sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Textos Intermináveis - I

     Aquilo a que costumo chamar "textos intermináveis" ou "textos de processo" são isso mesmo: textos que podem ser prolongados indefinidamente a partir de um processo de construção formal, assente numa ideia ou conceito. A dimensão formal e a dimensão conceptual são interdependentes, alimentam-se reciprocamente. Fazer perguntas é sempre um processo profícuo e pode aplicar-se às mais diversas linhas de pensamento. O próprio processo nunca é fechado e permite construir mapas semânticos com ramificações, sobreposições, jogando com o literal e o metafórico, explorando paradigmas e o potencial dos campos lexicais e semânticos. A interrogação cria também uma estrutura dialógica mesmo que o texto seja um longo monólogo. No caso do texto "Sei lá...", escrito em 1984, parte de uma interrogação sobre aquilo que sabemos e desconhecemos: "Saberá alguém". Tudo o resto são possibilidades de resposta ou de falta dela.   

SEI LÁ…

Saberá alguém
cumprir os poemas
ser instrumento e imagem fiel
das palavras.

 Saberá alguém
que há cavalos selvagens
em New York.
E ilhas de coral
na Praça Vermelha, de manhã
sobre a neve e as pegadas da Revolução
que o fantasma de Lenine desenha
com o dedo roxo de frio.

Saberá alguém
que quando se ama e deseja o absoluto e o infinito
se teme ainda o segredo da morte
e das viagens clandestinas nos barcos
brancos da loucura.

Saberá alguém
que há sempre mais alguém
na nossa solidão.

Saberá alguém
que nada é imutável
nem sequer a perfeição
e tenho a certeza de que as borboletas não choram
por terem apenas duas semanas de vida com asas.

Saberá alguém
procurar pérolas no fundo do Pacífico
sem despertar a insaciedade dos tubarões
e invejar os peixes por não desejarem
um paraíso.

Saberá alguém
que os peixes do Pacífico têm contudo desejos excessivos.

Saberá alguém
que as anacondas não têm destino
e só existem no Amazonas
e que no Amazonas
o tempo é devorado apenas pelas piranhas.

Saberá alguém
que a sede é excessiva nos trópicos
é indefinida no equador
e assassina nos pólos.

Saberá alguém
que as contradições
são como os cactos no deserto:
visíveis, dolorosas e persistentes,
imprescindíveis como as miragens,
indissolúveis como a areia,
inegáveis como os espinhos
balsâmicas como a seiva.

Saberá alguém
de alguém.

Saberá alguém
de alguém assim
assim gémeo e inconfundível.

Saberá alguém
que nos quartéis-generais
há sempre alguém que fala alemão como o Führer.

Saberá alguém
que um Mercedes preto e o papel higiénico
são imprescindíveis a um ministro
para manter o equilíbrio mental.

Saberá alguém
que o equilíbrio mental do poder
é pura ilusão.

Saberá alguém
que as joaninhas
têm as asas mais misteriosas
e que o mais comum dos humanos
tem sempre umas mãos misteriosas
que transformam o universo numa imensa joaninha
com sóis vermelhos e buracos negros
que voa dentro de si mesmo
sempre que descobre o absurdo na Primavera
e não se lembra mais de nada

Saberá alguém
que Ícaro
também tinha milhões de irmãos gémeos
e nenhum desistiu da obsessão comum
para que os sonhos ainda existam no futuro
os arquitectos da mente não morram de tédio
e assim o senso comum tem ainda quem castigar
e os modestos mestres-escola
têm ainda um enigma para os confundir.

Saberá alguém
que embora tenha sido sempre assim
a alquimia se tornou irreversivelmente um ramo
da meta-psicologia que persiste em não poder
ser científica
e que a pedra filosofal se tornou um paradigma
indistinto da vontade
o talismã de todos os desejos
quer o alquimista demonstre ou não
que o prazer é o elixir que faz o cosmos
e o tempo infinitos
o movimento de rotação ou translação
a obstinação ou a indiferença
o cachimbo d’água, o suicídio ou a felicidade.

Saberá alguém
saberá.

Saberá alguém
de mim
aqui
a uma distância indizível de quase tudo.

Saberá alguém
que as mil e uma noites
se repetem incessantemente pelos tempos
às vezes em cada segundo
para quem vive em Finisterra.

Saberá alguém
que o sabor da sidra
alucina os cavaleiros andantes da planície
e que Dulcineia é uma hidra de sete cabeças
que todos os homens desejam
porque não tem mãe consanguínea
descende directamente e apenas do impossível
e é imortal como todos os nós cegos
deuses e traidores.
Se tivesse memória recordar-se-ia que de facto
nunca nasceu sequer.

Saberá alguém
que as bandeiras de tréguas
são sempre vermelhas
por mais brancas que as pintem
e a rendição um axioma absurdo
onde a aranha tece a teia da raiva
e da revolta adiadas
e nesta guerra os exércitos
são apenas de pensamentos
sonhos e gotas dispersas de sangue de ideias.

Saberá alguém
que os brincos da princesa
eram azul metálico
e foram a causa da Pornex 84
e da queda das Nações Desenvolvidas.

Saberá alguém
que há um charlatão à solta no jardim
que deus é um ourives
e tudo no mundo são invenções
as duas mais fabulosas são os espelhos e o amor
mas ainda as facas e a cabra-cega.

Saberá alguém
que as histórias da carochinha
têm intenções bem mais duvidosas
que as “desflorações”.

Saberá alguém
que as realidades
que mais nos fascinam e nos movem obstinadamente
são as que nunca poderão ser reais
aquelas que conseguimos abstrair de tudo
e colocá-las dentro de nós
como uma suprema realidade
aquelas que tocamos com uma mão
ao mesmo tempo que as olhamos
por um binóculo mágico de abandono.

Saberá alguém
que a sanidade não existe
e os muros dos asilos não são
brancos por acaso.

Saberá alguém
que Sísifo tinha cabelos longos e uma barba infindável
embora permanecesse sempre mais jovem
que a pedra
e que o topo da montanha
é uma cratera com um fundo de mar doce
e não um pico pontiagudo.

Saberá alguém
que a nossa história
é a pré-história do inconsciente
e os bisontes e os mamutes
foram pintados nas cavernas pelas divindades
que depois cansadas do inacessível
encarnaram em nós
porque pensaram que éramos
prismas de vidro transparentes
e nunca tínhamos sono nem olhávamos
para trás nem víamos através das paredes
nem nos parecíamos irremediavelmente
com os seres estranhos dos seus sonhos.

Saberá alguém
quem mora agora na casa onde nascemos
e da qual perdemos a chave nos pântanos do tempo.

Saberá alguém
dos tapetes voadores
bêbados de purpurina e vertigem
em que passámos a rasar
sobre os monumentos do inexistido
e nos reconhecemos depois sem grande surpresa
num filme de aventuras fantásticas.

Saberá alguém
que os lagartos e os trapezistas
viajam numa redoma de vidro
pelas florestas densas e abissais
e pelas vertentes dos vulcões
em busca de um diamante azulado
que embora perpetuamente índigo cristalino afinal é incolor
e mesmo assim azul.

Saberá alguém
que há peregrinos em todas as cidades
e alguns mantêm as mãos fechadas nos bolsos
segurando as chaves de uma casa imaginária
onde tentam entrar
cada vez que fitam uns olhos como se fossem o mar
mas todos os peregrinos são estrelas cadentes
que nunca saem à rua nem chegam ao céu
e deambulam pela Via Láctea das ruas
como fotógrafos microscópicos
por um tapete persa.

Saberá alguém
desejar ser perpetuamente cristalino
sem perder definitivamente a posse da sanidade
que é apenas constante na ausência de desejos
e por isso impossível
ou possível apenas numa impossível solidão de plenitude
ou no útero de uma morte
de que apenas os suicidas podem beijar o plasma
com desespero e abandono
e depois tornar-se inquilino do absurdo
com os olhos abertos brilhantes e frescos de serenidade.

Saberá alguém
que o velho contrabandista
só trocava segredos com o ibex.
Dos montanheses de barbas brancas
aceitava metamorfoses do ouro
em troca de textos paranóicos
e páginas rasgadas do exemplar original
da Bíblia e/ou do Kama Sutra.

Saberá alguém
que os amantes morrem na neve
sob avalanches de máscaras negras
os beijos dos ursos brancos
e os aplausos insistentes e insatisfeitos dos pinguins.

Saberá alguém
de ti
aqui
a uma distância imprevisível do sonho.

Saberá alguém
que as epifanias de Joyce
são as únicas verdades possíveis
no palco da própria vida ou da escrita
onde o xadrez se joga com paradigmas
de múltiplos cérebros mesmo que o rosto seja só um
e as peças multicolores lêem no fundo dos olhos
dos camaleões-outros que o invadem
e mesmo dos camaleões-eus
porque na noite anterior
tinham sempre sonhado com deuses
que transformavam o espectro solar em palavras
ou oceanos desconhecidos com filmes sobre peixes transparentes
e os actores revelavam todos os segredos das expressões
para matar definitivamente o teatro
e as personagens poderem ser pessoas
simultaneamente fantásticas, intocáveis, críveis, vulgares e simples.

Saberá alguém
que a solidão é incomparavelmente
mais povoada do que a China Popular
mais apinhada de relatos e fantasias que a Biblioteca de Alexandria
e que nela vivem muitas tribos e povos
que nunca foram descobertos
embora alguns corram sucessivamente e constantemente
o perigo de extinção…
e provavelmente nunca o serão
porque há muitas crateras num eu só para um eu só
e às vezes em vez de olhar para elas
cai lá no fundo e tudo fica entregue
apenas ao esquecimento, ao tactear na escuridão
a um fascínio caótico
ou a um cárcere de anestesia.

Saberá alguém
que as autoridades suspeitam que alguém
tenha convertido as hierarquias
num tabuleiro de xadrez
e ficam em pânico e tornam-se ditadores
porque não sabem jogar
mas pressentem a existência de variantes infindáveis.

Saberá alguém
que não há diferença alguma
entre um pensamento, um instante e um engano
entre uma areia, uma história e um homem
entre a chuva, a memória e um mito
entre o perigo, o azul e a poesia
entre um espelho, a dialéctica e uma estátua
entre Borges, um caleidoscópio e a caverna de Platão
entre Kafka, um jardim de areia
e os ecos que se ouvem nas caves dos labirintos
onde monstros acéfalos se encaixam no grande puzzle
do grande caos do grande real.

Saberá alguém
compor tranquilamente um interlúdio
— com uma melodia clara e nunca entrecortada
por silêncios ferozes e estridentes
nem interrompida a meio da página —
a imagem e semelhança da inquietação da lucidez
e depois continuar a fazer bolas de sabão
e jogar às escondidas com o esquecimento
quando sabe que as aranhas continuam
a conspirar atrás de uma árvore
onde era suposto estar apenas Newton
ou a Branca de Neve

Saberá alguém
que os nómadas são todos morenos
porque há pó nas estradas e noite nos olhos e nos nervos
têm obsessões fixas e lêem sinas
nos hieróglifos dos poemas de êxtase
ou nas pestanas dos estranhos que os olham com nostalgia
e lhes beijam à distância a testa
extensíssima de sede suor e tatuagens.

Saberá alguém
amar simplesmente
sem condições nem sonhos futuros
sem espera nem ilusões tangíveis
sem acreditar nem procurar nada
e ainda assim não desistir sem querer.

Saberá alguém
olhar o seu próprio desespero por um telescópio
como se ele pertencesse a um firmamento muito longínquo
e acreditar sem querer que é uma sombra-máscara apenas
indistinta desse grande rosto em que estrelas brilhantes demais
não cessam de se desintegrar.

Saberá alguém
conter-se à porta dos labirintos da memória
espreitar apenas o calendário dos momentos que vão chegando
ou perder o rumo apenas quando a tempestade é iminente
e os raios vão iluminando parcialmente este ou aquele recanto do labirinto
que começa a rodopiar à volta da cabeça
e quando a tempestade pára ele já aterrou no topo
de uma daquelas montanhas inatingíveis
e é depois o deserto que a rodeia o único que contém
a tentativa de a escalar
a menos que o tempo tenha parado
ou todo o tempo se tenha reduzido a um irrecusável momento.

Saberá alguém
soletrar a verdade até ao fim
sem hesitar
sem se interrogar nunca.

Saberá alguém
devolver a alma aos habitantes da ilha
depois da plena simbiose dos sentidos plenos de alma
sem lhes tirar em troca uma única ave-do-paraíso.

Saberá alguém
erguer e povoar o seu reino
apenas com simetrias do sonho
apenas com paisagens secretas
apenas com os olhos dos viajantes
ou dos visitantes saídos dos quadros surrealistas
apenas com animais selvagens
tribos de um só ser
e um totem de ébano serenidade e marfim…

Suy / São Ludovino, 9/10/1984, (4h manhã)



Othelo - excerpt, photography by São Ludovino.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Palavras Antigas - III

ONDE CABEM TODAS AS COISAS

Lá no cimo do monte
As janelas estão abertas para Oeste.
Os olhos das aves repousam sob um céu quase lilás.
Encostados aos rochedos os guardadores de rebanhos
Escutam os sinos das catedrais de cidades antigas
Ecos de rituais e temores trazidos pelo vento
Misturam-se com o granito selvagem
E lá ficam para sempre.

Numa prece
Alguém me pede para entrar na sua cabana.
Diz-me que tem um livro que tenho de ler
Fala-me no mesmo tom místico
Das ervas e de deus
Diz-me que tenho de aprender a linguagem dos elementos
Sentir as vozes de todos os seres
Dialogar com os átomos e as células
Abdicar do mundo e da razão pura
Para entendê-lo plenamente.
Diz-me que é preciso começar sempre
Primeiro pelo silêncio
Deixar os olhos pairar
O olhar diluir-se nas coisas
E o coração tem de acompanhar todos os ritmos
Para a alma sentir o espírito de todas as coisas
Bater ao ritmo das cascatas, do crescer das plantas
Da tempestade e da bonança, da luz e da sombra.
Depois um lago oceânico vem mostrar-nos o nosso reflexo
No reflexo de tudo
E a quietude fica nas nossas mentes.

A aragem entra por uma fresta
A barba branca do velho lembra-me o esquecimento
Mas a humidade azul-cinza dos olhos
Não me deixa duvidar da sua memória.

«Este livro nada explica;
Não explica os segredos da vida ou da morte
Da passagem do tempo ou da permanência da paixão.
Este livro narra apenas;
Conta-te a história de todas as coisas
Embora nenhuma delas tenha fim
Ou possa cindir-se de todas as outras.
Embora o isolamento seja o caminho para a sabedoria
Nada vive isolado neste mundo
Nada é livre ou completo
Se não na unidade com o todo.
Para entenderes este livro
Terás de mergulhar com a mesma coragem e o mesmo fervor
Nas trevas e na luz
Sem, contudo, jamais as confundires.
Só quem tiver uma alma imensa e pura
Uma mente arguta e determinada
Poderá ler integralmente este livro
Abarcar num só pensamento as infinitas histórias
Entender o mundo no seu caleidoscópio de possibilidades
E conviver pacificamente com os mistérios
Que nenhum sábio poderá desvendar…
Terás tu a alma e a mente
Por que este livro espera?
Terás tu a voz, o olhar, o coração
Do iniciado que este livro poderá conduzir
Ao Templo Cintilante…?»

Abriu o livro na primeira página
E pediu-me para ler.
A voz que ouvi não era a minha
Mas a das coisas feitas palavras.
Todos os seres e todos os tempos
Estavam vivos naquele livro
Através das palavras…

A cabana agiganta-se
Abóbadas e naves
Rodeiam-nos imprecisas.
Não tem fim este espaço sagrado.
Lá à frente fica uma cordilheira rosada.
Só a lareira resta da cabana-realidade.
Os lugares, os seres, o mundo
A matéria e o espírito de todas as coisas
Emergem das páginas
E vão-se dispondo à nossa volta
Até ao infinito
Da chama refulgente deste tronco
Ao primeiro raio da primeira estrela.
Assistimos em simultâneo
À recriação do universo.

Sentamo-nos na laje do soalho
Para contemplar o fluir da grande obra
E deixamos a nossa fé seguir o rumo
Dos ritmos infinitos do tempo.
As páginas volteiam-se uma sobre a outra
Sem que as minhas mãos lhes toquem.
Esvoaçam lentas e velozes
Muito para além da velocidade da luz
E eu vejo-as como o lento cair de uma folha.
O velho sorri e com um gesto brando
Faz deter o esvoaçar das páginas.
Há ali uma página em branco
Escapa-nos ainda.

É nela que reescrevemos a cada instante
Os mistérios, o alfa e o ómega dos nossos dias.
Erguemo-nos e caminhamos pelo chão de pedra.
É infinita esta página em branco
Nela se guarda a origem e os segredos
De todos os infinitos que nos foi dado vislumbrar.
Este é o reino de toda a esperança e de toda a ilusão.

Chegados à última página
Encontramos de novo a página em branco
Multiplicada infinitamente.
A partir daqui
Recomeça a demanda
A filosofia e a meditação
Sem livros nem palavras herméticas.

Erguemos os olhos ao céu
E contemplamos a constância dos elementos.
Por vezes
Caem gotas
Por vezes
Caem pétalas
Por vezes, ambrósia e frutos
Por vezes, pedras minúsculas coloridas
Por vezes, caem sinais estranhos das abóbadas
Coisas infinitas e pequenas
Que continuam a preencher o Grande Livro.
E nós, que ainda mal aprendemos a ler,
Continuamos a caminhada…


Suy / São Ludovino, 2/11/1985 (3:00 a.m.)

Liquid stones, photography by São Ludovino.


 

 

  

Palavras Antigas - II

ARMADILHA COM PÉTALAS

Diz uma voz:
Se o medo é a lança
Que está no fundo da armadilha,
Façamos de conta que a morte não existe
Ou que somos nós a armadilha
Calota negra sem fundo
Manto envolvente e invisível
O vulto escuro da dor
O sono profundo da analgia.

Outra voz da mesma voz lhe replica:
Ou então a flor que não murcha
A semente do próximo sonho
A raiz que alimenta a árvore
A nuvem que alimenta a raiz
O cardume de estrelas que ilumina o universo
A gota de amor que semeia nuvens
Sobre todas as armadilhas.

E outra voz que ecoava as anteriores de um modo novo
Replicou com toda a tranquilidade:
Num momento ou outro
Todos conhecem a lança e a flor
É possível imaginar tantos “ses”
Metade deles são a armadilha
A outra metade são pétalas
Da flor que não murcha
Mesmo quando é trespassada pela lança.
É a própria lança que agora diz:
Se o medo é a própria dor
Amputação de membro indefinido
Sensação circular e pesada
Não vale a pena fazer de conta
Ousemos…

Suy / São Ludovino, 7/10/1983 (1:00 a.m.)

Unnoticed work I, photography by São Ludovino.

Combination III, photography by São Ludovino.

Quiet work II, photography by São Ludovino.



Palavras Antigas - I

 ABARCÁVEL

As portas que se abrem
No cair da tarde
Levam cada uma
A um ponto diferente
Do poente
Da vida
Do dia
Da clarividência.
É ela a rainha e senhora
Dos raios de sol
Da chuva e do vento
Dos passos e dos compassos
Do destino e do acaso.

No seu diário
Há reflexões iniciais
Sobre todas as filosofias
Jamais existidas e futuras
São crianças com cabeça de nuvem
São nuvens com asas de criança.

Que tardes cinzentas e luminosas
Estas em que tudo se contempla
De longe, muito longe
E tudo fica tão perto
E distinto
E completo
E explicável.

Nada parece haver de absurdo
Na incerteza
Na sombra que se ilumina
Na luz que se apaga
Nas nervuras da folha que seca
Na gota lenta que brota da nascente
E se perde nos veios da rocha.
É tudo uma questão de fé
Acreditar no deus certo
No momento certo.

O grande génio
A grande porta
O grande susto
A grande paz
É descobrir deuses
Para todos os momentos
Para todas as perspectivas
Todos os horizontes
Todas as combinações de realidade e ficção
Todos os estados de alma
Todos os actos
Todas as inquietações…
Estavas doente e já não estás
Tinhas medo, agora guia-te a coragem
Atravessavas a custo as veredas entre a multidão
Agora tens o mundo ao alcance
Da soleira dessa porta…

Suy / São Ludovino, 3/9/1991

The precious things that always remain, photography by São Ludovino.



Contos Breves - I

 

A Constituição do Sol

   Como em todos os outros dias, o cinzento alagava o céu inteiro. Chovia torrencialmente, outra vez. Gotas de brilho metálico criavam uma cortina de miragens sobre os telhados e ao longo das ruas.

   Os guarda-chuvas rompem-se ou quebram-se. As gotas despenham-se sobre as pedras da calçada e rolam em todas as direcções como se quisessem escapar. Um ou outro verga-se, apanha algumas gotas e guarda-as no bolso esperando mais tarde encontrar uma laranja, pão, sal, o sol, a liberdade.

   Apesar da torrente, rios de manifestantes vindos de todos os lados caminham ruidosamente pelas ruas até desaguarem na grande Praça do Mundo. Levam muitos cartazes repletos de palavras pontiagudas e gritam, cada grupo, as suas palavras de ordem que raramente são coincidentes.

   Uma única palavra é coincidente em todos os cartazes, discursos e gritos: Sol. «Queremos Sol!», «O Sol é nosso!», «O Sol é de todos!», «Sem Sol, não há liberdade nem justiça!», «Sem Sol, não há paz nem saúde!», «O Sol é a nossa casa!», «Sem Sol, morreremos famintos!», «Sem Sol, não há amor nem imaginação!», «Sem Sol, não há vida!», «Sem Sol, somos apenas sombras sem luz!», «Não há futuro sem Sol!», «Libertem o Sol, já!», «Uma nova ordem, uma nova realidade, o mesmo Sol!»…

   Das janelas do palácio governamental os senhores do mundo espreitam, fumam charutos e sacodem as grossas gotas de chuva das lapelas. Voltam para dentro com a mesma indiferença e fecham as janelas.

   Alguém atira a primeira pedra. A primeira vidraça fica desfeita em mil pedaços. À torrente pluvial junta-se uma chuva de pedras. Uma a uma, portas e janelas ficam despedaçadas. O alvo seguinte são os telhados. Os mais audazes trepam pelas caleiras até aos beirais. Uma a uma vão arrancando as telhas dando entrada à torrente, agora mais intensa e poderosa. Os manifestantes abrigam-se em lugares mais altos e sólidos.

   Cada divisão do palácio se vai enchendo como um tanque de vasos comunicantes. Os mais audazes atam cordas à cintura e mergulham nas salas e corredores, abrem todas as portas e deixam que a torrente faça o resto. Em poucas horas, o palácio ficou vazio e inacreditavelmente limpo. Pelas ruas, a torrente segue o seu caminho, rumo ao rio e rumo ao mar levando consigo os despojos do poder.

   E quando a torrente cessou, o céu azul abriu-se sobre a Praça do Mundo. Primeiro uma grande janela circular vertendo um azul purificador, depois um imenso arco de luz, de horizonte a horizonte, revelou a todos o mesmo Sol de sempre.

   Deitaram fora os cartazes, as bandeiras, as braçadeiras e os crachats ─ já não importavam os partidos e as facções ─ e sentaram-se numa imensa roda. Os que pensavam do mesmo modo e os que pensavam de modo diferente perceberam que o essencial era o mesmo para todos. Com as mesmas palavras que tinham trazido a longa noite (porque as palavras dizem e fazem o que querem que digam e façam) redigiram a base da nova ordem, um número sucinto de princípios, aplicáveis a tudo e todos do mesmo modo. Assim nasceu a “Constituição do Sol”, uma declaração universal dos deveres e direitos da Humanidade.

Suy / São Ludovino, 15/3/2020

Untamable I, photography by São Ludovino. 

Coexistence of Seasons I, photography by São Ludovino. 

Coexistence of Seasons III, photography by São Ludovino.




Contos Breves - II

 O Equilíbrio das Constelações
ou
A Última Escolha

     Em plena selva, durante a estação da seca, um humano cruza-se com um animal esfomeado.

     Por que mataste esse homem tão igual a ti? Perguntou o leão.

O humano, nada surpreendido com a pergunta ou com o facto de vir de um animal, carnívoro e feroz, que lhe falava tão pacificamente, respondeu com naturalidade:

     Porque se não o matasse, ele poderia vir a matar-me um dia.

     Ah, um homicídio preventivo… Há vários dias que observava esse homem. Estava gravemente doente e sei que não sobreviveria durante muitos mais dias. Não o ataquei nem o matei, apesar de a fome matar um pouco mais de mim a cada instante. Como sabes, eu não escolho matar, apenas quero sobreviver porque gosto de estar vivo, gosto desta selva e de todos os seres que a habitam. Todos menos alguns humanos… nunca vi seres mais estranhos e pérfidos… comentou o leão.

     Enquanto ouvia o leão, o humano limpava o sangue da sua espada reluzente e sorria com sarcasmo.

     Nas histórias, tu poderás ser o rei da selva, mas na vida eu sou o rei do mundo. Não desperdiço o meu tempo com perguntas inúteis ou reflexões desnecessárias. No teu lugar, eu mediria melhor as minhas palavras… se é que gostas mesmo da vida e queres sobreviver. Na verdade, só te restam duas opções: ou te calas e me serves ou provarás o sabor da minha lâmina. Ameaçou o homicida.

     Humano e leão envolveram-se numa luta mortífera que durou pouco mais do que o eco de um trovão distante. O leão acabou no chão a esvair-se em sangue, mas ainda proferiu:

    A tua vitória é apenas uma triste ilusão… não tardarás a saber porquê…

     O humano soltou uma gargalhada, cortou a juba do leão, meteu-a no saco e prosseguiu o caminho enquanto o leão soltava o último suspiro. O saco, já pesado, de onde assomavam duas presas de um elefante jovem, vergava-lhe as costas obrigando-o a caminhar de olhos postos na poeira.

     Poucos quilómetros adiante, sentiu um calor insuportável, a sede cortava-lhe a garganta e os músculos ficaram moles e os passos trôpegos. O sol descia atrás das copas das poucas árvores mas a sensação de calor aumentava até se tornar insuportável.

     Um pouco mais adiante vislumbrou, ou pensou vislumbrar, uma povoação. Casas humildes, cabanas de palha e vultos humanos. Pediu ajuda, a água tinha acabado e a garganta ardia como fogo vindo das entranhas do inferno. Embora fosse muito diferente de todos eles, ninguém hesitou em se aproximar dele; ampararam-no e levaram-no para uma das casas mais amplas e frescas. Lavaram-no, vestiram-no com uma túnica macia e limpa e deram-lhe a beber a água mais límpida que tinham. Ninguém lhe perguntou por que trazia uma espada ou por que estava ensanguentado. Apenas cuidaram dele como se fosse um deles ou o melhor ser do mundo.

     No dia seguinte, um dos habitantes da aldeia percorreu a pé muitos quilómetros para ir buscar um médico à cidade mais próxima. O médico veio de carro com o nativo e levou o doente. Instalou-o no hospital e procedeu a muitos exames. Não sabia que doença era aquela mas era evidente que era muito grave.

     Os resultados das análises e dos exames foram inconclusivos. No dia seguinte, o homem estava coberto de manchas roxas e verdes e gritava com dores lancinantes apesar de todos os analgésicos que lhe tinham ministrado. Algo tinha alterado completamente o funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro, uma infecção estranha alastrava por todo o organismo e o doente definhava a cada segundo. Antes que o sol voltasse a pôr-se, o homem estava morto.

     Por precaução, o corpo foi sepultado longe da cidade. Junto ao amontoado de pedras que assinala a última morada, um rugido de leão atravessa a noite e extingue-se na imensa abóboda do desconhecido. No amplo céu, as constelações brilham como sempre, belas e sábias. 

Suy / São Ludovino, 23/3/2020

A Wise Life - I, photography by São Ludovino.

Preserve the rivers - I, photography by São Ludovino.

A Wise Life - II, photography by São Ludovino.



sábado, 1 de janeiro de 2022

A QUINTA PONTE

      No primeiro ano da pandemia de Covid19 (2020), a Associação Europeia de Escolas de Escrita Criativa propôs a escrita de "microcontos", com apenas 100 palavras. Não é fácil conjugar a frugalidade verbal com a eficácia narrativa. Escrevi vários, mas todos tinham mais de 100 palavras. Este foi um dos mais pequenos que escrevi e também o que mais sofreu com a tentativa de reduzi-lo a apenas 100 palavras. Mas foi também um dos que melhor reflectia o espírito contraditório do início da pandemia: medo do futuro e do desconhecido, como sempre, mas também uma certa esperança na possibilidade de regeneração. 

     A quinta ponte assinala o ponto onde começa a regeneração... só não se sabe o que há na outra margem. Para alguns olhos, ela é absolutamente invisível, para outros um obstáculo para os seus passos, para muitos um alvo a abater, para um número impreciso é o sinal de uma invasão alienígena, para um número não considerado pelas estatísticas mais positivistas, é um sinal de um qualquer desígnio divino, para os mais comuns, que são a larga maioria, é um mistério que, com alguma sorte e muita determinação, há-de ser desvendado pela ciência, uma ciência qualquer, nem que seja a que muda com o ritmo das notícias do dia. Para o transeunte deste conto, a quinta ponte é mais um ponto de interrogação ao longo do caminho. O que vir e acontecer será a resposta, por muito inexplicável que seja.    

HORA H

A Quinta Ponte

     O homem que gostava de relógios seguia por entre a multidão. Nem um relógio à vista, só cabeças e pessoas apressadas, até que, à entrada da quinta ponte, aquela por onde raramente passava, viu um. Eram exactamente 15:00 horas. Sentiu um certo alívio. Ainda faltavam 15 minutos.

     Já na ponte, olhou para trás e sentiu um sobressalto. O relógio marcava agora 13:00 horas. Olhou a multidão. Mais alguém notara? Todos seguiam o seu caminho, mas pareciam algo diferentes. Olhou de novo o relógio. Agora eram 11:00 horas. A multidão parecia estar em metamorfose.

     Aquele de cabeça alva apoiado numa bengala seguia agora lesto como um jovem atleta. Aquela mãe que levava pela mão a filha de 10 anos, tinha um bebé ao colo. O casal que seguia à sua frente, eram duas crianças alegres…

     Fechou os olhos. Olhou de novo o relógio. Os números tinham desaparecido e o ponteiro estava quieto. Devia estar apavorado, mas não. Ele, que amava os relógios, já não precisava de relógios. A multidão seguia tranquila. Agora eram o que antes tinham sido. Agora era possível recomeçar.

 São Ludovino, 15/3/2020


Passers pass, the bridge remains III, photography by São Ludovino.