Gravidade criativa
***************
I – Etiologia angelical
Cai um anjo
II – Espécies aladas
Vai-se pela rua
distraidamente
«Ó meu senhor, ó meu
rico senhor
III – Quedas
fortuitas
No entanto eles caem
Gravidade criativa
***************
I – Etiologia angelical
Cai um anjo
II – Espécies aladas
Vai-se pela rua
distraidamente
«Ó meu senhor, ó meu
rico senhor
III – Quedas
fortuitas
No entanto eles caem
Contrarius Pertinax não era
ninguém nem queria vir a ser alguém jamais. Pretensão difícil de realizar já
que em todos os mundos por onde passara sempre fora alguém, se bem que nunca
exactamente quem era. Faltava-lhe aquele quinhão de liberdade que parece estar
sempre além de todos os cabos Finisterra.
Por mero acaso, um dia, enquanto palmilhava a calçada escorregadia dos
seus desencantos, viu colado na montra de uma agência de viagens um cartaz
deveras tentador. «Entre num mundo onde tudo é possível», dizia o slogan sob a fotografia de uma cidade
pacata de que ele nunca ouvira falar. Aproximou-se e começou a ler as letras
miudinhas.
«Deixe-se surpreender pelos desconcertantes encantos de uma liberdade
absoluta! Aqui tudo lhe é permitido! Não deixe para amanhã o que
pode fazer hoje! Entre no Reino do Desconcerto!...»
Nem acabou de ler o resto. Entrou na agência e pediu uma reserva para o
mais breve possível. Espantosamente, havia vagas, havia muitas… podia viajar já
no dia seguinte.
Tamanha excitação nem o deixou dormir. Passou a noite a fumar a neblina,
na esperança de poder vislumbrar o seu destino algures para lá dos telhados
escuros.
Partiu cedo, de comboio, em segunda classe. Era preciso poupar para
fruir os inesperados prazeres do desconcerto. Quanto custaria desconcertar a
paciência (estava farto de ser paciente!) … ou simplesmente dormir num quarto
com vista para o jardim?
A viagem foi mais rápida do que pensara. Afinal o Reino do Desconcerto não ficava do outro lado do mundo. Chegou
antes da hora de almoço. Na estação central, a multidão cruzava-se em todas as
direcções embora só houvesse um cais e uma linha. Tanta liberdade reduzida a um
só caminho!
Durante toda a viagem não largou a maleta de mão. Colocou-a sobre os
joelhos e pelo menos uma das mãos nunca deixou de lhe tocar. Nunca se sabe o
que pode acontecer quando se transita de um mundo para outro. Quando olhava a
paisagem pela janela, encostava a maleta ao vidro, como se quisesse partilhar
com ela o que via. Alguns companheiros de viagem sorriram perante tal apego. Um
até segredou ao parceiro: “Podia ser uma criança ou um animal de estimação!”
Em menos de meia hora já tinha chegado. Uma estranha meia hora que
parecia ter a duração de pelo menos doze horas. Pelo caminho vislumbrou
centenas de cidades, vilas e aldeias, montanhas, rios, lagos e planícies, como
se tivesse de facto dado a volta ao mundo. Quando desceu para o cais notou que
o sol declinava sobre os telhados e as nuvens começavam a tornar-se rosadas.
Seria o entardecer precoce das regiões do Norte, um Norte qualquer com o seu
próprio ritmo temporal?
Na rua, relativamente calma, apanhou um táxi para o hotel Best Seller.
Em menos de cinco minutos já estava à porta. Tratou das formalidades na
recepção e subiu ao quarto. O bagageiro carregou a mala de viagem e ele subiu
com a sua inseparável maleta.
Abriu a janela, olhou a cidade em redor, pequena, aconchegante e pacata.
Pensou para consigo mesmo “Este é mesmo o local ideal! Se tudo é permitido
aqui, hei-de conseguir!”
Sentou-se na cama fofa e contemplou carinhosamente o conteúdo da maleta.
Foi retirando pequenas porções e colocou-as em pequenos montes.
Durante anos a fio escrevera milhares de páginas sem nenhum propósito
especial, excepto o prazer de pensar e criar escrevendo. Não sabia ao certo o
que fazer com tudo aquilo. Sabia apenas que a ideia de que alguém pudesse ler
as suas criações lhe desagradava profundamente, como se ler-lhe os pensamentos
escritos fosse uma violenta devassa da alma.
Desde que vira o cartaz anunciando um lugar de total liberdade onde tudo
era possível, cresceu em si o desejo de preservar a sua obra, sem correr o
risco de se vender a si mesmo nem permitir que alguma subjectividade alheia se
infiltrasse nas suas idiossincrasias. Despublicar, sim despublicar
era a solução para o seu problema. Num lugar onde tudo era possível haveria
certamente alguma editora que em vez de publicar, despublicasse a sua
obra.
Na manhã seguinte, depois de um almoço frugal, saiu para a rua em busca
da editora certa. Havia cerca de uma centena naquela pequena cidade. Até à hora
de almoço não teve sorte. Uns diziam-lhe que tal procedimento não era
exequível, outros que não era lucrativo e houve até um editor que o aconselhou
a consultar algum cientista que aplicasse à sua obra o método de Schrödinger.
Almoçou pensativo numa esplanada da Baixa, sempre acompanhado pela sua maleta,
que sentou delicadamente numa cadeira a seu lado.
A tarde passou a correr, as editoras fecharam, e nenhum resultado. Não
ia desistir. Afinal o que significava a liberdade? Se tudo era possível e
permitido naquele lugar, também seria possível despublicar a sua obra.
No dia seguinte, continuou a demanda. Incansavelmente bateu a muitas
portas, tocou muitas campainhas, tropeçou em muitas escadas e limpou muitas
gotas de suor. Nenhum “não” o demoveu do seu propósito. A busca foi de novo
infrutífera.
À noite, já deitado e com a luz apagada, acariciou a maleta e fez-lhe
uma promessa: “Amanhã conseguiremos! Amanhã seremos ambos livres!”
No terceiro dia, levantou-se ainda mais cedo e partiu sem sequer tomar o
pequeno almoço. Faltavam só cinco editoras. Na primeira, um cão de guarda
arreganhou-lhe os dentes e ele quase desistiu de entrar. O segurança chegou a
tempo de impedir consequências mais graves. O cão só lhe rasgou a bainha das
calças e em seguida ignorou-o completamente como se nem estivesse ali. O risco
não valeu a pena. O editor disse-lhe que só publicava obras sobre canídeos e
perguntou-lhe se tinha alguma obra sobre o assunto. Exclusivamente sobre o
assunto não, mas havia vários tipos de canídeos na sua obra.
Mostrou-lhe um conto sobre um cão que fora criado por lobos na floresta.
Ao contrário de outras histórias, nesta o cão não se transformava em lobo; eram
os lobos que se transformavam em cães. Estes novos cães encontraram um dia
perdida na floresta uma criança humana. A criança não se transformou em lobo;
foram os novos cães-lobos que se transformaram em crianças. Certo dia, as novas
crianças-lobo encontraram a aldeia de onde viera o primeiro cão. Os cães não os
receberam bem, mas os habitantes humanos receberam-nos muito pior. Pegaram em
pedras e varapaus e expulsaram-nos da aldeia. De volta à floresta, as
crianças-lobos fundaram a sua própria aldeia, recebiam os forasteiros de braços
abertos, desde que viessem em paz e se adaptassem, mas nunca mais se
transformaram neles.
O editor gostou deveras da história e queria publicá-la, mas Contrarius
Pertinax recusou. O que ele queria era despublicá-la, conjuntamente
com todos os outros escritos. O editor abanou a cabeça, voltou-lhe as costas e
desejou-lhe boa sorte.
Na segunda editora, teve de esperar duas horas na fila. Como não tinha
tomado o pequeno almoço nem tinha almoçado, estava a morrer de fome. Tirou do
bolso uma magra sanduíche e devorou-a. Um rapaz simpático que estava na fila
ofereceu-lhe uma laranja, que comeu prazenteiramente, e uma velha senhora, que
podia muito bem ser Agatha Christie sob anonimato, ofereceu-lhe dois biscoitos
caseiros feitos por ela própria. Agradeceu e guardou-os no bolso. Algo lhe fez
lembrar uma história em que havia biscoitos envenenados. E como nunca se sabe
onde termina a ficção e começa a realidade, mais valia prevenir do que
remediar.
Esta sensação incomodou-o e fez decrescer a sua fé na possibilidade de
alcançar o seu fim, tão distinto do de todos os outros candidatos a autores.
Ele só queria ser um não-autor na sua plenitude, capaz de escrever tudo e não
publicar nada. No entanto, uma pequena chama de esperança bruxuleava ainda no
seu espírito. Se, até agora, nenhum editor o tinha escorraçado ou chamado
louco, isso significava que era possível, mesmo que faltassem apenas quatro
editoras…
As duas horas foram passando penosa e surpreendentemente. Viu sair do
gabinete do editor o rapaz da laranja, ainda mais sorridente do que antes. Viu
uns gémeos saírem acabrunhados e góticos com umas olheiras que não lhes vira
antes. Uma senhora com um maço de receitas culinárias amarrotadas debaixo do
braço, exalando um acentuado odor a alho frito; um filósofo que levava pela
coleira 20 quilos de papel amarelado do novo Leviatã; um miúdo, que não teria
mais de oito anos, carregando um planeta de cartão; um visionário bastante
míope pintalgado de tinta colorida carregando uma moldura agora vazia; um
limpa-chaminés muito limpinho esvoaçando sobre as cabeças agarrado a um
guarda-chuva; rostos déjà vu muito satisfeitos consigo mesmos; um
cientista com um cérebro dentro de uma campânula de vidro; um tubo de ensaio
alto que expelia um fumo esverdeado, encoberto por uma capa de fórmulas
químicas; e até a face escura da Lua estava suspensa num recanto junto ao
tecto… seres que não se lembrava de ter visto na fila de espera. Mas se uma
galeria tão inusitada tinha o seu lugar ali, isso devia augurar algo de bom…
Chegada a sua vez, entrou determinado e confiante, sentimentos que se
desvaneceram bastante quando viu sentado atrás da secretária um indivíduo com
cabeça de livro. Apresentou-se como Obnoxius Rebelus, o editor-chefe, e
saudou Contrarius com um virar de páginas suave. Apresentado o caso e a
obra, Obnoxius gargalhou com um saltar de páginas e, por fim, sorriu
mostrando uma capa branca de rosto humano que mudava de expressão a cada cinco
segundos. E a boca da capa ia dizendo: “É com grande pesar que sorrio perante a
desgraça alheia. É com imenso prazer que lhe comunico que o seu projecto não
pode ser aprovado nem desaprovado. Deste momento guardarei a excelente ideia de
despublicar, que tentarei implementar gradualmente num futuro próximo.
No presente, a despublicação total não é possível.” “Só faltava esta”,
pensou Contrarius, “um editor plagiário!”
Saiu irritado batendo a porta com toda a força, fúria que não produziu
qualquer ruído. Voltou-se e pontapeou a porta, mas também não ouviu qualquer
ruído. O corredor de espera estava agora vazio. No ar esvoaçavam traças
fluorescentes que soltavam uns risinhos agudos.
De volta à rua, reconfortou-se com uns raios de sol amigáveis e
prosseguiu em direcção à antepenúltima editora. Ficava nos subúrbios junto a um
velho parque. A ramagem das árvores cobria por completo a tabuleta que encimava
a porta: Última Oportunidade Editores, SA. Contrarius não viu a tabuleta
quando entrou, apenas quando saiu.
Em menos de cinco minutos estava a ser atendido. Do porteiro ao editor,
passando pela recepcionista, a primeira frase que ouviu, mesmo antes de
pronunciar qualquer palavra, foi “Com certeza, com certeza, totalmente ao
seu dispor!”
O editor reparou de imediato na maleta e pediu a Contrarius que a
abrisse para examinar o conteúdo. Percorreu as folhas com os dedos e os olhos,
cheirou o papel, leu algumas palavras em voz alta, arrumou as folhas em
pequenos maços sobre a secretária construindo um pirâmide e, finalmente,
perguntou:
― O que pretende fazer com tudo isto?
― Eu quero apenas despublicar a minha obra.
― Ah, só isso! Então, o trabalho é simples! Amanhã à tarde a despublicação
estará pronta.
Quando saiu, a recepcionista e o porteiro despediram-se dizendo: “Com
certeza! Tem a certeza?” Não percebeu nem quis reflectir sobre o assunto. A boa
disposição não deixava espaço para preocupações. Tinha conseguido, finalmente
tinha conseguido. A estadia terminava no dia seguinte ao fim do dia. Ainda
tinha tempo de ir à editora buscar a sua despublicação antes de apanhar
o comboio de volta a casa.
Nessa noite, quando se deitou sentiu um sobressalto. Onde estava a
maleta? Acendeu a luz. Ah, estava ali, no lugar do costume, a seu lado,
serenamente adormecida. Apagou a luz. Na penumbra do quarto viu esvoaçar folhas
semi-iluminadas, que iam aparecendo e desaparecendo, até ficar apenas a
escuridão rasgada por um fio de luz que vinha dos candeeiros de rua no
exterior.
Uma pergunta que nunca fizera antes assaltou-lhe a mente: que forma tem
uma obra despublicada, que tamanho, que peso e cores? Será que ainda
cabia na maleta? Não conseguiu responder. Devia ter perguntado ao editor: como
se faz, qual é o método, qual é o resultado final? A euforia estava contaminada
pela dúvida. Ainda assim, o cansaço e a sua racionalidade idiossincrática
deixaram-no adormecer.
Durante a manhã andou pela Baixa a ver as livrarias e os alfarrabistas.
Nas montras havia uma imensa variedade de livros e caixinhas de madeira que
tinham inscritos os nomes de autores e títulos de livros. Depois do almoço,
dirigiu-se para o parque junto à editora. Vagueou pelas alamedas desenhadas por
árvores frondosas e admirou a geometria original dos canteiros. Entre as flores
havia caixinhas de madeira semelhantes às que vira nas montras das livrarias e
alfarrabistas. Seria uma tradição daquele lugar! Folhas entre folhas, obras
humanas entre as obras da Natureza? Parecia uma bela ideia.
Por volta das cinco da tarde dirigiu-se à editora. O porteiro e a
recepcionista saudaram-no com ecos das palavras iniciais: “Tem a certeza? Com
certeza!” A recepcionista disse-lhe que o editor-chefe não estava presente, mas
a sua despublicação estava ali, prontíssima! Retirou de uma prateleira
atrás do balcão uma bela caixinha de madeira. Na tampa tinha inscrito o nome Contrarius
Pertinax e por baixo “Obra Completa, edição única, despublicada no
presente ano e para todo o sempre”. Sentiu um calafrio. Parecia um epitáfio.
Posso abrir, claro que pode e pode levar consigo para onde quiser, ah, sim, e
não tem de pagar mais nada, consideramos que aquela bela pirâmide de folhas que
aqui deixou saldou completamente a conta! Tenha uma óptima tarde e seja muito
feliz com a sua despublicação! Até sempre!
Abriu a caixinha de madeira que tinha um cheiro parecido ao da lareira.
Lá dentro jaziam duas pazadas de cinza. Não eram as cinzas de uma árvore
outrora viva e frondosa, eram as cinzas de uma obra anónima, finalmente despublicada,
de forma absolutamente bibliocida!
Deve ter perdido a consciência durante uns segundos em que gritou e
chorou copiosamente nalgum recanto da mente. Apeteceu-lhe esmurrar a
recepcionista e fazer o editor em pedaços, mas recuperou os sentidos e conteve-se.
Percebeu finalmente o sentido da frase malévola que ouvira repetida. Olhou a
recepcionista nos olhos e disse-lhe com um sorriso doridamente frio: “Com
certeza, não tenho certeza alguma… por isso mesmo é que é preferível despublicar
em vez de publicar… tenho, no entanto, a certeza de que a dívida ainda não foi
totalmente saldada…”
Saiu, dirigiu-se a uma estação de serviço e comprou 3 litros de
gasolina. Voltou à editora, regou a entrada com o combustível e pegou-lhe fogo.
Pouco depois, todos os funcionários saíam a correr pela saída de emergência. O
editor esbracejava no telhado. Contrarius Pertinax ainda viu os
bombeiros chegarem, erguerem a escada e salvarem o editor. Depois regressou ao
hotel, pegou na mala e na maleta, apanhou o comboio e regressou a casa. Por
razões desconhecidas, não recebeu nenhuma notificação da polícia nem nenhum pedido de indemnização do editor.
Enquanto rodava a chave na fechadura, interrogou-se sobre o que teriam
feito as duas editoras onde nunca chegou a entrar. Talvez alguma se dedicasse
verdadeiramente a despublicar, sem destruir a obra original. No dia
seguinte despediu-se do seu trabalho de tantas décadas e abriu a sua própria
editora, destinada exclusivamente a despublicar todo o tipo de obras.
Nas pausas continuava a escrever a sua própria obra, que ia despublicando
gradualmente dos mais diversos modos. A arte da despublicação implica
toda uma filosofia e múltiplas metodologias.
Por cima da porta mandou colocar uma tabuleta: CONTRARIUS EDITOR.
Não se espantou quando viu entrar no
seu gabinete muitos daqueles com quem se tinha cruzado nos corredores das
editoras do Reino do Desconcerto. Para cada um arranjou uma solução, uma forma
personalizada de despublicar. Quando um certo dia a velha senhora que
parecia a Agatha Christie lhe entrou pela porta, colocou-lhe à frente um pires
com dois biscoitos. Ela comeu-os. Nada aconteceu. A prova de carácter foi
vencida. A infindável tarefa de despublicar prossegue.
III
Lineu amava todos os seres vivos e não vivos. De um modo ou outro, todos
estavam vivos, tinham estado ou haveriam de estar um dia. Amava sobretudo as
plantas. Acreditava que se conseguisse conhecer todas as plantas, conheceria o
Mundo inteiro e a longa história de um universo onde não se vislumbram plantas.
Mas isso era apenas um obstáculo humano que se prendia com o enorme abismo
entre a dimensão do universo e a simples visão sensorial. Por isso ele teimava
em ver sempre mais além.
Um dia olhou tão longe que, sem querer, deu um salto de um século e deu
por si frente a frente com Darwin sob uma daquelas figueiras esplendorosas que
gostam de ir vendo os milénios passar sem envelhecer. Limitam-se a estender e a
engrossar mais as raízes e o tronco até parecerem casas ancestrais onde a
totalidade da Humanidade poderia morar, se conseguisse morar na mesma casa.
Darwin reconheceu de imediato Lineu. Mas Lineu ficou a pensar quem seria
aquele sujeito que viria um século depois dele. Lineu lembrou-se de Newton, seu
contemporâneo, que provavelmente também andaria por ali. Como por telepatia,
Darwin também se lembrou de Newton. Darwin lembrou-se dos gigantes, mas também
de anões. Lineu lembrou-se das maçãs e do acaso.
Rapidamente, entabularam conversa e discutiam o melhor modo de fundir
gigantes, acaso e maçãs. Segundo Lineu, dessa mistura extraordinária resultaria
a matriz da própria vida, uma espécie de paradigma perdido reencontrado.
Segundo Darwin, dessa fusão sobreviveria o mais forte, o mais apto, uma espécie
de gigante que devoraria a História e acabaria por ser, um dia, o único a
rodopiar à volta do sol, quando todos os planetas fossem já apenas poeira e o
sol um ancião cansado de ser o centro da vida. E viria até o dia em que o
gigante partiria por aí, caminhando por entre as galáxias com os seus passos
incomensuráveis.
Lineu achava que Darwin era um exagerado. Preferia caminhar rente ao
chão ou voar com as aves que se contentam com tocar as nuvens de vez em quando.
Procurava afinidades em vez de procurar diferenças, qualidades em vez de
fraquezas, o elo da vida que tudo une em vez do sinal da morte inscrito em toda
a matéria viva.
Por um caminho que atravessava o campo junto à figueira iam passando
caminhantes, provavelmente um século mais velhos do que Darwin e dois séculos
mais velhos do que Lineu, pelo menos a avaliar pela indumentária e pelos
relógios que traziam no pulso ou no bolso. Olhavam e comentavam com estranheza:
“O que fazem aqueles felinos deitados sobre os ramos daquela figueira? Serão os
animais de estimação daqueles estranhos interlocutores? Ambos parecem
perfeitamente pacíficos. Falo dos felinos, evidentemente…”
Lineu e Darwin estavam demasiado embrenhados na conversa para darem pela
presença dos transeuntes ou dos felinos sobre as suas cabeças. Mas, entretanto,
com uma espantosa sincronia, caíram dois figos da figueira; um sobre a cabeça
de Lineu e outro sobre a cabeça de Darwin. Caíram é uma forma de dizer, porque
na verdade foram lançados pelos felinos de modo a atingirem as cabeças dos dois
sábios.
Ambos olharam repentinamente para cima. Darwin deu um pequeno salto,
Lineu abriu a boca de espanto para exclamar logo em seguida: “Ora, cá está, o
mais fraco e o mais forte coexistindo em perfeita harmonia!”
Darwin contestou de imediato, falou de domesticação, de viciação dos
dados, do factor humano que distorce o sábio curso da Natureza, uma fraude
contra a selecção das espécies. Lineu observou o sorriso no rosto de ambos os
felinos e sugeriu que provavelmente a natureza era mais sábia do que todos os
sábios. E qual era afinal o mais forte e o mais fraco de entre aqueles dois?!
Pareciam igualmente confiantes e até sábios. Se sabiam colher figos de uma
figueira e atirá-los às suas cabeças, provavelmente sabiam muito mais. Eles,
Lineu e Darwin, é que estavam em nítida desvantagem, não por serem mais fracos
ou mais fortes, mas por presumirem que sabem mais do que a mais ínfima ervinha
ou o mais colossal carnívoro. O que descobriram sobre a mais pequena erva ou o
maior carnívoro já a ervinha e o carnívoro o sabiam desde sempre, eles é que
não.
Darwin sentiu um enorme desalento. Sugeriu que era tudo uma ilusão e que
mais tarde ou mais cedo o grande felino devoraria o pequeno felino ou qualquer
outro animal de outra espécie. Era assim, tinha de ser assim, era a sua
natureza e ninguém podia mudar a natureza.
Lineu admitiu que a Natureza era a coisa mais difícil de modificar e que
modificá-la nunca traria nada de bom. Disse que até compreendia toda a
argumentação de Darwin, mas que, mesmo assim, as plantas lhe tinham ensinado
muito sobre todos os seres e sobre a Natureza. Ensinaram-lhe que a Natureza
muda de facto e vence sempre, mas não é necessariamente o mais apto e forte que
vence, é o mais determinado e o que ama mais a vida, sem dar nas vistas, mesmo
que tenha o tamanho colossal daquela figueira.
O gato e o tigre, que estavam confortavelmente instalados sobre os
ramos, lado a lado, como dois bons companheiros, anuíram com acenos de cabeça.
Por alguma razão que não era completamente clara, simpatizavam mais com os
pontos de vista de Lineu.
Como Darwin e Lineu nunca mais chegavam a um consenso, o gato decidiu
intervir: “Meus caros, há milhares de anos eu não era muito diferente do meu
companheiro nos meus hábitos. Era mais pequeno em tamanho, mas tinha os mesmos
instintos e hábitos. Hoje sou bem diferente e não posso dizer que tenha sido um
sacrifício mudar. Não sei se evoluí, mas sou, de facto, diferente dos meus
ancestrais. Aquilo que vedes sobre estes ramos são dois pontos no tempo que
confluíram aqui mesmo sobre as vossas cabeças. O meu companheiro é também um
gato igual a mim, vós é que ainda não conseguis vê-lo por entre a neblina dos
tempos…”
E o tigre, que também estava desejoso de se manifestar, acrescentou:
“Nem mais! O vosso encontro aqui sob esta figueira é como o nosso encontro
sobre esta figueira… só que vós ainda estais um pouco abaixo na linha da
evolução. Vedes menos porque não acompanhais a Natureza. ‘Tu não és um gato’
direis de mim. Pois vós ainda não sois sábios. Eu estou muito mais próximo de
ser um gato do que vós estais de conhecer a Natureza.”
Lineu não se sentiu ofendido. Sabia bem demais que as ervinhas que agora
pisava ainda guardavam milhões de segredos que ele só podia imaginar, mas não
discernir com toda a clareza. Talvez nem fosse necessário discernir tudo com
toda a clareza. Talvez houvesse um ponto onde o homo sapiens devesse parar e limitar-se a acompanhar os mistérios
da Natureza.
Estendeu a mão a Darwin e propôs-lhe um pacto: “De ora em diante seremos
como eles… mesmo que ainda sejamos tigres e mesmo que nunca deixemos de ser
tigres, deixemos que a Natureza, e não os homens e a ciência, nos transformem
em gatos.”
E saudaram-se com um rugido e uma arranhadela simbólica, antes de
treparem pela figueira e se instalarem junto dos felinos.
II
ONDE COMEÇA O OLHAR
Muitos olhos habituaram-se a reconhecer as coisas pela forma que vêem e
deram-lhes nomes coincidentes nos quatro cantos do Mundo.
“Mas se a noite cair repentinamente antes de eu ter tempo para ver o que
está à minha frente ou em meu redor, como posso encontrar-lhes o nome? O que
vejo já não é a forma. É aquilo que pressinto.” ─ Inquiriu a pequena flor.
“Mas mesmo quando a noite cai repentinamente, tu ainda podes ver-te, não
podes? Ou pelo menos continuas a saber quem és e não perdes o teu nome…! ─
Comentou a flor mais antiga.
A pequena flor ficou meditativa por alguns instantes e tentou nomear
todas as coisas que via. Rapidamente se deteve. Percebeu que havia muitas
coisas que não conseguia nomear, muitas mais do que aquelas a que conseguia dar
um nome. E, no entanto, elas estavam lá. Estavam vivas, eram reais e eram
belas, tão belas como as que conseguia nomear.
A noite caiu, não repentinamente, mas com uma extraordinária suavidade,
como se quisesse mostrar todos os seus recantos e todos os passos da sua
quotidiana viagem.
A pequena flor olhou em volta, mas não conseguia ver com nitidez as
coisas que sabia que estavam lá. Nem mesmo as estrelas, nem mesmo a lua
conseguiam iluminar todas as coisas. Era como se não as quisessem iluminar
completamente, como se iluminá-las fosse uma enorme traição à noite que as
abrigava e tornava mais brilhantes e visíveis. Imbuídas por um imenso respeito,
permaneciam no céu a uma enorme distância das coisas que rodeavam a pequena
flor.
Voltou para junto da flor antiga e perguntou-lhe se as coisas que via
durante o dia ainda estavam lá. A flor antiga sorriu docemente e perguntou: “Tu
ainda estás aí, não estás? Então, todos os seres que agora não vês continuam
também aqui. Fecha os olhos até que te possas ver como se fosse o dia mais
claro da criação. Depois volta a abri-los e diz-me o que vês.”
A pequena flor fechou os olhos como fazia todas as noites. Mas agora não
adormeceu. Acordou para o centro de si e para as coisas que não via. Viu-se
imensamente pequena flutuando na luz do luar. Sentiu a erva fofa acariciar-lhe
o tenro caule e a brisa afagar-lhe as pétalas. E nunca pensou, nem por um
segundo, que tinha deixado de ser ela. Não via a sua forma, parecia ter muitas
formas, mas continuava a ser a mesma pequena flor. Sentia-se capaz de ver cada
recanto da alma e do universo mesmo sem conseguir ver um único contorno
definido. Só uma espécie de luz persistente continuava bem definida e brilhava
intensamente no centro da corola.
Tomada por um imenso entusiasmo não conseguiu manter os olhos fechados
por mais tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. A noite continuava lá,
acompanhada pela lua e pelas estrelas. O Mundo continuava mergulhado na
penumbra, mas nada havia que não conseguisse ver. Sem saber como, o nome das
coisas que não via, mesmo das que nunca vira, começaram a brotar-lhe das
pétalas.
A flor antiga sentiu-se feliz e recompensada, acompanhada por todas as
coisas visíveis e invisíveis, pelas que tinham forma e pelas que não tinham
matéria, pelas que tinham nomes, antigos ou novos, e pelas que ainda não tinham
nome. O nome viria num dia ou noite qualquer pois ninguém sabe ao certo onde
começa o olhar e sobretudo onde acaba. Intimamente estava convencida de que só
existe o princípio, mas não o fim.
São Ludovino, 6/12/2018 (Este conto
faz parte da série “Lendas, Mitos & Fábulas…”)
Young disciples II, photography by São Ludovino.
I
O HOMEM NA LUA
Havia há muito, muito tempo, um homem quase transparente, quase
invisível, quase vulgar. Andava há muito tempo a construir a sua casa infinita
em todos os lugares. Não usava tijolos nem cimento, martelos ou pregos, gruas
ou retroescavadoras, pedras, madeira ou tintas. A sua única matéria-prima e
ferramenta era uma porta desdobrável que ia colocando aqui e ali. Trazia-a
sempre debaixo do braço, como outros trazem um livro, um jornal ou uma pasta
leve. Às vezes, parecia um quadro, às vezes, semi-aberta, servia de banco
repousante nas longas caminhadas, às vezes era janela andante nas noites de
luar. E era mala de viagem donde saía o alimento e o cobertor quente nos dias
de Inverno.
Era uma velha porta, construída em criança num daqueles dias infindáveis
em que os pássaros não querem dormir enquanto a dança colorida do poente não
terminar. Desde esse dia, aquela porta foi a sua fiel companheira em todos os
lugares. Chegava a um lugar, pousava a porta, abria-a, entrava e aí era a sua
casa. Quando escrevia alguma carta, apenas escrevia no remetente “Da minha
casa”. Nunca recebeu cartas. Provavelmente foram todas parar à morada errada,
um lugar onde já não estava ou onde ainda não estivera.
Quando a vida o obrigava a permanecer durante muito tempo em lugares
fechados, abria a porta-quadro e deliciava-se com as paisagens viajantes que
desfilavam perante os seus olhos. Se estava frio de mais, abria a porta para
uma lareira acolhedora e ali ficava a conversar com as chamas dançantes. Ou
então, passava a soleira e sentava-se sob um sol radioso, mesmo que à volta o
vento gélido tolhesse os transeuntes e a chuva lhes encharcasse os pesados
sobretudos. Se os músculos pediam movimento, abria a porta para uma praia
tranquila, uma floresta ou um jardim. Se lhe apetecia conversar, abria a porta
em qualquer aldeia, vila, cidade ou estrada deserta e logo uns olhos amigáveis
se aproximavam dos seus e dispensavam-no até de proferir qualquer palavra. Mas
em todo o lado há vida e histórias e, sem dar por isso, o tempo enchia-se com
rios e cascatas de palavras, uma espécie de música espontânea, com correntes e
cadências próprias. Foi assim que começou a amar o mundo como um todo… e a
detestá-lo também, quando o rio secava ou a cascata se tornava uma enxurrada de
ruídos indecifráveis. Nesses momentos, fechava a porta àquele lugar e
regressava à praia tranquila, logo ali ao lado. As gaivotas lá estavam,
glissando sem pressa sobre as ondas. E a mulher luminosa, feita de céu, água e
luz, cuidava dedicadamente do jardim. Tudo estava do outro lado da porta,
bastava abri-la.
Chegava a uma planície verdejante, pousava a porta no chão, abria-a de
par em par e dizia “Aqui é a minha casa!” E a planície ficava ainda mais bela e
viçosa, só por sentir que alguém a amava e queria ficar ali.
Olhava para uma montanha, perscrutava-lhe as encostas, o cume, os vales
e dizia “Quando chegar ao topo, ali será a minha casa!” E para que a escalada
fosse menos dura, o vale dava-lhe alimentos frescos e água pura; e as encostas,
comovidas com a determinação do caminhante, desenhavam socalcos suaves numa
imensa escadaria do sopé ao topo. E lá do alto, o homem, feliz, sentado no seu
alpendre de madeira, pensava para consigo “Do alpendre da minha casa posso ver
todo o horizonte, e todos os lugares que vejo ou adivinho, aquém e além do
horizonte, são a minha casa!”
Morou em muitas planícies, vales e montanhas, em muitas aldeias, vilas,
cidades, caminhos e estradas e continuava a caminhar, sempre com a sua fiel
companheira debaixo do braço.
Um dia, quando morava junto ao mar, foi passear pela praia, respirar com
a alma os últimos raios de sol de um dia tranquilo. Por ali ficou até o luar
iluminar a superfície das águas e beijar a areia húmida e macia. Pegou na porta
e colocou-a sobre uma mancha luminosa de luar, um lago de luz onde lhe apeteceu
mergulhar. Abriu a porta e caminhou lentamente, primeiro sentindo a textura da
areia, depois o veludo da noite, a brisa das estrelas, o éter da distância, a
respiração serena do tempo, algures muito para além do horizonte.
Ia já muito longe, mas parecia
possível tocar-lhe esticando apenas o braço através da porta; e os passos
continuavam a soar ali mesmo ao lado, desenhando pegadas luminosas na areia
húmida.
A mulher luminosa aproximou-se da porta aberta. Nunca a tinha visto ali
antes. Espreitou para o outro lado, ouviu os passos sobre a areia e viu uma Lua
enorme sorrir sobre o zénite. Sobre a Lua caminhava um homem com uma porta
debaixo do braço. Parecia exactamente a mesma que via à sua frente. Viu-o
pousar a porta e logo uma floresta cresceu em redor. A maior das árvores floriu
quase de imediato. Logo outras se seguiram, cobrindo-se de flores e frutos.
Pensou para consigo “Agora, também há um jardim na Lua! A Lua deve estar muito
feliz!” Sentiu o aroma dos frutos lunares e reconheceu-o. Era o mesmo aroma que
emanava do seu jardim à beira-mar. Esticou o braço através da porta e colheu um
fruto lunar. Também os frutos tinham o mesmo sabor que os frutos das suas
árvores.
Tocou na porta. Era tão leve como o ar e agora quase completamente
transparente. Pô-la debaixo do braço e caminhou pela estrada de luar até deixar
de se avistar. A luz dissolveu-se na luz.
Na Lua, o homem sorri, banhado pela luz e cores do seu pomar que cresce,
cresce sem parar. Em silêncio, de olhos cerrados, beija a rosa lunar que lhe
floresce nas mãos abertas. A flor cresce mais e mais e esvoaça suavemente pelo
ar até ir pousar sobre as águas calmas de um mar azul e cristalino. Sereno, o
homem abre os olhos muito devagar. Lentamente a mulher luminosa emerge das
águas e caminha na sua direcção. Em silêncio, traz de volta a rosa lunar,
deposita-a nas mãos do homem, senta-se a seu lado e adormece, ouvindo-o
cantar.
São Ludovino, 17/7/2016 (este é o primeiro conto da série “Coisas Que Funcionam”)
Under many moons II, photography by São Ludovino.