um dia.

     Ah, um homicídio preventivo… Há vários dias que observava esse homem. Estava gravemente doente e sei que não sobreviveria durante muitos mais dias. Não o ataquei nem o matei, apesar de a fome matar um pouco mais de mim a cada instante. Como sabes, eu não escolho matar, apenas quero sobreviver porque gosto de estar vivo, gosto desta selva e de todos os seres que a habitam. Todos menos alguns humanos… nunca vi seres mais estranhos e pérfidos… comentou o leão.

     Enquanto ouvia o leão, o humano limpava o sangue da sua espada reluzente e sorria com sarcasmo.

     Nas histórias, tu poderás ser o rei da selva, mas na vida eu sou o rei do mundo. Não desperdiço o meu tempo com perguntas inúteis ou reflexões desnecessárias. No teu lugar, eu mediria melhor as minhas palavras… se é que gostas mesmo da vida e queres sobreviver. Na verdade, só te restam duas opções: ou te calas e me serves ou provarás o sabor da minha lâmina. Ameaçou o homicida.

     Humano e leão envolveram-se numa luta mortífera que durou pouco mais do que o eco de um trovão distante. O leão acabou no chão a esvair-se em sangue, mas ainda proferiu:

    A tua vitória é apenas uma triste ilusão… não tardarás a saber porquê…

     O humano soltou uma gargalhada, cortou a juba do leão, meteu-a no saco e prosseguiu o caminho enquanto o leão soltava o último suspiro. O saco, já pesado, de onde assomavam duas presas de um elefante jovem, vergava-lhe as costas obrigando-o a caminhar de olhos postos na poeira.

     Poucos quilómetros adiante, sentiu um calor insuportável, a sede cortava-lhe a garganta e os músculos ficaram moles e os passos trôpegos. O sol descia atrás das copas das poucas árvores mas a sensação de calor aumentava até se tornar insuportável.

     Um pouco mais adiante vislumbrou, ou pensou vislumbrar, uma povoação. Casas humildes, cabanas de palha e vultos humanos. Pediu ajuda, a água tinha acabado e a garganta ardia como fogo vindo das entranhas do inferno. Embora fosse muito diferente de todos eles, ninguém hesitou em se aproximar dele; ampararam-no e levaram-no para uma das casas mais amplas e frescas. Lavaram-no, vestiram-no com uma túnica macia e limpa e deram-lhe a beber a água mais límpida que tinham. Ninguém lhe perguntou por que trazia uma espada ou por que estava ensanguentado. Apenas cuidaram dele como se fosse um deles ou o melhor ser do mundo.

     No dia seguinte, um dos habitantes da aldeia percorreu a pé muitos quilómetros para ir buscar um médico à cidade mais próxima. O médico veio de carro com o nativo e levou o doente. Instalou-o no hospital e procedeu a muitos exames. Não sabia que doença era aquela mas era evidente que era muito grave.

     Os resultados das análises e dos exames foram inconclusivos. No dia seguinte, o homem estava coberto de manchas roxas e verdes e gritava com dores lancinantes apesar de todos os analgésicos que lhe tinham ministrado. Algo tinha alterado completamente o funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro, uma infecção estranha alastrava por todo o organismo e o doente definhava a cada segundo. Antes que o sol voltasse a pôr-se, o homem estava morto.

     Por precaução, o corpo foi sepultado longe da cidade. Junto ao amontoado de pedras que assinala a última morada, um rugido de leão atravessa a noite e extingue-se na imensa abóboda do desconhecido. No amplo céu, as constelações brilham como sempre, belas e sábias. 

Suy / São Ludovino, 23/3/2020

A Wise Life - I, photography by São Ludovino.

Preserve the rivers - I, photography by São Ludovino.

A Wise Life - II, photography by São Ludovino.