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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Textos Intermináveis - II

PINÁCULOS DE TOPÁZIO

Há locais na terra onde chega quase tudo…

Chegam vendedores, publicitários e contrabandistas,
Pirotécnicos, tatuadores, ciganos, turistas de calções,
Especialistas em lavagens ao estômago e ao cérebro,
Bocas risonhas despejando melífluos contos do vigário;
Chegam gatos siameses, cavalos de Tróia,
Alvos arminhos e focas do Árctico;
Chegam cartas em atraso, cartas perfumadas,
Cartas viciadas, cartas circulares, círculos viciosos
Embrulhados em celofane e veludo,
Jogadores de poker sentados em nuvens de fumo,
Jogadores de xadrez tão velozes como a luz,
Jogadores de futebol petrificados fora de jogo,
Faquires, ilusionistas e hipnotizadores,
Pepitas, pérolas e clepsidras,
Andorinhas, computadores,
Raios de sol perpendiculares,
Memórias e esperas e conchas com areia,
Tigres sossegados com o tempo,
Meninas com brincos coloridos e vespas nos olhos,
Videntes, profetas, ovnis, ministros, horóscopos,
Folhetos que anunciam o fim do mundo,
O fim da estrada, o fim da dor,
Roupa lavada, roupa nova, mendigos, canções, folhetins,
Fotografias de cidades modernas,
Revistas que prometem o prazer de mil e uma formas,
Notícias de exemplares raros em extinção,
De exemplares únicos em exposição,
De quadros roubados ou falsificados,
De pessoas desaparecidas, em fuga, em chamas,
De pessoas encontradas a passar a fronteira
Clandestinamente, irresistivelmente esguias, velozes,
 
Encontradas a rondar o aeroporto,
Encontradas azuis junto ao mar,
Encontradas a balbuciar numa estação de metro,
Encontradas sós num concerto rock,
Encontradas com manchas de enxofre e mercúrio,
Encontradas nuas com um molho de chaves na mão,
Encontradas a desenhar peixes nas montras,
Encontradas num quadro abstracto,
Encontradas ausentes em parte incerta,
Encontradas num labirinto em Pequim,
Em círculo na cama da prima Antonieta,
Encontradas perplexas no jardim da Celeste,
Encontradas num barril de dólares na mansão do tio Samuel,
Encontradas a espreitar a bela Maria
― que atingiu um relacionamento fenomenal com os pombos brancos ―
Encontradas estóicas e exangues
Encontradas nos braços lassos de Epicuro
Nos braços cínicos de Diógenes
Nos braços cosmológicos de Empédocles
Nos braços esquivos do infinito Pessoa
Nos braços amplos de Emerson, Thoreau, Whitman
Nos braços universais da mãe natural e ubíqua
Encontradas intactas na curva da estrada
Estáticas, rectilíneas, frenéticas, apócrifas, hipotérmicas febris
Teimosas em fúria, espúrias, incandescentes em contramão
De braços abertos em ângulo raso, lasso, crasso
De mãos dadas em sentido literal, único, lúdico, fatal
Sem rumo, sem prazo, sem frémito ou cansaço
Encontradas invictas nas pedras da calçada
Encontradas esquecidas nas pregas de um sonho
Encontradas perdidas no labirinto de Creta
 
Perdidas numa expedição em busca da prima Vera,
Do paradigma perdido, do sintagma convicto
Do axioma contorcionista, do teorema funâmbulo
Perdidas em Moscovo na Convenção dos Não-Alinhados,
Perdidas no negrume de vermelhas e alvas utopias
Perdidas nas páginas do único jornal do mundo
Perdidas no desenlace do livro interminável
Perdidas extáticas no túmulo de Tutankhamon
Perdidas à procura de Humphrey Bogart em Casablanca,
Perdidas, perdidamente perdidas em extrema perdição

Encontradas a executar a metafísica do amor de Schopenhauer,
Encontradas com o lápis de Toulouse-Lautrec no Moulin Rouge,
Encontradas com sessenta gramas de heroína,
Vinte e um gramas de vida, cinco gramas de alma
Encontradas a escrever cartas a Napoleão,
À mãe, aos ministros dos Negócios Estrangeiros de todo o mundo,
Ao primeiro amor, ao próximo amor, ao amor impossível,
Encontradas em flagrante delito, delíquio, delírio, delícia,
Delibação, deletério, delação, delapidação,
Encontradas empunhando armas, núcleos
Dermes e epidermes de átomos
Gatos e leões e tigres de Schrödinger
Demagogia com queijo e uma ratoeira cintilante
Denodo, mãos nuas, mãos sujas, mãos futuras
Encontradas no estaleiro da obra em desconstrução,
Deportadas sem aviso para o reino da (des)ilusão
Alinhadas com toda a precisão
Nas estruturas traiçoeiras do acaso
Nas escadarias dos templos
Nos corredores do poder paralelo
Alternativo, subversivo, imersivo
Nas rodas dentadas das fábricas
Apanhadas na voragem da ventania
Provavelmente sós,
Provavelmente violentas
Provavelmente imprecisas
Provavelmente promíscuas
Desinteressadamente desatentas e lentas
Detidas nas fronteiras do tempo
Sem mapas nem bagagens
Detidas porque sim, porque não, porque talvez
Porque o perigo espreita a fera e a presa
Só porque existem e são quem são
Azuis, laranja, brancas, verdes, vermelhas, amarelas…
Porque estão acordadas ou adormecidas
Porque caminham ou se despenham de inalcançáveis precipícios
Porque resistem ou desistem
Porque persistem ou se dissolvem na poeira
Porque são a sombra ou a claridade
Porque respiram, inspiram, transpiram
Submissas, insubmissas,
Quixotes e moinhos de vento
Comuns como o ar e o sal dos oceanos
Encontradas espantadas e irrepetíveis
Encontradas a falar com os seus botões,
Encontradas a pôr o carro à frente dos bois,
Dos camelos, dos elefantes e até dos ocapis
Encontradas por acaso, por mero acaso
Por completo e absoluto acaso
Quase desaparecidas
No lado oculto da lua
Numa versão inédita de um mito grego
Numa saga nórdica inacabada
Minúsculas na palma da mão de um gigante atlântico
Cantarolando no eco sinfónico do vento
Dissolvidas no esplendor de uma aurora boreal
Hesitantes entre duas vielas de Paris
Reencontradas junto a uma erva daninha no topo do Evereste
Abraçadas às rochas nas grutas de Lascaux
Deslizantes nos desfiladeiros do Utah
Sedentas, sós, arenosas oásicas nas dunas do Sahara
Relendo livros de areia, o passado, a história do tempo
Transfiguradas na retorta do alquimista
Vislumbradas na linha mutável do horizonte
Vistas a sair do ventre da mãe
Do coração dos que amam deveras
Dos que odeiam sempre
Do banco, do hospital, da feira da ladra
Vistas de relance a beber champanhe no banco de trás de um Rolls Royce,
A devorar desalmadamente lagostas torturadas
A regurgitar num requintado lupanar
Vistas claramente a limpar as dedadas de um revólver fumegante
Ou subrepticiamente a retocar a máscara,
Debruçadas com os seus diamantes dos camarotes de honra,
Enquanto outras as olham como boi para palácio de feno, veneno dourado,
Encontradas zangadas num dia de cobrança ou nevoeiro,
Encontradas mortas... Somente mortas
Sem explicação, sem causa necessária ou suficiente
Apenas mortas… irreparavelmente mortas…

Chegam notícias de pessoas que voltaram as costas para o Oriente,
De estátuas poliédricas de vidro verde inquebrável,
De estátuas de jaspe roubadas do túmulo do imperador da China,
De estátuas que fogem da própria sombra,
De sombras que invadiram o teatro de Moscovo
E nunca mais foram vistas, vivas, dignas
Notícias de pessoas que circum-navegam o mundo
Em barcos à vela ou copos de whisky,
De pessoas que pararam ali,
Enquanto sonham eternamente com além,
Pessoas a tricotar com seda os dias vulgares,
Pessoas a amarem sem amor,
Pessoas sem sombra, pessoas ninguém
Pessoas completas, pessoas complexas, intactas
Pessoas simples, pessoas simplistas, pessoas de bem
Pessoas imensas, pessoas diversas, pessoas inversas
Pessoas planificadas, pessoas sem planos, sem danos
Pessoas raptadas entre o dia e a noite
Pessoas lúbricas, púdicas, concupiscentes
Pessoas mais além…

Novas e velhas tribos, castas e castos,
Ilhas e arquipélagos e vulcões
Istmos de cristal, penínsulas ensolaradas ou geladas,
Cabeças, pernas e braços de continentes
Cálamos, tálamos e dosséis de fundos marinhos abissais
Preâmbulos e ditirambos bailando nos areais
Orações védicas, profundas, intraduzíveis
Avatares do Grande Insondável
Inscrições em sânscrito, persa, gaélico, lusitano
Mensagens de amor voador, asas amantes amadas
Ícaros, Prometeus, Sísifos, Adamastores, Circes e Pandoras
Peregrinos suados, rotos devotos, maltrapilhos famintos
Filantropos de Quioto, Bombaim, Tombuctu e Nova Iorque
Altruístas fraternais, maternais, frugais, nunca demais
Terroristas, sectários, fanáticos, bombásticos com rastilho
Cegos de raiva, disfarçados, replicados, pérfidos, fétidos
Homicidas, suicidas, fratricidas e outros sufixos mortíferos,
Insecticidas, herbicidas, fungicidas, sulfamidas
Ditadores genocidas, democidas, humanicidas
Banqueiros pantagruélicos, famélicos, famosos, gulosos, tinhosos
Celeiros, palheiros, sapateiros, pés descalços, poeira, lama, nada
Notas de banco, notas de dívida, notas musicais
Informais, longitudinais, horizontais, oblíquas, perpendiculares
Burocratas, actas, alpergatas, sonatas, fragatas e beatas
Tecnocratas, folhas de cálculo, folhas de flandres, contabilistas,
Plutocratas, plutocretinos, mineiros do Hades, carcereiros do paraíso
Cleptocratas, sanguessugas, parasitas, filigrana falsificada, enlatada,
Paraísos fiscais, artificiais, iscos, anzóis, faróis, Cila e Caríbdis
Czars insaciáveis com o império na tripa, no ceptro, na mitra
Emires, sultões, califas, sabres, escravos, odaliscas, pataniscas
Receptadores, penhores, usurários, prestamistas
Cleópatra, Midas, Ptolomeu e a rainha do Sabá
Rothschild, Rosencrantz e Guildenstern
Andy Warhol, Marilyn e Al Capone
Cortinas de néon, cortinas de fumo, cortinas de cetim
Lenine, Estaline, Pavlov, Gastev, utopia violada
Gulags, purgas, valas comuns, muros de aço,
Bandeiras, sinais, símbolos, slogans, ordem e obediência
Endoutrinadores, escultores de mentes, oleiros sem dores,
Armas de destruição maciça, dissuasoras inúteis, apocalípticas
Falsificadores de arte, notícias, quimeras, éticas patéticas
Linguistas formalistas, estruturalistas, generativistas,
Construtivistas, atávicos, pavónicos, erráticos, erróneos,
Bizantinos cheios de bizantinices, turbantes, garras ululantes, serpentes
Chineses desaparecidos aos milhões, chinesices do Grande Salto para a Frente
Para trás, para o lado, utopia cadafalso, arrozais decapitados
Florentinos, floreados dantescos, peste negra, branca, última, próxima
Fotógrafos imperceptíveis, imperfectíveis do microcosmos e do macrocosmos
Cineastas furtivos, selectivos monocromáticos e policromáticos
Do film noir, rouge, vert et blanc, da vanguarda, da retaguarda e da pós-modernidade
Dramaturgos, encenadores, cenógrafos e actores da grande comédia do mundo
Teatro do absurdo, de fantoches, de sombras, de alto e baixo coturno
Beckett, Brecht, Shakespeare, os que vieram antes
Os que vieram depois e os que hão-de vir
Sátiros e ninfas, bailarinos, florestas, incêndios, fotossíntese
Loucos pedagogos, sensatos, sossegados, sentados, peripatéticos
Romancistas cansados, irritados, anarquistas, niilistas, nudistas
Poetas futuristas, surrealistas, calados, silenciados, executados
Melómanos harmónicos, melódicos, polifónicos, operáticos
Personagens secundárias, plenárias, subsidiárias, subsidiadas
Figurantes célebres, substitutos, mortos em duplo combate
Protagonistas impertinentes, suspiradores, vilões alados enfadados
Arquitectos e engenheiros de jardins das delícias, do mel, do fel, da loucura
Casebres, mansões, condomínios fechados, isentos,
Intocáveis mesuras, etiqueta perneta, protocolos
Segurança privada, alcateia intocável,
Parques temáticos com entrada gratuita, fortuita
Candidatos a candidatos, a presidentes, ministros, deputados
Legisladores, pastas, prados e pastos
Escriturários, funcionários tributários, notários, perdulários
Juízes, advogados, taxistas, sentenças, perjuros e perjúrios
Eleições simuladas, viciadas, transparentes, indiferentes
Referendos, plebiscitos, comités, concílios, conselhos gerais e restritos
Estatísticas, esteticistas, estetoscópios, estroboscópios
Contrabandistas experientes, traficantes de tabaco, álcool puro,
Ouro fora da lei, influências, preferências, animais e gentes
Tráfico e tráfego estridentes, capciosos, ociosos
Fome daninha, vizinha, dia após dia
Dilemas, emblemas, problemas, gemas de ovos, discos de Newton,
Códigos legais e ilegais, deontológicos, epistemológicos e ontológicos
Espiões, infiltrados, escutados, liquidados, agentes duplos, triplos, infinitos
Aviões supersónicos, kamikaze, barcos de loucos,
Estradas intransitáveis para o céu, para casa, para a liberdade, para a verdade
Escorregadias e belas auto-estradas para o inferno, o exílio, o bairro, o limbo
Honra e desonra, equívocos, óbvios, eloquentes, infames,
Egotistas, narcisos, ranúnculos, criogenia, autocracia absoluta
Megalómanos, ciclopes de aço, titãs de gelo, areias movediças
Inventores improváveis, laboratórios infectados, sépticos, anti-éticos
Robots intrigados, cépticos, cibernéticos, patéticos, ferozes, lúdicos
Máquinas que ordenam, empilham, fazem bolas de sabão e antologias
Contratos intrincados, impostos, taxas e taxinhas, clausulados unilaterais
Dívidas impagáveis, inflacionáveis, irresponsáveis, peculato, economato
Nepotismo clubístico, abrangente, adstringente, habitual, intra-institucional,
Hipotecas do passado, do futuro, da casa, da paz, da liberdade
Da democracia… onde anda a democracia?
Promessas periclitantes, compromissos, suspiros, fonemas profícuos
Conversas hiperbólicas, redundantes, íntimas, casuais, agendadas, adiadas
Encomendas carimbadas, atrasadas atrás do tempo, do balcão, da fila de espera
Malas transviadas, esbaforidas, poliglotas,
Passageiros sem fôlego, atrasados, precoces, previdentes
Pangloss sempre no melhor dos mundos possíveis
Papistas mais papistas do que o papa, Pedro, Paulo, João
Mas não Cristo, rebelde pacífico, crucificado
Inquisidores, iconoclastas, pederastas, pedintes, pedaços de gente
Anacoretas, anacondas, animistas, transcendentalistas
Idealistas, darwinistas, criacionistas, fatalistas, optimistas…
Criaturas estranhas deste planeta...

Chegam amigos e inimigos,
Em dias imprevistos
Em invólucros, em caixas chinesas, em matrioskas
Ou em carne, osso e sangue, exangues,
Chegam aves marinhas,
Copos a verter sede,
Estrelas (de)cadentes,
Dinossauros, quasares de coral,
Constelações desconhecidas,
Tratados e alianças de guerra e paz,
Versões da liberdade em infinitos volumes,
Palavras extremamente flexíveis
Extremamente mutáveis,
Verdades caleidoscópicas,
Compêndios da memória colectiva,
Xailes de esquecimento,
Singulares impressões da alma,
Que passa, que fica, que volta,
Chegam cartas ao futuro,
Árvores pensadoras,
Ouriços filosóficos,
Plantadores de absurdo,
Monges,
Pirilampos,
Piratas,
Rubis,
Traidores,
Fingidores exímios,
Histórias,
Ecos,
Miragens,
Gotas,
Inocentes,
Beijos,
Oceanos,
Sal…

...enfim, pode chegar quase tudo, mas o Verão...

Suy / São Ludovino, 29/4/1985

Life blood - I, photography by São Ludovino.



Textos Intermináveis - I

     Aquilo a que costumo chamar "textos intermináveis" ou "textos de processo" são isso mesmo: textos que podem ser prolongados indefinidamente a partir de um processo de construção formal, assente numa ideia ou conceito. A dimensão formal e a dimensão conceptual são interdependentes, alimentam-se reciprocamente. Fazer perguntas é sempre um processo profícuo e pode aplicar-se às mais diversas linhas de pensamento. O próprio processo nunca é fechado e permite construir mapas semânticos com ramificações, sobreposições, jogando com o literal e o metafórico, explorando paradigmas e o potencial dos campos lexicais e semânticos. A interrogação cria também uma estrutura dialógica mesmo que o texto seja um longo monólogo. No caso do texto "Sei lá...", escrito em 1984, parte de uma interrogação sobre aquilo que sabemos e desconhecemos: "Saberá alguém". Tudo o resto são possibilidades de resposta ou de falta dela.   

SEI LÁ…

Saberá alguém
cumprir os poemas
ser instrumento e imagem fiel
das palavras.

 Saberá alguém
que há cavalos selvagens
em New York.
E ilhas de coral
na Praça Vermelha, de manhã
sobre a neve e as pegadas da Revolução
que o fantasma de Lenine desenha
com o dedo roxo de frio.

Saberá alguém
que quando se ama e deseja o absoluto e o infinito
se teme ainda o segredo da morte
e das viagens clandestinas nos barcos
brancos da loucura.

Saberá alguém
que há sempre mais alguém
na nossa solidão.

Saberá alguém
que nada é imutável
nem sequer a perfeição
e tenho a certeza de que as borboletas não choram
por terem apenas duas semanas de vida com asas.

Saberá alguém
procurar pérolas no fundo do Pacífico
sem despertar a insaciedade dos tubarões
e invejar os peixes por não desejarem
um paraíso.

Saberá alguém
que os peixes do Pacífico têm contudo desejos excessivos.

Saberá alguém
que as anacondas não têm destino
e só existem no Amazonas
e que no Amazonas
o tempo é devorado apenas pelas piranhas.

Saberá alguém
que a sede é excessiva nos trópicos
é indefinida no equador
e assassina nos pólos.

Saberá alguém
que as contradições
são como os cactos no deserto:
visíveis, dolorosas e persistentes,
imprescindíveis como as miragens,
indissolúveis como a areia,
inegáveis como os espinhos
balsâmicas como a seiva.

Saberá alguém
de alguém.

Saberá alguém
de alguém assim
assim gémeo e inconfundível.

Saberá alguém
que nos quartéis-generais
há sempre alguém que fala alemão como o Führer.

Saberá alguém
que um Mercedes preto e o papel higiénico
são imprescindíveis a um ministro
para manter o equilíbrio mental.

Saberá alguém
que o equilíbrio mental do poder
é pura ilusão.

Saberá alguém
que as joaninhas
têm as asas mais misteriosas
e que o mais comum dos humanos
tem sempre umas mãos misteriosas
que transformam o universo numa imensa joaninha
com sóis vermelhos e buracos negros
que voa dentro de si mesmo
sempre que descobre o absurdo na Primavera
e não se lembra mais de nada

Saberá alguém
que Ícaro
também tinha milhões de irmãos gémeos
e nenhum desistiu da obsessão comum
para que os sonhos ainda existam no futuro
os arquitectos da mente não morram de tédio
e assim o senso comum tem ainda quem castigar
e os modestos mestres-escola
têm ainda um enigma para os confundir.

Saberá alguém
que embora tenha sido sempre assim
a alquimia se tornou irreversivelmente um ramo
da meta-psicologia que persiste em não poder
ser científica
e que a pedra filosofal se tornou um paradigma
indistinto da vontade
o talismã de todos os desejos
quer o alquimista demonstre ou não
que o prazer é o elixir que faz o cosmos
e o tempo infinitos
o movimento de rotação ou translação
a obstinação ou a indiferença
o cachimbo d’água, o suicídio ou a felicidade.

Saberá alguém
saberá.

Saberá alguém
de mim
aqui
a uma distância indizível de quase tudo.

Saberá alguém
que as mil e uma noites
se repetem incessantemente pelos tempos
às vezes em cada segundo
para quem vive em Finisterra.

Saberá alguém
que o sabor da sidra
alucina os cavaleiros andantes da planície
e que Dulcineia é uma hidra de sete cabeças
que todos os homens desejam
porque não tem mãe consanguínea
descende directamente e apenas do impossível
e é imortal como todos os nós cegos
deuses e traidores.
Se tivesse memória recordar-se-ia que de facto
nunca nasceu sequer.

Saberá alguém
que as bandeiras de tréguas
são sempre vermelhas
por mais brancas que as pintem
e a rendição um axioma absurdo
onde a aranha tece a teia da raiva
e da revolta adiadas
e nesta guerra os exércitos
são apenas de pensamentos
sonhos e gotas dispersas de sangue de ideias.

Saberá alguém
que os brincos da princesa
eram azul metálico
e foram a causa da Pornex 84
e da queda das Nações Desenvolvidas.

Saberá alguém
que há um charlatão à solta no jardim
que deus é um ourives
e tudo no mundo são invenções
as duas mais fabulosas são os espelhos e o amor
mas ainda as facas e a cabra-cega.

Saberá alguém
que as histórias da carochinha
têm intenções bem mais duvidosas
que as “desflorações”.

Saberá alguém
que as realidades
que mais nos fascinam e nos movem obstinadamente
são as que nunca poderão ser reais
aquelas que conseguimos abstrair de tudo
e colocá-las dentro de nós
como uma suprema realidade
aquelas que tocamos com uma mão
ao mesmo tempo que as olhamos
por um binóculo mágico de abandono.

Saberá alguém
que a sanidade não existe
e os muros dos asilos não são
brancos por acaso.

Saberá alguém
que Sísifo tinha cabelos longos e uma barba infindável
embora permanecesse sempre mais jovem
que a pedra
e que o topo da montanha
é uma cratera com um fundo de mar doce
e não um pico pontiagudo.

Saberá alguém
que a nossa história
é a pré-história do inconsciente
e os bisontes e os mamutes
foram pintados nas cavernas pelas divindades
que depois cansadas do inacessível
encarnaram em nós
porque pensaram que éramos
prismas de vidro transparentes
e nunca tínhamos sono nem olhávamos
para trás nem víamos através das paredes
nem nos parecíamos irremediavelmente
com os seres estranhos dos seus sonhos.

Saberá alguém
quem mora agora na casa onde nascemos
e da qual perdemos a chave nos pântanos do tempo.

Saberá alguém
dos tapetes voadores
bêbados de purpurina e vertigem
em que passámos a rasar
sobre os monumentos do inexistido
e nos reconhecemos depois sem grande surpresa
num filme de aventuras fantásticas.

Saberá alguém
que os lagartos e os trapezistas
viajam numa redoma de vidro
pelas florestas densas e abissais
e pelas vertentes dos vulcões
em busca de um diamante azulado
que embora perpetuamente índigo cristalino afinal é incolor
e mesmo assim azul.

Saberá alguém
que há peregrinos em todas as cidades
e alguns mantêm as mãos fechadas nos bolsos
segurando as chaves de uma casa imaginária
onde tentam entrar
cada vez que fitam uns olhos como se fossem o mar
mas todos os peregrinos são estrelas cadentes
que nunca saem à rua nem chegam ao céu
e deambulam pela Via Láctea das ruas
como fotógrafos microscópicos
por um tapete persa.

Saberá alguém
desejar ser perpetuamente cristalino
sem perder definitivamente a posse da sanidade
que é apenas constante na ausência de desejos
e por isso impossível
ou possível apenas numa impossível solidão de plenitude
ou no útero de uma morte
de que apenas os suicidas podem beijar o plasma
com desespero e abandono
e depois tornar-se inquilino do absurdo
com os olhos abertos brilhantes e frescos de serenidade.

Saberá alguém
que o velho contrabandista
só trocava segredos com o ibex.
Dos montanheses de barbas brancas
aceitava metamorfoses do ouro
em troca de textos paranóicos
e páginas rasgadas do exemplar original
da Bíblia e/ou do Kama Sutra.

Saberá alguém
que os amantes morrem na neve
sob avalanches de máscaras negras
os beijos dos ursos brancos
e os aplausos insistentes e insatisfeitos dos pinguins.

Saberá alguém
de ti
aqui
a uma distância imprevisível do sonho.

Saberá alguém
que as epifanias de Joyce
são as únicas verdades possíveis
no palco da própria vida ou da escrita
onde o xadrez se joga com paradigmas
de múltiplos cérebros mesmo que o rosto seja só um
e as peças multicolores lêem no fundo dos olhos
dos camaleões-outros que o invadem
e mesmo dos camaleões-eus
porque na noite anterior
tinham sempre sonhado com deuses
que transformavam o espectro solar em palavras
ou oceanos desconhecidos com filmes sobre peixes transparentes
e os actores revelavam todos os segredos das expressões
para matar definitivamente o teatro
e as personagens poderem ser pessoas
simultaneamente fantásticas, intocáveis, críveis, vulgares e simples.

Saberá alguém
que a solidão é incomparavelmente
mais povoada do que a China Popular
mais apinhada de relatos e fantasias que a Biblioteca de Alexandria
e que nela vivem muitas tribos e povos
que nunca foram descobertos
embora alguns corram sucessivamente e constantemente
o perigo de extinção…
e provavelmente nunca o serão
porque há muitas crateras num eu só para um eu só
e às vezes em vez de olhar para elas
cai lá no fundo e tudo fica entregue
apenas ao esquecimento, ao tactear na escuridão
a um fascínio caótico
ou a um cárcere de anestesia.

Saberá alguém
que as autoridades suspeitam que alguém
tenha convertido as hierarquias
num tabuleiro de xadrez
e ficam em pânico e tornam-se ditadores
porque não sabem jogar
mas pressentem a existência de variantes infindáveis.

Saberá alguém
que não há diferença alguma
entre um pensamento, um instante e um engano
entre uma areia, uma história e um homem
entre a chuva, a memória e um mito
entre o perigo, o azul e a poesia
entre um espelho, a dialéctica e uma estátua
entre Borges, um caleidoscópio e a caverna de Platão
entre Kafka, um jardim de areia
e os ecos que se ouvem nas caves dos labirintos
onde monstros acéfalos se encaixam no grande puzzle
do grande caos do grande real.

Saberá alguém
compor tranquilamente um interlúdio
— com uma melodia clara e nunca entrecortada
por silêncios ferozes e estridentes
nem interrompida a meio da página —
a imagem e semelhança da inquietação da lucidez
e depois continuar a fazer bolas de sabão
e jogar às escondidas com o esquecimento
quando sabe que as aranhas continuam
a conspirar atrás de uma árvore
onde era suposto estar apenas Newton
ou a Branca de Neve

Saberá alguém
que os nómadas são todos morenos
porque há pó nas estradas e noite nos olhos e nos nervos
têm obsessões fixas e lêem sinas
nos hieróglifos dos poemas de êxtase
ou nas pestanas dos estranhos que os olham com nostalgia
e lhes beijam à distância a testa
extensíssima de sede suor e tatuagens.

Saberá alguém
amar simplesmente
sem condições nem sonhos futuros
sem espera nem ilusões tangíveis
sem acreditar nem procurar nada
e ainda assim não desistir sem querer.

Saberá alguém
olhar o seu próprio desespero por um telescópio
como se ele pertencesse a um firmamento muito longínquo
e acreditar sem querer que é uma sombra-máscara apenas
indistinta desse grande rosto em que estrelas brilhantes demais
não cessam de se desintegrar.

Saberá alguém
conter-se à porta dos labirintos da memória
espreitar apenas o calendário dos momentos que vão chegando
ou perder o rumo apenas quando a tempestade é iminente
e os raios vão iluminando parcialmente este ou aquele recanto do labirinto
que começa a rodopiar à volta da cabeça
e quando a tempestade pára ele já aterrou no topo
de uma daquelas montanhas inatingíveis
e é depois o deserto que a rodeia o único que contém
a tentativa de a escalar
a menos que o tempo tenha parado
ou todo o tempo se tenha reduzido a um irrecusável momento.

Saberá alguém
soletrar a verdade até ao fim
sem hesitar
sem se interrogar nunca.

Saberá alguém
devolver a alma aos habitantes da ilha
depois da plena simbiose dos sentidos plenos de alma
sem lhes tirar em troca uma única ave-do-paraíso.

Saberá alguém
erguer e povoar o seu reino
apenas com simetrias do sonho
apenas com paisagens secretas
apenas com os olhos dos viajantes
ou dos visitantes saídos dos quadros surrealistas
apenas com animais selvagens
tribos de um só ser
e um totem de ébano serenidade e marfim…

Suy / São Ludovino, 9/10/1984, (4h manhã)



Othelo - excerpt, photography by São Ludovino.