Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

BIRRAS DE CLASSE

 O Regresso

Adaptação da farsa trágica A Birra do Morto de Vicente Sanches, interpretada pelos alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo – Interpretação (10.º 13), no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 14 de Junho de 2019. Encenação de Victor Sezinando. Fotografia, texto & vídeo: São Ludovino. 

     Reencenar repetidas vezes o mesmo texto implica reinterpretar, procurar novos ângulos na acção e na interacção entre as personagens, no contexto envolvente e na psicologia das personagens. O pobre mortal, que se recusa a morrer, n’A Birra do Morto, não é uma personagem monolítica e acabada, não é apenas o grito inglório do mortal contra a morte a que não pode escapar. Não o foi nesta nova encenação de Victor Sezinando. Nesta encenação, a dimensão social da personagem e as idiossincrasias que daí resultam, como um padrão de conduta, ganharam relevo e talvez até maior comicidade.

A Birra do Morto, photography by São Ludovino.


     Este mortal julga-se de “classe superior”, trata todos em seu redor como inferiores e teima em fazer vingar os seus privilégios junto de todos e da própria morte. O tom afectado da voz e a pose pretensiosa torna-o mais ridículo, mas também mais ingénuo. A sua máscara é uma ilusão em que só ele acredita. O espectador, em vez de se solidarizar com o seu destino, ri-se da sua vaidade, das suas queixas, reivindicações e protestos, da sua ilusão de intocabilidade. A pose e o tom do discurso tornam-se tão artificiais, afastam-se tanto do genuíno sofrimento humano, que a personagem parece reduzir-se de facto a uma mera personagem, deixa de ser um ser humano com emoções profundas e autênticas. O pobre mortal morre, antes de mais, porque finge em excesso; o ser humano e social que é (representa) reduz-se a si mesmo a mera personagem. Não conquista a empatia ou a compaixão, desperta antes o sentido crítico e o riso. Só na cena de maior intimidade com a “viúva” parece aflorar alguma emoção genuína, mas por pouco tempo, porque logo se percebe que o seu medo de partir só e viver só a eternidade não é apenas uma natural manifestação de medo; é a reivindicação de um direito que julga ter, o direito de decidir sobre a vida (e a morte) dos outros. Se ele parte, ela terá de partir também, se ele perde o privilégio de estar vivo, ela terá de perdê-lo também. 

     Outros aspectos do contexto social e profissional das personagens ganharam também novas nuances. As “carpideiras” nem sequer choram lágrimas de crocodilo, suspiram de desejo quando vêem o agente funerário todo janota e queixam-se sobretudo do curso normal da Natureza; um corpo morto, degenera, exala odores, mostra a sua insignificância e finitude de forma muito sensorial. As esbeltas e elegantes senhoras não suportam tais manifestações da Natureza e queixam-se permanentemente. Vestem-se como gente que tem posses mas não trabalha e o tom das suas observações revela a mesma crença na ilusória superioridade que o morto também pensa ter. Vieram apenas para vê-lo partir, para se pavonearem e terem tema de conversa. Mas são também estes seres fúteis e presunçosos que relembram ao pobre mortal que, doravante, terá apenas uma noiva e companheira, a própria morte. Este decreto saído da boca de tais criaturas soa extremamente sádico e cínico, não resulta da indignação ou revolta daqueles que o morto terá explorado ou ofendido mas do simples prazer em demonstrar a vã superioridade dos vivos sobre os mortos.

A Birra do Morto, photography by São Ludovino.

     E deste modo, o absurdo subjacente a este texto é enfatizado e revela-se quase desnudado tal como o pobre mortal que surge em palco apenas de cuecas e uma camisa branca. Nada importam as aparências ou os “regulamentos”, nem perante a morte nem perante as vãs convenções sociais. Os guardas que são chamados para meterem à força o mortal no caixão não parecem ter qualquer autoridade, nem sequer sobre o falecido; parecem marionetas que se divertem infantilmente com o poder dos “regulamentos” e se distraem constantemente com detalhes que nada têm a ver com as suas funções cívicas. Ao longo de toda a peça parece não haver uma única personagem que possua uma completa sanidade ou um carácter exemplar. Não existem mortais perfeitos. As virtudes são uma ficção e a única verdade é a própria morte. 

     Com esta lição final, este texto só podia ser mesmo uma “farsa trágica” (como o autor a classificou) que traz com o riso um sabor amargo e um espelho quebrado do mundo. O pobre mortal bem quer restaurar o espelho e rebobinar o tempo ou fazê-lo parar, mas não adianta. Por mais que olhe, a imagem está quebrada, já não reflecte a vida, apenas o ser e a sua mortalidade.

     Tanto o encenador, Victor Sezinando, como os jovens intérpretes merecem um forte aplauso. Os intérpretes foram excessivos quando deviam ser para dar corpo à caricatura e revelar o ridículo da arrogância humana. Foram contidos e quase líricos quando foi necessário lembrar que tanto a vida como as emoções humanas (a dor, a perda, o amor) não são uma farsa, mas podem tornar-se uma farsa quando não são genuínos. 

     Mais uma vez, os detalhes fizeram a diferença e ganharam relevo. Um defunto de “classe superior” poderia aparecer pomposamente vestido, mas apareceu quase despido; e teria de ser mesmo assim, porque uma das manifestações da “birra do morto” consiste precisamente em recusar vestir a mortalha. A quase nudez, que pavoneia ostensivamente serve também o propósito de evidenciar a igualdade de todos na condição de mortais e ridicularizar a vaidade do falecido que, por ser de “classe superior”, pensa não precisar de adereços para continuar a ser superior na morte tal como pensava ter sido na vida.  

     O agente funerário, tal como qualquer negociante, apresenta-se feliz e sorridente com mais uma possibilidade de lucro, fazendo até uma pequena campanha de marketing junto dos espectadores, que olha como potenciais e futuros “clientes”. 

     As carpideiras apresentam-se excessivamente bem vestidas, como se fossem a uma festa ou baile. Essa aparência festiva denúncia desde logo a hipocrisia dos seus lamentos. A forma como advertem o falecido sobre a sua verdadeira condição, não de mortal mas de efectivamente morto, chega a ser perturbadora. Elas são a indiferença da morte perante a fragilidade e as ilusões humanas. 

     A empregada do falecido, vestida como uma “coelhinha da Playboy”, que atrai todos os olhares e faz salivar os guardas, acrescenta uma nota de cabaret vintage e faz esquecer a real situação; os prazeres efémeros da vida como uma espécie de antídoto, igualmente efémero, para a implacável realidade da morte. Ninguém quer pensar na morte, mesmo quando está perante os seus olhos, quando pode mergulhar, mesmo que por breves instantes, no doce esquecimento das sensações. 

     O médico que assina a certidão de óbito manifesta extrema indignação pelo facto de o falecido ter tentado suborná-lo e lhe ter pedido para o considerar vivo e não morto. A efectivação da morte é também legislada; não basta que o coração pare de bater, é preciso que um representante da ciência e da lei o declare morto… e se a ciência e a lei têm tal poder, então por que não teriam também o poder de decretar a existência de vida, sobretudo se o falecido for de “classe superior”…?


A Birra do Morto, photography by São Ludovino.

     
     O cenário escuro e simétrico centrou-se no caixão, colocado entre duas filas de cadeiras destinadas aos participantes no velório. Um cenário de facto tétrico e deprimente. Mas se sobre o próprio caixão se desenrola uma luta desigual entre o defunto e os guardas, se o mesmo defunto, sentado dentro do caixão, tenta seduzir a mulher e convencê-la a “morrer” com ele, se o padre que preside às cerimónias coloca o livro sagrado nas próprias mãos do morto como se fosse um suporte de leitura (púlpito) e dá murros na tampa do caixão quando o morto tenta abri-lo, então o cenário tétrico torna-se também absurdo e hilariante, a condizer com o espírito desta “farsa trágica”. 

     Parabéns ao encenador, Victor Sezinando, pela teimosia e tenacidade, por mostrar que a encenação e a interpretação são de facto uma segunda vida dos textos; de cada vez que é interpretado ganha uma nova vida que nunca é igual à anterior. Vénias e aplausos para todos os participantes; fizeram-nos rir, pensar e olhar para dentro com olhos humildes e críticos.

Encenação

Victor Sezinando

Interpretação

Alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo da Escola Secundária D. Pedro V - Lisboa, 14 de Junho de 2019

 Elenco

Beatriz Fachina
Bernardo Ferreira
Carolina Gomes
Carolina Teodoro
Constança Cruz
Elói Pina
Gabriela Rubio
Gonçalo Alves
Joana Costa
Joana Sousa
Joana Vaz
Nelma Barreto
Neuza Velez
Patrícia Barbosa
Rodrigo Marques
Rodrigo Lancastre
Yannick Gomes

Sonoplastia
Mariana Silva


Birras de Classe - Encenação de Victor Sezinando

     Este mesmo texto já me suscitou antes outras reflexões e a escrita de outros textos. Desta vez, a constante evocação dos “regulamentos” e o pretensiosismo do mortal que se recusa a morrer fizeram surgir de imediato na minha mente um regulamento ao gosto dos mortais de “classe superior”.

 

*********************

Regulamento de Etiqueta, Protocolo, Bom Gosto

e Aparências Várias

Enquadramento Geral

Artigo 1

     A decisão de morrer ou não, quando, onde e como fica reservada exclusivamente aos membros da classe superior dos viventes, a saber: gente de bem, gente fina, gente de sangue azul, beneficiários de nepotismo, amigos e parentes de todos os anteriores.

 Artigo 2

     A classificação e organização dos viventes em classes cabem exclusivamente aos viventes das classes superior e arqui-superior. São eles os autores deste regulamento e de todos os regulamentos que regem todas as classes.

 Artigo 3

    A principal finalidade do trabalho incansável e imprescindível da classe arqui-superior é a manutenção do estatuto natural, congénito, hereditário ou adquirido, no estrito respeito por este regulamento e pelos privilégios legítimos da classe superior e arqui-superior.

Artigo 4

   Este regulamento não admite dúvidas ou objecções, protestos ou reivindicações por parte de qualquer classe, excepto a superior, pois tudo o que nele se contém é o produto da máxima sapiência, justiça e filantropia de classe.

Artigo 5

     Por serem redundantes todos os artigos que poderiam especificar e delimitar os privilégios das classes superior e arqui-superior, por serem axiomas inquestionáveis, a Constituição e Regulamento do nosso excelso sistema especifica apenas os aspectos formais de algumas situações práticas e contextos recorrentes. Servem os seguintes artigos para sublinhar a importância dos interesses e conveniências, das aparências, do bom gosto, da etiqueta e do protocolo que conferem às classes superiores a sua máxima superioridade.

   

Regulamento Superior

Capítulo I

A Essência da Vida Superior

 Artigo 1 e único

    O vivente de classe superior tem sempre razão, vivo ou morto, e só ele pode determinar se está vivo ou morto. Evidências externas constituem uma irregularidade absolutamente inaceitável. O Regulamento serve apenas para confirmar a superior verdade de cada vivente superior, não sendo necessário invocá-lo para determinar a verdade dos factos superiores.

 

Capítulo II

Interacção Social e Laboral

 

Artigo 1

      O vivente de classe superior não pode ser acusado de qualquer crime, pois, por definição apenas comete lapsos inocentes e é sempre um filantropo por natureza e por excelência, financiado e subsidiado pela classe arqui-superior e protegido pela Constituição e pelo Regulamento do nosso sistema infalível. Qualquer acusação será, pois, refutada e punida como vil difamação.

 Artigo 2 

     O vivente superior sabe sempre o que quer em cada um dos seus caprichos. A obrigação de adaptação, cedência ou resignação nunca lhe cabe a si mas a quem, por dever legítimo e indeclinável, o deve servir.  

 Artigo 3

     Mesmo que o vivente superior pareça não ter razão ou não estar certo, deverá ser sempre desculpado e defendido. Acusar é sempre uma prerrogativa exclusiva do vivente superior. O vivente inferior só pode limitar-se a obedecer ou, se assim lhe aprouver, poderá perecer do modo que entender. Esta é, aliás, a única prerrogativa inquestionável do vivente inferior.

Artigo 4

      O vivente da classe superior pode julgar e avaliar livremente e com total autoridade os viventes de todas as outras classes, excepto os da classe arqui-superior. Nesse juízo pode usar de todos os critérios que entender adequados, incluindo a subjectividade e a arbitrariedade, que são um exclusivo da sua classe.

 Artigo 5

      Todo o poder da classe superior é superior por definição, por insignificante que pareça, pois, por ínfimo que seja esse poder, confere-lhe sempre o direito a usá-lo discricionariamente como poder absoluto e todas as suas decisões são naturalmente irrevogáveis. Em circunstância alguma, podem os viventes das classes inferiores classificar este uso legítimo do poder como corrupto, fraudulento ou despótico.

 Artigo 6

      Os bens de cada vivente superior pertencem exclusivamente a si, quer os tenha obtido por herança ou adquirido ao abrigo do Regulamento e Constituição do nosso sistema. Os viventes das classes inferiores nada possuem em definitivo excepto aquele pedaço de terra em que hão-de jazer, mais dia, menos dia. O dever inelutável dos viventes das classes inferiores é, pois, contribuir diariamente para a riqueza e o bem-estar da classe superior.

 Artigo 7

    Só aos viventes da classe superior é permitido viver de aparências. Os subalternos estão absolutamente proibidos de usar máscaras, verniz, adereços preciosos ou qualquer indumentária resplandecente. Os viventes de classe inferior também não podem usar um discurso elaborado ou diminutivos terminados em “ecas”, “ocas” ou “ucas”. Não podem frequentar lugares selectos, desempenhar cargos de relevo ou qualquer outra tarefa que, de uma ou outra forma, possam afectar e prejudicar os viventes de classe superior. Deste modo, evita-se o terrível perigo de se confundir um ser superior com um ser inferior.

 Artigo 8

     Bens e direitos essenciais da classe superior, como a habitação, a saúde, a educação ou o alimento, só excepcionalmente devem ser extensíveis aos membros das classes inferiores, a saber: sempre que uma pequena parte desses direitos e bens, concedidos pontualmente e de modo sempre provisório às classes inferiores, puderem contribuir de forma decisiva e substancial para o bem-estar da classe superior e para a sua aparente filantropia.

Capítulo III

Vida Privada e Pessoal

Artigo 1

     Toda a vida de um vivente superior é privada e, por isso mesmo, nunca é passível de escrutínio, dúvida ou questionamento. Os viventes de classe arqui-superior e os órgãos da Justiça devem zelar pela protecção da privacidade, punindo os infractores de modo exemplar. Em caso algum poderá um vivente de classe superior ser sujeito quer ao juízo público quer institucional e jurídico. 

Artigo 2

     Para manter o equilíbrio social e promover o entretenimento, qualquer vivente de classe superior pode invadir a privacidade de qualquer vivente de classe inferior que, por definição, não existe. Pode fazê-lo usando todos os meios ao seu alcance desde que o resultado seja proveitoso. Qualquer vivente de classe inferior ao serviço de qualquer vivente de classe superior tem o dever de manter a máxima discrição sobre a vida privada e pública do seu superior.

Artigo 3

     Qualquer ofensa feita a qualquer vivente de classe superior é uma ofensa que atinge todos eles. Posto isto, todas as ofensas são simultaneamente pessoais e colectivas. Sempre que a ofensa se dirija a algum aspecto da vida pessoal de qualquer vivente superior, a punição deve revestir não só uma dimensão institucional e social mas deve também ser de natureza pessoal. Nestes casos, o ofensor deve ser destituído do nome, identidade social, ofício laboral, do direito a falar em público e do usufruto da própria atmosfera. 

Advertência Final

     Apesar dos evidentes, legítimos e inegáveis privilégios da classe superior dos viventes, convém ter cautela com certos factos, condicionalismos, imprevistos e circunstâncias várias que os insignes confrades da classe arqui-superior, que tudo governam, ainda não conseguiram controlar.



Ministro Vitalício dos Interesses da Classe Superior dos Viventes 
Simplício Sinuoso Crispim Trujão de Mesquita e Mais-Além 

Escrivão-Mor
Valentim Trujino O-Que-Diz-Sempre-Ámen


quinta-feira, 9 de maio de 2019

PROVA DE CARÁCTER


PROVA DE CARÁCTER
As Alegres Comadres de Windsor / The Merry Wives of Windsor, comédia de William Shakespeare, interpretada pelos alunos de Artes do Espectáculo (Interpretação), 10.º 13, da Escola Secundária D. Pedro V, no Auditório Chaves Santos, Lisboa, 21 de Fevereiro de 2019. Encenação de Estrela Novais. 

     Todas as relações sociais, pessoais e familiares têm como pilar fundamental a confiança recíproca. Em muitos casos, essa confiança não é genuína nem recíproca, é meramente uma aparência, uma estratégia convencional, tacitamente aceite pelos que são dignos de confiança e confiam e pelos que não são fiáveis mas, por isso mesmo, precisam ainda mais da confiança e da fiabilidade como emblema social. Entre ambos, nesse território meramente convencional em que uns enganam e iludem e outros são iludidos e enganados, reinam as aparências, as ilusões e infinitos jogos sociais e psicológicos. Aí germina e viceja um vírus que provavelmente nunca será extinto: a dissimulação e o fingimento, a ocultação e os jogos de aparências, em suma, a mentira nas suas múltiplas formas. Por isso, o Mundo é Comédia e Palco. E se é comédia e pura representação, então é também certamente tragédia. N’ As Alegres Comadres de Windsor não chega a haver tragédia; os enganos desfazem-se, o enganador é desmascarado e castigado e tudo acaba bem. O reino de enganos lá ficou incólume, apesar de o enredo fazer crer que tudo se tornou transparente e harmonioso. 
     Nesta peça, Sir John Falstaff é o paradigma do vigarista, boémio, ocioso e conquistador (uma espécie de Don Juan boçal) que não é leal nem fiável. É um fingidor nato que vive de estratagemas, supondo sempre que os seus alvos serão tolos e ingénuos. Tem aversão ao trabalho e desconhece os métodos honestos de ganhar dinheiro. Tudo nele é excessivo e compulsivo: a corpulência, a boçalidade, a bebida e a comida, a basófia e a vaidade, as patranhas e os embustes. Aparentemente, Falstaff é incapaz de um acto verdadeiramente honesto, é o último ser em quem se poderia confiar. Contudo, há nele algo de autêntico; é assim porque não pode ser de outra forma, é a sua natureza. E tudo aquilo que em Falstaff é excessivo e caricato é também parte da universal natureza humana. Falstaff é uma caricatura dos vícios humanos encobertos por sucessivas máscaras. 
     As comadres de Windsor são as mulheres casadas que ele corteja com calculismo, para se aproveitar delas e dos seus bens e para sentir o prazer de enganar os respectivos maridos. Dissimular e enganar são para ele um prazer, uma forma de vida. Vive rodeado de gente semelhante a ele, marginais, rufias, ladrões e alcoólicos. As mulheres com quem convive habitualmente são as prostitutas e as criadas das estalagens. Esse é o seu mundo normal, aí não há vício nem pecado, aí o vício é uma virtude, uma qualidade e um bem de que só os amorais podem usufruir. Os outros, os idiotas que se deixam enganar, ou que ele pensa enganar, são seres menores facilmente ludibriados pela sua esperteza e manha. 
     Neste mundo às avessas, são sobretudo as mulheres que dão uma lição a Falstaff. Os homens deixam-se iludir, mesmo quando recorrem às mesmas estratégias de Falstaff (veja-se o caso do Senhor Ford); as mulheres vencem recorrendo sobretudo ao conhecimento empírico da natureza humana. Elas também usam estratagemas semelhantes aos de Falstaff mas estão sempre um passo à frente porque fingem ser as ingénuas que não são. Ambas (a Senhora Ford e a Senhora Page) têm personalidades fortes e dominadoras e são as verdadeiras administradoras dos seus lares, das suas vidas e dos seus bens. Percebem de antemão que Falstaff está sobretudo interessado nas vantagens materiais que poderiam resultar da conquista. Enganam benevolamente os maridos apenas para dar uma lição a Falstaff. 
     De um modo ou outro, todos fingem, todos mentem, tal como Falstaff, como se a mentira fosse afinal indispensável para desmascarar outras mentiras e só métodos desonestos pudessem vencer os seres desonestos. Será mesmo assim? Se todos se servem das mesmas estratégias, então ninguém é perfeitamente honesto. O desenlace faz crer que sim, que a desonestidade marginal é punida, Falstaff é ridicularizado e humilhado, mas os ardis dos “honestos” são legítimos. E o rol de desonestidades tacitamente aceite no jogo social e político ao longo das eras? Vigarices, fraudes, corrupção, oportunismo, nepotismo continuam a ser práticas comuns, só que estes Falstaff raramente são desmascarados e punidos. Perante tal triste comédia, quando algum é apanhado e o mundo se concerta (lembremos o desconcerto do mundo de que fala Camões) fica-se espantado ou quase se sente pena do trafulha. A impunidade tornou-se regra e as excepções são tão raras que parecem fruto do acaso e não da justiça. 
     Mas é precisamente esta sucessão de enganos e desenganos que torna esta comédia um espelho intemporal das práticas e das relações humanas. E na época em que foi escrita e representada (entre 1597 e 1602), um tempo em que as convenções e os contratos matrimoniais se sobrepunham aos genuínos afectos e todos aceitavam o teatro social como um ingrediente natural das relações humanas, o público ria a bom rir enquanto se mirava nesse espelho. 
     Consta que esta peça terá sido encomendada a Shakespeare pela própria rainha Isabel I que desejava assistir a uma peça em que entrasse a personagem John Falstaff, a mesma que já encontrara em Henrique IV. Shakespeare terá escrito As Alegres Comadres de Windsor em apenas 14 dias para agradar à rainha. Mas será que agradou? O John Falstaff que entra nesta peça não se assemelha ao que fora personagem das partes I e II de Henrique IV. Aquele John Falstaff fora provavelmente decalcado do cavaleiro (Sir John Fastolf também conhecido como Lord Cobham e ainda como John Oldcastle) que fora amigo do príncipe Hal, o mesmo que foi acusado de assassinar Ricardo II, para depois subir ao trono como Henrique V. Aquele fora o herói de muitas batalhas durante a Guerra dos Cem Anos, entre a Casa dos Plantagenetas (Ingleses) e a Casa de Valois (Franceses), era um patriota, um militar, um homem leal ao seu senhor. Foi até considerado um mártir, pois segundo o Livro dos Mártires de John Fox, terá sido condenado à fogueira como herético da seita de John Wycliffe (criador do movimento igualitário com propósitos semelhantes aos de Lutero um século mais tarde), isto é, como inimigo da Igreja Católica. Terá sido executado no dia 14 de Dezembro de 1417 e existem até imagens que retratam essa barbárie tão comum na época. 
     O John Falstaff d’As Alegres Comadres de Windsor não é um cavaleiro medieval, nada tem de sério e respeitável e não foi condenado a nenhum martírio, excepto o vexame e a chacota a que o sujeitaram as comadres Ford e Page. Tivesse ou não agradado à rainha este novo Falstaff, o que é certo, é que a peça teve sucesso e foi reencenada milhares de vezes ao longo destes 300 anos de vida, no teatro, na ópera e no cinema. Em muitas dessas encenações, Falstaff ganha até um relevo desmesurado, ganha por vezes sobriedade, outras é reduzido à sua própria caricatura. Apareceu pelo menos em quatro óperas, a de Antonio Salieri (1750 – 1825), Falstaff (Dramma giocoso in due atti) representada em 1799, a de Carl Otto Ehrenfried Nicolai (1810 – 1849), Die Lustigen Weiber von Windsor / O Feliz Divórcio de Windsor, estreada em 1849, a de Giuseppe Verdi (1813-1901), Falstaff, estreada em 1893 e a de Ralph Vaughan Williams (1872-1958), Sir John in Love, estreada em 1929. Orson Welles realizou em 1965 The Chimes at Midnight, em que ele próprio desempenha o papel de Falstaff e David Jones realizou para a BBC uma série sobre peças de Shakespeare em que o Falstaff d’As Alegres Comadres de Windsor (1982) teve algum relevo. 
     Certos autores e literatos (Harold Bloom, Orson Welles) consideram Falstaff uma das personagens maiores da criação dramatúrgica de Shakespeare, a par de Hamlet. Parecem ver nele uma espécie de retrato das misérias e fraquezas da humanidade, mas também o eco grosseiro dos seus anseios e das suas quimeras. Enfim, um misto de personagem cómica e trágica. Se assim é, Falstaff terá uma longa vida, no palco e fora dele. Até já tem um adjectivo criado para designar alguém com características físicas, psicológicas e comportamentais semelhantes às de Falstaff: “falstafiano”. 
     Esta é uma peça longa (quase duas horas) e nada fácil de encenar e interpretar. Os jovens intérpretes mostraram ser capazes de enfrentar o desafio, combinando a tradição com a inovação, a naturalidade do discurso familiar com uma certa afectação típica da época, a tensão dramática com a leveza da comédia. Os figurinos coloriram o fundo negro e surpreenderam pelo inesperado (os meliantes que aparecem como gangsters e um karateca chinês, o pajem de Falstaff vestido como uma mistura de majorete e paquete, o próprio Falstaff fazia lembrar um padrinho da máfia). Parabéns pelo excelente trabalho! 

************************************************* 

Nota 1: Cf. Artigo sobre a execução de Sir John Oldcastle – 


Nota 2: Segundo Harold Bloom, todos os autores que vieram depois de Shakespeare têm um pouco dele nas suas obras, mesmo nas obras daqueles que conseguiram construir uma identidade literária própria. Sobre esta ideia, veja-se por exemplo O Cânone Ocidental, Círculo de Leitores, 1997. Veja-se também Falstaff - Give Me Life (Shakespeare's Personalities) by Harold Bloom, 2017 

Nota 3: Descrição de Falstaff num artigo do New York Times: «Not that there is anything ethereal about Fat Jack. This whiskery swag-bellied omnivorous cornucopia of appetites, red-eyed, unbuttoned, sherry-soaked. This nightwalker and whoremonger, a “muddy conger,” swinging at his old mistress Doll Tearsheet, a life-affirming liar whose truth is never to be a counterfeit. 

Falstaff is ancient energy thumping at volume through a temporary poundage of flesh. He is part pagan — the Lord of Misrule on the loose in Eastcheap, and as such his time is short. We meet him first in “Henry IV, Part 1,” already old, lusting at life, drinking pal of the young Prince Hal, who is calculatedly slumming it in London’s East End, like any rich kid running away from the family firm.» 


Nota 4: Estudos sobre a verdadeira identidade de John Falstaff: 

- The case of Sir John Fastolf and other historical studies by David Wallace Duthie, London, 1907 - https://archive.org/details/caseofsirjohnfas00duthiala/page/n7

- The Real Falstaff - Sir John Fastolf and the Hundred Years' War by Stephen Cooper 

Nota 5: Texto apócrifo de William Shakespeare: The history of Sir John Oldcastle, the good Lord Cobham, by William Shakespeare, London, 1734 – 


*********************************************************************** 

Elenco 

Adriana Loureiro 
Ana Beatriz Martins 
Beatriz Carvalho 
Cátia Castanheira 
Diana Sardinha 
Diogo Pereira 
Filipa Lopes 
Íris Sena 
Joana Jorge 
João Duarte 
Maria Mendes 
Mariana Correia 
Nádia Antunes 
Rafaela Alves 
Raquel Simões 
Samira Baldé 
Sandro Dias 
Sara Carvalho 
Sofia Pedrosa 
Tatiana Cavalheiro 

Encenação 
Estrela Novais 

Apoio de Voz 
Gonçalo Costa 

Apoio de Movimento 
Victor Sezinando


************************************************************


SEM VONTADE NENHUMA DE PARTIR

DE QUE TE RIS, AFINAL?
Só Por Cima do Meu Cadáver (a partir da farsa trágica A Birra do Morto de Vicente Sanches), interpretada pelos alunos de Expressão Dramática da Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão, no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 7 de Junho de 2018. Encenação de Victor Sezinando.

   Vieram para se divertir e divertiram-se. Como é possível alguém divertir-se com algo absolutamente tétrico: a morte de alguém? Transformando o tétrico em cómico e gostando verdadeiramente do que se faz. Este mesmo enredo poderia ser interpretado de forma bem diferente, acentuando a hipocrisia dos que choram lágrimas de crocodilo, a indiferença dos gananciosos e oportunistas, a inconstância dos sentimentos, a luta inglória contra a própria morte. Mas o desenlace, que mostra o defunto escapando à morte, rindo de tudo e todos, trazia já em si a possibilidade de subverter tudo e transformar o trágico e inevitável numa comédia aparentemente inócua. Não é uma comédia inócua, por isso o próprio autor lhe chamou “farsa trágica”. O riso mascara o medo, a hipocrisia, a inevitável mortalidade e desmascara os vícios de carácter que só se revelam verdadeiramente quando o mortal parte e já nada pode fazer contra cinismos, oportunismos e falsas boas intenções. O homem que parte já não é o mesmo que é recordado. Pouco haveria, pois, para despertar um riso solto e leve. É precisamente a farsa dos que ficam, mais do que a (suposta) ressurreição do morto, que desperta o riso, nem sempre leve mas antes inconscientemente crítico. A ressurreição final do morto é quase como um ajuste de contas, em nome de todos os mortais, com a própria inevitabilidade da morte e a hipocrisia dos vivos.
     O facto de os intérpretes já não serem jovens podia impedi-los de abraçarem desprendidamente esta espécie de paródia da morte, mas não foi assim. Em certos momentos, a performance pareceu ter um efeito catártico: se não posso vencer a morte, rio-me dela. Talvez seja até uma predisposição natural da maioria dos mortais e há de facto diversas culturas que festejam a morte, embora o façam de modos diferentes e por motivos filosóficos ou religiosos diversos. Se é verdade que há algo muito incómodo nesta peça, também é verdade que ninguém conseguiria deixar de rir em muitos momentos. É como uma terapia em que se aplica um medicamento com efeitos secundários, causa dor e indisposição, não cura completamente mas atenua temporariamente os sintomas. É por tudo isso uma farsa trágica e divertida.
     D. Francisco Manuel de Melo escreveu num dos seus Apólogos Dialogais que a velhice era (ou deveria ser) como uma “suave pousada” antes da partida. Parece que o protagonista queria voltar à pousada e partir bem mais tarde, quando lhe apetecesse, se lhe apetecesse. Contestou, argumentou e voltou mesmo à pousada através da sua ressurreição metafórica. Foi como se vencesse sozinho um bando de vilões e de insignificante mortal passasse a herói imortal. Pelo menos desta vez, o último a rir foi o morto. 
     É evidente que todos os intervenientes desempenharam de forma empenhada e divertida os seus papéis. O facto de já não serem jovens mas revelarem uma energia jovial só acentuou a vivacidade do desempenho. É de sublinhar o gosto genuíno que manifestaram na performance, como se tivessem esperado longos anos para se dedicarem a uma actividade de que gostam verdadeiramente e a que se dedicam como parte relevante das suas vidas. O teatro é para eles uma espécie de sal que conserva o entusiasmo e o desejo de fazer coisas novas. O reconhecimento do público foi recebido com enorme gratidão e, como entre esse público, estavam dezenas de jovens alunos de Artes do Espectáculo, os séniores fizeram questão de lhes dirigir também palavras de admiração e reconhecimento. É que, pouco tempo antes, tinham sido estes actores séniores uma parte do público dos mais novos quando eles interpretaram o musical Nos Montes de Viriato, de José Carlos Godinho, também encenado por Victor Sezinando. Nesse dia estava eu no público entre os actores séniores e foi enternecedor ver como comentavam e aplaudiam o trabalho dos mais novos, como se estivessem ali não só para fruir aquele momento mas também para aprender e se inspirarem para futuras interpretações. 
   O professor e encenador Victor Sezinando deu-lhes liberdade para criarem e recriarem as personagens, deixou-os brilhar cada um a seu modo, segundo a sua predisposição e inventiva, e o resultado final foi francamente divertido. E rir de uma “farsa trágica” não é coisa que se consiga facilmente. É preciso ter-se uma certa veia de comediante mas também de empatia, se não com este ou aquele ser humano, pelo menos com o género humano de que nenhum comum mortal se pode excluir por muito que tente.
     E se isto foi apenas uma manifestação do vosso amor pelo teatro, então estou certa de que será uma caminhada para continuar. Parabéns a todos pelo vosso trabalho!
     Segue-se um diálogo que, de certo modo, explicita o conteúdo desta peça, questiona a noção de comédia e as motivações de quem escreve ou representa uma comédia, sobretudo se for uma “farsa trágica”.

*********************************************************

DE QUE TE RIS, AFINAL?

     ─ Para que serve a comédia? ─ Pergunta um comediante amador a um comediante profissional. 
     ─ Para fazer rir, claro! ─ Responde convicto o profissional. 
    ─ Sim, mas não só. Há muito mais na comédia. A mim parece-me que a comédia foi inventada para espantar os medos.
    ─ O verdadeiro comediante nem se lembra que existe medo. Por isso é que é comediante, para poder rir de tudo.
    ─ E tu crês que podes rir realmente de tudo? A mim parece-me que isso seria uma espécie de tortura ou de loucura.
  ─ Não me venhas com os teus bons sentimentos. Supõe este enredo bem verosímil. Um tipo perde o emprego, transforma-se num meliante razoável, aprende a furtar, aprende a disfarçar-se e mais tarde volta a candidatar-se precisamente ao mesmo lugar de onde tinha sido despedido. Mais, é adorado e promovido de imediato. Os seus novos modos e métodos agradam sumamente aos manda-chuvas da finança e da política. Em breve é promovido a presidente do banco de onde tinha sido despedido por excesso de zelo. Aplica à arte de administrar o dinheiro alheio todas as manhas que aprendeu com diversos rufias e em breve o banco está completamente falido e ele com os bolsos cheios. Discretamente ausenta-se para as ilhas Caimão onde goza impune os milhões que desviou para um offshore. Os que o despediram, os mesmos que o tinham primeiramente contratado, vivem agora na penúria e recorrem às escondidas ao Banco Alimentar. Um suicidou-se e um quase que foi condenado a uma pena de prisão por ter falsificado uma assinatura; a única prova material aceite em tribunal pelo meticuloso juiz que era profundo conhecedor do Código de Processo Penal. O governo e o Banco Nacional acobardaram-se porque tinham uma série de telhados de vidro e tudo termina com dezenas de falências, austeridade, impostos redobrados, os contribuintes honestos a pagar as dívidas do espertalhaço e uma subida em flecha da taxa de desemprego que vai gerar mais uma cadeia infinita de desgraças… Agora diz-me, isto é uma comédia ou não? Para mim é. Enfim, admito que possa ser uma tragicomédia mas não deixa de ser uma comédia.
   ─ Percebo o teu ponto de vista. Estás confortável e indiferente no teu seguro reduto de sarcasmo e olhas todo o mundo com desdém… por isso, podes rir-te e ris-te do mesmo que faz chorar outros. Agora tenta lá usar de um pouco de empatia.
     Imagina que és um tipo vulgar, sem qualidades extraordinárias e dois ou tês vícios sem grande gravidade ou consequências; bebes uma cerveja a mais quando o teu clube joga, de vez em quando fazes de conta que não tens trocos para o teu colega pagar a tua bica, não declaras às finanças um ou outro biscato que fazes ao fim de semana. Enfim, sem seres um tipo exemplar, também não és um crápula merecedor de duro castigo. Pois, mesmo assim, acabas por morrer ainda relativamente jovem com uma congestão provocada provavelmente por uma daquelas cervejas geladas caída num estômago tenso e cheio de ácidos devido ao almoço excessivamente condimentado. Ninguém esperava a tua morte, na verdade até parecia que respiravas saúde, mas aconteceu. Agora imagina que os que cá ficaram descobrem subitamente todas as vantagens da tua partida precoce e querem a todo o custo acelerar e concluir o teu funeral. Quer-me parecer que não ias gostar nada da situação. Desconfio até que farias os possíveis e impossíveis para regressar à vida e dar uma lição às carpideiras e aos abutres oportunistas. Tenho quase a certeza de que te recusarias a morrer e havias de fazê-lo com tal alarido e inflexibilidade que acabarias por levar a melhor. E quando todos já te davam por definitivamente ausente havias de aparecer para aspergir a tua raiva e o teu sarcasmo. E eu seria provavelmente dos poucos que riria contigo e aplaudiria a tua monumental birra, porque era perfeitamente legítima e compreensível em qualquer comum mortal que prefira estar vivo a…
   ─ Está bem, está bem, já percebi. Essa até me parece uma boa ideia para uma comédia, mas cáustica e cheia de nonsense
   ─ Nem penses, não vais escrever essa peça. A ideia é minha, já escrevi a peça e estou a pensar encená-la em breve. Mas se queres fazer parte da comédia, ofereço-te desde já o papel principal. Parece-me que seria uma excelente ocasião para praticares a empatia. Afinal de contas, um dia poderás ter mesmo de representar esse papel ou eu ou outro qualquer… Mas é sempre conveniente ensaiar primeiro… 

São Ludovino, 23/6/2018 


********************************************************

DRAMATURGIA INICIAL


RAPSÓDIA VICENTINA
Rapsódia constituída por excertos do Auto da Barca do Inferno, Todo o Mundo e Ninguém (Auto da Lusitânia), Comédia de Rubena (Diálogo Infantil), Mofina Mendes, Auto da Feira e Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação), de Gil Vicente. Interpretada pelos alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo, 10.º 13, no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 6 de Junho de 2018. Encenação de Estrela Novais.


     Tornou-se tradição encenar excertos de algumas peças de Gil Vicente no primeiro ano do Curso Profissional de Artes do Espectáculo (Interpretação). Uma tradição que faz todo o sentido por ser Gil Vicente o fundador do teatro português e por a sua obra oferecer uma galeria diversificada de personagens que exige, desde logo, aos potenciais actores versatilidade e capacidade de adaptação. 
     Regra geral, os excertos são encenados de forma livre, transportando as personagens através do tempo e fazendo adaptações nos figurinos e na própria performance. Chega-se assim mais perto de um público que é maioritariamente jovem (os próprios alunos da escola) e dá-se nova vida a velhos textos que, de um modo ou outro, encontram na própria representação a sua actualidade. Embora os excertos apresentados pertençam a géneros diversos (comédia e sátira, auto de moralidade, a fantasia alegórica e o panegírico festivo), a encenação acaba por conciliar dois ingredientes presentes em todas essas peças em doses diversas: a sátira (o humor crítico) e a moralização dos costumes. O que também faz todo o sentido porque um dos objectivos do mestre era precisamente moralizar os costumes através da sátira, tal como sintetiza a locução latina de Santeuil sobre a comédia: Ridendo castigat mores (Rindo se castigam os costumes).
     Para o jovem público, o que sobressai é de facto a sátira e todas as modalidades e gradações do cómico. Os momentos mais graves e reflexivos acabam por passar algo despercebidos como se fossem apenas um compasso de espera até à próxima gargalhada. O público mais atento vê todas essas nuances e acompanha a viagem no tempo desde as primeiras décadas do século XVI até ao presente, sai até dos limites do tempo e percebe a intemporalidade de virtudes e vícios inerentes não apenas às sociedades mas à própria natureza humana, como se de facto não houvesse fronteiras temporais nem verdadeira evolução social e moral. Os tipos vicentinos têm esse atributo de estátuas falantes sem idade que ecoam a voz de múltiplos tempos, não pela linguagem, muito diversa da actual, mas pelas atitudes e pelos juízos que fazem de si mesmos e dos outros.
    Uma parte dessa intenção moralizante prende-se naturalmente com a religiosidade, os preconceitos e a visão do mundo específica de uma época e sociedade. Mas em muitos momentos, Gil Vicente liberta-se dessas linhas de molde e consegue ser verdadeiramente intemporal e universal, como acontece em Todo o Mundo e Ninguém (excerto do Auto da Lusitânia). Pequenos grandes detalhes da encenação, como a escolha de um homem rico (banqueiro ou empresário), materialista, egoísta e ambicioso, que vai enrolando maços de notas e rindo de forma sarcástica, para representar Todo o Mundo e uma modesta empregada doméstica, que fala enquanto lava o chão de joelhos, para representar Ninguém, fizeram toda a diferença. 
     Considerando que esta foi a primeira apresentação pública de folgo desta turma que agora inicia a sua formação profissional, creio que a performance foi muito bem conseguida e merecedora dos aplausos de todos. Continuem o vosso bom trabalho!

**************************************

Lugar incerto
(texto introdutório do vídeo que se inicia com cenas do Auto da Barca do Inferno)

No cais, as barcas que não vemos esperam
Antes de partir
Ou naufragar...
Ambas levam passageiros
Os que querem ir
Os que querem ficar
E os que querem ir para outro lugar...

São Ludovino, 7/6/2018

********************************************

Retrato de Gil Vicente, c. 1465 - c. 1536, 
por António Nunes Júnior, 1882. 
Paços do Concelho de Lisboa.


     Excerto do Auto da Lusitânia, um dos últimos escritos por Gil Vicente. Foi escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III para festejar o nascimento do seu filho, D. Manuel. Esta peça é habitualmente classificada como uma “fantasia alegórica”.


Ninguém: Que andas tu aí buscando?

Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:

                         delas não posso achar,
                         porém ando porfiando
                          por quão bom é porfiar. 

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo

                         e meu tempo todo inteiro
                         sempre é buscar dinheiro
                         e sempre nisto me fundo. 

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,

                    e busco a consciência.


**********************************************

Elenco

Adriana Loureiro
Ana Beatriz Martins
Beatriz Carvalho
Cátia Castanheira
Diana Sardinha
Diogo Pereira
Filipa Lopes
Íris Sena
Joana Jorge
João Duarte
Maria Mendes
Mariana Correia
Nádia Antunes
Rafaela Alves
Raquel Simões
Samira Baldé
Sandro Dias
Sara Carvalho
Sofia Pedrosa
Tatiana Cavalheiro

Encenação
Estrela Novais

Apoio de Movimento e Voz
Victor Sezinando

******************************************************

domingo, 20 de maio de 2018

DÁDIVA INTRANSMISSÍVEL

DÁDIVA INTRANSMISSÍVEL

A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Histórias, de Tim Burton, interpretadas pelos alunos de Artes do Espectáculo – Interpretação, da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, Dez. 2017. Encenação: Gonçalo Costa. Piano: Carolina Silva. 

     A atmosfera algo sombria e o humor negro de algumas destas histórias combinam-se com uma ténue luminosidade e emoções profundas, tão ao gosto de Tim Burton. A brevidade destas histórias ilustradas transporta em si uma imagem da própria fugacidade da vida, do melhor e do pior que nela acontece, reduzindo a acção ao essencial. Mas aqui o essencial não é nada de sublime e inefável, são as banais peripécias da vida, caricaturadas pelo absurdo, que se tornam decisivas numa engrenagem de determinismo social e psicológico. Como se fosse expectável que aquelas personagens naquele contexto agissem precisamente como agem, por mais absurdos e cruéis que sejam os seus actos. 
   Estas histórias estão escritas numa linguagem quase telegráfica que não apaga a densidade psicológica. Assim como quem quisesse reduzir a vida aos seus momentos mais marcantes e decisivos mas colocasse a tónica nas vivências interiores e no desenlace, mais ou menos trágico. 
   O humor negro, por vezes quase parece confundir-se com indiferença, como se todas as tragédias fossem inelutáveis, não porque o destino as determina mas porque as pessoas as determinam e consumam. E são os mais inocentes ou menos favorecidos pela dádiva natural da vida que são as principais vítimas deste determinismo social. A deficiência, qualquer que ela seja, passa de erro natural a culpa que ninguém quer aceitar. E assim, a vítima do erro natural é ainda mais castigada tornando-se também vítima do erro social. Se estas histórias podem fazer rir e sorrir, devem também fazer sentir, pensar e indignar porque o que retratam não são anedotas superficiais mas a realidade mais dura. 
   Levando o humor negro ao mais extremo absurdo, Tim Burton mostra de forma límpida como a discriminação banalizada e reduzida a actos convenientes e egoístas, é demasiado comum entre os humanos, mesmo entre os que se deviam amar e respeitar mais. A história do Rapaz Ostra é um bom exemplo disto mesmo. Os pais não aceitam o filho nascido diferente dos outros, reduzem-no a uma “coisa” e tentam eliminá-lo das suas vidas como se fosse um fardo, uma punição ou um erro injusto. Quem é duplamente vítima é apenas o Rapaz Ostra. 

Excerto:

«For their supper they had one spectacular dish-
a simmering stew of mollusks and fish.
And while he savored the broth,
her bride's heart made a wish. 

That wish came true-she gave birth to a baby.
But was this little one human
Well, maybe. 

Ten fingers, ten toes,
he had plumbing and sight.
He could hear, he could feel,
but normal?
Not quite.
This unnatural birth, this canker, this blight,
was the start and the end and the sum of their plight. 

She railed at the doctor:
"He cannot be mine.
He smells of the ocean, of seaweed and brine." 

"You should count yourself lucky, for only last week,
I treated a girl with three ears and a beak.
That your son is half oyster
you cannot blame me.
... have you ever considered, by chance,
a small home by the sea?"» 

(…) 

The doctor diagnosed,
"I can't quite be sure,
but the cause of the problem may also be the cure.
They say oysters improve your sexual powers.
Perhaps eating your son
would help you do it for hours!" 

He came on tiptoe,
he came on the sly,
sweat on his forehead,
and on his lips-a lie.
"Son, are you happy? I don't mean to pry,
but do you dream of Heaven?
Have you ever wanted to die? 

Sam blinked his eye twice.
but made no reply.
Dad fingered his knife and loosened his tie. 

As he picked up his son,
Sam dripped on his coat.
With the shell to his lips,
Sam slipped down his throat. 

They buried him quickly in the sand by the sea
-sighed a prayer, wept a tear-
and they were back home by three. 

A cross of gray driftwood marked Oyster Boy's grave.
Words writ in the sand
promised Jesus would save. 

But his memory was lost with one high-tide wave.» 




   Nestas histórias, não há personagens felizes ou perfeitamente inocentes e equilibradas. Há personagens que representam um estatuto, um estilo de vida, um modo de agir ou um facto incontornável da vida. Existe uma estrutura social e psicológica prévia; o que acontece a seguir torna-se tragicamente previsível. O mundo em que se movem parece permitir tudo, funciona segundo uma lógica egoísta e destrutiva em que a ética ou a pura sensibilidade não têm lugar. Mas é por isso mesmo que estas histórias suscitam uma profunda empatia para com todos os que sem culpa são colocados à margem da vida ou, pior ainda, são condenados a carregar o seu fardo, sós e ostracizados. Por isso, eu digo (no vídeo que acompanha este post) que se a vida existe mas não o “dom”, cabe a cada um criar e recriar esse dom nos que nasceram sem ele ou o perderam em alguma circunstância traiçoeira. 
   Vi esta peça há cerca de cinco meses atrás e já tinha há muito na minha mente o texto que iria escrever. A maior parte desse texto é o que fica acima. No entanto, há cerca de uma semana, quando o pequeno Alfie Evans foi condenado a morrer antes do tempo por um juiz no uso pleno das suas faculdades e do dom da vida, senti necessidade de escrever algo mais. A história “As Primeiras Janelas” é dedicada a ele e a todos os Alfies deste mundo. 


Encenação 
Gonçalo Costa 

Piano 
Carolina Silva 

Elenco 
Ana Carolina Cruz 
Rita Teixoeira 
Bárbara Soares 
Carolina Silva 
Carolina Trindade 
Diogo Fouto 
Filipa Silva 
Inês Silva 
Jorge Santos 
Yolanda Almeida 


AS PRIMEIRAS JANELAS 

     Nasci dentro de um pentágono, tal como tanta gente no mundo. Um telhado vermelho repousando preguiçosamente sobre quatro paredes robustas, uma porta e várias janelas. O que pouca gente no mundo tem é uma construção megalítica no quintal, pássaros pousando nos peitoris das janelas ou um vale a dez metros da soleira da porta. Mas mesmo que a diferença entre este lugar e todos os outros fosse apenas uma erva daninha junto ao portão que não existe, eu notaria a diferença. 
     Quem nasce em lugares como este conhece bem a importância decisiva do insignificante. Mesmo quando não se vê ou ninguém dá por ele, o insignificante faz modestamente toda a diferença. 
     E depois alguém diz: «Há qualquer coisa muito especial neste lugar mas não sei o quê…!» E ainda bem que não sabem porquê. Se soubessem que era por causa de uma simples erva daninha, do reflexo do sol em cada uma das minúsculas partículas de mica ou feldspato ou outra coisa qualquer, provavelmente ficavam muito desapontados e acabava a magia. Para eles, não para mim. A magia reside precisamente aí, no invisível e insignificante. E sem que ninguém dê por nada, cada coisa insignificante une-se a outras e outras até que todas as coisas insignificantes estejam unidas e criem a magia deste e de todos lugares. Mesmo que ninguém dê por isso, o insignificante e a magia estão lá. São mágicos guardiões de toda a vida. (1) 
     Pois bem, eu nasci dentro de um pentágono. Uma casa, dirão alguns. Um pentágono, digo eu, um pentágono extraordinário, cheio de coisas insignificantes, dentro, fora, por todo o lado! E mesmo que não houvesse coisas insignificantes por todo o lado, a minha mente encarregar-se-ia de as plantar por todo o lado. Tenho um enorme celeiro dessas sementes! Na arquitectura exterior deste pentágono nada há de excepcional. À frente uma porta, dividida em duas na horizontal, à volta várias janelas. 
     De cada janela vejo um sol diferente. É uma bela maneira de ter muitos sóis! E a paisagem e as cores que a luz pinta também são diferentes. Que é uma excelente maneira de ter muitos mundos dentro do mundo. Tudo muda em cada dia e em cada instante do dia. E depois há um dia em que o tempo parece parar ou me leva a viajar e eu vejo novamente o mesmo sol, a mesma luz, a mesma paisagem, átomo a átomo tudo regressa e eu digo “Eu já estive aqui! Ou foi tudo isto que voltou e nada mudou em mim? Talvez eu não me tenha movido, não tenha adormecido nem comido, talvez tudo isto passe o tempo a viajar e eu nunca mude nem me mova…» Mas no momento seguinte já a luz pinta outras cores e os ramos da mesma árvore oscilam de modo diferente, as nuvens passam mais lentas ou mais velozes e o céu sobre a montanha anoitece com novas estrelas, as que não vi ontem e as que acabaram de chegar. E tudo volta a fluir numa imensa harmonia de coisas novas e antigas. Que bom ter tantas janelas! São todas as primeiras, é sempre o primeiro olhar. 
     Também tenho muitas luas. Se me debruço desta janela, vejo um enorme disco de luz tocando as copas das árvores. Daquela vejo um arco de luz balouçando nas ondas. Há até uma de onde não vejo lua nenhuma mas sei que ela está lá. 
     No meu pentágono há lugares de luz e penumbra, uma infinidade de cores e formas que recriam o arco-íris a cada instante e de tantas formas diferentes. Depende da hora do dia ou da noite e das janelas que se abrem ou fecham. No meu pentágono podem ler-se as paredes, o soalho, o tecto. A luz passa e vai voltando páginas. A penumbra passa e volta outras. Estão escritas em muitas linguagens diferentes e as palavras são mais do que palavras, também são todas as coisas que habitam o meu pentágono e o mundo. Que grande é o mundo! Como é bela e infinita a vida quando a escrevo e leio neste livro! 
    Mas no meu pentágono também há outros livros, semelhantes aos das bibliotecas, são tantos que ocupam muitos lugares que não são seus, como os degraus das escadas, os baús de jardim ou as malas de viagem. 
     Depois de muitos e muitos dias a conversar com todo este mundo, um dia decidi fechar as janelas por instantes para descobrir o que estava para lá delas quando voltasse a abri-las. Quando voltei a abri-las vi mais do que vira antes. Vi por entre as árvores e as nuvens uma imensidade de janelas em que se debruçavam seres que não vira antes e todos os que já conhecia; vi árvores, arbustos, flores e frutos, nuvens e aves, lagos, rios, oceanos, vento e chuva, o sol e a lua, uma infinidade de animais e de gente. 
     Deixei todas as janelas abertas e fui lá para fora ver que fenómeno era aquele. Conversei com todos os seres com que me cruzei. As coisas naturais falavam em linguagens variadas mas semelhantes e as pessoas usavam quase todas a mesma linguagem. Não era um fenómeno sobrenatural, era só uma forma diferente de ver as mesmas coisas. 
   Algumas janelas estavam sempre fechadas, outras estavam sempre abertas, algumas iam-se fechando e abrindo e outras fechavam-se para nunca mais se abrirem. Essas eram janelas tristes, mas eu falava com elas e com os seres que lá tinham estado. 
     Num dia extraordinariamente belo, uma das janelas fechadas voltou a abrir-se. Lembrava-me bem do ser que lá estivera. Era muito pequeno e quase silencioso, sorria com toda a inocência e olhava para tudo como eu sempre olhara, como se fosse a primeira e última vez, profundamente grato por aquele instante. A janela abriu-se de par em par mas o pequeno ser não estava lá. Ainda assim eu via-o e sentia a sua presença. Gente passava em todas as direcções, olhavam-me, olhavam a janela aberta e vazia, abanavam a cabeça e seguiam o seu caminho. 
     Eu ali fiquei, sem hesitar nem duvidar, porque acreditava que o pequeno ser continuava lá. Dava os meus passeios em redor e voltava sempre para saudar aquela presença invisível. 
     Muitas estações depois, alguém começou a rondar o meu velho pentágono. Era uma criatura com uma longa capa negra e uma voz dura e solene. Não gostava de pentágonos nem de janelas abertas. Ordenou que todas as janelas se deviam fechar e nunca mais deviam ser abertas. Entendi, então, por que se tinham fechado tantas janelas ao longo do tempo. Tinha chegado a minha vez, a vez do meu extraordinário pentágono, que nem sequer tinha sempre a forma de um pentágono. Às vezes era um prisma multicolor, às vezes era uma nuvem, às vezes era uma árvore entre as árvores da floresta. Agora o nome pouco importa; alguém o comprou, barrou as paredes com cimento e pintou-as cor de sangue. As pedras, a mica e o feldspato reluzente lá ficaram a asfixiar debaixo da tinta. 
     Saí do meu pentágono de janelas fechadas. Assim já não era o meu pentágono. Fui para a floresta e aí construí uma casa extraordinária com uma única janela, que trouxera bem guardada na minha mochila, a do pequeno ser que eu continuava a ver. Em breve, a janela se multiplicou e a minha casa era feita apenas de janelas. Nem precisava de me debruçar nelas para ver as maravilhas em redor; elas estavam ao mesmo tempo dentro e fora da minha casa. Às vezes espreitava cá de fora só para ver se tudo estava belo e intacto como ontem. E estava, dentro e fora. O pequeno ser também estava lá, dentro e fora. Ora se sentava comigo a comer morangos ora corria livre como um pássaro por entre as árvores e as pradarias. De algum modo, acredito que vencemos a criatura sombria que tinha fechado todas as janelas. Nunca mais foi vista. A sua lei implacável continua por aí, mas também desaparecerá um dia. 
     Agora vivo ao ar livre e todos os lugares e todas as coisas são o meu infinito lar, meu e de todos os que vêem o invisível e amam as coisas insignificantes e belas que compõem a beleza primeira da vida. Boa-noite, ervas daninhas, grãos de areia e gotas de água! As estrelas brilham também para vós. 

São Ludovino, 29/4/2018 

(1) Como as redes de micélio e fungos mutualistas que permitem a preservação dos ecossistemas… tal como a alma, e a magia nela contida, preserva a beleza do mundo e da vida… 

Nota: História dedicada ao pequeno Alfie Adams, assassinado, em nome da lei, por um juiz que ama mais a morte do que a vida e se julga senhor das vidas que não lhe pertencem nem pertencerão nunca. Não se esqueçam de Alfie, da forma como viveu e morreu (28/4/2018). Cinco dias depois de as máquinas serem desligadas, continuava a viver, porque queria viver, porque gostava de viver, porque tinha o direito a viver, não importa como ou durante quanto tempo. Não se esqueçam também do tenebroso juiz, porque há muitos como ele por aí.



The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.




 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.
 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

 The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton, photography by São Ludovino.