Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll - Performance de Mímica e Dança, interpretada pelos alunos de Artes do Espectáculo - Interpretação (11.º 13) da Escola Secundária D. Pedro V, no Auditório da Santa Casa da Misericórdia de Alfragide, em 27/5/2019. Encenação e coreografia de Diogo Pereira (aluno). Fotografia & vídeo: São Ludovino. Projecto extra-escolar.
Este foi um espectáculo sem texto, sem palavras, sem diálogos verbais, apenas diálogos de movimento, mímica, cor e expressão. Inspirado explicitamente no filme de Tim Burton, junta alguns fragmentos da narrativa de modo a permitir a compreensão do essencial. Em cada momento, notou-se sobretudo a vontade incontrolável de dançar, dando em parte continuidade ao trabalho já apresentado noutros musicais (Rei Leão e Mama Mia / Dancing Queen).
O nonsense, tão característico dos diálogos e das rimas de Lewis Carroll, assente sobretudo no uso da palavra, não estava lá. Permaneceu o nonsense das situações e da própria personalidade das personagens, todas seres comuns de um país maravilhoso onde o senso comum desaparece e uma nova lógica fundada no absurdo se instala.
O que não faz sentido no mundo dos mortais enfadonhos faz ali todo o sentido. Esse é um dom da lógica de Lewis Carroll, dar sentido ao absurdo, ao impensável, ao impossível. Ou, dito de outra forma, no País das Maravilhas, a liberdade de pensar e imaginar é total, mas com regras internas, uma lógica própria, que cria um novo sentido. Apesar de todo o absurdo e de toda a fantasia, o paralelismo com o mundo comum é evidente. O mundo comum contém infinitos absurdos, tacitamente aceites, porque resultam de uma convenção, um consenso. Venerar uma rainha prepotente porque é rainha faz parte da convenção tacitamente aceite pelos súbditos, mas não, não da lógica de Alice, que vê a pessoa em vez do cargo. É também o consenso que institui o poder e a lógica do quotidiano. No País das Maravilhas passa-se exactamente o mesmo, mas num mundo ao contrário, com regras e uma lógica próprias que dão sentido ao absurdo. O Chapeleiro Louco e a Lebre de Março celebram os aniversários quando bem lhes apetece e faz todo o sentido porque todos os dias faz anos que nasceram.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Este foi um espectáculo de mímica e dança, quase sempre com a música como pano de fundo e guia. A ausência de palavras exigiria uma maior visibilidade da expressão facial, mas infelizmente a luz não foi a adequada, não por responsabilidade dos intérpretes mas porque o espaço não possuía outro tipo de iluminação.
O espaço exíguo do palco não permitiu que a coreografia se desenrolasse livremente e as próprias mudanças de cena também obrigaram a usar certos truques cénicos. Mas o mais relevante foi o facto de todo o espectáculo ser um projecto extra-escolar exclusivamente montado por um grupo de alunos. Implicou abdicar de tempos livres e coordenar as actividades escolares com os ensaios e apresentações públicas, sobretudo num momento em que já se aproximava o final do ano lectivo e ainda havia muita coisa para concluir.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Por todas estas razões, é de louvar o empenho destes alunos e a dedicação que demonstraram. Muitas vezes, é quando fazem aquilo de que realmente gostam que mostram melhor algumas das capacidades escondidas. O Diogo, que encenou e coreografou, com a ajuda de todos, está de parabéns. É preciso não esquecer nunca que estes projectos só se conseguem desenvolver quando há uma vontade colectiva e todos colaboram. O figurino de cada personagem foi da exclusiva responsabilidade de cada intérprete e o resultado foi francamente bom. Não só os alunos mas também as respectivas famílias colaboraram para fazer o melhor possível. Uma vénia para todos os participantes que voluntariamente e com sacrifício pessoal contribuíram para levar à cena estes fragmentos da eterna Alice no País das Maravilhas.
Elenco / Cast
André Moura Beatriz Martins Carolina Teodoro Diogo Pereira Iris Sena Mariana Correia Nádia Antunes Sofia Pedrosa
Encenação & Coreografia Staging & Choreography
Diogo Pereira (aluno)
Alice no País das Maravilhas - Mímica e Dança
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
Alice in Wonderland, photography by São Ludovino.
A história que se segue podia passar-se num qualquer “país das maravilhas”, dos prodígios ou das quimeras…
ONDE OS COELHOS NÃO
FAZEM A TOCA
Naquele tempo, os monarcas de Rocambólia, Turbulino e Turbulina, viram-se a braços com a contestação de uma grande parte dos seus súbditos. Até os próprios infantes, Bambolino, Bambolina, Rolica e Turilo, pareciam alinhar com os dissidentes. Era tudo uma questão de chapéus e tudo começara com a demissão do Mordomo-Mor, Serenildo Bonança. O Mordomo-Mor recusara-se a cumprir e a fazer cumprir a nova Lei dos Chapéus: Chapéus Enfáticos, Chapéus Raquíticos, Chapéus Místicos, Chapéus Gaiola e Chapéus Sem Cabeça. Por motivos que só os desígnios do supremo poder conhece, Turbulino e Turbulina decretaram que 90% da população deveria usar o Chapéu Sem Cabeça, incluindo o próprio Mordomo-Mor.
A mim, que estava bem longe de Rocambólia nessa altura, não me surpreendeu muito tal lei. Embora só tenha passado cinco dias naquele reino, foi mais do que suficiente para reconhecer a incorrigível tendência dos monarcas e de uma parte considerável da nação (ou não teriam tais monarcas) para tomar decisões caprichosas e completamente descabidas. Ainda me lembro bem do dia em que acordei com o arauto proferindo em alta voz, mesmo debaixo da minha janela: «… Sabei, pois, que de hoje em diante ou por tempo indeterminado, consoante a vontade do legislador e a coloração das tulipas, todos os que tiverem mais ou menos de 1,65 metro de altura terão de pagar a Taxa do Altímetro no montante de 50 rocambis e uma arroba em produtos hortícolas e fruta da época…» Mas enfim, os meus cinco dias em Rocambólia não são para aqui chamados que o tempo urge e a minha pena não está para aí inclinada.
Rocambólia fica Entre Norte e Sul, não no Equador, que o Equador não é um continente, é uma linha imaginária e Entre Norte e Sul é um continente bem real, rodeado por várias linhas imaginárias. É provável que Entre Norte e Sul tenha sido o primeiro continente a formar-se a partir da Pangeia e, por isso, é considerado o mais velho dos continentes, embora eu tenha certas dúvidas… Rocambólia, por sua vez, afirmam alguns, é o reino de mais provecta idade no mundo inteiro, do que duvido ainda mais, se bem que há coisas bem lamentáveis que tendem a perdurar muito mais do que as desejáveis e sensatas. Mas enfim, também não sou geógrafo nem historiador, e é bem possível que tudo isto seja verdade. O certo é que, dependendo da parte do mundo em que me encontre, os nativos desse lugar tendem a representar Rocambólia de maneiras muito diversas. Não há dois mapas de Rocambólia coincidentes. Alguns situam-na até alguns quilómetros acima do nível do mar, não no topo de uma montanha, mas algures entre as nuvens que passam a vida a mudar de lugar. Talvez, por isso, as memórias pessoais que guardo de Rocambólia às vezes parecem-me algo nebulosas e incertas e até já dei comigo a perguntar-me: “Terei eu ido realmente a Rocambólia? Ou apenas me lembro de um emaranhado das muitas representações que vi, li e ouvi dela…?” É que eu já vi, ouvi e li muito, muito mais do que seria expectável de um simplório pacato como eu. Tentei muitas vezes tomar nota das minhas observações mais curiosas. Escrevinhei, rabisquei, enchi de esboços páginas sem fim e até costumava trazer junto do meu farnel aquela papelada muito bem atada com uma fita de cetim azul. Mas acontece que em certo dia, estando eu esfomeado no meio de nenhures, me vi obrigado a comer as minhas anotações por não ter nenhum outro alimento.
Agora que, finalmente, disponho de algum tempo, de sossego e nada de excepcional se passa à minha volta, decidi reescrever algumas dessas anotações. Mas o que é aquilo…? Será uma sombra, um adereço de teatro, algum visitante inesperado ou talvez sejam simplesmente os meus olhos que me enganam. Talvez esteja mesmo enganado, talvez este não seja nem o tempo nem o lugar apropriado para escrever. Esta mesa, esta cadeira, esta janela, o mundo lá fora… Peço que me perdoem a distração. Mas é que passou agora mesmo por aqui um chapéu montado num cavalo branco. Por instantes pensei que, de algum modo inexplicável, a minha memória me tivesse transportado de novo até Rocambólia, embora eu nem estivesse em Rocambólia na altura em que foi promulgada a tal lei, a dos chapéus. Penso que tal aparição poderá ser um indício misterioso de que uma nova lei foi promulgada entretanto, a Lei dos Chapéus Sem Cavaleiro ou Lei dos Cavalos com Chapéu ou dos Chapéus Cavaleiros, sabe-se lá. Quem sou eu para conjecturar sobre as infinitas leis de Rocambólia? Eu chamo-me Dodgson, não Charles nem Ludwidge, apenas Dodgson, o próprio, um simples mortal.
Este incidente fez-me lembrar outra peripécia que li n’ A Outra História da Alice (The Other Alice’s Story) de uma jovem autora de cujo nome não me recordo ao certo; penso que era S… qualquer coisa. Havia um chapéu que passava a galope num cavalo branco, enquanto gritava: “Estou livre, livre! Livre daquela cabeça oca, cheia de ventanias e trovões. Não quero ser usado e explorado. Deve pensar que eu sou o elmo de palha de algum Quixote…” Logo a seguir, apareceu uma cabeça, completamente desnorteada, gritando: “Alguém me salve, alguém me ajude a encontrar o meu chapéu! Desapareceu ontem à noite, sem qualquer explicação e levou-me o cavalo… Não consigo pensar, sinto a cabeça vazia, logo eu que…” Um Chapéu Que Guarda ou Lê Pensamentos, pensei. Mas também se podia dar o caso de haver Chapéus Que Roubam Pensamentos… Que ideia assustadora! Como se isso não bastasse, mais adiante, a cabeça desnorteada cruzou-se com um pudim de gelatina verde que fugira da cozinha da Rainha de Copas antes de ser devorado. Fuga nada surpreendente. Toda a gente sabe como a rainha adora pudins de gelatina, sobretudo verdes ― todos tremem como varas verdes na sua presença. Isso é o que ela acha mais adorável e saboroso nos pudins de gelatina.
Pois, bem sei que me desviei de novo do cerne da questão ― a Lei dos Chapéus em Rocambólia e a perturbação que ela gerou ― mas não perdi o fio à meada pois todos estes fios fazem parte do mesmo novelo. Por ora, deponho as minhas dúvidas e analogias e entro no miolo deste enredo: a Lei dos Chapéus e os dias turbulentos que se viveram por causa dela.
Em primeiro lugar, devo esclarecer que Serenildo Bonança, o Mordomo-Mor, não se demitiu, foi demitido no mesmo instante em que principiava a manifestar a sua oposição à lei. É bem provável que ele próprio se tivesse demitido mas não teve tempo. Nem sequer essa réstia de dignidade lhe deixaram.
A permanência de Serenildo no cargo era há muito questionada pelos sete conselheiros e por uma grande parte da população. Na verdade, opunha-se a quase todas as leis promulgadas e era abertamente crítico em relação aos populares monarcas, os mais populares na história de Rocambólia. Que o abuso, a injustiça e a arbitrariedade fossem tão bem aceites pelos súbditos seria o mais surpreendente em qualquer lugar, mas não em Rocambólia. Ali reinava um festivo espírito masoquista. De vez em quando, levantava-se aqui e ali um burburinho, depois vinham Turbulino e Turbulina na sua majestosa carruagem, atiravam sobre a multidão uns balões e uns pedaços de pão e, misteriosamente, o motim terminava. Muitas vezes eram os próprios cabecilhas da insurreição os primeiros a vir para a frente, faziam grandes vénias aos monarcas, gritavam-lhes “vivas” e juravam-lhes fidelidade eterna. Às vezes até havia algumas cabeças que rolavam, não por ordem dos monarcas, mas porque os próprios amotinados desembainhavam a espada e zás, assim demonstravam o fervor das suas convicções. Quando os monarcas faziam rolar cabeças, faziam-no com mais pompa e circunstância. Montavam um grande espectáculo numa das praças principais, vestiam as indumentárias mais vistosas e sorriam amenamente cada vez que uma cabeça rolava e a multidão gritava de euforia.
Como Serenildo nem chegou a ter tempo de justificar o seu desacordo com a lei dos chapéus, fez o que já antes fizera muitas vezes, sempre a coberto do anonimato. Desta vez, foi ele próprio por todas as praças pregando aos transeuntes e afixando folhas volantes nas estátuas, nas esquinas e nas tabernas. Só que desta vez não foi vestido de Robim dos Bosques, de maltrapilho ou de ilusionista lunático. Foi assim mesmo como era, com a sua cara de Serenildo e a longa capa azul que usava todos os dias. Acrescentou apenas um lampião para lhe iluminar o caminho, quer nas noites escuras quer nos dias mais soalheiros. Assim sendo, era impossível confundir-lhe a identidade: «É ele, é Serenildo, o maldito Mordomo-Mor! Desaparece, maldito traidor ou ainda ficas sem cabeça!» gritavam alguns. Serenildo levantava o lampião e fitava o rosto que vociferava, tal como Diógenes em busca de um verdadeiro homem entre a multidão. E que via Serenildo sob o foco de luz do seu lampião? Uma máscara de papel com um esgar rasgado, igual a todas as outras máscaras de papel, de latão, de ouro que vociferavam pelo reino fora. As máscaras nunca se revoltavam contra Turbulino e Turbulina, faziam-no em nome de suas majestades, mesmo sem que lho pedissem. À luz do lampião os fios que lhes prendiam os membros e a cabeça eram bem visíveis. Só não se via o palco nem o mestre dos fantoches.
Aqui e ali, por entre as gentes que passavam, Serenildo vislumbrava um ou outro rosto mais atento, uns passos que se detinham, um silêncio de concordância, mas nem uma só voz se unia à sua. E Serenildo prosseguia: «É o vosso silêncio cúmplice, a vossa cegueira e cobardia que fizeram desta terra um antro de parasitas e de corruptos. Vendeis a alma por migalhas, ficais satisfeitos com a ignorância em que viveis mergulhados e não perguntais sequer se há mais mundo do que este, outras formas de governar e de viver.» Serenildo não parecia um louco, sabia muito bem o que dizia e por que o dizia. Mas era tratado como um louco e perigoso.
À medida que os dias passavam ia vendo na prática como é que a Lei dos Chapéus estava a ser implementada com a cooperação de todos ou quase todos. Alguns abraçaram os seus chapéus com todo o entusiasmo. Os que usavam os Chapéus Enfáticos, recobertos de diamantes e esmeraldas, rebrilhavam de vaidade, enchiam os palácios de convivas e festejavam a sua própria supremacia, espezinhavam com vigor e náusea os lacaios, vergados pela gratidão de servir tais sumidades. E quando se cansavam dos palácios e dos cortejos, passavam longas temporadas em caçadas inúteis e sangrentas. Lacaios e presas, todos cobertos com os seus Chapéus Raquíticos anuíam ao sarcasmo e às balas e riam-se eles próprios de si mesmos enquanto pereciam aos pés dos seus amos e caçadores. Além destes havia muitos mais que usavam também os Chapéus Raquíticos e por cima deles os Chapéus Gaiola e por cima de todos os Chapéus Sem Cabeça: os camponeses, os artesãos, os pescadores, os mineiros e todos os que faziam trabalho manual. Como é evidente, os Chapéus Raquíticos transformavam os seus utilizadores em débeis criaturas a quem restava apenas a força necessária para cumprir as suas obrigações e nenhuma para reflectir, questionar ou protestar. Os Chapéus Gaiola faziam descer grades em torno daqueles que, mesmo assim ousassem, executar algum movimento não programado, em suma, era o chapéu da rotina perfeita.
Os Chapéus Místicos estavam reservados apenas ao clero, aos filósofos e aos artistas, puros eufemismos, não os chapéus mas os filósofos e artistas. Eram todos membros da elite real e a sua função consistia simplesmente em roubar as ideias que, apesar de todas as cautelas, pudessem escapar de algum chapéu. Depois de devidamente moldadas e remodeladas, essas ideias eram transformadas em ícones que povoavam as praças ou livros lustrosamente encadernados que forravam a biblioteca real e meia dúzia de bibliotecas privadas. Eram como uma paisagem inerte já que raramente eram abertos. A única coisa dinâmica e viva naqueles livros eram os padrões de cor conseguidos com uma certa organização das lombadas. Os únicos que continham algum tipo de filosofia eram pequeníssimos livros que eram distribuídos gratuitamente a todos os súbditos. Era uma espécie de catecismo, a súmula simplificada da História e da Ordem Eterna de Rocambólia. Esses livrinhos apareciam todos assinados por Turbulino e por Turbulina embora não se soubesse ao certo quem era o autor. Os Chapéus Místicos tinham sobretudo uma função aparente, ou melhor, tinham o condão de confundir aparências e realidade. Aqueles que os usavam, independentemente dos absurdos que proferissem, eram acreditados como sábios vindos directamente da casa dos deuses. Por isso, eram carregados em carruagens de vidro cintilante, rodeados por uma luz tão intensa que os tornava quase invisíveis. Ofuscados por tal aparato, os ouvintes bebiam cada palavra como se gotejasse directamente de alguma nascente divina. Estes oradores eram muito úteis aos monarcas. Se o medo da dor e das penas humanas falhava, lá vinha o medo das penas infernais e a esperança de começar finalmente a viver mais além, depois de já terem partido deste mundo. Os utilizadores destes chapéus pontificavam em templos, caminhavam por tapetes de rosas, usavam auréolas douradas e falavam com voz melíflua. Eram taças de mel para apanhar moscas. E as moscas caíam lá dentro aos milhares. Depois de caírem, raramente se levantavam e saíam. Eram presas pegajosas e felizes, tão pegajosas que, às vezes, mesmo sem grande esforço, atraiam mais moscas, moscardos e vespas. E a taça parecia nunca estar cheia. Os mais dogmáticos continuavam a falar do enxame tresmalhado, das asas que não caíram, dos ferrões que não foram amputados, da ingratidão dos que não queriam alimentar-se do mel da salvação. Como é evidente, caro leitor, estes chapéus não eram místicos mas eufemísticos.
Os Chapéus Sem Cabeça eram o corolário perfeito da ordem eterna que vigorava em Rocambólia. Depois de tantos limites e leis, na verdade até seriam desnecessários porque pouco restava para controlar. Mas os monarcas de Rocambólia sempre tinham desconfiado da diferença; por pequena que fosse, poderia ser a semente de alguma mudança que depois não se pudesse reverter. Por isso, os Chapéus Sem Cabeça vinham assegurar sem margem para dúvidas que ninguém seria capaz de pensar pela sua própria cabeça. Claro que os amáveis e argutos leitores já terão compreendido que não há sistemas perfeitos e toda a ordem tem as suas falhas, como adiante veremos.
Está, portanto, explicado por que é que 90% da população usava os Chapéus Sem Cabeça; eram usados em acumulação com outros pela maioria da população para que absolutamente nada falhasse. Só detentores de algum grau académico (quase sempre fictício porque todos os graus académicos eram honorários) ou de algum cargo de relevo no quadro institucional os usavam em exclusivo. O Mordomo-Mor era uma dessas pessoas. E quem ficava de fora destes chapéus? Apenas os monarcas, a família real e os seus servidores indefectíveis, aqueles que aderiram à sua causa por convicção inabalável e tinham exactamente os mesmo interesses e benefícios.
Numa teia de interesses tão bem estruturada, não é de admirar que Serenildo quase não tivesse ouvintes e simpatizantes e, se os tinha, mantinham-se em silêncio e resignados. Os alinhados, por seu turno, continuavam a invectivá-lo todos os dias e reivindicavam a sua eliminação. Consideravam-no uma ameaça para as suas vidas tão meticulosamente dispostas em todos os detalhes; ele era um factor de instabilidade num reino de ordem absoluta. Muitos pediram audiência a Turbulino e exigiram a decapitação de facto. Se se recusava a usar o Chapéu Sem Cabeça (que tinha um efeito semelhante à decapitação), então tinha de ser decapitado por outros meios. Turbulino concordou mas hesitou sem explicar os motivos das suas dúvidas. Foi o próprio Serenildo que, nas suas pregações, acabou por revelar os motivos, se bem que poucos o entenderam cabalmente.
Serenildo falou de hereditariedade e linhagens, da preservação das espécies e castas puras, de darwinismo social (eu sei, caro leitor, isso são coisas do futuro), de ciência autêntica e de ciência programada, de cientistas e executores de vontades, de fins e meios, de propaganda e hábito, de manipulação e aceitação, de liberdade e controlo, de criação e repetição, de regimes e ideologias, de sistemas económicos e engenharia financeira, de engenharia social e de engenharia do consentimento… Eu sei, atentíssimo leitor, isto também são coisas do futuro; mais uma razão para me entenderes cabalmente, melhor do que qualquer um destes habitantes de Rocambólia e do que eu mesmo.
As declarações de Serenildo culminaram com as revelações sobre a família real e a criação dos chapéus, alegremente usados por quase todos. Ao longo dos séculos, os regimes e as ideologias tinham mudado muitas vezes, assim como os governantes e muitos detalhes da organização estrutural e funcional do reino. Repúblicas e monarquias tinham-se sucedido com a mesma perfeição com que uma roda dentada encaixa noutra e continua o movimento há muito iniciado. Na superfície e no estilo muito tinha mudado, mas os governantes faziam todos parte de uma teia consanguínea que incluía apenas uma dezena de famílias. Mesmo as revoluções mais sangrentas e as rupturas mais radicais na superfície tinham dado continuidade às velhas linhas hereditárias.
No passado, houvera muitos outros Turbulinos e muitas outras Turbulinas, uns republicanos, outros monárquicos, uns turbulinistas outros turbulinários, uns laicos outros sacros, mas todos pertencentes a uma das dez linhagens dominantes. Alguns chamavam-se precisamente Turbulino e Turbulina, e o povo via neles messias e desejados, outros tinham muitos outros nomes e em cada nome o povo tentava vislumbrar uma afinidade recôndita com o seu próprio nome e os seus antepassados. Esse é um dos motivos por que Rocambólia está cheia de nomes como Lino ou Lina, Bulino ou Bulina, Turlino ou Turlina, Burlino ou Burlina, Brut, Brat ou Brit, Bino ou Bina, Ulino ou Ulina… e tantos outros. Mas ninguém se chama exactamente Turbulino e Turbulina, além dos próprios; esses nomes são propriedade exclusivamente sua, dos seus antepassados e dos seus descendentes. Todos os cruzamentos eram feitos dentro das possibilidades que as dez linhagens ofereciam incluindo a bastardia endémica.
E logo da multidão vinha uma voz de escárnio: «E ainda dizes tu que as pessoas é que fazem a diferença! Se assim fosse, tudo seria sempre diferente, pois como tu próprio afirmaste, as pessoas foram mudando sempre…”
«As pessoas, sim, mudaram, mudam constantemente», dizia Serenildo «mas não o seu sangue e muito menos as suas consciências. Os propósitos, os actos, os meios e os fins não mudaram. O fim continua a ser o mesmo: a sobrevivência e o bem-estar das linhagens dominantes.»
Serenildo ainda pensou que no dia em que revelasse toda a trama que se encontrava sob a produção e propósito dos chapéus haveria uma verdadeira epifania, uma onda de luz penetraria naquelas mentes e tudo começaria, finalmente, a mudar.
Num dia em que os próprios monarcas se passeavam por entre a multidão, confortavelmente acomodados entre o veludo de uma carruagem aberta, Serenildo decidiu interpelar Turbulino.
«Dizei agora, majestade, revelai ao vosso povo quem criou os chapéus e como o fez. Dizei-lhe qual o propósito das vossas infinitas leis, dizei-lhe por que têm todos, excepto vós e a vossa linhagem, de usar o Chapéu Sem Cabeça?»
Turbulino levantou-se, irado, pronto a ordenar aos guardas que decapitassem Serenildo. Mas conteve-se, entre um sorriso de desdém e a falsa condescendência dos prepotentes: «Fala então! Quero ver se consegues convencer alguém com as tuas patranhas…»
«Vou contar-vos como tudo se passou. Há cerca de um ano, o vosso venerado rei queixou-se ao Conselho Real, de que fiz parte juntamente com sete conselheiros, do elevado número de dissidentes que ultimamente se tinham manifestado. Entre os dissidentes, estavam os próprios filhos de Turbulino. Achou ele que decapitar os próprios filhos, como fazia habitualmente a todos os outros dissidentes, poderia ter algum efeito nocivo na simpatia popular que lhe é indispensável. Na verdade, nem havia muitos mais dissidentes do que o habitual, não mais de meia dúzia em todo o reino; e esses foram de facto julgados sem apelo nem agravo e rapidamente executados. Os filhos de sua majestade recusaram-se a comparecer em mais uma festa justiceira. E essa foi realmente a gota de água. Como compreendereis ― ou compreenderíeis se não usásseis esses chapéus ― se os próprios filhos se recusavam a participar e a continuar estes procedimentos, isso significava que o futuro das linhagens dominantes poderia estar em causa e, consequência inevitável, a ilusão de poder eterno poderia estar a chegar ao fim. Sua majestade viu-se perante um grave dilema: ou eliminava os seus próprios filhos ou fazia-os mudar radicalmente. Por outras palavras, tornava-os imagens fiéis, não de si mesmo, mas dos seus súbditos mais fervorosos. Mais tarde, pensaria num método para os tornar iguais a si mesmo e assim preservar o mundo perfeito em que vivia.
Perante o Conselho Real, Turbulino exigiu que lhe trouxessem todos os cientistas que havia no reino. Tal como os filósofos não eram exactamente filósofos, os cientistas também não eram exactamente cientistas, eram executores técnicos de vontades. Nada que surpreenda num reino onde nada é o que é suposto ser.
Aos cientistas, Turbulino disse que precisava de criar métodos eficazes para manter a ordem sem desordem, isto é, sem muito sangue, sem margem para falhas e com extrema rapidez, de modo que ninguém pudesse ter tempo para pensar e reagir.
Gracejando, disse a sua majestade que para conseguir tal propósito teria de colocar na cabeça de cada pessoa um chapéu que controlasse tudo o que cada um pensava e fazia. E acrescentei que, certamente, esse não era um chapéu que eu quisesse usar e onde certamente nenhum coelho quereria fazer a toca. Eu gracejei, e com óbvio sarcasmo, mas sua majestade achou que era uma excelente ideia para consolidar o sistema vigente e ordenou que se legislasse e se pusesse imediatamente em prática. Nunca lamentei tanto uma graça que tivesse saído da minha boca.
Logo no dia seguinte, os cientistas técnicos encetaram o trabalho. Eram chapeleiros, alfaiates, operários têxteis, tintureiros, mecânicos, ferreiros, designers publicitários, uma dezena de juízes e dois místicos psicólogos. A todos foi dado o epíteto de cientistas e um pin com a efígie de Turbulino para usar na lapela. Os ferreiros e os mecânicos construíram três grandes máquinas para auxiliar o trabalho manual dos artífices. É evidente que nenhuma vontade real se pode consumar sem os seus artífices. Sem eles nem sequer haveria poder de espécie alguma.
Ao fim de uma semana já tinham produzido muitos milhões, mais do que a população total de Rocambólia. Turbulino queria criar um excedente para os visitantes estrangeiros usarem mal cruzassem as fronteiras do reino e para o caso de haver algum extravio ou alguma súbita explosão demográfica. Como sabeis, todos os vossos filhos, desde o instante em que nascem, usam agora uma das cinco espécies de chapéus. Logo que atingirem os dez anos, passaram a usar também o maligno Chapéu Sem Cabeça… a menos que façais alguma coisa para os salvar de tal destino.»
Por breves instantes, Serenildo viu minúsculas gotas de luz atravessarem a multidão como uma onda tímida. Provavelmente, Turbulino também viu as gotículas de luz, porque se levantou e gritou: «Não te atrevas, maldito! Ou em breve ficarás sem…» Por precaução, calou-se e não quis fazer muitas ondas ele mesmo. Toda a gente sabe o que acontece quando uma onda choca com outra onda. Quem sabe se outras vagas viriam, maiores e mais fortes. Pensou em defeitos de fabrico e nas filas de artesãos encostados a um muro negro enquanto ele ordenava ao pelotão: “Disparar!”.
Serenildo continuou com uma nova força na voz.
«No último dia da produção, Turbulino convocou os conselheiros-legisladores e ditou-lhes a Lei dos Chapéus que todos conheceis. Três dias depois, preparava-me eu para apresentar a minha demissão, quando fui demitido por sua majestade. Antes de abandonar o palácio real ainda recordei a Turbulino que aprendera muito com os cientistas técnicos, aprendera a confeccionar chapéus de todos os modelos previstos, mas também outros tipos de chapéus, cachecóis, jóias e outros adereços. Eu próprio criara modelos de chapéus impensáveis em Rocambólia. Mostrei-lhe apenas um exemplar que tinha já concluído: um Chapéu Livre Pensador que só permitia ao seu utilizador dizer a verdade, mas também lhe permitia ver as falsidades que outros dissessem; aliás permitia até ler qualquer pensamento. Experimentei-o ali mesmo num dos lacaios mais submissos de sua majestade que costumava servir o chá e os bolinhos durante as reuniões do Conselho Real. O pobre coitado não conseguiu resistir a tal revelação e desatou a praguejar contra Turbulino. Nesse momento, sua majestade empalideceu, arrancou o chapéu da cabeça do lacaio e lançou-o na lareira. De imediato, o pobre servidor voltou a ser tão submisso e obtuso como antes, mas Turbulino não voltou a ser o mesmo. Começou a ser minado por múltiplos medos e pesadelos, e nunca mais andou sozinho, mesmo dentro do seu palácio. Além disso, criou a
Comissão de Fiscalização da Qualidade Real dos Chapéus para evitar qualquer adulteração, contrafacção ou substituição dos chapéus obrigatórios.
Eis, pois, o motivo pelo qual Turbulino me tolera e prefere que eu seja simplesmente tomado por louco. Teme que, mesmo que me elimine, algum dos meus poucos amigos, que guardam em locais recônditos e desconhecidos muitos dos chapéus que já criei, venham destruir por completo a sua portentosa farsa.
Nunca cheguei a usar o Chapéu Sem Cabeça que me foi atribuído e desde então não tenho feito mais do que tentar revelar-vos um pouco deste mundo perfeitamente ordenado em que viveis. Passou apenas cerca de um ano, mas parecem milénios. Tanto se perdeu nesta terra onde já se tinha perdido tanto!
Também eu pertenço a uma das dez linhagens dominantes, mas sou apenas um bastardo como tantos outros. Aliás, nada há de puro nestas linhagens, nem no sangue que lhes corre nas veias nem nas raquíticas consciências que mirraram por completo.»
Nesse momento, uma nova onda de gotículas de luz percorreu as cabeças da multidão, muito maior do que a anterior. Muitas cabeças se descobriram, chapéus voaram pelos ares, outros foram pisados e inutilizados. Um burburinho crescente levantou-se cada vez mais alto até que, de entre o ruído algumas vozes se tornaram audíveis. Turbulino ouviu-as distintamente, entraram-lhe pelos tímpanos e foram espetar-se direitamente nos neurónios, também eles gélidos e perfeitamente organizados até àquele momento. Uma dor aguda desceu-lhe até ao peito mas não o matou. O medo não mata os poderosos, apenas os torna mais ferozes, mas também mais espertos e dissimulados. Com ar complacente, voltou-se para Serenildo e disse: «Pobre coitado, está louco, completamente louco. Seria um crime decapitá-lo. A minha imensa misericórdia concede-te o perdão… desde que…» O resto das suas palavras ficou completamente inaudível entre a algazarra de uma parte da multidão que gritava vivas histéricos ao generoso benfeitor e dirigia apupos e risadas de escárnio a Serenildo. Por entre a enxurrada, Turbulino foi saindo sorrateiramente, abandonou a praça na sua carruagem cintilante aspergindo bênçãos e migalhas de pão. Antes de a carruagem desaparecer no fundo da praça, Turbulino ainda viu uma nova onda de gotículas de luz. Vinha-se espraiando na sua direcção, lenta, muito lentamente.
Por entre os uivos frenéticos e os risos, Serenildo ainda tentou concluir a pregação daquele dia. Também ele vira a nova onda, mais forte e cintilante do que as anteriores. Sentia-se mais vivo e mais lúcido do que nunca.
«Não uso chapéu algum que eu não tenha escolhido nem creio que os chapéus devam ser ferramentas perigosas ao serviço de alguma vontade prepotente. Nem sequer o meu coelho de estimação usa chapéu, excepto um vulgar chapéu de palha com dois buracos por onde saem duas orelhas atentas e sábias.»
Não te conto, curioso leitor, o que sucedeu depois. Essa parte da história só tu, com a tua habitual determinação, a poderás adivinhar ou descobrir pelos teus próprios meios. O que te posso garantir é que não precisas de chapéu algum para o fazer.
Adaptação da farsa trágica A Birra do Morto de Vicente Sanches, interpretada pelos alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo – Interpretação (10.º 13), no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 14 de Junho de 2019. Encenação de Victor Sezinando. Fotografia, texto & vídeo: São Ludovino.
Reencenar repetidas vezes o mesmo texto implica reinterpretar, procurar novos ângulos na acção e na interacção entre as personagens, no contexto envolvente e na psicologia das personagens. O pobre mortal, que se recusa a morrer, n’A Birra do Morto, não é uma personagem monolítica e acabada, não é apenas o grito inglório do mortal contra a morte a que não pode escapar. Não o foi nesta nova encenação de Victor Sezinando. Nesta encenação, a dimensão social da personagem e as idiossincrasias que daí resultam, como um padrão de conduta, ganharam relevo e talvez até maior comicidade.
A Birra do Morto, photography by São Ludovino.
Este mortal julga-se de “classe superior”, trata todos em seu redor como inferiores e teima em fazer vingar os seus privilégios junto de todos e da própria morte. O tom afectado da voz e a pose pretensiosa torna-o mais ridículo, mas também mais ingénuo. A sua máscara é uma ilusão em que só ele acredita. O espectador, em vez de se solidarizar com o seu destino, ri-se da sua vaidade, das suas queixas, reivindicações e protestos, da sua ilusão de intocabilidade. A pose e o tom do discurso tornam-se tão artificiais, afastam-se tanto do genuíno sofrimento humano, que a personagem parece reduzir-se de facto a uma mera personagem, deixa de ser um ser humano com emoções profundas e autênticas. O pobre mortal morre, antes de mais, porque finge em excesso; o ser humano e social que é (representa) reduz-se a si mesmo a mera personagem. Não conquista a empatia ou a compaixão, desperta antes o sentido crítico e o riso. Só na cena de maior intimidade com a “viúva” parece aflorar alguma emoção genuína, mas por pouco tempo, porque logo se percebe que o seu medo de partir só e viver só a eternidade não é apenas uma natural manifestação de medo; é a reivindicação de um direito que julga ter, o direito de decidir sobre a vida (e a morte) dos outros. Se ele parte, ela terá de partir também, se ele perde o privilégio de estar vivo, ela terá de perdê-lo também.
Outros aspectos do contexto social e profissional das personagens ganharam também novas nuances. As “carpideiras” nem sequer choram lágrimas de crocodilo, suspiram de desejo quando vêem o agente funerário todo janota e queixam-se sobretudo do curso normal da Natureza; um corpo morto, degenera, exala odores, mostra a sua insignificância e finitude de forma muito sensorial. As esbeltas e elegantes senhoras não suportam tais manifestações da Natureza e queixam-se permanentemente. Vestem-se como gente que tem posses mas não trabalha e o tom das suas observações revela a mesma crença na ilusória superioridade que o morto também pensa ter. Vieram apenas para vê-lo partir, para se pavonearem e terem tema de conversa. Mas são também estes seres fúteis e presunçosos que relembram ao pobre mortal que, doravante, terá apenas uma noiva e companheira, a própria morte. Este decreto saído da boca de tais criaturas soa extremamente sádico e cínico, não resulta da indignação ou revolta daqueles que o morto terá explorado ou ofendido mas do simples prazer em demonstrar a vã superioridade dos vivos sobre os mortos.
A Birra do Morto, photography by São Ludovino.
E deste modo, o absurdo subjacente a este texto é enfatizado e revela-se quase desnudado tal como o pobre mortal que surge em palco apenas de cuecas e uma camisa branca. Nada importam as aparências ou os “regulamentos”, nem perante a morte nem perante as vãs convenções sociais. Os guardas que são chamados para meterem à força o mortal no caixão não parecem ter qualquer autoridade, nem sequer sobre o falecido; parecem marionetas que se divertem infantilmente com o poder dos “regulamentos” e se distraem constantemente com detalhes que nada têm a ver com as suas funções cívicas. Ao longo de toda a peça parece não haver uma única personagem que possua uma completa sanidade ou um carácter exemplar. Não existem mortais perfeitos. As virtudes são uma ficção e a única verdade é a própria morte.
Com esta lição final, este texto só podia ser mesmo uma “farsa trágica” (como o autor a classificou) que traz com o riso um sabor amargo e um espelho quebrado do mundo. O pobre mortal bem quer restaurar o espelho e rebobinar o tempo ou fazê-lo parar, mas não adianta. Por mais que olhe, a imagem está quebrada, já não reflecte a vida, apenas o ser e a sua mortalidade.
Tanto o encenador, Victor Sezinando, como os jovens intérpretes merecem um forte aplauso. Os intérpretes foram excessivos quando deviam ser para dar corpo à caricatura e revelar o ridículo da arrogância humana. Foram contidos e quase líricos quando foi necessário lembrar que tanto a vida como as emoções humanas (a dor, a perda, o amor) não são uma farsa, mas podem tornar-se uma farsa quando não são genuínos.
Mais uma vez, os detalhes fizeram a diferença e ganharam relevo. Um defunto de “classe superior” poderia aparecer pomposamente vestido, mas apareceu quase despido; e teria de ser mesmo assim, porque uma das manifestações da “birra do morto” consiste precisamente em recusar vestir a mortalha. A quase nudez, que pavoneia ostensivamente serve também o propósito de evidenciar a igualdade de todos na condição de mortais e ridicularizar a vaidade do falecido que, por ser de “classe superior”, pensa não precisar de adereços para continuar a ser superior na morte tal como pensava ter sido na vida.
O agente funerário, tal como qualquer negociante, apresenta-se feliz e sorridente com mais uma possibilidade de lucro, fazendo até uma pequena campanha de marketing junto dos espectadores, que olha como potenciais e futuros “clientes”.
As carpideiras apresentam-se excessivamente bem vestidas, como se fossem a uma festa ou baile. Essa aparência festiva denúncia desde logo a hipocrisia dos seus lamentos. A forma como advertem o falecido sobre a sua verdadeira condição, não de mortal mas de efectivamente morto, chega a ser perturbadora. Elas são a indiferença da morte perante a fragilidade e as ilusões humanas.
A empregada do falecido, vestida como uma “coelhinha da Playboy”, que atrai todos os olhares e faz salivar os guardas, acrescenta uma nota de cabaret vintage e faz esquecer a real situação; os prazeres efémeros da vida como uma espécie de antídoto, igualmente efémero, para a implacável realidade da morte. Ninguém quer pensar na morte, mesmo quando está perante os seus olhos, quando pode mergulhar, mesmo que por breves instantes, no doce esquecimento das sensações.
O médico que assina a certidão de óbito manifesta extrema indignação pelo facto de o falecido ter tentado suborná-lo e lhe ter pedido para o considerar vivo e não morto. A efectivação da morte é também legislada; não basta que o coração pare de bater, é preciso que um representante da ciência e da lei o declare morto… e se a ciência e a lei têm tal poder, então por que não teriam também o poder de decretar a existência de vida, sobretudo se o falecido for de “classe superior”…?
A Birra do Morto, photography by São Ludovino.
O cenário escuro e simétrico centrou-se no caixão, colocado entre duas filas de cadeiras destinadas aos participantes no velório. Um cenário de facto tétrico e deprimente. Mas se sobre o próprio caixão se desenrola uma luta desigual entre o defunto e os guardas, se o mesmo defunto, sentado dentro do caixão, tenta seduzir a mulher e convencê-la a “morrer” com ele, se o padre que preside às cerimónias coloca o livro sagrado nas próprias mãos do morto como se fosse um suporte de leitura (púlpito) e dá murros na tampa do caixão quando o morto tenta abri-lo, então o cenário tétrico torna-se também absurdo e hilariante, a condizer com o espírito desta “farsa trágica”.
Parabéns ao encenador, Victor Sezinando, pela teimosia e tenacidade, por mostrar que a encenação e a interpretação são de facto uma segunda vida dos textos; de cada vez que é interpretado ganha uma nova vida que nunca é igual à anterior. Vénias e aplausos para todos os participantes; fizeram-nos rir, pensar e olhar para dentro com olhos humildes e críticos.
Encenação
Victor Sezinando
Interpretação
Alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo da Escola Secundária D. Pedro V - Lisboa, 14 de Junho de 2019
Este mesmo texto já me suscitou antes outras reflexões e a escrita de outros textos. Desta vez, a constante evocação dos “regulamentos” e o pretensiosismo do mortal que se recusa a morrer fizeram surgir de imediato na minha mente um regulamento ao gosto dos mortais de “classe superior”.
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Regulamento de Etiqueta, Protocolo, Bom Gosto
e Aparências Várias
Enquadramento Geral
Artigo 1
A decisão de morrer ou não, quando, onde e como fica reservada exclusivamente aos membros da classe superior dos viventes, a saber: gente de bem, gente fina, gente de sangue azul, beneficiários de nepotismo, amigos e parentes de todos os anteriores.
Artigo 2
A classificação e organização dos viventes em classes cabem exclusivamente aos viventes das classes superior e arqui-superior. São eles os autores deste regulamento e de todos os regulamentos que regem todas as classes.
Artigo 3
A principal finalidade do trabalho incansável e imprescindível da classe arqui-superior é a manutenção do estatuto natural, congénito, hereditário ou adquirido, no estrito respeito por este regulamento e pelos privilégios legítimos da classe superior e arqui-superior.
Artigo 4
Este regulamento não admite dúvidas ou objecções, protestos ou reivindicações por parte de qualquer classe, excepto a superior, pois tudo o que nele se contém é o produto da máxima sapiência, justiça e filantropia de classe.
Artigo 5
Por serem redundantes todos os artigos que poderiam especificar e delimitar os privilégios das classes superior e arqui-superior, por serem axiomas inquestionáveis, a Constituição e Regulamento do nosso excelso sistema especifica apenas os aspectos formais de algumas situações práticas e contextos recorrentes. Servem os seguintes artigos para sublinhar a importância dos interesses e conveniências, das aparências, do bom gosto, da etiqueta e do protocolo que conferem às classes superiores a sua máxima superioridade.
Regulamento Superior
Capítulo I
A Essência da Vida Superior
Artigo 1 e único
O vivente de classe superior tem sempre razão, vivo ou morto, e só ele pode determinar se está vivo ou morto. Evidências externas constituem uma irregularidade absolutamente inaceitável. O Regulamento serve apenas para confirmar a superior verdade de cada vivente superior, não sendo necessário invocá-lo para determinar a verdade dos factos superiores.
Capítulo II
Interacção Social e Laboral
Artigo 1
O vivente de classe superior não pode ser acusado de qualquer crime, pois, por definição apenas comete lapsos inocentes e é sempre um filantropo por natureza e por excelência, financiado e subsidiado pela classe arqui-superior e protegido pela Constituição e pelo Regulamento do nosso sistema infalível. Qualquer acusação será, pois, refutada e punida como vil difamação.
Artigo 2
O vivente superior sabe sempre o que quer em cada um dos seus caprichos. A obrigação de adaptação, cedência ou resignação nunca lhe cabe a si mas a quem, por dever legítimo e indeclinável, o deve servir.
Artigo 3
Mesmo que o vivente superior pareça não ter razão ou não estar certo, deverá ser sempre desculpado e defendido. Acusar é sempre uma prerrogativa exclusiva do vivente superior. O vivente inferior só pode limitar-se a obedecer ou, se assim lhe aprouver, poderá perecer do modo que entender. Esta é, aliás, a única prerrogativa inquestionável do vivente inferior.
Artigo 4
O vivente da classe superior pode julgar e avaliar livremente e com total autoridade os viventes de todas as outras classes, excepto os da classe arqui-superior. Nesse juízo pode usar de todos os critérios que entender adequados, incluindo a subjectividade e a arbitrariedade, que são um exclusivo da sua classe.
Artigo 5
Todo o poder da classe superior é superior por definição, por insignificante que pareça, pois, por ínfimo que seja esse poder, confere-lhe sempre o direito a usá-lo discricionariamente como poder absoluto e todas as suas decisões são naturalmente irrevogáveis. Em circunstância alguma, podem os viventes das classes inferiores classificar este uso legítimo do poder como corrupto, fraudulento ou despótico.
Artigo 6
Os bens de cada vivente superior pertencem exclusivamente a si, quer os tenha obtido por herança ou adquirido ao abrigo do Regulamento e Constituição do nosso sistema. Os viventes das classes inferiores nada possuem em definitivo excepto aquele pedaço de terra em que hão-de jazer, mais dia, menos dia. O dever inelutável dos viventes das classes inferiores é, pois, contribuir diariamente para a riqueza e o bem-estar da classe superior.
Artigo 7
Só aos viventes da classe superior é permitido viver de aparências. Os subalternos estão absolutamente proibidos de usar máscaras, verniz, adereços preciosos ou qualquer indumentária resplandecente. Os viventes de classe inferior também não podem usar um discurso elaborado ou diminutivos terminados em “ecas”, “ocas” ou “ucas”. Não podem frequentar lugares selectos, desempenhar cargos de relevo ou qualquer outra tarefa que, de uma ou outra forma, possam afectar e prejudicar os viventes de classe superior. Deste modo, evita-se o terrível perigo de se confundir um ser superior com um ser inferior.
Artigo 8
Bens e direitos essenciais da classe superior, como a habitação, a saúde, a educação ou o alimento, só excepcionalmente devem ser extensíveis aos membros das classes inferiores, a saber: sempre que uma pequena parte desses direitos e bens, concedidos pontualmente e de modo sempre provisório às classes inferiores, puderem contribuir de forma decisiva e substancial para o bem-estar da classe superior e para a sua aparente filantropia.
Capítulo III
Vida Privada e Pessoal
Artigo 1
Toda a vida de um vivente superior é privada e, por isso mesmo, nunca é passível de escrutínio, dúvida ou questionamento. Os viventes de classe arqui-superior e os órgãos da Justiça devem zelar pela protecção da privacidade, punindo os infractores de modo exemplar. Em caso algum poderá um vivente de classe superior ser sujeito quer ao juízo público quer institucional e jurídico.
Artigo 2
Para manter o equilíbrio social e promover o entretenimento, qualquer vivente de classe superior pode invadir a privacidade de qualquer vivente de classe inferior que, por definição, não existe. Pode fazê-lo usando todos os meios ao seu alcance desde que o resultado seja proveitoso. Qualquer vivente de classe inferior ao serviço de qualquer vivente de classe superior tem o dever de manter a máxima discrição sobre a vida privada e pública do seu superior.
Artigo 3
Qualquer ofensa feita a qualquer vivente de classe superior é uma ofensa que atinge todos eles. Posto isto, todas as ofensas são simultaneamente pessoais e colectivas. Sempre que a ofensa se dirija a algum aspecto da vida pessoal de qualquer vivente superior, a punição deve revestir não só uma dimensão institucional e social mas deve também ser de natureza pessoal. Nestes casos, o ofensor deve ser destituído do nome, identidade social, ofício laboral, do direito a falar em público e do usufruto da própria atmosfera.
Advertência Final
Apesar dos evidentes, legítimos e inegáveis privilégios da classe superior dos viventes, convém ter cautela com certos factos, condicionalismos, imprevistos e circunstâncias várias que os insignes confrades da classe arqui-superior, que tudo governam, ainda não conseguiram controlar.
Ministro Vitalício dos Interesses da Classe Superior dos Viventes
Simplício Sinuoso Crispim Trujão de Mesquita e Mais-Além
As Alegres Comadres de Windsor / The Merry Wives of Windsor, comédia de William Shakespeare, interpretada pelos alunos de Artes do Espectáculo (Interpretação), 10.º 13, da Escola Secundária D. Pedro V, no Auditório Chaves Santos, Lisboa, 21 de Fevereiro de 2019. Encenação de Estrela Novais.
Todas as relações sociais, pessoais e familiares têm como pilar fundamental a confiança recíproca. Em muitos casos, essa confiança não é genuína nem recíproca, é meramente uma aparência, uma estratégia convencional, tacitamente aceite pelos que são dignos de confiança e confiam e pelos que não são fiáveis mas, por isso mesmo, precisam ainda mais da confiança e da fiabilidade como emblema social. Entre ambos, nesse território meramente convencional em que uns enganam e iludem e outros são iludidos e enganados, reinam as aparências, as ilusões e infinitos jogos sociais e psicológicos. Aí germina e viceja um vírus que provavelmente nunca será extinto: a dissimulação e o fingimento, a ocultação e os jogos de aparências, em suma, a mentira nas suas múltiplas formas. Por isso, o Mundo é Comédia e Palco. E se é comédia e pura representação, então é também certamente tragédia. N’ As Alegres Comadres de Windsor não chega a haver tragédia; os enganos desfazem-se, o enganador é desmascarado e castigado e tudo acaba bem. O reino de enganos lá ficou incólume, apesar de o enredo fazer crer que tudo se tornou transparente e harmonioso.
Nesta peça, Sir John Falstaff é o paradigma do vigarista, boémio, ocioso e conquistador (uma espécie de Don Juan boçal) que não é leal nem fiável. É um fingidor nato que vive de estratagemas, supondo sempre que os seus alvos serão tolos e ingénuos. Tem aversão ao trabalho e desconhece os métodos honestos de ganhar dinheiro. Tudo nele é excessivo e compulsivo: a corpulência, a boçalidade, a bebida e a comida, a basófia e a vaidade, as patranhas e os embustes. Aparentemente, Falstaff é incapaz de um acto verdadeiramente honesto, é o último ser em quem se poderia confiar. Contudo, há nele algo de autêntico; é assim porque não pode ser de outra forma, é a sua natureza. E tudo aquilo que em Falstaff é excessivo e caricato é também parte da universal natureza humana. Falstaff é uma caricatura dos vícios humanos encobertos por sucessivas máscaras.
As comadres de Windsor são as mulheres casadas que ele corteja com calculismo, para se aproveitar delas e dos seus bens e para sentir o prazer de enganar os respectivos maridos. Dissimular e enganar são para ele um prazer, uma forma de vida. Vive rodeado de gente semelhante a ele, marginais, rufias, ladrões e alcoólicos. As mulheres com quem convive habitualmente são as prostitutas e as criadas das estalagens. Esse é o seu mundo normal, aí não há vício nem pecado, aí o vício é uma virtude, uma qualidade e um bem de que só os amorais podem usufruir. Os outros, os idiotas que se deixam enganar, ou que ele pensa enganar, são seres menores facilmente ludibriados pela sua esperteza e manha.
Neste mundo às avessas, são sobretudo as mulheres que dão uma lição a Falstaff. Os homens deixam-se iludir, mesmo quando recorrem às mesmas estratégias de Falstaff (veja-se o caso do Senhor Ford); as mulheres vencem recorrendo sobretudo ao conhecimento empírico da natureza humana. Elas também usam estratagemas semelhantes aos de Falstaff mas estão sempre um passo à frente porque fingem ser as ingénuas que não são. Ambas (a Senhora Ford e a Senhora Page) têm personalidades fortes e dominadoras e são as verdadeiras administradoras dos seus lares, das suas vidas e dos seus bens. Percebem de antemão que Falstaff está sobretudo interessado nas vantagens materiais que poderiam resultar da conquista. Enganam benevolamente os maridos apenas para dar uma lição a Falstaff.
De um modo ou outro, todos fingem, todos mentem, tal como Falstaff, como se a mentira fosse afinal indispensável para desmascarar outras mentiras e só métodos desonestos pudessem vencer os seres desonestos. Será mesmo assim? Se todos se servem das mesmas estratégias, então ninguém é perfeitamente honesto. O desenlace faz crer que sim, que a desonestidade marginal é punida, Falstaff é ridicularizado e humilhado, mas os ardis dos “honestos” são legítimos. E o rol de desonestidades tacitamente aceite no jogo social e político ao longo das eras? Vigarices, fraudes, corrupção, oportunismo, nepotismo continuam a ser práticas comuns, só que estes Falstaff raramente são desmascarados e punidos. Perante tal triste comédia, quando algum é apanhado e o mundo se concerta (lembremos o desconcerto do mundo de que fala Camões) fica-se espantado ou quase se sente pena do trafulha. A impunidade tornou-se regra e as excepções são tão raras que parecem fruto do acaso e não da justiça.
Mas é precisamente esta sucessão de enganos e desenganos que torna esta comédia um espelho intemporal das práticas e das relações humanas. E na época em que foi escrita e representada (entre 1597 e 1602), um tempo em que as convenções e os contratos matrimoniais se sobrepunham aos genuínos afectos e todos aceitavam o teatro social como um ingrediente natural das relações humanas, o público ria a bom rir enquanto se mirava nesse espelho.
Consta que esta peça terá sido encomendada a Shakespeare pela própria rainha Isabel I que desejava assistir a uma peça em que entrasse a personagem John Falstaff, a mesma que já encontrara em Henrique IV. Shakespeare terá escrito As Alegres Comadres de Windsor em apenas 14 dias para agradar à rainha. Mas será que agradou? O John Falstaff que entra nesta peça não se assemelha ao que fora personagem das partes I e II de Henrique IV. Aquele John Falstaff fora provavelmente decalcado do cavaleiro (Sir John Fastolf também conhecido como Lord Cobham e ainda como John Oldcastle) que fora amigo do príncipe Hal, o mesmo que foi acusado de assassinar Ricardo II, para depois subir ao trono como Henrique V. Aquele fora o herói de muitas batalhas durante a Guerra dos Cem Anos, entre a Casa dos Plantagenetas (Ingleses) e a Casa de Valois (Franceses), era um patriota, um militar, um homem leal ao seu senhor. Foi até considerado um mártir, pois segundo o Livro dos Mártires de John Fox, terá sido condenado à fogueira como herético da seita de John Wycliffe (criador do movimento igualitário com propósitos semelhantes aos de Lutero um século mais tarde), isto é, como inimigo da Igreja Católica. Terá sido executado no dia 14 de Dezembro de 1417 e existem até imagens que retratam essa barbárie tão comum na época.
O John Falstaff d’As Alegres Comadres de Windsor não é um cavaleiro medieval, nada tem de sério e respeitável e não foi condenado a nenhum martírio, excepto o vexame e a chacota a que o sujeitaram as comadres Ford e Page. Tivesse ou não agradado à rainha este novo Falstaff, o que é certo, é que a peça teve sucesso e foi reencenada milhares de vezes ao longo destes 300 anos de vida, no teatro, na ópera e no cinema. Em muitas dessas encenações, Falstaff ganha até um relevo desmesurado, ganha por vezes sobriedade, outras é reduzido à sua própria caricatura. Apareceu pelo menos em quatro óperas, a de Antonio Salieri (1750 – 1825), Falstaff (Dramma giocoso in due atti) representada em 1799, a de Carl Otto Ehrenfried Nicolai (1810 – 1849), Die Lustigen Weiber von Windsor / O Feliz Divórcio de Windsor, estreada em 1849, a de Giuseppe Verdi (1813-1901), Falstaff, estreada em 1893 e a de Ralph Vaughan Williams (1872-1958), Sir John in Love, estreada em 1929. Orson Welles realizou em 1965 The Chimes at Midnight, em que ele próprio desempenha o papel de Falstaff e David Jones realizou para a BBC uma série sobre peças de Shakespeare em que o Falstaff d’As Alegres Comadres de Windsor (1982) teve algum relevo.
Certos autores e literatos (Harold Bloom, Orson Welles) consideram Falstaff uma das personagens maiores da criação dramatúrgica de Shakespeare, a par de Hamlet. Parecem ver nele uma espécie de retrato das misérias e fraquezas da humanidade, mas também o eco grosseiro dos seus anseios e das suas quimeras. Enfim, um misto de personagem cómica e trágica. Se assim é, Falstaff terá uma longa vida, no palco e fora dele. Até já tem um adjectivo criado para designar alguém com características físicas, psicológicas e comportamentais semelhantes às de Falstaff: “falstafiano”.
Esta é uma peça longa (quase duas horas) e nada fácil de encenar e interpretar. Os jovens intérpretes mostraram ser capazes de enfrentar o desafio, combinando a tradição com a inovação, a naturalidade do discurso familiar com uma certa afectação típica da época, a tensão dramática com a leveza da comédia. Os figurinos coloriram o fundo negro e surpreenderam pelo inesperado (os meliantes que aparecem como gangsters e um karateca chinês, o pajem de Falstaff vestido como uma mistura de majorete e paquete, o próprio Falstaff fazia lembrar um padrinho da máfia). Parabéns pelo excelente trabalho!
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Nota 1: Cf. Artigo sobre a execução de Sir John Oldcastle –
Nota 2: Segundo Harold Bloom, todos os autores que vieram depois de Shakespeare têm um pouco dele nas suas obras, mesmo nas obras daqueles que conseguiram construir uma identidade literária própria. Sobre esta ideia, veja-se por exemplo O Cânone Ocidental, Círculo de Leitores, 1997. Veja-se também Falstaff - Give Me Life (Shakespeare's Personalities) by Harold Bloom, 2017
Nota 3: Descrição de Falstaff num artigo do New York Times: «Not that there is anything ethereal about Fat Jack. This whiskery swag-bellied omnivorous cornucopia of appetites, red-eyed, unbuttoned, sherry-soaked. This nightwalker and whoremonger, a “muddy conger,” swinging at his old mistress Doll Tearsheet, a life-affirming liar whose truth is never to be a counterfeit.
Falstaff is ancient energy thumping at volume through a temporary poundage of flesh. He is part pagan — the Lord of Misrule on the loose in Eastcheap, and as such his time is short. We meet him first in “Henry IV, Part 1,” already old, lusting at life, drinking pal of the young Prince Hal, who is calculatedly slumming it in London’s East End, like any rich kid running away from the family firm.»
Só Por Cima do Meu Cadáver (a partir da farsa trágica A Birra do Morto de Vicente Sanches), interpretada pelos alunos de Expressão Dramática da Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão, no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 7 de Junho de 2018. Encenação de Victor Sezinando.
Vieram para se divertir e divertiram-se. Como é possível alguém divertir-se com algo absolutamente tétrico: a morte de alguém? Transformando o tétrico em cómico e gostando verdadeiramente do que se faz. Este mesmo enredo poderia ser interpretado de forma bem diferente, acentuando a hipocrisia dos que choram lágrimas de crocodilo, a indiferença dos gananciosos e oportunistas, a inconstância dos sentimentos, a luta inglória contra a própria morte. Mas o desenlace, que mostra o defunto escapando à morte, rindo de tudo e todos, trazia já em si a possibilidade de subverter tudo e transformar o trágico e inevitável numa comédia aparentemente inócua. Não é uma comédia inócua, por isso o próprio autor lhe chamou “farsa trágica”. O riso mascara o medo, a hipocrisia, a inevitável mortalidade e desmascara os vícios de carácter que só se revelam verdadeiramente quando o mortal parte e já nada pode fazer contra cinismos, oportunismos e falsas boas intenções. O homem que parte já não é o mesmo que é recordado. Pouco haveria, pois, para despertar um riso solto e leve. É precisamente a farsa dos que ficam, mais do que a (suposta) ressurreição do morto, que desperta o riso, nem sempre leve mas antes inconscientemente crítico. A ressurreição final do morto é quase como um ajuste de contas, em nome de todos os mortais, com a própria inevitabilidade da morte e a hipocrisia dos vivos.
O facto de os intérpretes já não serem jovens podia impedi-los de abraçarem desprendidamente esta espécie de paródia da morte, mas não foi assim. Em certos momentos, a performance pareceu ter um efeito catártico: se não posso vencer a morte, rio-me dela. Talvez seja até uma predisposição natural da maioria dos mortais e há de facto diversas culturas que festejam a morte, embora o façam de modos diferentes e por motivos filosóficos ou religiosos diversos. Se é verdade que há algo muito incómodo nesta peça, também é verdade que ninguém conseguiria deixar de rir em muitos momentos. É como uma terapia em que se aplica um medicamento com efeitos secundários, causa dor e indisposição, não cura completamente mas atenua temporariamente os sintomas. É por tudo isso uma farsa trágica e divertida.
D. Francisco Manuel de Melo escreveu num dos seus Apólogos Dialogais que a velhice era (ou deveria ser) como uma “suave pousada” antes da partida. Parece que o protagonista queria voltar à pousada e partir bem mais tarde, quando lhe apetecesse, se lhe apetecesse. Contestou, argumentou e voltou mesmo à pousada através da sua ressurreição metafórica. Foi como se vencesse sozinho um bando de vilões e de insignificante mortal passasse a herói imortal. Pelo menos desta vez, o último a rir foi o morto.
É evidente que todos os intervenientes desempenharam de forma empenhada e divertida os seus papéis. O facto de já não serem jovens mas revelarem uma energia jovial só acentuou a vivacidade do desempenho. É de sublinhar o gosto genuíno que manifestaram na performance, como se tivessem esperado longos anos para se dedicarem a uma actividade de que gostam verdadeiramente e a que se dedicam como parte relevante das suas vidas. O teatro é para eles uma espécie de sal que conserva o entusiasmo e o desejo de fazer coisas novas. O reconhecimento do público foi recebido com enorme gratidão e, como entre esse público, estavam dezenas de jovens alunos de Artes do Espectáculo, os séniores fizeram questão de lhes dirigir também palavras de admiração e reconhecimento. É que, pouco tempo antes, tinham sido estes actores séniores uma parte do público dos mais novos quando eles interpretaram o musical Nos Montes de Viriato, de José Carlos Godinho, também encenado por Victor Sezinando. Nesse dia estava eu no público entre os actores séniores e foi enternecedor ver como comentavam e aplaudiam o trabalho dos mais novos, como se estivessem ali não só para fruir aquele momento mas também para aprender e se inspirarem para futuras interpretações.
O professor e encenador Victor Sezinando deu-lhes liberdade para criarem e recriarem as personagens, deixou-os brilhar cada um a seu modo, segundo a sua predisposição e inventiva, e o resultado final foi francamente divertido. E rir de uma “farsa trágica” não é coisa que se consiga facilmente. É preciso ter-se uma certa veia de comediante mas também de empatia, se não com este ou aquele ser humano, pelo menos com o género humano de que nenhum comum mortal se pode excluir por muito que tente.
E se isto foi apenas uma manifestação do vosso amor pelo teatro, então estou certa de que será uma caminhada para continuar. Parabéns a todos pelo vosso trabalho!
Segue-se um diálogo que, de certo modo, explicita o conteúdo desta peça, questiona a noção de comédia e as motivações de quem escreve ou representa uma comédia, sobretudo se for uma “farsa trágica”.
─ Para que serve a comédia? ─ Pergunta um comediante amador a um comediante profissional.
─ Para fazer rir, claro! ─ Responde convicto o profissional.
─ Sim, mas não só. Há muito mais na comédia. A mim parece-me que a comédia foi inventada para espantar os medos.
─ O verdadeiro comediante nem se lembra que existe medo. Por isso é que é comediante, para poder rir de tudo.
─ E tu crês que podes rir realmente de tudo? A mim parece-me que isso seria uma espécie de tortura ou de loucura.
─ Não me venhas com os teus bons sentimentos. Supõe este enredo bem verosímil. Um tipo perde o emprego, transforma-se num meliante razoável, aprende a furtar, aprende a disfarçar-se e mais tarde volta a candidatar-se precisamente ao mesmo lugar de onde tinha sido despedido. Mais, é adorado e promovido de imediato. Os seus novos modos e métodos agradam sumamente aos manda-chuvas da finança e da política. Em breve é promovido a presidente do banco de onde tinha sido despedido por excesso de zelo. Aplica à arte de administrar o dinheiro alheio todas as manhas que aprendeu com diversos rufias e em breve o banco está completamente falido e ele com os bolsos cheios. Discretamente ausenta-se para as ilhas Caimão onde goza impune os milhões que desviou para um offshore. Os que o despediram, os mesmos que o tinham primeiramente contratado, vivem agora na penúria e recorrem às escondidas ao Banco Alimentar. Um suicidou-se e um quase que foi condenado a uma pena de prisão por ter falsificado uma assinatura; a única prova material aceite em tribunal pelo meticuloso juiz que era profundo conhecedor do Código de Processo Penal. O governo e o Banco Nacional acobardaram-se porque tinham uma série de telhados de vidro e tudo termina com dezenas de falências, austeridade, impostos redobrados, os contribuintes honestos a pagar as dívidas do espertalhaço e uma subida em flecha da taxa de desemprego que vai gerar mais uma cadeia infinita de desgraças… Agora diz-me, isto é uma comédia ou não? Para mim é. Enfim, admito que possa ser uma tragicomédia mas não deixa de ser uma comédia.
─ Percebo o teu ponto de vista. Estás confortável e indiferente no teu seguro reduto de sarcasmo e olhas todo o mundo com desdém… por isso, podes rir-te e ris-te do mesmo que faz chorar outros. Agora tenta lá usar de um pouco de empatia.
Imagina que és um tipo vulgar, sem qualidades extraordinárias e dois ou tês vícios sem grande gravidade ou consequências; bebes uma cerveja a mais quando o teu clube joga, de vez em quando fazes de conta que não tens trocos para o teu colega pagar a tua bica, não declaras às finanças um ou outro biscato que fazes ao fim de semana. Enfim, sem seres um tipo exemplar, também não és um crápula merecedor de duro castigo. Pois, mesmo assim, acabas por morrer ainda relativamente jovem com uma congestão provocada provavelmente por uma daquelas cervejas geladas caída num estômago tenso e cheio de ácidos devido ao almoço excessivamente condimentado. Ninguém esperava a tua morte, na verdade até parecia que respiravas saúde, mas aconteceu. Agora imagina que os que cá ficaram descobrem subitamente todas as vantagens da tua partida precoce e querem a todo o custo acelerar e concluir o teu funeral. Quer-me parecer que não ias gostar nada da situação. Desconfio até que farias os possíveis e impossíveis para regressar à vida e dar uma lição às carpideiras e aos abutres oportunistas. Tenho quase a certeza de que te recusarias a morrer e havias de fazê-lo com tal alarido e inflexibilidade que acabarias por levar a melhor. E quando todos já te davam por definitivamente ausente havias de aparecer para aspergir a tua raiva e o teu sarcasmo. E eu seria provavelmente dos poucos que riria contigo e aplaudiria a tua monumental birra, porque era perfeitamente legítima e compreensível em qualquer comum mortal que prefira estar vivo a…
─ Está bem, está bem, já percebi. Essa até me parece uma boa ideia para uma comédia, mas cáustica e cheia de nonsense…
─ Nem penses, não vais escrever essa peça. A ideia é minha, já escrevi a peça e estou a pensar encená-la em breve. Mas se queres fazer parte da comédia, ofereço-te desde já o papel principal. Parece-me que seria uma excelente ocasião para praticares a empatia. Afinal de contas, um dia poderás ter mesmo de representar esse papel ou eu ou outro qualquer… Mas é sempre conveniente ensaiar primeiro…
RAPSÓDIA VICENTINA Rapsódia constituída por excertos do Auto da Barca do Inferno, Todo o Mundo e Ninguém (Auto da Lusitânia), Comédia de Rubena (Diálogo Infantil), Mofina Mendes, Auto da Feira e Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação), de Gil Vicente. Interpretada pelos alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo, 10.º 13, no Auditório Chaves Santos da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 6 de Junho de 2018. Encenação de Estrela Novais.
Tornou-se tradição encenar excertos de algumas peças de Gil Vicente no primeiro ano do Curso Profissional de Artes do Espectáculo (Interpretação). Uma tradição que faz todo o sentido por ser Gil Vicente o fundador do teatro português e por a sua obra oferecer uma galeria diversificada de personagens que exige, desde logo, aos potenciais actores versatilidade e capacidade de adaptação.
Regra geral, os excertos são encenados de forma livre, transportando as personagens através do tempo e fazendo adaptações nos figurinos e na própria performance. Chega-se assim mais perto de um público que é maioritariamente jovem (os próprios alunos da escola) e dá-se nova vida a velhos textos que, de um modo ou outro, encontram na própria representação a sua actualidade. Embora os excertos apresentados pertençam a géneros diversos (comédia e sátira, auto de moralidade, a fantasia alegórica e o panegírico festivo), a encenação acaba por conciliar dois ingredientes presentes em todas essas peças em doses diversas: a sátira (o humor crítico) e a moralização dos costumes. O que também faz todo o sentido porque um dos objectivos do mestre era precisamente moralizar os costumes através da sátira, tal como sintetiza a locução latina de Santeuil sobre a comédia: Ridendo castigat mores (Rindo se castigam os costumes).
Para o jovem público, o que sobressai é de facto a sátira e todas as modalidades e gradações do cómico. Os momentos mais graves e reflexivos acabam por passar algo despercebidos como se fossem apenas um compasso de espera até à próxima gargalhada. O público mais atento vê todas essas nuances e acompanha a viagem no tempo desde as primeiras décadas do século XVI até ao presente, sai até dos limites do tempo e percebe a intemporalidade de virtudes e vícios inerentes não apenas às sociedades mas à própria natureza humana, como se de facto não houvesse fronteiras temporais nem verdadeira evolução social e moral. Os tipos vicentinos têm esse atributo de estátuas falantes sem idade que ecoam a voz de múltiplos tempos, não pela linguagem, muito diversa da actual, mas pelas atitudes e pelos juízos que fazem de si mesmos e dos outros.
Uma parte dessa intenção moralizante prende-se naturalmente com a religiosidade, os preconceitos e a visão do mundo específica de uma época e sociedade. Mas em muitos momentos, Gil Vicente liberta-se dessas linhas de molde e consegue ser verdadeiramente intemporal e universal, como acontece em Todo o Mundo e Ninguém (excerto do Auto da Lusitânia). Pequenos grandes detalhes da encenação, como a escolha de um homem rico (banqueiro ou empresário), materialista, egoísta e ambicioso, que vai enrolando maços de notas e rindo de forma sarcástica, para representar Todo o Mundo e uma modesta empregada doméstica, que fala enquanto lava o chão de joelhos, para representar Ninguém, fizeram toda a diferença.
Considerando que esta foi a primeira apresentação pública de folgo desta turma que agora inicia a sua formação profissional, creio que a performance foi muito bem conseguida e merecedora dos aplausos de todos. Continuem o vosso bom trabalho!
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Lugar incerto
(texto introdutório do vídeo que se inicia com cenas do Auto da Barca do Inferno)
No cais, as barcas que não vemos esperam
Antes de partir
Ou naufragar...
Ambas levam passageiros
Os que querem ir
Os que querem ficar
E os que querem ir para outro lugar...
São Ludovino, 7/6/2018
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Retrato de Gil Vicente, c. 1465 - c. 1536,
por António Nunes Júnior, 1882.
Paços do Concelho de Lisboa.
Excerto do Auto da Lusitânia, um dos últimos escritos por Gil Vicente. Foi escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III para festejar o nascimento do seu filho, D. Manuel. Esta peça é habitualmente classificada como uma “fantasia alegórica”.
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso
achar,
porém ando
porfiando
por quão bom é
porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo
inteiro
sempre é buscar
dinheiro
e sempre nisto me
fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
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Elenco
Adriana Loureiro
Ana Beatriz Martins
Beatriz Carvalho
Cátia Castanheira
Diana Sardinha
Diogo Pereira
Filipa Lopes
Íris Sena
Joana Jorge
João Duarte
Maria Mendes
Mariana Correia
Nádia Antunes
Rafaela Alves
Raquel Simões
Samira Baldé
Sandro Dias
Sara Carvalho
Sofia Pedrosa
Tatiana Cavalheiro